quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

MARIA FILOMENA MÓNICA E O SEU PAÍS


Minha recensão no I de hoje:

Quando, em 2014. me foi dado dizer, no Centro Cultural de Belém, umas palavras de apresentação do livro A Sala de Aula, de Maria Filomena Mónica (MFM), publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, comecei por referir a numerosa bibliografia da autora. Para o provar, enchi uma mochila com livros da sua autoria, que retirei da minha estante (não os levei todos porque não cabiam!), e fui-os acumulando na mesa à minha frente. Julgo que o momento foi gravado em vídeo, com a autora a ficar cada vez mais escondida pela montanha de livros!

No último livro de MFM, O Meu País. Notas sobre o Nacionalismo, saído em Novembro na Relógio d’Água, diz a badana que ela é autora de mais de duas dezenas de livros. Sendo verdade, não diz a verdade toda. Pelas minhas contas são mais de cinco dezenas, tendo eu pena de não ter a colecção completa. Ainda não consegui encontrar o primeiro, Educação e Sociedade no Portugal de Salazar (Presença, 1978), que é a tese em Sociologia que defendeu na Universidade de Oxford em 1978. MFM, licenciada em Filosofia na Universidade de Lisboa em 1969, é hoje investigadora emérita do Instituto de Ciências Sociais desta universidade.

A escola é uma das preocupações de MFM, um interesse que terá a ver com a sua formação académica em sociologia da educação. Sobre ela escreveu Vale a Pena Mandar os Filhos para a Escola? (Relógio d'Água, 2008) e Os Filhos de Rousseau (Relógio d'Água, 1997), onde contestou a teoria do construtivismo social que ganhou força entre nós, que é aparentada às ideias pós-modernistas. Na apresentação do livro enfatizei a originalidade da ideia de MFM, que consistia em dar voz directamente aos professores. Ela pediu a alguns deles que escrevessem diários da sala de aula garantindo-lhes o anonimato (era uma espécie de câmara oculta na sala de aula). A conclusão era que existia um clima de indisciplina, fruto da falta de autoridade dos professores, a qual, pelo menos em parte, tem a ver com a “centralidade no aluno” que aquelas doutrinas apregoam. O professor não tem por missão ensinar, mas apenas deve ser um “facilitador da aprendizagem” (sic).

MFM é uma das mais lúcidas observadoras da realidade portuguesa que ela conhece bem não só pela sua experiência de vida (nasceu em 1943 em Lisboa, com raízes em Ferreira do Zêzere), mas também por ter estudado a fundo a sua história mais recente. É autora de vários livros sobre os séculos XIX e XX portugueses: saliento as biografias de D. Pedro V (Temas e Debates, 2007), de Fontes Pereira de Melo (Afrontamento, 1999; reedição Alêtheia, 2009) e da família açoriana dos Cantos (Alêtheia, 2010, reedição 2018). Conhece a literatura desses séculos: a sua predilecção incide sobre Eça de Queiroz, de quem escreveu uma biografia (Quetzal, 2001; reedição, 2009) e cujas Farpas (Principia, 2004; reedição, 2013), escritas a meias com Ramalho Ortigão, editou. Como socióloga interessa-lhe a questão das desigualdades na sociedade portuguesa: escreveu sobre os dois extremos da escala social: duas das suas últimas obras são Os Pobres (A Esfera dos Livros, 2016) e Os Ricos (A Esfera dos Livros, 2018).

Porém, uma boa porção dos seus escritos são de pendor opinativo  e autobiográfico,  que têm proporcionado sucessivas recolhas de crónicas saídas em jornais nacionais.  A última é: Nunca Dancei num Coreto, Crónicas do Expresso (Relógio d'Água, 2018). Publicou as memórias aos 52 anos: Bilhete de Identidade, Memórias 1943-1976 (Alêtheia, 2005; reedição 2017) causou polémica pelo desassombro pouco habitual entre nós. Como MFM já viveu muito mais, talvez pudesse pensar na continuação dessas memórias.

Vou focar-me no último livro de MFM. O título O Meu País tinha sido também o título do primeiro capítulo de A Minha Europa (A Esfera dos Livros, 2015), obra em que ela abria e fechava no mesmo tom autobiográfico. Começava assim: “Quando nasci, a Europa estava em guerra, mas o meu país não. Quando atingi a idade da razão, a Europa desenvolvia-se, mas nós não”.  Agora começa: “A minha terra é Lisboa. Não considero que seja a melhor cidade do país, nem muito menos do mundo. Mas foi aqui que vivi e foi aqui que cresci. Gosto dos bairros onde vivi e de quem neles habitou”.

A obra, tal como o título indica, é um olhar sobre Portugal que parte de dentro, em contraponto com o olhar externo que está materializado no recente livro O Olhar do Outro (Relógio d’Água, 2020), onde MFM compila depoimentos sobre estrangeiros que visitaram o nosso país. No novo livro, embora o olhar da autora seja, como é seu costume, central (o título do livro não engana!), o recurso a depoimentos de estrangeiros é abundante. De facto, concordo com ela, só poderemos conhecer quem somos se acrescentarmos ao nosso olhar os dos outros, pois o nosso olhar está fortemente enviesado pela nossa cultura. Desculpamos coisas que os outros não desculpam.

Como leit motiv de toda a obra está a questão do nacionalismo e do patriotismo. MFM diz no final que descobriu a diferença, achando o nacionalismo uma coisa má e o patriotismo uma coisa: «Foi ao escrever este livro que compreendi serem o nacionalismo e o patriotismo coisas diferentes: o primeiro é inseparável do desejo de poder, enquanto o segundo é meramente defensivo. O facto de a minha pátria ser Portugal não me leva a pensar que seja a melhor do mundo: reconheço tão-só que foi aqui que nasci, foi aqui que cresci, foi aqui que tive filhos e netos. E agora, que me foge a curta vida, gosto mais dela porque finalmente me deu a oportunidade de pensar, falar e escrever livremente.”

A sua síntese histórica sobre Portugal e a portugalidade começa em 1848, quando ocorreram na Europa as revoluções nacionalistas que ficaram conhecidas por “Primavera dos Povos”. A autora não se perde a discutir teorias histórico-filosóficas sobre o nacionalismo (algumas muito interessantes, vejam-se O Mito das Nações, de Patrick Geary, 2008, e Nações e Nacionalismos, de Ernest Gellner, 1993, ambos publicados pela Gradiva), mas faz, nos sete capítulos que medeiam entre a introdução e a conclusão, uma sinopse da história pátria desde 1848 até 1985, quando Mário Soares assinou no mosteiro dos Jerónimos a entrada do país na CEE. Em 1848 já tinha terminado entre nós a revolta de Maria da Fonte contra Costa Cabral, mas ainda não tinha entrado triunfalmente em Lisboa o Duque de Saldanha, iniciando a Regeneração, período no qual Fontes Pereira de Melo pontificou nas obras públicas.

No capítulo 1, MFM discorre sobre a identidade nacional, citando, entre outros, autores como Eduardo Lourenço, José Gil e Onésimo Teotónio Almeida. No capítulo 2, descreve a preferência de alguns intelectuais lusos sobre uma aliança estrangeira, com a Espanha, com a qual existe proximidade geográfica, ou com a Inglaterra, com quem celebrámos o tratado de Windsor, um dos mais antigos tratados políticos do mundo. Antero de Quental, que achava a decadência um problema comum da Ibéria, foi um dos autores que defendeu a União Ibérica. MFM prefere claramente Eça de Queiroz, mais dado aos ares para lá dos Pirinéus. Diverti-me imenso a reler uns excertos de Eça judiciosamente escolhidos pela autora.

A nossa explosão nacionalista é descrita no capítulo 3. Em 1890 ergueu-se um clamor nacional contra a Inglaterra, a velha aliada que tinha  humilhado Portugal ao exigir a retirada dos ocupantes portugueses de terras entre Angola e Moçambique  marcadas no “mapa cor-de-rosa”.  A nação cedeu, apesar dos gritos de indignação. A voz mais clarividente foi então, mais uma vez, a de Eça, que tinha sido cônsul em Bristol. Lembro que o hino nacional surgiu nessa altura de brado contra os “bretões”; que, em Angola, o explorador Silva Porto se imolou embrulhado na bandeira nacional; e que foi feita uma subscrição nacional para adquirir uma embarcação de guerra, que reforçasse a nossa depauperada marinha. No capítulo 4 MFM fala da agonia do regime monárquico: a sucessão de governos, o descalabro financeiro, o assassinato do rei D. Carlos e, finalmente, a revolução republicana, na qual bastaram poucos militares para que a coroa caísse.

O capítulo 5 trata a 1.ª República. O resumo não é famoso: “Ao fim de 16 anos de vigência, a República estava desacreditada. Enquanto durou existiram oito Presidentes da República, 45 governos, uma Junta Constitucional e uma Junta Revolucionária.” Fará em Outubro cem anos que ocorreu a “noite sangrenta”, na qual foi assassinado o primeiro-ministro António Granjo. O capítulo 6 aborda o “Estado Novo”, o regime do “orgulhosamente sós”, que MFM viveu na sua juventude e que a guerra colonial fez colapsar. E, no capítulo seguinte, é apresentada a Revolução dos Cravos, de que ela, no Largo do Carmo, foi  testemunha ocular.

O estilo de MFM prima pela clareza. Em contraste com a pena de alguns literatos nacionais, diz em frases curtas o que tem a dizer, na boa tradição anglo-saxónica. Vem daí, em boa parte, o seu êxito jornalístico e editorial. Não há entre nós muita gente a dizer o que pensa de uma maneira clara, pois ou dizem o que pensam de uma maneira obscura ou dizem o que pensam os outros, obscurecendo-o. O estilo de MFM pode ser exemplificado por uma frase tão simples e directa como esta: “Eu queria pertencer à civilização europeia, queria viver num país mais justo e, acima de tudo, queria ser livre”. Não são precisos rodriguinhos para se ser grandiloquente.

 

2 comentários:

  1. Sempre apreciei a frontalidade de Filomena Mónica dizendo o pensa e pensando o que diz. Obrigado Professor Carlos Fiolhais por este seu texto, com pinceladas biográficas, de uma Mulher de classe e muito bela.

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  2. Maria Filomena Mónica é uma socióloga que teve sempre a cabeça no lugar. Enquanto outras propunham medidas avulsas e antipedagógicas, como é exemplo a norma dos tempos letivos de 90 minutos para todas as disciplinas do ensino básico e secundário, só porque sim, a clarividente Maria Filomena Mónica teve a coragem de pôr o dedo na ferida que gangrena o nosso sistema de ensino: a indisciplina em sala de aula resultante da desautorização dos professores por parte dos governos democráticos que impuseram nas escolas portuguesas as ideias peregrinas dos construtivistas sociais e dos pós-modernistas. Eles defendem que o professor será tanto mais professor quanto menos ensine e, assim, mais facilite a aprendizagem dos alunos!
    O mal, a juntar à pandemia da Covid-19, é que a maioria dos professores e educadores de infância portugueses não têm a lucidez nem o espírito crítico de Maria Filomena Mónica.
    Sem ensino não há escola!

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