terça-feira, 27 de março de 2007

HÁ TESOUROS NO QUIOSQUE 3


Basta ir ao quiosque para encontrar pérolas de idiotia, gemas de inanidades. O que mais espanta é encontrar profissionais da ciência e da tecnologia a dar o seu nome a alguns desses dislates.

Abra-se o número 30 da revista "Biosofia", que tem o ambicioso subtítulo de "Para uma nova compreensão da vida, do universo e do homem". Trata-se do órgão do Centro Lusitano de Unificação Cultural, com sede em Lisboa. Depressa se conclui que o "New Age", embora atrasado, chegou à Lusitânia. O Centro tem um "blog" na Net onde se esclarece que a revista trata, entre outros temas, de "Esoterismo, Ciência, Diálogo entre a Ciência Esotérica e as Ciências Físicas, Astronomia, Astrologia, Psicologia, Sociologia, Filosofia e Pedagogia". E pasme-se: "A Revista Biosofia foi considerada de interesse cultural pelo Ministério da Cultura, nomeadamente para efeitos da Lei do Mecenato (benefícios fiscais)."

A estranha miscigenação de ciência e pseudo-ciência é feita com doses pequenas da primeira e grandes da segunda. Pelo lado da ciência, Liliana Ferreira, doutorada em Física da Radiação (a lista de títulos acrescenta a esse os de licenciada, professora e investigadora), escreve sobre "Estados da Matéria". Embora a maior parte seja ciência, o último parágrafo soa mais a pseudo-ciência:

"Não parece irrazoável admitir que novos estados materiais, onde as partículas estejam ligadas por energias potenciais mais perto dos limites de imponderabilidade material que atribuímos à energia radiante, possam ainda vir a ser descobertos".

Alguém percebe? O número de verbos também não ajuda: são nove.

Mas há pior, nestas matérias há sempre pior. Vejamos a pseudo-ciência pura e dura. O engenheiro de ambiente Tomás Marques responde à sua própria pergunta em título: "Por que estudo ocultismo?"

"Efectivamente, sei que, como todas as pessoas, me encontro sujeito ao contínuo assistir de um filme fantástico projectado pela minha mente, em que as razões para tudo o que faço são coloridas da maneira mais agradável, com vista a uma melhor negociação emocional com a Realidade."

Ao menos o autor tem sempre cinema em casa... Poder-se-á dizer que a frase está fora do contexto. Ainda bem, pois dentro do contexto era pior.

Por último, João Balseiro, licenciado em Engenharia Civil e Mestre em Gestão, escreve sobre "Filosofia Chinesa / Taoísmo". Quem pensar que as citações anteriores são obscuras veja como elas ficam claras em comparação com esta:

"Quem procura perpetuar-se através do ego (aqui entendido como eu inferior ou personalidade), destrói-se, mas quem integra o ego no Eu, esse imortaliza o Eu, e, sendo o Eu o Todo, imortaliza ou sacraliza, por transmutação, a sua própria natureza inferior".

8 comentários:

  1. Tinha cerca de 17 anos quando fiz uma pergunta parecida ao meu professor de filosofia: "porque é que uma psicóloga participa em "bruxaria ", porque tinha lido e visto numa revista. Perguntei sobre as leis de causa efeito.

    São as estruturas psicológicas que não coincidem com o saber adquirido. Aquirido como um valor interiorizado, ou apenas "decorado" ?

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  2. Impressiona que uma revista destas chegue ao número 30. Pela análise da capa parece que teremos uma por estação, ou seja, quatro por ano. Estamos perante uma longevidade de registar. 7 anos e meio.
    Talvez o mecenato explique.
    Quanto ao incompreensível artigo de Liliana Ferreira,há que referir que ensina física numa das mais prestigiadas universidades do país, no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, onde pode ser que venha a ser descoberto um novo estado da matéria em que as partículas estão ligadas por energias potenciais perto do limite da imponderabilidade atribuído à energia radiante.
    Lamento que uma mera licenciatura em física e química não dê para perceber conceitos tão profundos.

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  3. Hummm... biosofia até é um belo nome, ó sim! :)

    Pois cá por mim, fiquei curioso e bem gostava de ver um exemplar dessa revista. Além do mais, a capa até é delicadamente helénica e renascentista... muitas cores e bela vista!!! :)

    Mas não, as frases citadas não têm nada de especialmente incompreensível ou hermético, muito embora, naturalmente, tenham subjacente uma concepção não materialista do Universo, como é fácil de ver...

    Ora, mas se o idealismo aí está a regressar pela janela quântica... como se não há-de facilmente compreender a Lusitana Cultural semântica?! ;)

    Enfim, sempre é mais fácil do que abraçar esta minha arrevezada escrita tântrica... essa sim! seria uma empresa homérica e bem atlântica!!! :))

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  4. Alto!!! O incomparavelmente belo "Hino da Criação" do Rig-Veda que eu já aqui trouxe em 2 versões inglesas, está no blog da revista Biosofia na sua tradução portuguesa... excelente!!!

    Não existia nada: nem o claro céu,
    Nem ao alto a imensa abóbada celeste.
    O que tudo encerrava, tudo abrigava,
    E tudo encobria, que era? Era das águas
    O abismo insondável? Não existia a morte,
    Mas nada havia imortal. E a separação
    Também não existia entre a noite e o dia.
    Só o Uno respirava em si mesmo e sem ar:
    Não existia nada, senão Ele. E ali
    Reinavam as trevas, tudo se escondia
    Na escuridão profunda: oceano sem luz.
    O germe, que dormitava em seu casulo,
    Desperta ao influxo do ardente calor
    E faz então brotar a Natureza Una


    E segue-se um belíssimo comentário, e eu aqui todo contente no altar abro o sacrário!

    Que se ainda sou um humilde operário...

    Rui leprechaun

    (...não tarda muito e estou um sofista milionário! :))

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  5. And by the way... o que é o vazio primordial afinal?!

    Transcendente pergunta metafísica, que cada vez mais pode até ser encarada pela ciência física!

    Belíssimo, belíssimo, belíssimo artigo... ai que isto para um Gnomo aluadíssimo é um perigo!!!

    "O caos e a emergência do sentido"... porque do Nada o Tudo foi surgido!

    Olha... e até Eu p'ra aqui vim...

    Rui leprechaun

    (...ai! mas que anárquico fim!!! :))

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  6. Olá a todos. Estas revistas chegam ao número 30 pela mesma razão que todos os dias aparecem 30 novos professores mambos, bambos e karambas. Pela mesma razão que pessoas que falam mal português (não necessariamente estrangeiras) têm uma certa tendência para comunicar com as iemanjás, pais de santos, sousas martins e princesas dianas. E pela mesma razão que se vendem pedras da rua polidas que se forem oriundas do Brasil e custarem os olhos da cara têm poderes especiais (algumas, claro, só depois de mergulhadas em sal).
    As pessoas estão perdidas. Não têm nada onde se agarra para obter respostas ou ajuda. A ciência está pela hora da morte. Vocês próprios tocam no assunto ao dizer que licenciados, doutorados etc colaboram nestas revistas. É que os cientistas, esses são espécies rara, mas os doutorados e investigadores proliferam como ratazanas no galinheiro. O nosso sistema assim o obriga. As universidades são uma selva e vivem pelas leis da selva. Atraem alunos pelo dinheiro e tentam retribuir o mínimo. O resultado é a proliferação de cursos e gente mal formada sem vocação e que depois tem de entrar na selva. Com isto a ciência fica gravemente ferida e mesmo comprometida. Com a lógica de avaliar as pessoas pelo número e não pela qualidade das publicações, o móbil é a tentativa de sobreviver no meio. Os trabalhos científicos são geralmente fracos, a ciência não acompanha a evolução da economia porque necessita de experimentação e os tempos modernos não se compadecem com essas necessidades. Assim, a nova "ciência" adapta-se e os novos "cientistas" tentam sobreviver a todo o custo. A ciência dá cada vez mais respostas, os mambos têm resposta para tudo. Sabemos que não é verdade, mas na lei da selva: ciência 0 - Mambo 1

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  7. A arrogãncia em Vossa Senhoria é uma virtude (maldita como o é em qualquer pessoa).

    Não sou de Portugal, mas admiro muito a Vossa Terra e a Revista Biosofia acaba por levar Portugal e os Portugueses para o bom olhar de outors Povos.

    Me desculpe se lhe sou tão franco.
    É que já sofri muito por ser assim como Vossa Senhoria!!!

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  8. Resumo do comentário sobre uma belíssima revista: a ignorância de tomar como ignorância aquilo que não se entende.

    Paulo Mendes

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