sábado, 1 de dezembro de 2012

A função do Estado

Há poucas semanas, três, quatro no máximo, estavam identificados mais de cinco mil alunos com fome manifesta. O número depressa foi corrigido para dez mil e tal; na quinta-feira passada era já de treze mil.

Um certo Secretário de Estado havia "descansado" o país, assegurando que o Governo estava a fazer chegar "reforço alimentar" a alguns desses alunos. Inferi eu que era o próprio Governo que, na impossibilidade de as famílias proporcionarem alimento aos filhos, assumia a responsabilidade de o fazer. Afinal, sem ser paternalista, compete-lhe, em primeira e última instância, garantir a protecção dos menores.

Inferi mal, pois soube agora que esse senhor esclareceu, em sede parlamentar, que o Ministério a que pertence se encontra apenas ("apenas", é expressão minha) “a gerir um projecto que nasce da vontade da sociedade civil”: empresas dão os alimentos, o Estado gere-os. É essa, em rigor, a função do Estado nesta calamidade.

Sem provavelmente estremecer, o dito Secretário "voltou a frisar que [o tal "reforço alimentar] não representa qualquer despesa" para o orçamento. Eis um Estado, que não cumprindo o que, politica e moralmente, tem por obrigação cumprir, apresenta o não cumprimento como uma proeza digna de realce e exortação.

3 comentários:

Anónimo disse...

Muito chocante o que está a acontecer em Portugal.

José Batista disse...

O estado (com minúscula) português comporta-se de forma chocante em vários aspetos.
Eu, desde há alguns anos a esta parte, passei a ter muito mais medo do estado do que dos ("habituais")... ladrões.
Mas o estado são pessoas. Pessoas em certas funções. Com determinados desempenhos e ações. E com vencimentos e reformas, múltiplos e desproporcionados. E impunes. E arrogantes. Como se não lhes bastasse a frieza das intenções, a indiferença perante a miséria dos fracos e a satisfação opulenta do seu conforto.

É mau, o nosso estado. E está em mau estado. E deixa-nos em péssimo estado.

Porém, o problema maior é que o estado também somos... nós.

Fizemo-lo. Temo-lo.

E sofremo-lo.

Cláudia da Silva Tomazi disse...

De capaz quem, com corda laça orca.

QUANDO ESTOU SENTADO, FRENTE AO COMPUDAOR, NÃO TENHO IDADE.

Por A. Galopim de Carvalho  São raros os meus familiares, amigos e colegas de trabalho que continuam a resistir à gadanha do tempo. Já quase...