domingo, 29 de agosto de 2010

O QUE É E O QUE NÃO É A CIÊNCIA


Trecho do meu livro "A Coisa Mais Preciosa que temos" (Gradiva), que está esgotado:

Embora se possa dizer sumariamente que a ciência é a “busca do erro” definir a ciência é pano que dá para muitas mangas. Decerto que haverá unanimidade se se disser que a arte ou a religião, apesar de serem dos mais notáveis empreendimentos humanos, não são actividades científicas. Por outro lado, ninguém duvida que tanto a matemática como a física são ciências, apesar de terem metodologias e critérios de validação muito diferentes. Mas, por exemplo, as chamadas ciências jurídicas ou as ciências da comunicação serão ciências?

Na matemática ou na física existem alvos precisos a atingir (o rigor lógico-formal e a descrição correcta das leis da Natureza) e sobre eles fazem os matemáticos e os físicos esforçada pontaria. Mas, nas ciências jurídicas ou nas ciências da comunicação, só para continuar com os mesmos dois exemplos, vemos que muita gente atira para qualquer lado e por vezes de qualquer maneira. Depois pintam o alvo à volta dos locais de impacto dos seus projécteis.

Cientista é aquele homem ou mulher que admite que falhou a pontaria. Se um jurista ou um teórico da comunicação estiverem prontos a admitir que as suas respostas a uma qualquer questão estão erradas e devem, portanto, ser substituídas por outras, do próprio ou de outrem, estarão de pleno direito na comunidade dos cientistas. Claro que esta definição remete para outra, a definição de erro. Mas, por mais difícil ou controversa que seja a definição de erro, um matemático ou um físico sabem reconhecer quando se lhes aponta um erro (há excepções, claro, que só servem para confirmar a regra). Mas nem sempre outros profissionais admitem os erros com a mesma rapidez, com o mesmo ou pelo menos semelhante desprendimento.

Como é que os cientistas evitam a publicação e a conveniente disseminação de erros? É uma questão de cuidado. Tomam todos os cuidados e mais alguns. Esta porfiada preocupação por evitar o erro é uma das marcas maiores da actividade científica, que pode evidentemente ser aplicada aos mais variados tipos de estudos: os objectos podem ser os números e as formas, os átomos e o seu movimento, ou ainda as leis humanas ou os meios como os humanos comunicam. Por outras palavras, abrange tanto as ciências exactas e naturais como as ciências sociais e humanas. A metodologia científica passa, numa certa fase, pela comunicação por um autor da sua descoberta (é preciso que haja descoberta, isto é, se tenha algo de novo) de uma maneira clara e simples (é falso que os cientistas procurem a obscuridade nos seus processos de comunicação, pese embora o aparente hermetismo de alguma linguagem disciplinar para quem a não tenha aprendido). E nada é publicado que não passe pelo crivo apertado de um sistema de avaliação pelos colegas especialistas no mesmo assunto. Normalmente, usa-se a terminologia anglo-saxónica: avaliação diz-se “refereeing” (literalmente, arbitragem) e os colegas são os “peers” (literalmente, pares). Como diz o físico e matemático Jorge Buescu, no seu livro “O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias” (Gradiva, 2001):

“O valor científico de um artigo publicado, nem que fosse por Albert Einstein, numa publicação sem sistema de ‘refereeing’ e ‘peer review’ é nulo (...) Publicações não validadas pela comunidade científica através de refereeing valem zero. São meras opiniões, talvez interessantes, mas com tanto valor científico como o editorial do jornal de domingo”.

Como é muito fácil errar, este foi o sistema inventado pelo homem para errar menos. O empreendimento científico consiste em procurar errar cada vez menos e o método científico, que inclui a juzante o “refereeing” pelos “peers” é a maneira prática de conseguir esse desiderato.

Então o que não é a ciência? Toda a actividade humana, por muito interessante e relevante que eventualmente seja, que não admita o elemento de contestação e, por isso, recuse o papel fulcral da avaliação. Não há nenhum mal em a praticar, pois o homem tem dimensões mais latas que a dimensão científica (tem emoções, crenças, etc., que não podem estar erradas). Mas curioso é o número de actividades humanas que imitam toscamente a ciência (poder-se-á dizer mesmo, sem querer ofender ninguém, que “macaqueiam” o método científico) sem nunca chegarem a ser uma pálida sombra do que é a ciência. Erram abundantemente, o que é natural porque não têm nenhum processo de o evitar, mas nunca ou raramente o admitem. Disparam para todo o lado e nunca ou raramente acertam (repare-se como as palavras “disparar” e “disparatar” estão tão próximas...).

Qual é o lugar da ciência num mundo onde a não-ciência prolifera? Não devemos ser demasiado pessimistas. Quando uma paraciência, pseudociência, ciência alternativa ou seja lá o que for pretende passar por ciência está, sem querer, a prestar uma boa homenagem à ciência. A ciência tem, bem vistas as coisas, um valor que é reconhecido por todos.

11 comentários:

  1. Sagan, o célebre divulgador da ciência, escritor de muitas obras, num dos seus livros, nomeadamente um mundo infestado de demónios, têm um capítulo intitulado " A arte de detectar disparates" onde nos brinda com um "kit para detecção de disparates", um bom instrumento para o pensamento céptico, como refere o autor, este kit composto de cerca de uma dezena de itens dá-nos uma preciosa ajuda na distinção do que é ciência e do que não é. Não se esgota aqui, mas é um bom principio.
    Bastava para isso que as pessoas lessem as páginas 213 e 214 deste livro e evitar-se-ia muita confusão e muito engano..

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  2. Mas que artigo tão antipático para as «ciências jurídicas» e para as «ciências da comunicação»! Falando do direito, que é o que conheço, veja o Carlos, por exemplo, que esta é uma «actividade humana» que admite plenamente «o elemento de contestação e» «o papel fulcral da avaliação.» O Carlos não acha disparatado pensar que os juristas académicos deste mundo «atiram para qualquer lado e por vezes de qualquer maneira» e depois é que «pintam o alvo»? Supondo que o Carlos está mesmo a falar das «ciências jurídicas», e não das bocas que se ouvem na televisão (também há bocas tolas de físicos e biólogos...), não deveria pensar melhor naquilo que disse? Sugestão aos leitores deste blogue: esqueçam o artigo do Carlos Fiolhais e leiam este da SEPh: http://plato.stanford.edu/entries/pseudo-science/

    Um abraço do vosso
    Velho

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  3. Olá
    Embora continue a ler com agrado os vossos artigos, não consigo olhar com seriedade este "velho positivismo do Restelo". Mea culpa.
    Cumprimentos
    Maria

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  4. Ninguém duvida que a Matemática seja uma ciência? - Portanto, não sabe que há muito boa gente que defende que a Matemática é uma linguagem.

    Descrição correcta das leis da Natureza? - Que leis são essas que na epistemologia actual já quase ninguém defende que existam?

    A Ciência é a arte de admitir o erro? - Todos nós somos cientístas, portanto. Não terá mesmo nada a ver com conhecimento?

    Como é usual nos textos do Carlos Fiolhais, logo nas primeiras linhas é fácil perceber que ele não está a perceber nada. O livro está esgotado? Ainda bem, que de má literatura está o mundo cheio. Agora faça lá um favor a si mesmo e vá lá reler o Popper com mais atenção, que se nota que ele é o seu mentor nesta questão.

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  5. José Batista da Ascenção30 de agosto de 2010 às 14:11

    Eu creio que o Professor C. Fiolhais poderia ter-se servido muito mais apropriadamente das chamadas teorias da educação que inundaram e prejudicaram os sistemas de ensino nos últimos trinta anos, do que referir-se às ciências jurídicas e da comunicação. Ele saberá porque o não fez.
    No tempo que levo como professor, ininterruptamente, sempre com várias turmas atribuídas, "olho" para trás e nem um sorriso amarelo consigo quando penso nos chamados "métodos de inquérito científico", uns labirintos que deixavam absurda e inutilmente saturados alunos e professores, a "aprendizagem pela descoberta", o "aprender a aprender", a "metodologia do trabalho de projecto", as "metodologias de avaliação: diagnóstica, formativa, sumativa, auto-avaliação, heteroavaliação, avaliação pelos pares"; o "trabalho de grupo", o "trabalho de pares", o trabalho do "grupo-turma", o "trabalho de pesquisa", as "concepções alternativas ou ideias prévias ou saber prévio dos alunos", a "detecção do interesse dos alunos", as "técnicas de sensibilização prévia", a "importância dos meios audiovisuais", desde como construir diaporamas até aos actuais e fastidiosos "power-points", a "importância da disposição dos alunos na sala de aula: em grupo, em U, frente a frente...", a "importância do lúdico na aprendizagem", os "mapas de conceitos", os "Vês de Gowin", a importância das "apresentações e representações", a "importância da construção do saber", a "aprendizagem significativa" e tal, e tal e tal, para não ser mais maçador.
    Tudo, menos estudar - queimar as pestanas, como se dizia na gíria dos estudantes de algum tempo -, cheio de rigor científico, de acordo com as teses de distintas personalidades, que o futuro cobrirá com o manto do esquecimento, como acontece já com muitas daquelas ideias, que nem os seus autores defendem.
    Entretanto, restam ainda professores antiquados (é preciso abatê-los!) que assumem a pedagogia mais como uma arte do que como ciência (bem sei, bem sei, um dia aparecerá um Einstein da pedagogia, com a fórmula mágica e o algoritmo certo, pelo que temos que contentar-nos entretanto com alquimistas, cheios de convicção)e, escandalosamente, recomendam aos seus alunos:
    aprender, aprender, aprender.
    estudar, estudar, estudar.
    saber, saber, saber.
    E que se divirtam, quando puderem.
    Alguém falou de eduquês?
    Nããããããããããããã...

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  6. Na Faculdade de Direito, que o mesmo é dizer, Faculdade das Ciências do Direito as Ciências Jurídicas ocupam um espaço adequado.

    Acresce que, apesar da Matemática constituir “a única ciência exacta em que nunca se sabe do que se está a falar nem se aquilo que se diz é verdadeiro” (Bertrand Russel), ela não impede o acesso à Faculdade de Direito da Universidade Católica, considerando que os exames de Matemática os permite.

    Usando a fórmula simplista socrática:
    q.e.d., Direito e Matemática são Ciências.

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  7. Análise do argumento:
    Premissa 1: "a ciência é a “busca do erro”", "Cientista é aquele homem ou mulher que admite que falhou a pontaria";
    Premissa 2: "Publicações não validadas pela comunidade científica através de refereeing valem zero";
    Conclusão do argumento: "Então o que não é a ciência? Toda a actividade humana (...) que não admita o elemento de contestação e, por isso, recuse o papel fulcral da avaliação."
    Crítica do argumento: falácia de evidência suprimida. Pois para se chegar à conclusão, após a 2ª premissa, creio impor-se uma 3ª que restrinja a não validação por refereeing à conjunção na conclusão entre não admitir contestação e (supostamente em decorrência) recusar a avaliação; parece-me porém evidente que um autor que publique sem avaliação por pares está apenas a sujeitar o texto ao juízo dos leitores 3,4,... n, saltando sobre os leitores 1 e 2 (que seriam os avaliadores prévios). Assim, uma de duas: ou pelo menos um destes 2 alcança o ponto de vista de Deus, merecendo total confiança... e ultrapassando a ciência porque já não haveria margem para erro a reconhecer, pelo que as suas leituras não têm valor numa publicação dita "científica"; ou são ambos "cientistas", logo podem errar, logo não se podem substituir às leituras 3-n.
    Súmula: a avaliação por pares é tão mais útil quanto menos preparado for o leitor na matéria do texto; e potencialmente tão mais perniciosa quanto mais original for o texto... Entretanto o que importa não são as pessoas, e menos ainda os seus estatutos académico-sociais, que avaliam, mas os processos de avaliação, os quais podem ser implementados por qualquer leitor 1-n (sem privilégio de quaisquer destes). Instância dessa forma será aliás este mesmo artigo de Carlos Fiolhais (e porventura o livro de Jorge Buescu), que aqui o sujeita directamente aos juízos 3-n, e diversos leitores antes de mim não precisaram da tutela dos pares para, cientificamente, lhe apontarem um erro epistemológico.

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  8. Sobre o peer reviewing, aconselho-lhe a leitura deste artigo recente do New York Times que aborda a "Web review" já testada em algumas comunidades científicas .
    http://www.nytimes.com/2010/08/24/arts/24peer.html

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  9. O físico-matemático francês Henri Poincaré tem precedência sobre Einstein na teoria da relatividade restrita, quando criticava, no sentido positivo, os trabalhos de Lorentz sobre a teoria do electrão. Tratou-se do um génio (lembremos a fama da recente prova da sua conjectura em variedades) que primeiro descobriu a famigerada relação E=mc2 e o conceito do espaço-tempo (incluindo as ideias na sincronização de relógios).
    Fiz este pequeno preâmbulo (que não é inválido) para divulgar um texto seu: La Science et l'hypothèse que pode ser lido em http://www.univ-nancy2.fr/poincare/bhp/sciencehypothese.xml

    É possível aí ler uma série de interessantes reflexões sobre a ciência física.

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  10. O a rasgação de ego nos comentários é impressionante. Simplesmente porque o rapaz não considerou a falsa denominação científica dos cegos por sua profissão.

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3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.