sábado, 15 de agosto de 2009

"O difícil exame para corrermos o risco do futuro"

Sobre os exames uma reflexão do sociólogo italiano Francesco Alberoni, constante no seu livro O Optimismo, publicado entre nós pela Bertrand em 1995 (páginas 84-85).

“A vida, na sua essência, na sua estrutura, é projecto e risco. Há sempre um momento em que ficamos suspensos à espera (...). Não compreendo os pedagogos que pretendem acabar com os exames nas escolas. O exame é parte integrante da educação. Não compreendo os pais que pretendem evitar esse stress aos filhos. Viver significa prever, calcular, dominar o stress.

Só quando temos que enfrentar um exame é que nós nos apercebemos do que podíamos e devíamos ter feito. Antes tendemos a deixar-nos embalar pelas ilusões, a imaginar o mundo como nos gostaria que fosse (...). Em todas as alturas, devemos procurar adquirir sempre o estado de espírito próprio do dia que antecede a batalha, para ver se não nos enganámos em nada, se não nos esquecemos de um pormenor importante (...) Devemos reproduzir o melhor possível a realidade, a angústia da realidade, a incerteza da realidade (...). Só (...) aceitando até ao fim o difícil exame, nós podemos correr o risco do futuro.”

5 comentários:

  1. Quando o ministro Marçal Grilo introduziu os exames para conclusão do ensino secundário, há mais de uma década, defendi essa medida porque entendia que ela servia um propósito que me parecia louvável: avaliar de forma nacional os conhecimentos dos alunos, colocando-os num plano de igualdade. Penso que de uma forma global os exames, desde que tecnicamente bem feitos, o que, infelizmente, muitas vezes não sucede, podem constituir um instrumento de estímulo ao trabalho de professores e alunos.
    Todavia, vejo com alguma apreensão que alguns comentadores da nossa praça da "coisa educativa" vejam os exames como o "Santo Graal" que poderá salvar a educação do nosso país. O caso de Nuno Crato vai nesse sentido. Os exames não constituem um fim em si mesmo. Há 40 anos existiam muitos exames no no nosso país e não parece que a nossa educação da altura fosse de excelência. Aliás todos os indicadores dizem precisamente o contrário.

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  2. Como aluno, confirmo que aquilo que o excerto descreve é completamente verdade.

    Nós até podemos estudar com antecedência, por curiosidade em saber as coisas ou para ir preparando o estudo. Tal é importante e recomendável. No entanto, chegado o final dessa fase, o aluno tem uma ideia geral da matéria que estudou, mas muito dificilmente a sabe pormenorizadamente (mesmo que o tenha tentado fazer). Só a consciencialização de que vai ter um exame o faz estudar e preparar-se de forma intensiva, e, como tal, é a fase que mais contribui para que o aluno saiba de facto a matéria. No entanto, noto que o processo de aprendizagem não se fica por aí. Só depois do exame terminado é que verificamos muitos erros que fizemos e muitas coisas que podiamos ter feito melhor. E desses erros retiram-se as maiores lições.

    Para além disso, este excerto refere uma ideia que raramente é discutida, mas que me parece bastante importante. Uma vez disseram-me que os exames eram injustos porque um aluno que fosse com stress iria sair-se pior do que um que fosse sem stress, mesmo se soubessem os dois o mesmo. Eu, pelo contrário, disse que por isso mesmo é que eram justos. Um exame também é (e só tem é que ser) uma forma de ensinar o aluno a controlar o stress. E essa é uma coisa muito importante para se aprender enquanto se é aluno, pois uma empresa não quer alguém que fique cheio de stress ao mínimo problema. Quanto mais testarmos o nosso stress, mais o vamos conseguir controlar nas próximas vezes.

    Cumprimentos,

    Miguel Galrinho

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  3. Esta conversa dos exames vai já bastante longa e eu confesso que já não tenho a mesma paciência para ela. Ainda assim, gostava de introduzir uma achega que me parece essencial mas que infelizmente não é discutida.

    Se não era assim no passado (o que é discutível), a verdade é que os sistemas de ensino actuais têm por base sistemas económicos. O que motivará mais os actuais "clientes" do sistema de ensino: a curiosidade ou a vontade de "vencer" nesse sistema económico?

    O último comentador refere que "uma empresa não quer alguém que fique cheio de stress ao mínimo problema". Bom, "uma empresa" é uma figura de estilo, porque as empresas não pensam nem sentem. Mas é certo que os empregadores preferem empregados que trabalhem bem em qualquer circunstância. Sim.

    Na realidade os empregadores preferem empregados que trabalhem com eficiência e eficácia durante 16 horas diárias, 7 dias por semana, que se contentem a receber apenas o salário mínimo, que não contestem as decisões dos superiores, que se relacionem bem com todo o tipo de pessoas e em todas as circunstâncias, que nunca se esqueçam de nada, que sorriam, que não misturem os problemas domésticos com os profissionais, que sejam auto-didactas na sua formação, que tenham os seus próprios telemóvel, automóvel, computadormóvel, que sejam criativos sobre novas formas de conseguir "aumentar o mercado", que isto e que aquilo e de preferência que não tenham muitos escrúpulos.

    Consequentemente, sendo este o produto da realidade económica que temos, o que tem sido dito acerca do sistema de ensino faz todo o sentido. Concordo com o que é afirmado acerca dos exames.

    Mas sinceramente essa é uma discussão que me parece menor quando comparada com esta, subjacente e bem mais consequente, de saber que tipo de pessoas queremos e que tipo de sociedade queremos.

    Consigo ouvir já as respostas "ah, mas claro que queremos pessoas responsáveis, cumpridoras, que se esforçam, que têm muito conhecimento, que o sabem aplicar, que isto e que aquilo".

    Ai sim?... Queremos isso para quê? Para podermos competir com os chineses no mercado global? E isso é uma corrida que nos conduz onde? E quando eles forem realmente melhores que nós? Tentaremos choques eléctricos? Matemática formal e inglês desde os 2 anos de idade? Pós-pós-pós doutoramentos? Sistemas ainda mais elitistas que garantam a selecção de apenas os melhores dos melhores dos melhores (em quê)?...

    É isso que queremos realmente?
    Que espaço haverá no sistema de ensino perfeito desse futuro risonho para um pouco de humanidade? Humanidade... gozo, desfrute, diversidade, paciência, empatia, heurística, cooperação, integridade, e mais isto e mais aquilo... Ou deveremos acreditar que há algum tipo de deus mais poderoso que nós a comandar isto tudo e a ditar que assim não pode ser?

    Isso é que eu gostava de ver debatido!

    Alexandre Wragg Freitas

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  4. A propósito de exames.
    No Editorial de hoje do PUBLICO fala-se da campanha de Obama em conseguir que nas escolas americanas um dos factores de avaliação dos professores seja os resultados dos alunos em exames.
    Dá que pensar, não é?
    Américo Oliveira

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  5. "Só quando temos que enfrentar um exame é que nós nos apercebemos do que podíamos e devíamos ter feito. Antes tendemos a deixar-nos embalar pelas ilusões, a imaginar o mundo como nos gostaria que fosse (...)."

    Há uma passagem no poema O Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa (Alberto Caeiro):

    XLI

    No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
    Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
    Que passa, um momento, uma leve brisa...
    Mas as árvores permanecem imóveis
    Em todas as folhas das suas folhas
    E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
    Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
    Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
    Fôssemos nós como devíamos ser
    //
    E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
    Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
    E nem repararmos para que há sentidos ...
    Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
    Porque a imperfeição é uma cousa,
    E haver gente que erra é original,
    E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
    Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
    E deve haver muita cousa
    Para termos muito que ver e ouvir. . .

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