sábado, 14 de março de 2020

GEOLOGIA PARA TODOS

Quando, em conversas sobre geologia de Portugal, falamos do Complexo Xisto-grauváquico (anterior ao Ordovícico), do centro e norte do país, ou dos turbiditos do Carbonífero do Alentejo, sabemos, realmente, do que estamos a falar? 

Haverá, certamente, quem tenha interesse em precisar alguns conceitos. 

Para esses, eis o que me ocorre dizer:
TURBIDITO – rocha sedimentar de fácies marinha profunda, gerada por correntes de turbidez. 
CORRENTES DE TURBIDEZ, de gravidade ou de densidade - envolvem enormes massas de água carregadas (quase ao limite) de finas partículas sedimentares, terrígenas (silte e argilas) e/ou carbonatadas, mantidas em suspensão pela turbulência do fluido que as transporta e, também, pela densidade e viscosidade que lhe comunicam. Com grande capacidade de transporte, estas correntes podem atingir velocidades próximas dos 100 km/h. Fluidas e viscosas, sendo mais densas do que a água que as rodeia, as correntes de turbidez deslizam sobre a vertente continental, provocando, ao mesmo tempo, erosão, transportando consigo todo o material que vão arrancando. Quando se espraiam na base, perdem velocidade e imobilizam-se, depositando os materiais que transportam, dando origem a leques submarinos profundos que, por acumulações sucessivas, podem atingir centenas de quilómetros de raio, e espessuras de milhares de metros. Nestes leques, em particular na dependência de importantes rios (Mississipi, Ganges, Amazonas, Nilo), as taxas de sedimentação são elevadas, podendo atingir valores da ordem de 2 mm/ano, o que equivale a uma espessura acumulada de 2000 m, num milhão de anos, valor considerável, mesmo em termos geológicos. 
GRANOTRIAGEM – tipo particular de arranjo sedimentar, no qual os clastos mais grosseiros se encontram na base e os mais finos no topo, havendo entre eles uma variação progressiva ou gradual. Quando, a corrente de turbidez se imobiliza, ao atingir a base da vertente continental, toda a carga de sedimentos que transporta, no geral, arenosos e pelíticos (silto-argilosa), inicia a decantação e, como é sabido, os detritos mais pesados, neste caso, os maiores, ou seja, os grão de areia, são os primeiros a atingir o fundo, seguindo-se-lhes os de silte (ou limo) e, por fim, as partículas de argila.
FLICHE (flysch, na terminologia inglesa) - espessa sequência essencialmente areno-pelítica (grauvaques e xistos), bem estratificada e granotriada, própria dos depósitos marinhos profundos gerados por correntes de turbidez que, assim, ganharam o nome de turbiditos. O termo flysch foi criado pelo geólogo suíço Bernhard Studer (1794-1897), com base no verbo alemão fliessen que quer dizer fluir e era aí usado para descrever os depósitos constantemente sujeitos a deslizamentos ao longo das vertentes. 
ARENITO LÍTICO ou litarenito - caracteriza-se por, além dos grãos de quartzo, conter grãos de rochas (litoclastos) até ao limite (convencionado) de 50%.

MATRIZ - é aqui entendida como o conjunto de detritos (quartzo, feldspatos, micas e outros) de diâmetro inferior ao das areias e superior ao das argilas, que se introduz nos espaços entre os grãos de areia.
Com granularidade variável e mais de 15% de matriz, ocupando praticamente todos os vazios, os grauvaques contêm, na componente arenosa, quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos.
Na matriz, incluem uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós-deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos, mais ou menos instáveis, no decurso dos processos de transformação, como são a diagénese tardia e o metamorfismo de baixo grau. Enquanto que os grãos de quartzo, muito estáveis, permanecem intactos, os litoclastos instáveis e os grãos de feldspato cedem material para a formação da matriz secundária e do cimento, ou que se perde em solução, na proporção da sua instabilidade, podendo, mesmo, desaparecer. 
CIMENTO - substância mineral de neoformação. que aglutina e fixa os elementos detríticos de um sedimento, consolidando-o, isto é, litificando-o. Entre os cimentos mais comuns, destaca-se o carbonato de cálcio (calcite), a sílica (opala, calcedonite, quartzo) e os óxidos de ferro (hematite e goethite). No grauvaque, o cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro. 
GRAUVAQUE (“Grauwacke”, em alemão; “graywacke”, em inglês) – é uma rocha sedimentar arenítica imatura, coesa, com mais de 15% de matriz, ocupando praticamente todos os vazios. Os grauvaques são considerados os equivalentes paleozóicas e pré-câmbricas dos arenitos líticos do tipo dos fliches alpinos. De fácies exclusivamente marinha profunda, a sua génese está associada às correntes de turbidez ou de densidade. De granularidade variável, os grauvaques contêm quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos. No cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro. Da matriz faz parte uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos mais ou menos instáveis, no decurso dos processos metassomáticos (diagenéticos tardios e metamórficos).
Com uma história geológica, na génese, no espaço e no tempo, paralela à dos xistos argilosos, e uma importante representação na arquitectura do soco antemesozóico (maciço antigo) da Península Ibérica, os grauvaques, não têm tido, ao nível do nosso ensino, a divulgação que merecem.

A par do bem conhecido xisto, a rocha que deu nome sonante às turisticamente conhecidas por Aldeias de Xisto, há sempre, mas sempre, uma outra rocha, nunca falada, mas muito mais importante na construção, quer em termos de solidez (mais coesa e rígida), quer em termos da quantidade usada. Essa outra rocha chama-se grauvaque.

Introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Otto Lasius (1752-1833), o velho termo mineiro alemão “Grauwacke”, ou pedra cinzenta (graywacke, em inglês) radica nos elementos germânicos “grau”, cinzento, e “Wacke”, termo usado, em princípio, para referir o basalto alterado, que perdeu a cor e a coesão originais. Este termo, caído em desuso, foi usado entre nós, em finais do século XIX, princípio do século XX, para referir os vulcanitos, mais ou menos alterados, do Complexo Vulcânico de Lisboa-Mafra.

Não obstante o termo “Wacke” aludir a um material friável, o grauvaque, quando não alterado, é um arenito coeso, aceite, como se disse atrás, como equivalente paleozóico e precâmbrico dos arenitos líticos do tipo dos fliches alpinos. Em Portugal não temos grauvaques posteriores ao Paleozóico, apenas porque não temos sedimentação de talude ou vertente continental posterior a essa idade.

A. Galopim de Carvalho

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