quinta-feira, 26 de março de 2020

"A verdadeira lição é a que acontece nas salas de aula"

O professor e escritor italiano Nuccio Ordine deu uma entrevista ao jornal El País, publicada ontem com o título La política neoliberal ha descuidado los pilares de la dignidad humana. Eis algumas passagens que respondem a um ou dois aspectos críticos dos muitos suscitados pelo artigo A oportunidade de ouro para criar as escolas do século XXI 

Isaltina Martins e Maria Helena Damião

Como George Steiner, considera que “um ensino de má qualidade é quase literalmente um assassinato” e que vê isso a chegar? 
Estou de acordo com o meu querido amigo. Não duvido que a actual crise, que pôs o ensino à distancia ao serviço dos professores, desperta tentações cuja concretização desvalorizaria o espírito da educação. Além disso, não temos professores suficientes, não há financiamento suficiente, não se presta atenção à escola. O neoliberalismo olhou para outro lado quando teve de lidar com o pilares da dignidade.  
A economia manda mais que a vida, inclusive nesta crise?  
Há sinais evidentes nesse sentido. Existe um conflito entre as razões económicas e as razões da vida. O discurso de Boris Johnson, primeiro ministro inglês, é horrível. Começou por dizer que o vírus causaria muitas mortes mas no final a população ficaria imunizada ... Uma selecção natural darwiniana! Os fracos morrem e os fortes sobrevivem! A ideia de Johnson era a de imunidade do rebanho, contestada pela ciência. Uma selecção da raça. Como o nazismo (…)
Insisto nesta ideia: o coronavírus desmascara os limites do neoliberalismo, está a mostrar-nos as suas contradições. Johnson não queria agir porque não queria desacelerar a economia. Na lógica neoliberal, a economia vale mais que a vida humana. Em 1968, John F. Kennedy proferiu um discurso no qual disse: “O PIB, infelizmente, não mede as coisas mais importantes da vida. Não inclui a beleza de nossa poesia, a inteligência do nosso debate público, a integridade dos nossos funcionários”. Um excesso de economia faz-nos perder o sentido da vida.  
Há tendência para dizer que sairemos melhores desta crise.  
Quem sabe. Se queremos dar a volta e valorizar o que aprendemos, não devemos esquecer os males que atingiram a humanidade no passado. A luta é entre memória e esquecimento. E para isso, a literatura nos serve, tem uma função profética e ensina-nos sobre o passado. Lemos em Boccaccio, Saramago e Camus sobre as epidemias. Ao lê-los, entende-se o medo, a solidão, o desamparo diante de um inimigo invisível, o tema do bode expiatório, o sofrimento, a perda de liberdade, a cidade fantasma ...  
Esta é a guerra da sua geração e da dos mais jovens. Sente uma maior responsabilidade como cidadão?  
Sinto-a como professor. Quando as escolas e as universidades estão fechadas, quando a relação com os alunos se desmorona não temos escolha a não ser usar os meios, as aulas à distância, para manter viva a relação com os nossos estudantes. Mas vislumbro um perigo: devemos estar presentes e lutar, fazer ouvir a nossa voz. Alguns reitores de universidades estão a dizer que esta não é a crise, mas o futuro da educação. A verdadeira lição é a que acontece nas salas de aula, a experiência humana que temos: professores e alunos, em conjunto. Um computador nunca mudará a vida de um aluno, mas a palavra de um professor pode mudar a vida de um miúdo. 
Ainda assim, havemos de cantar depois dos tempos obscuros, como dizia Bertolt Brecht?  
Só a fraternidade universal, a consciência da solidariedade humana, será capaz de melhorar a sociedade, resolver a injustiça e a desigualdade. Se somos indiferentes ou egoístas, se não somos solidários e generosos com os outros, não podemos viver num mundo melhor, não podemos cantar alegremente. Esta é a minha visão do mundo... (...). Nesse clima de isolamento, estamos a descobrir a importância do outro na vida, que não somos ilhas isoladas.

2 comentários:

  1. Somos um conjunto enorme de ilhas isoladas. Na verdade, sempre o fomos.

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  2. Tudo isto está pensado, articulado e em boa marcha, infelizmente.
    "... a realidade de tudo isto, o sistema económico, exige a fabricação maciça de estudantes incultos e incapazes de pensar."
    (in A Soociedade do Espetáculo)

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