quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

"Sem elevada Biodiversidade a Humanidade não sobreviverá"

Neste Natal, Porge Paiva, botânico e professor da Universidade de Coimbra, enviou aos muitos amigos que tem espalhados pelo mundo o seu vigéssimo cartão "ambientalista" de Boas-Festas.

Com fotografias e texto originais - em versão portuguesa e inglesa -, impressos num papel de qualidade, não dispensam a personalização dos votos da época, escritos pela sua mão.

Receber um postal destes, com existência física, é manifestamente um privilégio. E, não, "não teria o mesmo efeito se fosse enviado por correio electrónico", nisto concordo em absoluto com Jorge Paiva.

O postal de 2010, intitulado A Biodiversidade e a Humanidade, que apresenta duas imagens do Narissus calcicola, pode contempar-se abaixo. O texto é o que se segue:

"Um desenvolvimento só será sustentável se houver preservação da Biodiversidade, o que não tem vindo a acontecer em parte alguma no Globo. É isso que os governos, políticos, industriais, assim como todas as pessoas necessitam, urgentemente, de perceber. Uma correcta elucidação da população, com programa bem elaborados nas Estações de Rádio e Televisão Públicas e sem uma educação ambiental bem programada nas escolas, a preservação dos outros seres vivos será descurada e a Biodiversidade irá diminuir drásticamente. É fundamental que todos se capacitem que sem a Biodiversidade não sobreviveremos e, quanto mais elevada ela for, maior a probabilidade de sobrevivência da nossa espécie. Os outros seres vivos não são só a fonte dos nossos alimentos: como também das substâncias medicinais que utilizamos (cerca de 8o% dos medicamentos são extraídos de plantas e 90% são de oriegem biológica); dos nosso vestuário (praticamente tudo o que vestimos é de origem animal ou vegetal); da energia que necessitamos (lenha, petróleo, ceras, resinas, etc.); da maioria dos materiais de construção e mobiliário que usufruímos; etc. Até grande parte da energia hidro-eléctrica que consumimos não seria possível sem a contribuição de outros seres vivos, pois embora a energia eléctrica possa estar a ser produzida pela água de uma albufeira esta tem de passar pela turbinas e estas precisam de óleos lubrificantes. Esses óleos são estraídos do «crude» (petróleo bruto), que é de origem biológica. No entanto, em vez de preservarmos a Biodiversidade temos vindo a diminuí-la drasticamente. No passado já utlizámos cerca de 10.000 espécies de plantas na nossa alimentação, mas actualmente a base alimentar dos países industrializados baseia-se em cerca de 20 espécies de vegetais, entre os quais, 8 espécies de cereais (milho, milho-miúdo, arroz, trigo, centeio, cevada, aveia e sorgo) e em carne de apenas 5 espécies de animais (porco, frango, vaca, ovelha, cabra). Durante a minha já longa vivência (curtíssima para a idade da terra) desapareceram inúmeras espécies, quer animais, como, por exemplo, o pato-das-marianas (Anas oustaletis), dado como extínto em 1981 e a foca-monge-das-caraíbas (Monachus tropicalis), dada como extínta em 2008; quer vegetais, como, por exemplo, o azevinho-da índia (Ilex gardneriana), dado como extínto em 1998 e a Armeria arquata, do litoral Sul de Portugal, não observada há mais de um século; quer de outros filos como o cogumelo-quinino (Fomes officinalis), que não contém quinino e, que apesar de ser um dos cogumelos mais compridos e ter uma vida média de cerca de 50 anos, está extínto na Europa (actualmente só ocorre na América do Norte) por excessiva colheita devido aos seus atributos medicinais. Particularmente vulneráveis são os endemismos de área restrita, como, por exemplo, o endemismo ibérico (Narcissus willkommii), dado como extínto em Portugal, mas, felizmente, redescoberto em populações residuais no Algarve e endemismos lusitanos, Narcissus scaberulus e Narcissus calcicola.

Sem elevada Biodiversidade a Humanidade não sobreviverá."

3 comentários:

  1. José Batista da Ascenção30 de dezembro de 2010 às 14:31

    É muito gratificante, ver o postal do Professor Jorge Paiva publicado neste espaço. Assim, a lição natalícia que profere anualmente por esta altura, chega a mais pessoas para além daquelas que têm tido o privilégio de receber o postal fisicamente.
    E veja-se que aquele texto todo cabe num postal de tamanho normal, digamos. E em duas versões linguísticas!
    O nosso país tem pessoas assim, que fazem coisas como esta... E nós adormecidos, como que indiferentes a tamanho bem.
    Por isso deixo aqui um obrigado imenso, do fundo do coração: ao Professor Jorge Paiva e ao De Rerum Natura.
    Um Bom Ano. Muitos e Bons Anos.
    Para que eu e tantos (e desejavelmente todos) continuemos a usufruir.

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  2. José Batista da Ascenção30 de dezembro de 2010 às 17:08

    Peço desculpa pela má colocação das primeira e terceira vírgulas no texto do comentário que fiz anteriormente.

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  3. Será que para o Prof. Jorge de Paiva, "os governos, os políticos e os industriais" não são "pessoas"?! JCN

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