domingo, 1 de julho de 2012

Ainda a Prova de Acesso à Carreira Docente e um Comentário de um(a) Leitor(a)


“Investiguei o melhor que soube e o melhor que pude; e declaro a todos que não o fiz nem por oiro, nem por prata, nem por salário, nem por soldo de nenhum príncipe, nem por conta de nenhum homem ou mulher que exista” (Jacques du Clerk, 1424-1469).

Pelo que escreve o(a) anónimo(a) do comentário da véspera “A implementação da prova de acesso à docência” e pela forma como o faz, entendo que não podia, e muito menos devia, deixar de lhe responder detalhadamente, e com o destaque merecido, tão equilibrado ele se apresenta na parte nuclear da temática em discussão. Refiro-me, concretamente, ao exame de acesso à carreira docente por mim defendido vezes sem conta e que, finalmente, vai ser concretizado pelo ministro Nuno Crato. Mas para situar convenientemente o leitor no contexto desta civilizada e profícua troca de impressões, transcrevo e relevo do referido comentário esta passagem:

"Se pensarmos desta forma e estivermos preparados para o exame talvez consigamos surpreender pela positiva quem não acredita nas Escolas Superiores de Educação. Não podemos deixar de concordar que um bom professor tem de dominar os conteúdos que lecciona e que o que causa todas estas polémicas são as sobreposições formativas que não devem existir. Há que definir campos de intervenção à partida para não andarmos em guerrinhas sem sentido.Também as Universidades a partir de certa altura começaram a copiar, é mesmo este o termo, cursos com um carácter eminentemente vocacionado para os Institutos Politécnicos e que tiveram a sua origem nos Politécnicos. Existem boas e más Universidades e existem bons e maus politécnicos....o exame vai ajudar a escolher os melhores independentemente da sua origem Universitária ou Politécnica. Quem não deve não teme!"

Desta prova de acesso se fez o seu comentário, em consequência, um precioso aliado como argumento por si defendido com a expressão final de “quem não deve não teme” e em que a vox populi é tão fértil, concisa, irrefutável! Repare que entendo, e já o escrevi noutras alturas neste blogue, que a carta de curso (seja ela universitária ou politécnica) nem sempre garante estarmos na presença de uma pessoa culta, ou ainda mesmo que medianamente culta, e muito menos com sãos princípios éticos que a capacitem para se expressar sem utilizar argumentos de cacete (“argumentum baculinum”). Aliás, W. Boven (docente da Universidade de Lausana) entendeu isso mesmo quando tem entre uma das finalidades da educação a preparação do jovem para a vida social.

E se "as palavras leva-as o vento”, aquilo que se escreve traz o timbre indelével de um testemunho que não pode ser alterado ao sabor de determinadas conveniências ocasionais. Assim, para evitar que se possa malevolamente pensar que utilizo argumentos de última hora que se compaginem com este comentário, busco suporte num artigo de opinião meu, intitulado “O estado da Educação em Portugal” (“Diário de Coimbra”, 20/02/2003). Dele transcrevo excertos:

Dois factos televisivos recentes levam-me a alinhavar estas linhas. Refiro-me ao Programa “Prós & Contras” (27 de Janeiro) e ao “Jornal Nacional da TVI”, dois dias depois.

No primeiro caso, somos confrontados com a intervenção da ex-secretária de Estado do PS, doutora Ana Benavente, na defesa do seu consulado em que, para além de outras coisas discutíveis, retirou à Universidade a exclusividade da formação dos professores do 3.º ciclo do ensino básico atribuindo-a, também, às Escolas Superiores de Educação. Assim se fez ela vestal de um altar assente no dogma de que a melhoria do ensino está na razão inversa da exigência formativa dos respectivos professores!

No segundo caso, alunos da Faculdade de Letras de Lisboa são entrevistados a fim de responderem a perguntas comezinhas relacionadas com a Literatura, i.e., os autores de ‘Os Maias’ e de ‘A Cidade e as Serras’ ou, ainda, a grafia da palavra ‘assessoria’. As respostas dadas não deixam lugar a dúvidas. Os alunos universitários interrogados mostraram uma ignorância confrangedora. Um deles atribuiu a autoria de “Os Maias” a Egas Moniz, deixando a alternativa da escolha: Egas Moniz, fidalgo, exemplo de honradez, ou Egas Moniz, Prémio Nobel, 1949? Um outro disse escrever-se a palavra ‘assessoria’ com cê cedilhado!"

Em tempos escrevi um artigo de opinião, intitulado “Reforme-se a reforma educativa” (“Correio da Manhã”, 2 de Junho de 1994), em que punha em causa reformas educativas feitas sobre os joelhos ou ao sabor deinteresses partidários ou, simplesmente, pessoais sem terem em conta, tampouco, todas as suas condicionantes. Dele respigo:

“Em nosso tempo, quando princípios nobres e secularmente respeitados são contestados – verbi gratia, a honra e a honestidade; a justiça e a verdade; a virtude e a lealdade; e a autoridade dos pais e dos professores é posta em causa, discutida e não acatada, aqui o insucesso escolar tem uma etiologia moral identificando-se como uma maleita da alma, jogando-se no cordão sanitário da influência conjunta da família, da escola, dos companheiros de estudo e de folguedos, em resumo de todo o meio envolvente, o destino dos jovens e o futuro de Portugal.

(…) No Portugal de hoje, para além de cabeças bem recheadas (que são a excepção), torna-se imperioso corações abertos a valores morais ancestrais da sociedade portuguesa e a princípios humanísticos à escala planetária. Nada adianta o unguento destinado ao tratamento de uma simples borbulha espalhado numa carne em adiantado estado de gangrena!"

Mas toda esta discussão sobre a prova de acesso à docência se pode resumir na resposta a simples perguntas: Quem tem medo desta prova? Estar contra ela não será uma forma de dizer que sou o melhor da minha rua sem necessidade de o provar?

11 comentários:

  1. José Batista da Ascenção1 de julho de 2012 às 09:54

    Olhe, caro Rui Baptista, folgo que ainda

    ninguém se tenha lembrado de (vir) argumentar

    que a sujeição a uma tal prova poderia ser um

    fator traumatizante para os futuros

    professores. Quem se preocupe com o que

    verdadeiramente traumatiza a vida dos

    professores no ativo, com sério prejuízo para

    os alunos, é que é mais difícil encontrar.

    Face à situação que se criou, muito pela mão

    de pessoas como Ana Benavente e outras de

    pensamento, ação e consequências parecidas, eu

    preferia submeter-me a tal prova. Mesmo agora.

    Sem basófia. De resto, à prova, é aquilo a que

    me sinto submetido todos os dias. Até nos

    comentários que por aqui vou deixando.

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  2. Caro José Batista da Ascenção: Que perigo esta sua lembrança: "Folgo que ainda ninguém se tenha lembrado de (vir) argumentar que a sujeição a uma tal prova poderia ser um fator traumatizante para os futuros professores"! Não folguemos, portanto!...há sempre quem se lembre dos seus traumatismos.

    Só agora lhe respondo, e disso lhe peço que me releve, por estar envolvido em respostas a outros comentários em que o silêncio poderia ser interpretado como uma desistência minha!

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  3. Tal como Guilherme Valente refere no TEDx, artigo de 3 de Julho 2012, neste blogue, o Eduquês não é um erro de "casting", é um plano minuciosamente construído. Temos de rever e entender toda a questão na sua origem, tal como Charlotte Iserbyt a apresenta, há todo um fundo gnóstico e pagão por detrás desta agenda.

    http://www.youtube.com/watch?v=ezTIYd5UFRY

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  4. Estará Miguel Relvas em condições de exercer cargos públicos com a licenciatura de Bolonha que possui tirada num ano?
    Ou terá que sujeitar-se a alguma prova de acesso?

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  5. Anónimo (4 Julho;12.49): Tempos houve em que esse acesso era feito através de um exame de aptidão ao ensino superior ou de uma elevada classificação do exame liceal que o dispensava. De cá para lá, esse acesso passou a fazer-se través do facilitismo das Novas Oportunidades ou de um caricato Exame de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos.

    Sem mais comentários, por desnecessários, muito me causa me confusão o facto de governantes e deputados, etc., eles próprios, achem menos dignos os cargos que desempenham a ponto de os desejarem ornados de licenciaturas de três ao pataco numa altura em que o ensino superior se tornou numa espécie de mercearia que vende títulos académicos ao quilo ou mesmo ao grama.

    Mas nada disto nos devia espantar “num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos” (Manuel Laranjeira, “O Norte”, 1908). O que nos devia espantar, isso sim, a ser verdade a licenciatura em causa, aliás como muitas outras quejandas, é não serem tomadas medidas para as anular de imediato. Talvez por isso, quando se defendem ordens profissionais que atestam os cursos superiores de actividades profissionais de direito público ouve-se a vozearia de semi-analfabetos a bramar contra a “heresia”. Entretanto, diplomados com cursos superiores de créditos firmados e acima de qualquer mácula têm que se contentar com empregos de caixas de supermercados, levando a concluir ser este um trabalho mais exigente sob o ponto de vista de formação académica do que cargos políticos ao mais elevado nível.

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  6. Não poderei dizer que estou (totalmente) contra uma prova (exame?) de acesso à carreira docente. No entanto penso que o pressuposto na base desta proposta não é verdadeiro. Está a assumir-se que "quem sabe, sabe ensinar", e infelizmente este afirmação não é sempre verdadeira.

    Como sou da área da Física vou dar um exemplo: alguém duvida que físicos como Einstein, Dirac ou Bohr sabiam mais do que suficiente de física? E escreveram ensaios, livros e artigos de uma clareza de exposição acima da média, mas no entanto... não eram bons professores.

    Ser professor, ou ensinar ou comunicar tem muito mais a ver com a personalidade da pessoa em presença de outras pessoas do que somente "saber do que vou falar".
    Uma prova de acesso deste género vai ser "somente" mais um exame para o candidato a professor, mais um a juntar ás dezenas que já fez. Mas alguém que já foi aluno universitário duvida que é sempre possível passar num exame mesmo não percebendo claramente um assunto? Quantas vezes qualquer aluno universitário não teve que "marrar" (mesmo nas ciências exatas...) coisas, "espetá-las" no exame e ficou passado? E provou que percebia o que lhe foi pedido? Nem sempre e muitas vezes não. Passado uma semana não nem se lembra da matéria que serviu para o exame. E é em 3 ou 4 ou 5 horas, em respostas escritas, que se vai avaliar séculos de conhecimento? Nem nos 5 anos do curso se conseguiu fazer isso...

    E o "arcaboiço" psicológico necessário para conseguir comunicar, lidar com os alunos, com situações imprevistas, com perguntas difíceis, etc etc? Alguma vez foi esta fundamental componente do ser professor testada? E devia ser testada logo nos primeiros dois anos do curso, não é no fim, depois do candidato já ter feito 4 anos de disciplinas que se vai ver se este tem perfil psicológico para a profissão, ou sem tem vocação, ou gosto, etc... Porque é que não se preocupam com isso?

    E quem forma os professores? Não são as universidades? E alguma vez a capacidade de ensinar, de transmitir conhecimento, dos professores universitários é testada? Mais uma vez, como qualquer aluno universitário (presente ou passado) sabe, provavelmente metade dos professores universitários não deviam estar numa sala de aula, e o ME preocupa-se com isso? Com aqueles que ensinam os alunos a serem professores? Como podem eles ser modelos de uma profissão se nem eles são bons professores? E no ensino superior os alunos são autênticas "ovelhinhas" no seu comportamento, dizem sempre que sim, não perguntam nada ou quase nada, não criam problemas de "competência intelectual" ao professor universitário e mesmo assim estes deixam muito a desejar, muito mais do que seria exigível.

    Queria ver como se saiam os professores universitários nas escolas problemáticas e com alunos com dificuldades de vida.
    Aliás se não fossem os livros escritos por alguns cientistas, que são usados como base das aulas nas universidade, que aulas seriam capazes de dar os professores universitários? Quantos seriam capazes de escrever a sua sebenta, de foram competente, e demosntrarem que sabem o que estão a ensinar.

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  7. Aliás, quantos professores universitários são obrigados a ensinar matérias que não dominam (devido a ser matéria não pertencente à sua área de investigação)? E quantas vezes não a aprendem dias antes de cada aula? E eles, que formam professores, podem fazer isto mas os professores do secundário não podem? Claro que estes últimos têm que possuir um conhecimento de base sólido, mas se 40 exames durante um curso não provam isso então vai ser outro, ou dois ou três, em algumas horas que vai avaliar quatros anos de suposta aprendizagem?

    Se nem sequer em qualquer disciplina universitária mais de 50% do que é exposto nas aulas é avaliado nos exames (por falta de tempo).
    Sim, podem ser bons cientistas e investigadores (não é o que está em questão), mas "lá tá", desde quando isso garante ser bom professor? Nem todos são o Richard Feynman (bem pelo contrário...).
    Aliás este senhor, prémio Nobel da Física em 1965, só exigiu uma coisa quando foi convidado a dar aulas aos alunos do primeiro e segundo ano do curso de física da sua universidade: que não tivesse mais nenhum dever académico! O maior físico da sua geração, eleito há alguns anos um dos dez maiores físicos da história, achava que para dar aulas como deve ser, a sua dedicação deveria ser exclusiva. Não se devia refletir um bocadinho sobre esta opinião dum autêntico génio?

    Resumo:
    1) uma prova de acesso não garante a capacidade de um candidato ser professor, visto que esta competência envolve muito mais do que só "saber" (e este "saber" é mais do que discutível, visto ser ser avaliado somente de forma escrita, e ser avaliada só uma pequena fração de todo o conhecimento supostamente adquirido)

    2) e os professores universitários, que são os que formam os professores do ensino secundário? basta ter uma média de conclusão de curso alta e passa automáticamente a ser um bom professor? A história da ciência não demonstra tal ligação, bem pelo contrário.
    [o da média alta, sem jeito para ensinar, óbviamente deve ter a oportunidade de investigar...não é esta potencial competência que estou a abordar neste comentário]

    Pode-se fazer quantas exames de acesso se quiserem, mas tal teste não vai garantir nada relativamente à capacidade do candidato enfrentar uam turma e ser capaz de ensinar o que supostamente sabe (ou duvidam de que quem é "marrão" na universidade, ou seja que decora tudo o que percebe E não percebe, vai ser capaz de passar nesta prova de acesso? eu não tenho dúvidas que quem sempre aprendeu não pela compreensão mas pelo decoranço, vá sair-se muito bem e claro lá vamos ter um potencial mau professor).

    Resumo: não é só com provas de acesso que vamos lá, e o problema começa logo no primeiro ano de universidade, não somente no fim do percurso universitário. Isto na minha opinião claro.

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    1. Caro Eduardo : Há um ditado que julgo poder resumir todas as objecções por si levantadas quanto ao exame ou prova de acesso à carreira docente: "Não há bela sem senão"!

      Mas no que respeita à maneira correcta dos professores se exprimirem verbalmente ou por escrito, julgo que todas as medidas são bem-vindas para evitar que, por exemplo, escrevam, como já vi, "concelho directivo" em documentos manuscritos. E o domínio de que aqui falo é tão necessário para o professor de matemática, como de biologia ou de qualquer outra disciplina do ensino básico e secundário, pois este é o âmbito da respectiva prova de acesso. Agora o que não se pode tolerar mais é que continue a haver professores que não sabem as bases científicas da matéria a ensinar ou que não tenham condições humanas para o exercício de uma das mais nobres, antigas e exigentes profissões.

      Pelo que se sabe, sempre que se fala em medidas (sejam elas quais forem) para distinguir os bons dos maus professores, ou mesmo afastá-los do ensino, podendo sendo úteis em qualquer outra profissão de menor exigência, surge um coro de objecções que fazem com que eles continuem impávidos e serenos na sua mediocridade. Aliás, é uma pecha que nos chega incólume dos tempos de Eça quando nos diz que "Portugal é vítima da bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem”.

      Sem sombra de hesitação, concordo consigo em absoluto quando escreve como remate do seu comentário: “Resumo: não é só com provas de acesso que vamos lá, e o problema começa logo no primeiro ano da universidade, não somente no fim do percurso universitário. Isto na minha opinião claro”. Sob o risco de me repetir, concordo em absoluto consigo. Que garantia de idoneidade nos dão, por exemplo, as Provas de Acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos? Como escreveu alguém, cito de memória, provas destinadas a “autodidactas” que mais não são do que ignorantes por conta própria! Mas quais vacas sagradas todas estes facilitismos apascentam nos prados verdejantes da ignorância. De uma santa e protegida ignorância! E ai do “herege” que se atreva a fazer-lhes frente…e esta prova de acesso à docência pode ser um primeiro passo! Não podemos, e muito menos devemos, é sermos cúmplices deste desgraçado "statu quo". Esta a questão, uma questão de honra!

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  8. Caro Rui Baptista

    O curso para professor sempre teve (pelo menos nos meus tempos de universidade pública) a duração de cinco anos (quer antes ou depois de Bolonha, aliás sou a favor de Bolonha, ou melhor, do modelo anglo-saxónico...). São pelo menos entre 30 a 40 disciplinas, ou seja 30 a 40 exames por escrito; para além disto existem relatórios e monografias também escritas e possivelmente uma dissertação. Pergunto eu: tudo isto não chega para saber se uma pessoa sabe escrever? Se sabe comunicar de forma clara e correta pela palavra escrita? Não chega para saber sem têm bagagem científica?? Então o que é que se anda a fazer nas universidades? E agora em Bolonha existem também em muitas disciplinas apresentações orais aos colegas e professor. Isto não chega para avaliar se uma pessoa tem talento, capacidade de comunicação e porque não entusiasmo suficiente para capturar a atenção duma plateia? Isto não serve para avaliar um candidato? E estas últimas características são fundamentais para um professor.

    Uma coisa eu sei, só a base científica não transforma ninguém num professor e repito, é neste momento e há décadas um dos grandes problemas nas universidades mundiais. É aqui que começam os problemas de chumbos nas universidades, a falta de capacidade de motivar os alunos, de lhes transmitir realmente o que interessa. Quantas aulas tive eu de professores a fazerem demonstrações matemáticas, quantas! Exatamente o tipo de coisa que o aluno pode fazer em casa e depois tanta coisa interessante que acaba por não se falar nas aulas. Isto é só um pequeno exemplo.

    O senhor disse (e bem):
    "Agora o que não se pode tolerar mais é que continue a haver professores que não sabem as bases científicas da matéria a ensinar"
    E quem lhe garante que nas universidades isto não acontece todos os dias? Acontece. O professor investigador na área A tem que ensinar a disciplina B, da qual (naturalmente diga-se) não percebe quase nada. Hoje em dia, especialmente nas áreas científicas as pessoas são especialistas. Muito poucos sabem o suficiente fora da sua especialidade e no entanto leccionam tudo e mais alguma coisa! E isto sem voltar a falar da falta de enpatia e carisma em termos de ser professor de grande parte dos investigadores.
    Ou existem ainda por exemplo um problema nunca abordado: e se depois de afastados os maus professores ficarem tão poucos (verdadeiramente bons) que nem com turmas de 50 ou 60 no secundária daria para todos os alunos interessados terem aulas? tenho a certeza que professores "de vocação" nunca serão suficientes para as necessidades, em qualquer matéria. Quer ao nível do secundário quer ao nível do universitário.

    Existem tantas coisas a considerar neste assunto e só vejo o ME a pensar na prova de acesso. E todo o resto? A prova não vai resolver coisa nenhuma. Querem bons professores? Escolham os melhores professores universitários, os mais capazes de formarem pessoas que vão ensinar. Que chumbem nos exames quem dá erros ortográficos. Que a nota mínima de passagem num exame seja, sei lá, ou 12 ou 14 por exemplo. Que as aulas tenham grandes componentes de discussão entre alunos e entre estes e o professor, para este ver quem tem "mais conversa" e capacidade de argumentação (um professor precisa disso), etc etc.

    Fico por aqui agora que tenho que ir dormir ;-)

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  9. Caro Eduardo:

    Esta uma conversa, de simples textos e comentários, sobre as condições que presidem a um bom ensino como bons professores e alunos interessados, que corre o risco de se eternizar e transformar-se mesmo em linhas paralela de discussão , por esse facto, nunca se encontrarem em soluções que agradem a gregos e troianos. E, muito menos, definitivas. Seja como for,como escreveu João Lobos Antunes, não podemos continuar a tolerar que “em Portugal, a mediocridade seja a lei”.

    Todavia, sou daqueles que entendo que uma licenciatura, por “melhor” que seja (e aqui surge a pergunta: o que se entende por uma licenciatura por melhor que seja?) é, apenas um começo ou uma base em que se alicerçam conhecimentos futuros de hetero-formação (por vezes, tão maltratada pela obrigatoriedade de assistir a acções de formação que pouco ou nada adiantam) e de auto-educação com leituras, reflexões e estudos posteriores que a não deixem esse diploma cristalizar no tempo e numa sociedade do conhecimento científico em plena evolução ou plasticidade, sem dogmas (como avisou Karl Popper sempre sujeita a refutubalidades, de que a Física é um é um exemplo paradigmático) e em que, como li algures, o professor deve estar preparado para ensinar o que hoje não sabemos o que será amanhã. Mas de uma coisa eu apostaria dobrado contra singelo: o ensino seja ele qual for só pode evoluir em patamares consolidados desde o 1.º ciclo do básico até ao doutoramento e pós-doutoramentos. Aliás, essa uma dificuldade da Matemática e, de uma forma, mais ou menos genérica, de outras disciplinas. E a que temos assistido até agora? À passagem automática dos alunos até ao 9.º ano de escolaridade que corre o risco de se estender até ao 12.º anos, aliás, diga-se de passagem, como uma certa “justiça” por se estar a exigir aos nossos jovens um percurso de 12 anos para entrar na Universidade quando a matulões que cabularam toda a vida (sem generalizações sempre perigosas) basta uma “Prova de Acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos” cuja credibilidade ninguém (a não ser os próprios interessados) pode atestar devido aos moldes que a ela presidem e ao facto de muitos cursos superiores correrem o risco de fecharem portas a um negócio, até agora, rendoso ou rendível como tenho ouvido dizer igualmente. Não quero com isto dizer, de forma alguma, que quem interrompeu os seus estudos secundários por carências económicas (e isto corre o risco de cada vez mais se agravar no ensino superior) não possa, por estudo e esforço aturado, vir a ter acesso a estudos superiores como o acontecido com o sério (e talvez mesmo por isso, extinto) “exame ad-hoc”.

    (Continua)

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  10. (Continuação)

    Quando eu me torno defensor da prova de acesso ao ensino superior é pelo facto da concorrência entre formações para a docência do ensino não superior obtidas no ensino universitário e no ensino politécnico levarem a que a simples nota de diploma possa prejudicar um indivíduo melhor preparado podendo ser preterido por outro menos preparado, já que as finalidades e exigências estabelecidas na lei (uma lei elástica que só atribuía o grau de bacharel no politécnico, passando a atribuir o de licenciado e de mestre e exigindo doutoramentos) são diferentes para o os ensinos universitário e politécnico.

    Para abreviar razões, completamente de acordo consigo em muitas coisas (atrevendo-me a pensar que, a seu exemplo, noutras coisas nem tanto ou quase nada) quando escreve: “Uma coisa eu sei, só a base científica não transforma ninguém num bom professor”. E eu julgo poder adiantar razões como sejam o facto da do docência exigir qualidades que vão para além disso, como seja a empatia que se estabelece entre o aluno e o professor e as qualidades morais e éticas que são exigidas para quem age e interage com crianças e jovens que não simples máquina de que se sabe, de antemão, o respectivo funcionamento. O comportamento humano está sujeito a condicionalismos em que o genoma mergulha raízes no caldo social do meio ambiente.

    Numa troca de impressões, um tanto “à vol d’oiseau”, agradeço-lhe o seu comentário que muito útil me foi para em reflexão cuidada (que não cabe num simples comentário) me continue a debruçar, com erros, caindo aqui e levantando-me mais adiante, sobre o complexo e, quase insondável, campo da Educação. Por isso muito ficou por dizer, e muitas coisas controversas (ou mesmo disparatadas) por mim foram ditas. Seja como for, de uma certeza não abdico: "Se continuarmos a fazer o que estamos a fazer, continuaremos a conseguir o que estamos a conseguir" (Stephen Covery). E muito menos, repito, devemos consentir que” a mediocridade seja a lei" que rege o destino do aprendizado dos jovens e defraude a esperança e os sacrifícios de magras bolsas dos pais que ainda acreditam que a Educação é uma ferramenta indispensável para vencer na vida e ser útil ao País que viu nascer e crescer os seus filhos. Nunca como uma espécie de padaria que fabrica pão de má qualidade e mal cozido que ninguém compra ou deita fora por falta de préstimo. E o grande erro do nosso ensino foi criar doutores e engenheiros desempregados por não ter havido o cuidado de o adaptar às condições do mercado por uma necessária massificação devidamente controlada.

    Cordialmente,

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