segunda-feira, 30 de agosto de 2010

BREVES COMENTÁRIOS AOS COMENTÁRIOS

Resposta recebida de Guilherme Valente aos comentários ao artigo "A MISTELA DO EDUQUÊS" publicado no "Expresso" e aqui:

1. É objectivamente incontroverso que a legislação privilegia a «graduação» em «ciências» da educação. Foi feita para isso pelos próprios. E a resposta do comentador que tentou contestar a demonstração que Fartinho da Silva fez dessa evidência é um exemplo perfeito da qualidade intelectual e da atitude do «eduquês».

2. É preciso dizer claramente que a generalidade dos mestrados e doutoramentos nas ditas «ciências» da educação não produziram conhecimento relevante, que possa justificar, honrar, a atribuição desses títulos. Na sua generalidade trata-se de banalidades, frequentemente ridículas, «descobertas da pólvora», em «circuito fechado», revelando uma significativa indigência de referências científicas e culturais. São irrelevantes para o conhecimento, para o ensino, a escola e os alunos. E tudo se tornou pior e mais fácil para eles quando passaram a poder reproduzir-se hermafroditicamente, isto é, a constituírem júris só com gente da seita.

A melhor prova é o estado a que conduziram a educação.

3. Como sabem pouco e o que sabem é, regra geral, irrelevate, a generalidade dos «especialistas» da educação escondem-se nos diplomas. Quando, raramente, se atrevem a falar, brandem o «argumento» de autoridade, isto é o diploma, ou desviam-se do assunto.

4. O que pode parecer surpreendente é o facto de quase nunca aparecerem frontalmente, assinadamente, a defenderem o seu projecto. Mas percebe-se bem porquê: a) a natureza do projecto (de que muitos deles, aliás, não têm sequer consciência) é inconfessável; b) dominando, geralmente, mal as fontes fontes inspiradoras, com grandes limitações culturais, não conseguem integrar numa exposição minimamente coerente e argumentadamente sustentável o sincretismo ideológico e teórico irracionalista e obscurantista que vão impondo. Por outro lado, a nossa «obsessão» parece ter dado frutos: alguns aparentam começar a ver e parecem recuar nas suas posições. Claro que a maior parte não assumirá o erro pois isso seria perderem o poder, o estatuto e o emprego.

5. De facto tenho uma «obsessão»: combater o obscurantismo.
E não se justifica persistir no combate? Os resultados melhoraram? Depois de trinta anos de degradação da situação, mudaram as concepções, as teorias, a política, os métodos, os teóricos, os que dirigem o sistema? Não é óbvio, portanto, a continuidade que referi? Obsessão tem o eduquês, têm os «especialistas» da educação, que insistem em destruir a escola e o país, sem compaixão pelas crianças e jovens que todos os anos condenam à ignorância e à boçalidade, roubando-lhes a esperança de um futuro de realização profissional e cidadã. Porque não de afastam? Alguém imagina uma equipa de futebol a perder todos os jogos desde há mais de trinta anos sem que se mude o treinador? Pois é isto que acontece em Portugal na área da educação.

6. Faço afirmações muito concretas: «Quando não se aceita a prova da realidade, entra-se no reino da irracionalidade». Não é isto, com toda a evidência, que se verifica na educação?

O fim das retenções é a todos os títulos idiota, porque mesmo que fosse adoptado não deveria ser, evidentemente, declarado obrigatório. A menos que se deseje mesmo que ninguém se preocupe em não aprender e…em não ensinar nada. Não é mais um passo na escalada da ideologia que julgo ter vindo desde há muito a caracterizar?

Respondam-me com argumentos. Expliquem e defendam o vosso projecto. Porque não o fazem nunca? Quanto ao controlo do sistema, à opressão e à repressão, querem que refira as estruturas e as pessoas, as situações e os testemunhos?

7. Quanto às soluções, não temos feito outra coisa que não seja sugeri-las. E não será preciso inventar nada. É tudo óbvio.

Guilherme Valente

20 comentários:

  1. Tendo em conta a relevância, rigor e coerência dos vários textos de Guilherme Valente aqui publicados, bem como o facto das vozes que criticam frontalmente o "eduquês" serem menos numerosas do que possa parecer, o Rerum Natura devia criar uma etiqueta 'Guilherme Valente', pois isso facilitaria o acesso.

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  2. Caro Gilherme Valente,

    Mais uma vez, concordo em absoluto com tudo o que escreveu e acredito que os professores que ainda resistem ao lobby das "ciências" da educação também. E acrescento que é, para eles, muito importante que existam pessoas com a sua coragem e frontalidade.

    Neste sistema completamente idiota, os professores trabalham para justificar o emprego dos "cientistas" e "especialistas" da educação e os alunos servem de cobaia para teorias delirantes e para a criação de novas necessidades pseudo-intelectuais de forma a justificar a criação de mais cargos, cursos superiores em eduquês, comissões, gabinetes e para justificar as pseudo saídas profissionais dos tais cursos superiores em eduquês. Este lobby fala em progressismo, mas é umas das forças mais conservadoras e reaccionárias existentes em Portugal.

    "O fim das retenções é a todos os títulos idiota"

    Para este lobby o fim das retenções não é idiota. É uma questão de sobrevivência. Só assim se torna possível continuar a esconder os VERDADEIROS resultados dos seus dogmas nas escolas e com isso a manutenção do status quo. Sempre foram contra os exames. Os olhos de susto, há poucos anos trás, só de ouvirem falar em exames de conhecimentos aos alunos eram evidentes. Inventaram as competências com o objectivo de tornar os exames mais ternurentos. Como os resultados são aqueles que conhecemos tudo têm apostado no fim das retenções....

    "7. Quanto às soluções, não temos feito outra coisa que não seja sugeri-las. E não será preciso inventar nada. É tudo óbvio."

    Por serem óbvias e evidentes é que os "cientistas" e "especialistas" da educação as ignoram. Como poderiam justificar o seu poder? E o seu emprego?

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  3. José Batista da Ascenção30 de agosto de 2010 às 22:09

    Tem toda a razão, Guilherme Valente.
    A si, e a muitos outros, entre os quais muito modestamente me incluo, não faltarão enxovalhos e agressões. Mas gastemos nós a saúde e as energias e percamos possíveis facilidades e benesses, sem deixar de gritar a nossa recusa em colaborar na catástrofe educacional que há-de escravizar os nossos jovens.
    No mínimo, não seremos coniventes.
    E sabe, alguns defensores do eduquês começam a ter pouco orgulho no monstro. É um começo. Mas não me parece que abdiquem de interesses próprios, que isso custa-lhes muito...

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  4. "Quanto às soluções, não temos feito outra coisa que não seja sugeri-las. E não será preciso inventar nada. É tudo óbvio." Como assim? Quais são então as propostas do anti-eduquês?

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  5. Não venho defender o fim dos chumbos, mas a melhoria dos resultados escolares.

    Reconheço que quando se diga que se quer acabar com os chumbos a maior parte pense em "facilitismo" e "injustiça em relação aos que mais se esforçam", pensamento que eu própria partilhava. Contudo, tem que se encarar esta medida como uma oportunidade para os alunos desmotivados e com ritmos mais lentos de aprendizagem. Acredito que com "ajudantes de sala de aula" (um figura inexistente no sistema português, mas bastante presente em países nórdicos) haja um extra-acompanhamento aos alunos que não "morrem de amores pelo estudo". Este extra-acompanhamento exige, claro está, extra-recursos! Mas, mesmo assim, quando um aluno revela falta de interesse deve ser imediatamente alvo de maior atenção e intervenção por professores e psicólogos e não, como o é na maioria das vezes, visto com desdém e rotulado de "ignorante" e "preguiçoso".

    Também na Suécia e Inglaterra, onde os chumbos são residuais, há um "acompanhamento dos alunos brutal (...) com os alunos a trabalharem separados em grupos pequenos". Depois disto, faço minhas as palavras de Nuno Faraústo que afirma "Se um jovem falhar, a escola é que tem um problema. Tem de explicar porquê, fazer um relatório e indicar os apoios que são necessários. Nos outros países, responsabilizam-se os alunos".

    "Expresso" de 7 de Agosto de 2010 (páginas 24 e 25)

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  6. Como gosto de ver todos estes intelectuais das certezas a falar de cátedra!!
    Queria vê-los a dar aulas, a ensinar os meninos deste país... os meninos de quem os pais não sabem ler nem escrever e para quem a escola pouco representa porque não traz emprego nem pão.

    Nada pode ser visto a preto a branco!

    E assim sim, é fácil: uns ganham com as ciências da educação, outros alimentam-se de "opinion maker"!

    Pecisamos de gente operante e decidida e não dos eternos Velhos do Restelo.
    Ajudem os professores deste país a acreditar que é possível fazer mais e melhor, com um trabalho sério, de rigor e exigência!
    A escola tem que fazer dos bons melhores, dos médios bons e tem obrigação de escolarizar os que remam contra a maré.

    Toda a gente opina sobre educação, mas os que estão "com a mão na massa" são aqueles a quem é preciso dar voz.

    Mãos à obra... Apresentem soluções!

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  7. José Batista da Ascenção31 de agosto de 2010 às 14:59

    Olá, colega Maria:

    Não me diga que, sendo professora, como eu sou, não vê quais são as soluções... As soluções são trabalhar, trabalhar, trabalhar, fazer o possível para ensinar todos os alunos, sem estar obrigatoriamente sujeito e dependente da tralha do eduquês. Sobre trabalhar com alunos, e sem querer elevar-me a qualquer "cátedra", ensinou-me mais a realidade e a experiência ininterrupta de quase três décadas, do que a "pobre doutrina" dos que, não sendo capazes de suportar alunos, nem se dando com as frágeis condições das escolas, procuraram vias de dizer aos outros como se deve fazer. Ora, é isso o que eu e tantos dispensamos. Muitos de nós é que poderíamos dizer-lhes o que funciona e o que nunca funcionou...
    Porque, o que está em causa são os resultados. E esses não enganam. E eu gostaria de assumir responsabilidades pelo que é do meu alvedrio. Agora saber que me obrigam a fazer mal e atirarem-me com as culpas, isso não o aceito.
    Porque, cara colega, em verdade lhe digo que a mais velha profissão do mundo não é a prostituição. Pode acreditar. Seguramente, antes disso já os seres humanos ensinavam e aprendiam...
    E para ensinar não foram ainda inventadas receitas. Pelo menos com o grau de estupidez daquelas a que nos querem acorrentar. E quando as inventarem, não devemos esquecer que os bons cozinheiros não são os que se guiam por livros de receitas. Se assim fosse cada um de nós era ou podia ser um bom cozinheiro. E eu sou uma prova de que tal ideia não é verdadeira...
    Por mim tenho pena que haja professores tão submissos e seguidores de teorias "pornográficas".
    Ou vamos andar eternamente a ignorar os resultados e a cobri-los com verniz?
    Desculpe o tom. Ele resulta da mágoa que me causou a sua intervenção. Assim mesmo agradeço-lhe a sinceridade.

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  8. Cara Maria,

    "a ensinar os meninos deste país"

    Esta expressão diz muita coisa sobre a formação de professores neste país! Nas escolas não se ensinam meninos, ensinam-se alunos!

    "Pecisamos de gente operante e decidida e não dos eternos Velhos do Restelo."

    Para si quem são os "Velhos do Restelo"? Quem defende o status quo, ou seja o lobby das "ciências" da educação, ou quem quer mudar um sistema que pura e simplesmente não funciona?

    Espero que os "cientistas" e "especialistas" da educação não tenham alterado o significado de "Velhos do Restelo"...

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  9. Permanecemos no patamar em que nos inscrevemos, e dele não sairemos porque nos socorremos no passado.

    Isto para dizer que o que se passa na matéria em apreço, está perfeitamente diagnosticado aqui:

    "A maior dificuldade que se tem encontrado em pôr em ordem alguns sectores da administração pública é proveniente da verdadeira hostilidade do nosso espírito a um programa de acção. Tudo na administração do Estado e na administração local, se pretende deixar à improvisação do momento, aos desejos da ocasião; a disciplina de um plano estudado, aprovado, assente, que se executa anos sucessivos, custa-nos a suportar com violência ao nosso pensamento. Por isso muitas coisas se prometeram, e se não deram, muitas se começaram e não concluíram, muitas se diziam próximas quando se não sabia ainda como se havia de pegar nelas. Quantas vezes se não anunciaram ou deram verbas para obras em relação às quais nenhum estudo ou projecto havia que permitisse supô-las possíveis ou avaliar do seu custo: o mesmo nos museus, nos palácios, nas estradas, nos portos, na hidráulica agrícola, no fomento económico, na instrução, no crédito, no armamento do Exército."

    Aqui está o retrato do que se passa na Educação.
    Quem adivinhar de quem é o texto transcrito ganha a 4.ª edição de

    "Le métier du sociologue", de
    Pierre Bourdieu
    Jean-Claude Chamboredon
    Jean-Claude Passeron
    Mouton Éditeur, Berlim, New York, Paris
    1983

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  10. A pedido de Guilherme Valente, publicamos, de seguida, os comentários que enviou do "De Rerum Natura"

    1. Agradeço a Jaime.

    2. Maria faz comentários laterais, digamos, ao que escrevemos. Num registo de dasabafo que é compreensível, humano, mas que parece «não poder» ou «não querer» chegar à causa das coisas. A Maria acha que os responsáveis por esta tonteria (não há outro nome mais generoso) têm andado… a dar aulas nas escolas? Por favor, leia nos meus textos o que tenho escrito sobre a razão do insucesso e a mudança que as tornará residuais ou acabará com elas.

    3, Fartinho da Silva e Baptista Ascensão dizem clara e rigorosamente aquilo que é preciso continuar incansavelmente a dizer. E dão a fundamentação que nos meus comentários não pude apresentar. Perceberam muito bem o carácter aparentemente radical, generalizador, de algumas das minhas afirmações. Muito obrigado. Muito obrigado também por não me deixarem sozinho…não é fácil, podem crer, sobretudo, como calcularão, com a minha actividade profissional (um dia contarei algumas histórias, mas não me custa nada pagar esse preço, que para mim não é preço, claro)

    3. Na avaliação que faço generalizo, mas julgo que correctamente. Na verdade nunca recebi para publicação na minha editora qualquer tese que eu entendesse merecer ou justificar-se ser editada. Mas admito que haja algumas. Indiquem-mas, por favor.

    Em tudo o resto suponho ter sido bem objectivo.

    4. O que está em cauda para mim – para vários de nós, felizmente - é o seguinte: mais dez anos desta escola, disto que Fartinho da Silva e outros comentadores tão bem caracterizaram, isto que já destruiu e continua a destruir, profissional e humanamente, tantos docentes generosos, tornará Portugal num país inviável, inabitável. Por isso temos que ter a coragem esquecer que haverá gente bem intencionada entre os «especialistas» e seus apoiantes para afirmarmos com clareza o que é imperativo afirmar.

    5. Claro que a função (e o gosto) dos Professores não é reprovar, mas antes fazer com que ninguém reprove (será preciso dizer isto? Se algum professor não sentir assim, terá de abandonar a profissão, evidentemente). Para isso os Professores precisam dos meios e do ambiente e das regras e da cultura e da expectativa e do reconhecimento e da preparação e da organização do sistema escolar, necessários. Como acontece na tal Finlândia… longínqua.

    Guilherme Valente

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  11. Caro colega José Batista

    Sou professora e comungo de muitas das suas ideias para não dizer na totalidade. Estou de acordo que não existem receitas mágicas, mas as que servem a cada escola segundo o público-alvo.
    Estou inteiramente de acordo que é preciso trabalho, muito trabalho, rigor, exigência e disciplina.
    Que as escolas devem encontrar a melhor resposta para o seu contexto educativo; que o excesso de burocracia e de centralização deve ser ultrapassada por estratégias e dinâmicas que levem a uma melhor operacionalização. No final avaliem-se os conhecimentos e os respectivos resultados.
    Foi sem dúvida a larga experiência e a realidade que muito me ensinou.
    Procurei com os meus pares encontrar as respostas mais adequadas, o que nem sempre foi fácil, mas valeu a pena a persistência! Houve resultados!
    Nas ciências da educação haverá teorias que não subscrevo, assim como há formações nessa área que pouco ou nada ajudam a melhorar a qualidade do ensino.
    Teorias muito romanceadas e alguma ausência de pragmatismo. Mas volto a insistir: nem tudo pode ser visto a preto e branco.
    Não podemos ignorar os resultados e é mais do que tempo de os inverter, mas não creio, pela experiência que tenho, que todos os problemas residam nos famigerados "eduquês". É mais do que tempo de avaliar o retorno do investimento na educação. Com ou sem "eduquês".

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  12. José Batista da Ascenção31 de agosto de 2010 às 22:17

    Cara colega Maria

    Acredite que é muito grato para mim sentir que, enquanto professores, partilhamos muitas ideias. Ideias que, de resto, são as emitidas pela generalidade dos professores no nosso dia-a-dia.
    Agora o que me impressiona é a condescendência com que olha as teorias, legislação e orientações (sob a forma de eduquês) que estão, em meu entendimento, a destruir a escola pública. E até concordo consigo em que o eduquês não é o único mal do ensino. Realmente não é: pior do que o eduquês é quem manda permitir o eduquês, é estimular o eduquês, é nutrir o eduquês. E disso se encarregam os directamente interessados, com a ajuda dos que se alheiam ou que o olham com indiferença. E, a esses eu tendo a vê-los como co-responsáveis. Porque atingi a saturação, que é como quem diz níveis elevados de sofrimento. Ainda que respeite a liberdade de pensamento de cada um.
    Só mais uma pequena nota: gostei do modo como me respondeu. E por isso tenho gosto em tê-la como colega de profissão.
    Aceite um cumprimento amigo, Maria.

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  13. O Sr. Guilherme Valente (GV) honra-me com uma referência a meu respeito quando, a propósito dos meus comentários, se refere a eles como um exemplo perfeito da qualidade intelectual e da atitude do «eduquês». Farei umas breves apreciações sobre a sua entrada sem qualquer esperança de mudar o seu pensamento e discurso uma vez que estou convicto de que nada, mas absolutamente nada, conseguirá mudar o que quer que seja sobre o que ele designa por "eduquês". Comecemos por aqui. O "eduquês" foi um termo cunhado pelo Eng.º Marçal Grilo para designar uma linguagem obscura, pesada e por vezes impenetrável que ocasionalmente se encontra nas abordagens sobre a educação realizadas por alguns supostos especialistas. Por outras palavras, um discurso que, sob uma capa de complexidade e densidade, denota pouca clareza e debilidade de pensamento.
    Todavia, esse não é um "pecado" exclusivo dos que escrevem sobre educação e seria completamente inadmissível dizer que todos eles alimentam esse estilo. Veja-se, por exemplo, os textos escritos pelo Professor António Nóvoa que, concordando-se ou discordando-se deles, são absolutamente cristalinos. Já Karl Popper num texto intitulado "Contra as Palavras Grandiloquentes", publicado no seu livro Em Busca de um Mundo Melhor, fustigava, com inteira razão, esse tipo de discurso. Em síntese, se existe um "eduquês" ao nível do discurso existirá seguramente um "juriduquês", um "politiquês", um "sociologês", etc.
    Só que, a partir daqui, o termo "eduquês" conheceu um êxito que o antigo ministro da educação do primeiro governo de António Guterres seguramente não esperaria. Começaram então os problemas. O termo passou a designar tudo o que supostamente de errado se passa no mundo da educação. Mais: passou a ser um insulto que alguns atiram aos que ousam discordar deles ao nível da educação, sendo conotado com uma galáxia de significados como laxismo, relativismo, pós-modernismo, mediocridade, etc. Em síntese, a palavra "eduquês" deixou de ser um conceito operativo para passar a ser um conceito difuso. Ora, se existe algo que numa discussão racional deve ser determinado logo à partida é a clareza de conceitos. É por isso que as sistemáticas invectivas sobre educação contra o "eduquês" raramente concretizam algo de substantivo. As críticas abundam, as soluções rareiam.

    PJ

    PJ

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  14. Defendo, desde há muito, que se abandone o termo "eduquês" para passarmos a discutir de forma sistemática áreas específicas de política educativa: a organização do nosso sistema de ensino, o currículo adoptado a nível nacional, a qualidade dos programas, o tipo de avaliação, a formação de professores, o ingresso na carreira docente, a gestão escolar, a reforma do Ministério da Educação, etc. Mas discutir de forma substantiva, não de forma superficial. Por exemplo, neste momento o assunto que se encontra na ordem do dia é a eventual abolição das retenções. Vale a pena discutir este assunto de uma forma séria e não cair em maniqueísmos do tipo: "Se és a favor das retenções pertences ao grupo dos que pugnam pela exigência do ensino; se és contra és um paladino do "eduquês". Até o Professor Nuno Crato, em declarações ao jornal Público, em 16 de Dezembro de 2009, afirmou: "Admito um sistema mais rigoroso e flexível, sem retenções, desde que haja uma avaliação continuada." Clarificar conceitos, avançar argumentos e, preferencialmente, procurar evidência empírica que corrobore ou não determinadas posições parece-me ser o caminho certo para uma discussão frutuosa.
    O que sucede com a educação, assim como noutros campos da nossa vida social, é que alguns se acham no direito de debitarem umas banalidades em tons salvíficos. A educação não é uma área hermética ou de uma complexidade tal que só pode ser discutida por especialistas, que fique bem claro. Mas é necessário estudar e reflectir para se poder argumentar com um mínimo de consistência. Recordo as palavras do Professor David Justino, ex-ministro da Educação, que no blogue 4ª República escreveu o seguinte em Março de 2008: "Não imaginam o quanto se torna penoso ouvir alguns discursos sobre o "actual" estado da educação em Portugal. Alguns deles chegam a raiar a ignorância compulsiva e uma incrível falta de imaginação, até para melhor disfarçar essa ignorância. O império do senso comum, a falta de leitura, de estudo, de trabalho rigoroso e de opiniões fundamentadas sobre os problemas da educação transformaram as últimas semanas numa insuportável "bancada central" onde todos têm o direito a emitir opinião, todos se sentem capacitados para "achar" sem que se note qualquer laivo de sensatez, conhecimento e de rigor sobre aquilo que se "acha"." Vale a pena ler o resto deste texto em http://quartarepublica.blogspot.com/2008/03/educao-e-os-discursos-com-barbas.html.

    PJ

    PJ

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  15. O Sr. Guilherme Valente afirma ainda que a generalidade dos mestrados e doutoramentos em ciências da educação "não produziram conhecimento relevante, que possa justificar, honrar, a atribuição desses títulos. (…) São irrelevantes para o conhecimento, para o ensino, a escola e os alunos." Eu pessoalmente gostava de saber quantas dissertações de mestrado ou de doutoramento da área das ciências da educação GV leu para conseguir produzir uma afirmação tão categórica que condena à irrelevância todo ou quase todo o conhecimento produzido em trabalhos académicos desta área.
    Quando discuti este assunto com o Fartinho da Silva, nos comentários a uma entrada anterior, referi a dissertação de mestrado da Dr.ª Armanda Zenhas que relata um estudo de natureza qualitativa sobre o papel do director de turma na relação com as famílias dos alunos (http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/713). Trata-se, na minha opinião, de um bom exemplo de como uma investigação na área das ciências da educação pode produzir conhecimento relevante para a prática profissional dos professores. Acresce o facto de a autora ter baseado o seu estudo a partir da reflexão sobre a sua prática profissional enquanto professora e directora de turma numa escola de ensino público.
    Apontei ainda a tese de doutoramento em ciências da educação do Doutor Paulo Guinote (ver
    http://aleph18.sibul.ul.pt/F/MA8VNQ78S4EXTX434RITQVG9N4C4SF8VXMQ3B5QEG8LJQ2U7F2-04972?func=full-set-set&set_number=037974&set_entry=000002&format=999).), professor e autor do conhecido blogue a Educação do Meu Umbigo, alguém que pode ser conotado com tudo menos com o "eduquês" (whatever that means…). A sua tese, embora da área das ciências da educação, é na realidade um trabalho de história da educação. Com este exemplo quis enfatizar que muitos dos trabalhos académicos das ciências da educação são na realidade a aplicação de ciências sociais e das humanidades à área da educação. Não é vulgar ouvir alguém dizer, por exemplo, que a sociologia não produz conhecimento relevante. Se um sociólogo realizar um trabalho académico sobre, por exemplo, a representação social da escola em indivíduos da etnia cigana, a sua investigação valerá pelos seus méritos próprios, se os tiver, não pela área científica onde se insere. Se alguém realizar o mesmo trabalho num mestrado em ciências da educação a percepção muda de imediato. Ninguém ou quase ninguém tem uma atitude de condenação em bloco de toda uma área do conhecimento, excepto se essa área se chamar ciências da educação…
    Não tenho a pretensão de conhecer toda a produção científica das ciências da educação produzida em Portugal ou no estrangeiro. Daquilo que conheço o que posso dizer é que já encontrei de tudo: desde o medíocre ao excelente. Julgo que sucede o mesmo com outras áreas científicas.

    PJ

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  16. GV argumenta ainda que as ciências da educação são as responsáveis pelo descalabro do nosso sistema de ensino, em particular pelos últimos "trinta anos de degradação da situação". Esta apreciação pressupõe, ainda que uma forma implícita, que antes dos últimos 30 anos a situação do nosso sistema educativo era pelo menos boa. Mas seria mesmo assim? Uma coisa parece ser certa: os resultados dos nossos alunos em estudos internacionais, como o PISA, não são nada lisonjeiros. Muito gostaria de saber que tipo de resultados Portugal obteria em estudos semelhantes caso os dados tivessem sido recolhidos nas décadas de 40, 50 ou 60. Mas adiante.
    Neste blogue perguntei ao Dr. Desidério Murcho, em finais de 2008, se ele considerava, como inicialmente afirmou, que o "eduquês" era mesmo o responsável pelo estado do nosso ensino. A sua resposta foi a seguinte:" Reflectindo na realidade que conheço, não me parece que se possa dizer que foi o “eduquês” que causou a falta de qualidade do ensino da filosofia que detecto. E reflectindo no ensino que recebi quando era estudante, vejo que a falta de qualidade era já nessa altura gritante — e nessa altura (sim, já não sou um jovenzinho, daí a minha gloriosa careca) ainda o “eduquês” não tinha tido tempo de fazer estragos. Portanto, não me parece avisado pensar, sem mais estudos, que o “eduquês” seja responsável pela falta de qualidade do ensino da filosofia, em particular. Talvez o ensino da matemática fosse glorioso noutros tempos, mas duvido muito, nomeadamente reflectindo sobre a minha experiência como estudante: tive professores tolos que liam os manuais na aula, ou mandavam os alunos lê-los, e tive professores excelentes, que ensinavam muito e bem, com entusiasmo e eficazmente.” A minha opinião, também baseada na experiência pessoal, e como tal falível e não generalizável, é a mesma.

    P.S. Quando terminava este texto verifiquei que a Professora Helena Damião (HD), ela própria uma doutorada em ciências da educação, contestava a opinião de GV de considerar a investigação nesta área não produzir conhecimento relevante. Parece que HD entrou no índex do "eduquês" de GV…
    Gostaria de sublinhar ainda um último aspecto para que não restem dúvidas. Não possuo nenhum título académico em ciências da educação. Caso o tivesse não sentiria envergonhado por isso, excepto se considerasse o meu trabalho medíocre e se os meus pares considerassem o mesmo.

    PJ

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  17. A pedido de Guilherme Valente, publicamos, de seguida, comentários que enviou para o "De Rerum Natura"

    O meu comentário a mais dois comentários… anónimos (perdoem-me a pressa da escrita…):

    1. Finalmente mexeram-se. Vão chegando alguns comentários ao meu texto (é pena que continuem anónimos), aparentemente mais elaborados. Aparentemente, porque na realidade nada apresentam de substantivo. Andam à volta, fazem sempre uma leitura fragmentária do que temos escrito, como se num texto de blog pudéssemos estar sempre a repetir tudo, a fazer um livro. E sempre o recurso ao expediente ou à autoridade: O Desidério Murcho disse, a Helena Damião diz aquilo, o David Justino (que devia, aliás, estar calado), afirma isto. Até o Karl Popper, meu Deus, que se ouvisse chamar ciências ao que as «ciências» da educação produzem teria um badagaio.

    Aproveito a deixa, aliás, para dizer o que é mais do que óbvio. As «ciências» da educação, mesmo quando eventualmente aconteça produzirem trabalhos com interesse no seu âmbito, não são, por todas as mais do que visíveis razões, ciências. Serão estudos sobre educação, isso sim, mas, quase todos os que conheço, muito banais, muito fraquinhos, alguns deles mesmo muito ridículos. E quase sempre na tal linguagem que oculta a mediocridade do conteúdo. Teses de douramento? Só no reino do «eduquês»…

    2. Nunca em nenhum dos meus escritos responsabilizei aquilo que designo por «eduquês» (que já expliquei em vários escritos o que é e, aliás, este anónimo bem reproduziu) por ter estragado a escola que havia. Responsabilizo-o, sim, «por ter impedido a construção da escola que com a liberdade há muito poderíamos ter.

    A escola do salazarismo tinha aspectos horríveis e eu próprio fui vitima deles. O mau nunca deve ser, nem é para mim, uma referência comparativa. Quando penso e defendo o que deveríamos ser, a escola que deveríamos ter, não estou a pensar na escola que tivémos. Mas se me colocam a questão não tenho dúvida em dizer que do ponto de vista dos seus efeitos na sociedade a escola do «eduquês» é muito mais perversa, mais devastadora, do que a escola salazarista. De modo simplificado, direi apenas, por agora: o salazarismo queria instrumentalizar as consciências, ensinava para doutrinar, mas ensinava. A escola do «eduquês» não ensina, não quer que se aprenda o conhecimento, os saberes que contam, apaga o desejo de saber (que é o que nos torna humanos), aniquila a autoexigência, o desafio do mérito, apaga a consciência, impede, afinal, a liberdade, porque um homem só é livre se for culto e, por isso, poder ser crítico. A escola do salazarismo ensinou-nos a ler, por exemplo, para lermos a História que nos queriam impingir, mas nós… pudemos ler a História que eles não queriam que lêssemos. Por isso pudemos revoltar-nos. É claro, percebe-se, o que quero dizer?

    Quanto à escola do «eduquês», depois de mais de trinta anos, sabe-se e vê-se aquilo em que quer e em que tem transformado a generalidade dos alunos que não podem (sobretudo por razões sociais) fugir dela… zombies.

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  18. Tive a sorte de conhecer homens e mulheres muito sabedores e de uma enorme simplicidade.
    Aqui registo a arrogância,a vaidade e até alguma prepotência...
    Fazem bem e fiquem-se pelo auto-elogio.
    Podem crer que é com artigos desta natureza que a educação vai melhorar em Portugal!
    Como professor, cada vez mais me afasto do pensar de gente pretensiosa e vaidosa, como Guilherme Valente demonstrou nos vários textos que aqui deixou.

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1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.