segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A um poeta que deixou de comparecer nas antologias

Na sequência do post anterior, seleccionou-se um poema de Alexandre O´Neill, um poema prenunciador do esquecimento, do afastamento dos nossos clássicos da educação escolar.

A UM POETA QUE DEIXOU DE COMPARECER NAS ANTOLOGIAS

Tinha de suceder deixares de suceder
a ti próprio.

Já Bocage não és? - claro! -

e quem sabe se alguma vez o foste?

Digo-te mais : nunca o serás,
nem apocrifamente
Não almejavas tanto?
Bravo, rapaz, parece que caíste
em ti!

Como queres que uma antologia se acrescente
sem, tarde ou cedo, se diminuir?

Sabes por que se diz « gemem os prelos»?

Não penses que é por ti.

Sê razoável!
Teus versos hão-de espiritualizar muita família.
Entre netos, uma velha senhora esquecerá a meio
um soneto dos teus.

Se a sorte não te for de todo adversa,
um lusófilo, algures,
citará entre barras versos da tua lavra
uma elegante nota de rodapé


In Alexandre O'Neill (1995). Poesias Completas. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, p. 529.

3 comentários:

  1. Olha que tu, meu poeta,
    não tiveste melhor sorte:
    também levaste um bom corte
    em tudo quanto é selcta!

    JCN

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  2. não se pode meter tudo nos manuais

    porque o triunfo está no sofrimento

    que sai das nossas veias e se espraia

    está no olhar de quem nos fixa atento

    se o mundo hesita em nos vestir a saia

    está na lágrima que não rolasse

    dos nossos olhos mas que há-de ir, um dia

    ao cantar-nos banhar-te a face

    fria

    ESTÁ na dança cujo ritmo e passos

    ficaremos de pé intactos vivos

    nos dedos quedos e braços lassos

    dos que depois de nós serão cativos

    há tantos e com nomes menos importados

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  3. O Senhor dos Queijos precisa de afinar... o cavaquinho! É cada arranhadela!... JCN

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