sábado, 10 de março de 2007

Como evitar a destruição da biblioteca

Aristóteles (384-322 B.C.) escreveu um pequeno livro de introdução à filosofia conhecido como Protréptico, termo do título grego original que significa "convite" (o título completo é Convite à Filosofia). Este pequeno livrinho foi muitíssimo influente durante cerca de mil anos. Nele, Aristóteles apresenta as razões fundamentais pelas quais vale a pena estudar e fazer filosofia.

Quando Boécio (480-524) escreveu o seu conhecido A Consolação da Filosofia tinha em mente as ideias expostas por Aristóteles no popular Protréptico, ideias que lhe chegaram através do livro Hortênsio, de Cícero (106-43 a.C.), que era uma espécie de versão romana da obra de Aristóteles. Esta obra de Cícero, hoje perdida, parece ter também desempenhado um papel causal fundamental em Agostinho (354-430), que menciona ter sido a sua leitura que o fez entregar-se à investigação filosófica.

O livro original de Aristóteles esteve perdido durante séculos, até Ingram Bywater (1840-1914) ter descoberto alguns fragmentos, a que se seguiu um trabalho moroso de reconstituição do texto. É deste livro que nos chegou um dos mais interessantes argumentos em defesa da investigação filosófica. Apesar de não termos o fragmento original onde Aristóteles terá apresentado o argumento, temos várias citações de fontes diferentes que concordam que Aristóteles usou algo como o argumento seguinte:

Se há sobre que filosofar, filosofe-se.
Se não há sobre que filosofar, filosofe-se.
Logo, em qualquer caso, filosofe-se.

A premissa crucial é a segunda, evidentemente, e o que está em causa é que não é possível argumentar contra a filosofia sem filosofar. Quaisquer argumentos contra a filosofia serão argumentos filosóficos (e não científicos ou matemáticos, por exemplo), o que trai aquilo a que os filósofos chamam uma "contradição performativa", como quando alguém grita "Não estou a gritar!". Argumentar contra a filosofia seria como tentar argumentar contra a astrologia traçando um mapa astral. Evidentemente, quando argumentamos contra pseudociências como a astrologia não usamos argumentos astrológicos.

Uma das passagens que mais me impressionou recentemente, ao rever e reler o Cosmos, de Carl Sagan, foi a sua visão muito clara de que se não divulgarmos o conhecimento junto do grande público, estaremos a permitir que algo como a destruição da biblioteca de Alexandria se torne possível. Talvez o conhecimento de que mesmo um grande filósofo como Aristóteles se dedicou à tarefa humilde de divulgar a filosofia torne mais nobre esta actividade e atraia mais investigadores portugueses. Os meus exemplos favoritos são Bertrand Russell e Thomas Nagel. Russell foi um dos mais importantes filósofos do séc. XX, mas escreveu uma pérola da divulgação filosófica, Os Problemas da Filosofia (1912), cuja tradução portuguesa de António Sérgio (Almedina) não é infelizmente boa, nomeadamente porque transforma o estilo directo, simples e elegante de Russell num rendilhado arcaico e palavroso, praticamente ininteligível para os mais novos. Thomas Nagel, um dos mais influentes filósofos contemporâneos, escreveu um livrinho intitulado Que Quer Dizer Tudo Isto?, publicado na Gradiva, que apresenta a filosofia aos mais novos de forma admirável. Felizmente, há cada vez mais bons exemplos como estes, tanto na filosofia como na ciência. Conseguiremos evitar a próxima destruição da Biblioteca de Alexandria?

5 comentários:

  1. Bem-vindos e um bom trabalho, pois leitores não faltarão.
    Um abraço.

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  2. Belissímo blog com uma ideia que tem tanto de urgente como rara em Portugal: juntar gente de diversos quadrantes a comungar do cinhecimento e ciência.
    Abraço
    Rolando Almeida
    Funchal

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  3. Gostava de saber a sua opinião sobre a colecção Filosofia para Crianças. A mim encantou-me!

    Fica um link que encontrei sobre essa série

    http://o-navio-de-espelhos.blogspot.com/2006/07/filosofia-para-crianas.html

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