R: Mais do que enriquecimento académico e cultural, trouxe-me um profundo enriquecimento pessoal. Na verdade, desde a intensa preparação do exame nas aulas – com a ajuda dos meus colegas e, especialmente, da incansável minha professora, sem a qual nada disto teria sido possível e a quem estou eternamente grata – até à viagem à Grécia, aprendi muito, vivi muito, senti muito. Foi, no fundo, a prova de que o esforço e a dedicação valem sempre a pena. Especialmente quando se trata de algo que para nós tem significado.
Os textos estudados – duas partes dos Memorabilia, de Xenofonte – foram um incentivo maior. Em primeiro lugar, pelo desafio que representavam a nível linguístico, tendo em conta que exigiam um conhecimento superior àquele que nós possuíamos. Sim, foi necessário estudar bastante, investir muito tempo, dar voltas e voltas a pequenos fragmentos de frase, às vezes com uma palavra só… Porém, no fim, quando conseguia decifrar o que estava à minha frente, o sentimento de missão cumprida, o tomar de consciência de que, afinal, era capaz, posso mesmo dizer, o orgulho que sentia em mim própria, compensava todo o suor gasto. Além disso, não posso deixar passar em branco o próprio conteúdo dos textos. Baseados nos valores e princípios da educação na sociedade grega, tiveram, claramente, um teor educativo também, que eu apreendi e que é sempre importante na construção pessoal.
Por fim, a viagem à Grécia foi a «cereja em cima do bolo». Foi o reconhecimento e a recompensa objectiva de todo o esforço e empenho dos quais eu já me sentia, no entanto, recompensada. A partilha de experiências com as pessoas que lá conheci, essa é indescritível. Na verdade, significou que não estava sozinha, que não pertencia a um mundo aparte, mas sim a um mundo onde as Clássicas são reconhecidas e valorizadas. Esse sim, foi dos melhores prémios que eu, enquanto pessoa e estudante, pude ter.
P: Que lugar têm as Clássicas na sua vida?
R: As Clássicas foram uma das descobertas mais importantes que fiz até hoje. Não foram apenas as minhas disciplinas preferidas, foram, acima de tudo, uma aprendizagem fundamental na minha formação como aluna e pessoa. Actualmente, com muita pena minha, não as tenho tão presentes na minha vida pois encontro-me na faculdade, num curso onde não as estudo. Contudo, nunca são esquecidas. Tanto o grego como o latim, transmitiram-me conhecimentos que podem ser aplicáveis todos os dias – a nível de linguagem, de cultura e de valores; porque, mais do que regras gramaticais e traduções, trata-se do estudo de uma sociedade na qual assenta a nossa e cujos hábitos, organização social, crenças e princípios – todos eles intemporais - são a base que hoje nos sustem. As Clássicas têm uma beleza intrínseca que apenas pode ser reconhecida quando são estudadas e quem as estuda por gosto, sente essa mesma beleza e jamais a esquece. É por isso que, de uma forma ou de outra, sei que me acompanharão sempre ao longo do meu percurso.
Muito obrigada.
Imagem: Ana Almeida e Konstantinos Karkanias, Presidente da Organização de Promoção da Língua Grega.
3 comentários:
Prezada Ana Almeida,
Vou contar-lhe uma historia e fazer-lhe uma confissão.
Quando eu estava na faculdade (ainda era o tempo do concurso nacional de ingresso ao ensino superior) para ganhar uns tostões durante o verão, trabalhei no ministério da educação como auxiliar, no serviço que se encarregava de aferir as notas dos candidatos e de calcular as médias, para saber quais seriam os apurados.
Ora pude testemunhar um caso que me marcou : um aluno (julgo que de Braga), com média superior a 18, não pôde concorrer aos cursos de direito, como ambicionava, porque apenas apresentava notas a historia, filosofia, e... latim. Acontece que o latim não podia contar, pois não se tratava de uma "lingua viva". Ou seja, se o aluno tivesse estudado sueco, azeri ou serbo-croata, podia concorrer a direito. Mas latim, não.
Agora a confissão. Eu andei no liceu no dobrar dos 70 para os 80. Na altura, o ensino do grego e do latim reduzia-se a nada, era completamente desprezado. Foi portanto sozinho, ja na universidade, e mesmo depois da universidade, ja a trabalhar, que estudei grego (um bocadinho so, infelizmente), e latim. Não que quisesse brilhar nos salões, mas unicamente porque necessitava (e necessito ainda) senão para ler os classicos, pelo menos para tentar consulta-los na lingua original, o que continuo a achar imprescindivel, mesmo de um ponto de vista puramente profissional. E na minha profissão, como advogado, pode acreditar que o direito romano me serve tanto, ou mais, que a ultima jurisprudência.
Não sei que curso a Ana resolveu tirar e ignoro a que profissão se destina. Mas pode crer que são muito raras (corretor na bolsa, e talvez mais uma ou duas) as profissões em que a sua cultura classica não lhe podera valer, e muito.
Parabéns !
Considero particularmente interessante quando a Ana diz que "Por fim, a viagem à Grécia foi a «cereja em cima do bolo». Foi o reconhecimento e a recompensa objectiva de todo o esforço e empenho dos quais eu já me sentia, no entanto, recompensada". De facto, é muito importante a ideia de que o esforço é logo recompensado simplesmente pelo facto de sentirmos que aprendemos algo e que o nosso conhecimento está mais rico. No entanto, muitas vezes a recompensa acaba por ser dupla, quando esse trabalho é reconhecido por outros. Mas essa é apenas, como foi dito e muito bem, a "cereja em cima do bolo". Parabéns.
É com certo regozijo que vejo numa colega de turma e grande amiga minha o prazer das clássicas e, sobretudo, a vontade enorme que teve em aprendê-las; na verdade, eu próprio pude defrutar também, ao lado dela, dessa mesma formação que, actualmente, é raríssima. Felizmente, e ao contrário dela, pude enverdar por outro caminho a rumo das Clássicas e dos nossos Clássicos e estar a ter, neste momento, o meu quarto ano de Latim, ainda que seja (novamente) de iniciação.
Lembro-me de quando a nossa Professora nos propôs o concurso e, à medida que o tempo ia passando, a velocidade com que eu e a Ana tentávamos declinar as palavras sem errar e a rapidez que tínhamos aquando a enunciação dos substantivos e dos diferentes adjectivos; e no meio deste concurso, surgiu entre nós uma competição, vá... dita: saudável. Ora, não é qualquer um que pode dizer que tinha uma espécie de 'rivalidade' nas aulas de grego e que tinha uma amiga que tinha a mesma partilha de interesses: visto por fora, éramos gente de outro tempo, o que é mentira!
Lembro-me desse ano tão bom, de quando díscutíamos Sófocles à mesa e Homero nos corredores da escola; decerto, que ela deve ter saudades de carregar o peso brutos dos dicionários que tantas memórias nos trazem.
Todavia, sei que num grupo tão pequeno existo eu e outros, cuja vontade de aprender (as Clássicas) se fez insurgir mordazmente aos critérios ocos desta sociedade ignorante e de falsas aparências.
Bem haja,
Lourenço Pais
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