quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O FIGURÃO DO ANO


Meu artigo de opinião no "Público" de hoje:

 Os media escolhem, nesta época, as figuras do ano. Para figura do ano a Time escolheu Barack Obama e, entre nós, o Expresso escolheu Angela Markel e o contribuinte português para figuras respectivamente internacional e nacional. Proponho-me aqui escolher o “figurão do ano” e o escolhido não pode deixar de ser Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares.

Em Portugal, no ano que ora finda, foram muitos os figurões. Na cena política, mas também nas cenas académica, empresarial, mediática, autárquica e desportiva, vários foram os personagens que, tentando sobressair, caíram no palco com estrondo. A escolha foi, porém, fácil, pois nenhum desses insucessos foi tão grande como o de Relvas, que, figurando em todas essas cenas, não houve nenhuma em que não caísse.

 Um figurão português precisa de um título de doutor. Sem ele, não passaria de uma figurinha. Ora, Relvas conseguiu, com impressionante facilidade, tal título. Não precisava de uma resma de equivalências, pois já o tratavam por “doutor”, como mostram placas inaugurais inauguradas pelo próprio. Mas pediu-as e deram-lhas com inusitada ligeireza. O ministro da Educação mandou instaurar um inquérito, mas o caso está longe de estar esclarecido pela universidade em causa. Por que é que uma carreira política comezinha, largamente decorrida na juventude partidária, recheada de negociatas e enriquecida por um cargo num grupo folclórico, foi considerada equivalente a 32 cadeiras? Como é que o estudo e a avaliação puderam ser equiparadas a disputas partidárias e a jogos de influências? O reitor que participou na bambochata demitiu-se das funções que ocupava sem nunca ter explicado o seu permissivo papel. E Relvas, depois de ter declarado que lhe podiam ter dado mais de 32 cadeiras (queixando-se que, em todo o curso, teve de fazer quatro exames!), eclipsou-se por escassas semanas para voltar, retemperado, à ribalta.

 Mas a queda académica de Relvas foi apenas um dos vários fracassos neste ano da carreira laureada pela Universidade Lusófona. Tudo lhe tem corrido mal. No campo do empreendorismo, vieram à tona os negócios duvidosos da Tecnoforma, uma das empresas que ajudou a singrar, e emergiram na imprensa brasileira suspeitas de ligações com o empresário colombiano-brasileiro-polaco que tentou comprar a TAP. No campo da comunicação social, depois de ter suscitado a demissão de uma jornalista do Público, o nome de Relvas apareceu associado à demissão do director de programas da RTP, empresa que ele tutela e que queria à viva força privatizar até ao fim do ano. Agora, que o grupo angolano Newshold declarou a sua intenção de comprar essa televisão, vale a pena lembrar o afastamento pela direcção da Antena 1, também tutelada por Relvas, de um jornalista que ousou opinar sobre a liberdade em Angola. Onde está Relvas, há uma demissão e nunca é a dele. No campo da reorganização administrativa, está a ser polémica a extinção à trouxe-mouxe de mais de um milhar de freguesias, enquanto a reforma dos municípios permanece na gaveta. Não há uma uma reforma bem estudada do território, mas receia-se que, do gabinete de Relvas, venha a criação de funções intermunicipais que darão reformas douradas a ex-autarcas. Por outro lado, devido à inábil intervenção do ministro, Fernando Seara viu-se obrigado a adiar a sua candidatura pelo PSD a Lisboa. Estará hesitante em avançar atendendo ao mais do que previsível desastre da cor laranja nas autárquicas de 2013, em Lisboa e por todo o país, incluindo o Porto. Uma coisa é certa: Se Relvas insistir em nomear candidatos, o desastre será ainda maior. Por último, no campo desportivo, o ano não podia ter corrido pior para o ministro, conhecida como é a sua paixão pelo Sporting. Mas também os resultados da representação olímpica nacional deixaram a desejar: em Londres foi o que se viu (Relvas esteve lá a ver) e no Rio de Janeiro não vai ser melhor a avaliar pela actual confusão.

 De facto, deste grande rol de azares de Miguel Relvas, só uma parte é imputável ao próprio. Outra parte, e substancial, é da responsabilidade do primeiro-ministro, que o mantém no polivalente lugar. Já o escrevi nesta coluna: a queda de Miguel Relvas é a queda de Pedro Passos Coelho, já que ambos estão entrelaçados. Têm sido dois alpinistas unidos por uma corda em conjunta ascensão política. Os dois passaram por Angola, os dois estiveram juntos na JSD, os dois colaboraram com a Tecnoforma, os dois fizeram cursos tardios em escolas privadas, os dois chegaram ao governo da nação. Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”.

10 comentários:

  1. Esta nódoa alastra como o azeite. Alastrando, alastrando, atingiu sujando, todo o Governo, começando logo pelo PM. É inacreditável o que vemos nestes boys que atingiram o poder.
    BASTA!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sem duvida!!!!!! Caro Cisfranco!!!!!!

      Basta, mas ninguem nos ouve!!!!!!

      Agora o ataque do Governo é aos velhos, fazer jovens estar contra os velhos, por estes terem alguma reforma!!!!!!!

      E assim continuaremos......

      Basta!!!!!!

      Eliminar
  2. A tristeza maior deste personagem é a desmesurada e ridícula atenção que procuram dar-lhe, que nem ele nem o momento merecem. Mas, à falta de outras coisas para fazer, bem podemos insultá-lo, não serve de nada, mas talvez alivie o mau humor.

    ResponderEliminar
  3. Li este artigo esta manhã e achei-o oportuno e corajoso.
    O não doutor Relvas tem tal desfaçatez que procura apresentar-se cada dia como se a sua história o não acompanhasse e estivesse sempre presente onde quer que se encontre.
    Ele precisa saber todos os dias que os portugueses, muitos portugueses, não se esquecem de quem ele é e do que representa.
    E lembrar-lhe que um governo que tem um Relvas não é propriamente um governo. E o primeiro ministro que ignora tal facto é inteiro responsável pela situação, por conivência, incapacidade ou cobardia ou algumas ou todas estas razões.
    Como diz Cisfranco, Relvas é uma nódoa que enodoa o país, que bem dispensa que o sujem mais.
    Vasco da Gama diz que não serve de nada denunciar o Relvas: ao contrário, penso que calarmo-nos é que não nos serve rigorosamente nada.
    E também grito: BASTA!

    ResponderEliminar
  4. Excelente artigo.

    Vou-me permitir usar aqui umas sugestoes...e escrever umas linhas!!!!!!!

    ResponderEliminar
  5. «a queda de Miguel Relvas é a queda de Pedro Passos Coelho, já que ambos estão entrelaçados. Têm sido dois alpinistas unidos por uma corda em conjunta ascensão política. Os dois passaram por Angola, os dois estiveram juntos na JSD, os dois colaboraram com a Tecnoforma, os dois fizeram cursos tardios em escolas privadas, os dois chegaram ao governo da nação»
    Esta frase de Carlos Fiolhais é a chave da compreensão de quem é o Dr. Instantâneo Relvas (e o Dr. mais ou menos instantâneo Passos Coelho) e a razão porque se mantém no governo: chantagem, se fosse posto borda fora lavara a roupa suja e lá se ia o Passos Coelho à vida também.
    Mas a maior trajédia deste nosso tempo, desde há já demasiado tempo, é que a um 1.º ministro mau sucede outro ainda pior.
    E a perspectiva (se as coisas não mudarem muito) é que venhamos a ter outro Dr. mais ou menos instantâneo como 1.º ministro (rosa), que saberá encontrar, certamente, outro Dr. Instantâneo Qualquer Coisa para seu braço direito (ou esquerdo, como se preferir).
    Há por aí muitos a fazer tirocínio.



    ResponderEliminar
  6. Lá está para lá se eternizar!!!

    Pronto. É e tem que ser!!!!

    ResponderEliminar
  7. Tiago Brandao Rodrigues28 de dezembro de 2012 às 21:44

    Prof. Fiolhais,

    Alem do suposto-Dr. Miguel Relvas ser efectivamente o Ministro da tutela, ele nao apareceu por Londres durante os Jogos Olimpicos. O governo fez-se representar por Alexandre Mestre, Secretario de Estado do Desporto e Juventude.

    Bom ano,
    Tiago Brandao Rodrigues

    ResponderEliminar
  8. Ao professor Carlos Fiolhais os meus respeitos,pela pessoa que é.
    Quanto ao artigo,que aqui publica,realmente acho que tem alguma razão,pois cada vez mais em todos os sectores é premiada a ignorância e a incompetência....só que esta maneira de estar em Portugal,não é de agora é de há alguns anos a esta parte.
    A Democracia,deu abertura para tudo e mais alguma coisa,inclusivé para maltratar e roubar...impunemente.No entanto fico um pouco admirada, de só notarem esta situação agora.....pois andámos nos últimos 10 anos completamente enganados e principalmente muito distraídos.Onde estavam todos?????Acreditaram no senhor que está em Paris a "estudar"????Ninguém fala nele,nem nos seus governos,nem no tgv,nem nas auto estradas,nem nas megalomanias ,nem na fortuna pessoal,que nunca teve e agora tem,ele e a família????Que diabo julgo que há pessoas inteligentes neste país...só que os inteligentes,quando falam ,falam sózinhos e geralmente contra a corrente de opinião da maioria..então são "tolos"....como o Dr.Medina Carreira que se fartou de apontar o dedo a tudo o que estava e está mal e é o "velho tolo"...então como ele diz "A economia ,derrotou a democracia"
    Com uma democracia desta é lamentável dizê lo e senti lo,depois de quase 40 anos,escusavam de se ter dado ao trabalho,de fazer o 25 de Abril de 1974....

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.