quinta-feira, 10 de julho de 2014

Na diáspora, à mesa de Portugal


Texto de Onésimo Teotónio Almeida no último JL:

No mundo lusófono, para além dos lusitanistas, há redes dispersas de portugueses ligados ao mundo da investigação que, a par do seu trabalho científico nas suas áreas, não deixa de, volta e meia, pôr-se a reflectir sobre Portugal. Um deles é Manuel Paiva, que acaba de lançar a segunda edição do seu Como Respiram os Astronautas, e que acaba sendo uma viagem autobiográfica destinada a inspirar futuros cientistas portugueses, daí o subtítulo: Educação, Tenacidade, Sucesso.

O autor surgiu primeiro ao grande público português com Diálogos sobre Portugal (1998). Em 2009, reapareceu com À Espera de Godinho. Quando o Futuro Existia, sobre que recaiu o costumeiro silêncio. Injustamente, pela novidade de que era portador. Um conjunto de “estrangeirados” lusos na Bélgica, nascidos entre 1943 e 1945, compõe um livro de conversas entre si: Manuel Paiva, portuense exilado na Bélgica desde 1964, onde foi professor na Universidade Livre de Bruxelas e director do Laboratório de Física Biomédica; Amadeu Lopes Sabino, ficcionista e ensaísta exilado na Suécia em 1973 e, desde 1983, funcionário da União Europeia, radicado em Bruxelas; José Morais, exilado na Bélgica em 1968, neuropsicólogo, ensaísta e romancista, foi professor na Universidade Livre de Bruxelas; e ainda Jorge de Oliveira e Sousa, politólogo, exilado igualmente na Bélgica em 1966, poeta e ensaísta, leccionou na Universidade Católica de Lovaina e, entre outros cargos, foi funcionário da Organização das Nações Unidas.

O livro está estruturado em quatro partes correspondendo a quatro conversas à mesa. Em cada uma delas um dos participantes lidera a discussão, começando por falar das suas experiências diaspóricas e do seu relacionamento com Portugal. Haveria um quinto comensal, um tal António Godinho, antigo colega no Liceu Camões, que anunciara a sua ida a Bruxelas e o seu querer reencontrar-se com os antigos colegas, mas acabou não aparecendo nunca, servindo todavia de tema de conversa como figura simbólica, a ponto de o seu nome ser estampado na capa em trocadilho com o título da clássica peça de Samuel Beckett.

São quase quatrocentas vivíssimas páginas, altamente informadas, pejadas de argutas observações e cumplicidades, eivadas de uma profunda relação com a pátria-mãe, não a fábrica de saudades doentiamente carregadas às costas ou na bagagem, mas amada mesmo na distância e sem a mórbida vontade de quem acha que viveu mal uma vida porque longe do ninho. Qualquer um dos comensais (que mais portuguesa maneira poderiam os autores conceber, a demonstrar que mesmo no exílio e, depois, na diáspora voluntária, nunca desdenharam esse gosto tão luso de uma boa comezaina? - é ver como falam da ementa e das suas criações gastronómicas!), tudo conversado num português a preceito, lavado e rico, modernizado na directeza, mas tocado sempre pelo paladar de quem sabe que uma palavra pode sair seca sabendo no entanto melhor se retocada a jeito.

São variadíssimos os temas, inúmeros mesmo, porque diversas foram as trajectórias de cada um dos autores, apesar das muitas semelhanças e dos cruzamentos entre si. O facto de, sendo todos bilingues, se sentirem em casa na língua portuguesa, cordão umbilical que os liga ao torrão-berço, faz com que, até nas divergências políticas e ideológicas em geral, que mantêm e cultivam entre si, Portugal seja a praça pública onde a mesa belga, em torno da qual se sentaram nos dias destas conversas, parece ter os pés assentes algures entre o rio Minho e a costa do Algarve no sentido norte-sul, e a fronteira de Espanha e o Atlântico no sentido este-oeste, que o mesmo é dizer no Rectângulo do nosso (des)contentamento.

Fui devorando as páginas sempre com vontade de entrar na conversa, de meter a minha colherada para acrescentar um ponto, aduzir outra experiência, corroborar uma afirmação com mais alguns dados colhidos do lado de cá do rio Atlântico porque, sendo embora francófono e europeu o universo dentro do qual decorrem e discorrem estas conversas, daqui do lado ocidental e num universo anglo-americano eu sentia-me fortemente atraído pela semelhança de vivências e passados. Como português, só me apetecia interromper rudemente a conversa sem pedir licença e atirar à mesa as minhas histórias e comentários.

Tudo isto para mostrar quão estimulante e envolvente me foi a leitura destas páginas, recheadas de ideias, de golpes de olhar longe-perto sobre a cultura portuguesa, cultura aqui tomada no seu sentido mais genérico - a maneira portuguesa de se estar nas mais diversas facetas e manifestações.

Passagens citáveis há-as em abundância, tantas que acabarei reproduzindo apenas uma. Iria ter de retirá-las do contexto e tornar algumas demasiado duras, fazendo-as produzir efeitos negativos, algo definitivamente longe das minhas intenções ao vir aqui publicitar este livro. Na verdade, há páginas contundentes, mas sempre de crítica certeira e dirigida por alguém que gostaria deveras de não ter de apontar tais mazelas à pátria.
Repensando melhor a decisão expressa no parágrafo anterior, incluirei aqui um parágrafo de José Morais por se tratar de uma passagem que capta magnificamente o espírito que enforma o livro e encena o ambiente onde algumas críticas negativas são feitas.  O comensal dirige-se  directamente a Portugal nestes termos:

“Correndo o risco da solenização e do enfatuamento, deixem-me, amigos, num momento de mansa loucura, dirigir-me ao Portugal que está aqui a flutuar entre nós por sobre a mesa:

Terei tempo ainda para ti, Portugal, os teus belos lugares e múltiplos prazeres e o convívio da nossa língua. Mas não quero. Os teus prantos e queixumes desgostam-me. Sou um português de além, livre e feliz! Tenho o gosto do Universo, quero ser rico de países, não de pátrias. Os meus sonhos não morrem por ti. Porque então viveria em ti a última margem da minha vida? Desvinculado das antigas certezas e ultrapassados os renitentes barrancos, compartilho de alguma magia tua que se transmitiu a todos os meus filhos. Venha qualquer acontecimento desportivo mediático e logo vibram por ti, Portugal, mesmo quando o teu adversário é a Bélgica, país onde três deles nasceram… Não és mais Estado ou Nação, és um coração secreto  a aguardar-nos em encontros e recantos inesperados.” (p. 262)

São assim as muitas páginas deste livro: portuguesmente exaltantes e entusiasmadas no elogio e na crítica, com a diferença de nenhum dos comensais sofrer do mal de lamúria, do queixume ou da tristeza que no Rectângulo grassam como erva daninha. São arejadas, de brisa fresca e vistas largas, modernas sem modernices, atentas e intervenientes como, aliás, tem sido a vida de cada um dos seus autores. Aqui falo de cor porque, pessoalmente, só com Manuel Paiva os quase acasos da vida me têm proporcionado encontros em cruzamento de caminhos. Disse-me ele num e-mail que o livro afinal não vendeu muito. Outro injustamente à espera… de leitores. Os que lhe chegarem, de certeza que também sentirão ter valido a pena sentarem-se à mesa com estes portugueses, mesmo sem acesso às iguarias, a não ser as das conversas.

                                               Onésimo Teotónio Almeida


1 comentário:

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