sábado, 12 de julho de 2014

AVOLUMAM-SE AINDA MAIS VOZES EM FAVOR DA CIÊNCIA EM PORTUGAL

Transcrevem-se excertos de uma notícia do PÚBLICO que dá conta não só da intenção do grupo parlamentar do PCP de ouvir a secretária de Estado da Ciência Leonor Parreira, como de várias vozes decontentes com o processo de avaliação das unidades de investigação.

O grupo parlamentar do Partido Comunista Português (PCP) requereu no Parlamento, esta quinta-feira, uma audição à secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, sobre o processo de avaliação às unidades de investigação realizada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tutelada por Leonor Parreira e pelo ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato.

Os deputados comunistas declaram terem-lhes chegado, “da parte de toda a comunidade científica, profundas preocupações quanto ao processo de avaliação e quanto às consequências que daqui decorrem – a redução drástica do financiamento, quer por via do impedimento de passagem à fase seguinte de avaliação quer por via da classificação”.

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Também o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) considerou esta quinta-feira, em comunicado, que os resultados da avaliação às unidades de investigação “colocam em causa o futuro dos centros”, que defende ser indispensáveis para o trabalho científico, o ensino superior e o “desenvolvimento das regiões”.

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Também a reitora da Universidade de Évora, Ana Maria Costa Freitas, apontou “bastantes discrepâncias na avaliação”, dando como exemplo “painéis com critérios nitidamente diferentes” e “resultados díspares e afirmações que, em alguns casos, são quase ofensivas para a ciência em Portugal”. Seis centros de investigação ligados a esta universidade (entre os dez que lá existem que foram avaliados) não passaram à segunda fase da avaliação, o que, para a reitora, significa “perda de financiamento plurianual”.

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E o coordenador do Centro de Linguística da Universidade do Porto, João Veloso, admitiu, em declarações à Lusa, que esta unidade corre o risco de encerrar por falta de financiamento, ao perder, a partir de Janeiro, os 50.000 euros anuais que recebia. É o único centro exclusivo do tema no Norte.

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João Veloso considera a avaliação atribuída “muito injusta, muito drástica e sobretudo muitíssimo mal fundamentada”, salientando que houve dois linguistas num painel de 16 elementos para avaliação da área de Humanidades.

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Centros de investigação da Universidade de Coimbra manifestaram, igualmente, o receio do seu fim, com Constância Providência, coordenadora de uma das entidades lesadas, o Centro de Física, a evocar “argumentos errados” na avaliação.

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A Sociedade Portuguesa de Química (SPQ) foi outra das vozes a pronunciarem-se: “É com profunda preocupação que a SPQ observa o resultado da primeira fase do processo de avaliação efectuado pela FCT aos centros de investigação de química do país. Em particular, assinala o facto de vários centros de química, de Norte a Sul de Portugal, não terem passado à segunda fase do processo de avaliação, o que na prática condena à sua provável extinção. Se considerarmos o conjunto dos centros de investigação cuja área dominante é a química, estes representam 50% do total dos centros desta área científica em Portugal.”

11 comentários:

  1. Tendo em conta que os piores receios previstos pelo Conselho dos Laboratórios Associados no seu comunicado emitido em março se tornaram realidade, esperar-se-ia uma reacção da sua parte.

    E, já agora, o que pensam as Sociedades de Física e Matemática?

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  2. Já alguém pensou numa PROVIDÊNCIA CAUTELAR? Pelo(s) Sr(s) Reitor(es), por exemplo.

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  3. Penso em qual seria a atitude de David Marçal, ou outro qualquer destes conceituados cientistas que estão muito indignados, caso lhe fosse atribuída a decisão de reduzir despesas neste sector, tal como se está a proceder noutros com estatutos inferiores. Se as ordens dadas fossem de separar trigo do joio, ou escolher a crema, em detrimento dos trabalhos menos cremosos, qual seria a sua atitude?

    Será que não aceitava o encargo e assim se livrava de críticas? De onde se deduz que a posição de juiz nem sempre deve ser agradável. É muito melhor gritar desde as bancadas.

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    1. De acordo com o Presidente da FCT o financiamento não diminuiu. Os problemas aqui são de outra ordem. Estou de acordo que há propostas mais relevantes que outras e que deve haver uma diferenciação. Diferenciação essa que, diga-se de passagem, já havia. Aquilo em que não estou de acordo é o seguinte:

      1. penso que esta avaliação não é capaz de fazer essa separação; as avaliações anteriores foram, de facto, feitas por pares de forma abrangente, o que não é o caso desta.

      2. uma política em que há uma quantidade muito significativa de unidades que ficam sem nada (ou praticamente nada, que é equivalente) já é extremamente arriscada quando os painéis sabem o que estão a fazer; quando, como acredito ser o caso aqui, não só não são constituídos apenas por pares mas por cima está-se a fazer cortes em que unidades que são pelo menos do mesmo nível ficam de fora, pode ter consequências catastróficas.

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  4. Caro anónimo das 00.59 . A sociedade portuguesa de matemática (spm) é uma coutada do crato. O m. abreu é um seguidor do trabalho do crato enquanto presidente da referida associação. Está sempre tudo bem. Basta ver os comentários da spm acerca do exames nacionais (e comparar com a apm). Curiosamente andava por aqui assim um tal de oliveira que tb pertencia ao gangue do crato dos tempos da spm e que entretanto desapareceu .....

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  5. Caro Albert V. Em teoria a sua observação é pertinente. Na prática, o que se passa/tem passado é outra coisa. Não há qq tipo de separação do trigo do joio. Há sim saneamentos políticos sumários (explique-me lá como o IT é joio). É claro que há que estabelecer prioridades. E eu tb sou de opinião que entre financiar centros de investigação e bancos a escolha deve recair nestes últimos (que são os únicos com capacidades mágicas de inventar números em computadores, vulgo, dinheiro).

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    1. Ao Anónimo Anterior

      Por favor, não tentemos confundir tudo. Como pode imaginar eu não sou apologista, muito pelo contrário, de financiar bancos com a penúria dos cidadãos. Considero até uma abuso vergonhoso, só decidido por aqueles ELEITOS que se beneficiam das suas decisões.

      Mas tampouco acredito que todas os projectos de investigação tenham o mesmo valor e interesse nacional. Deve haver melhores e menos melhores, para não os qualificar de piores. Se for imperioso estender os sacrifícios ao sector dos sábios, paciência, acontece até aos mais formosos.

      Opinar que a rejeição caiu, exclusivamente, sobre aqueles que não eram da cor política considerada favorável é, humanamente, rejeitável, quase que inacreditável. Voltávamos aos tempos mais negros da ditadura. Não consigo acreditar. E que conste que não morro de amores pela situação partidária, em nenhum dos dois partidos maioritários.

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    2. Voltámos a tempos mais negros! Na ditadura toda a gente conhecia as regras, agora não!

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  6. O que está em causa, neste processo, não é o não financiamento de unidades cujo desempenho anterior pode não justificar o financiamento proposto. O que está em causa é o modo como o processo foi conduzido: i) avaliação que não foi feita por pares; ii) avaliação não presencial, isto é, as unidades, mesmo as maiores, foram avaliadas (na 1ª fase) sem uma visita prévia dos avaliadores ou peritos aos laboratórios; iii) há grandes discrepâncias entre os relatórios dos peritos individuais e os relatórios de consenso, que em muitos casos se vê ser para eliminar intencionalemente a unidade em causa; iv) alguns dos relatórios individuais têm comentários hilariantes e insultuosos, como, por exemplo, referências a uma mentalidade colonialista, a contagem inadequada do número de investigadores para calcular médias, a análise incompleta da informação disponível para a avaliação expressa no relatório de consenso; etc., etc. E o facto de SE SABER que foram dadas instruções aos painéis para limitar passagens à segunda fase, que membros dos painéis contestaram, mas acabaram por aceitar mediante a posição intransigente da FCT.

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  7. Caro Albert V.
    obrigado pelo seu comentário. Estamos genericamente de acordo. Em particular sou a favor de uma selecção criteriosa de centros de investigação.
    Dito isto, queria-lhe também dizer que por ter passado pelo processo (pertenço a um centro que inclusivé passou à segunda fase) este ano foi particularmente caótico. E neste concurso houve de tudo. No processo de candidatura por ex., foram pedidos elementos e fixados critérios já muito próximo do final do prazo (ex. o registo Orcid e a mudança para a Scopus). Por outro lado muitas instituições ordenaram que todos os seus docentes tinham que integrar os centros das respectivas instituições desvirtuando e destruindo muitos grupos de trabalho com vários anos de existência.

    De qq modo a questão fundamental é: Qual a razão para tanta trapalhada ? Não concorda que as regras devem ser claras, estáveis e conhecidas atempadamente ? Pq fazer tudo em cima do joelho ?

    Será incompetência ? E dados os resultados, como distingue incompetência de agendas pessoais, interesses políticos, etc ?

    Cumprimentos

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    1. Resposta um pouco tardia, mas que já é uma segunda via, tendo-se perdido a primeira.

      Dizia, no texto perdido, entre outras coisas, que concordando consigo quanto a ser indispensável ter regras claras, estáveis e conhecidas atempadamente, lhe dizia que esta forma de proceder, correctamente, não é tradicional neste cantinho. Inclusive as leis dos códigos estão redigidas com textos labirintos e propícios a muitas interpretações, favoráveis para uns e punitivos par outros.

      Historicamente sempre se mantiveram duas leis fundamentais: A lei da rolha e A lei do funil. Pensar em alterar esta maneira de andar pelo mundo não me parece fácil. Só se algum centro que ainda não foi eliminado se dedicar a mudar os hábitos vigentes.

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