sábado, 20 de fevereiro de 2021

São favoráveis os ventos para concretizar a tão almejada dissolução da escola pública

Na continuação de apontamento anterior (ver aqui), reproduzo, com pequenos cortes, o texto assinado por Andreas Schleicher, Diretor da Diretoria de Educação e Habilidades da OCDE, publicado em 2020 com o título Future proof? Four scenarios for the future of schooling

A pandemia que nos acompanha há um ano constitui o terreno propício para esta organização, cada vez mais poderosa, reforçar a necessidade de dissolução da escola publica, da educação formal e do ensino. Melhores ventos não poderiam soprar a quem tem nas suas mãos o futuro destas e das próximas gerações.
“2020, ano de retrospectiva e de previsão, lembrou-nos que, apesar de planos excelen-temente traçados, o futuro gosta de nos surpreender. De modo a preparar os nossos sistemas educativos para o que pode vir, temos de considerar não apenas as mudanças que nos parecem prováveis, mas também aquelas que não esperamos. 
O futuro tem várias versões - algumas são suposições, outras esperanças e medos. Muito do nosso pensamento sobre o futuro é linear e baseado na extensão de tendências actuais. Mas as tendências desaceleram e aceleram, dobram-se e quebram-se, eventos imprevistos podem interromper tendências antigas, como acontece em virtude da pandemia de coronavírus (COVID-19). 
Quatro cenários para o futuro da escolaridade. Na ausência de factos concretos ou evidências sobre o futuro, o recurso a cenários pode ajudar-nos a identificar oportunidades e desafios para a educação. Os Cenários da OCDE são alternativas para o futuro da escolaridade [que nos] levam a pensar em resultados plausíveis de tendências actuais de reeducação e desescolarização - incluindo a expansão dos mercados de aprendizagem, pais cada vez mais activos e crescente investimento e papel das tecnologias digitais na ligação entre as pessoas, bem como o seu impacto na aprendizagem individualizada. 
Os cenários também se conectam à contínua discussão de como alavancar a motivação para a aprendizagem e tirar vantagem de suas formas informais e não formais. Os avanços tecnológicos estão entrelaçados com as mudanças e tendências na educação nas últimas décadas. 
Qual será o futuro da escolaridade? Uma questão-chave para pensar o futuro da educação é: em que medida as estruturas actuais ajudam ou atrapalham a nossa visão? Dito de outra forma, se nos encontrássemos com um marciano recém-chegado à Terra em busca de dicas para projectar o sistema educativo em Marte, o que lhe sugeríamos? Poderíamos sugeri-lhe começar com escolas e a escolaridade como as conhecemos e aconselhá-lo a modernizá-las e ajustá-las ao seu planeta? Ou poderíamos recomendar-lhe uma forma totalmente diferente de usar as pessoas, espaços, tempo e tecnologia? Quem estaria envolvido nesses processos de transformação e que período de vida ficaria abrangido (primeira infância? Idade adulta, alinhada com o mundo do trabalho? Ou toda a vida, incluindo os idosos (…)? 
A educação formal continuará a aumentar para todos os indivíduos? Ou as comunidades vão-se envolver mais na educação dos seus filhos, robustecendo a aprendizagem não formal e informal? As promessas da tecnologia educacional serão cumpridas? E, se for assim, isso levará a uma mudança constante ou, em vez disso, a uma ruptura radical? 
Os quatro cenários podem ajudar todos os actores, desde ministros e formuladores de políticas até professores, pais e alunos, a explorar questões no contexto da realidade local. 
O futuro não é uma terra mágica onde todos os problemas desaparecem. Pensar no futuro permite-nos testar suposições. Esta etapa é necessária no uso dos cenários. Não devemos pensar que no futuro todos os nossos problemas desaparecerão - na verdade, ele trará novos desafios. 
Os nossos sistemas educativos estão repletos de tensões e paradoxos (…). Os quatro cenários da OCDE para o futuro da escolaridade podem ser usados para inspirar, sonhar, transformar (…). Acima de tudo, impulsionam-nos a ir além das soluções fáceis, apresentando-nos tensões e paradoxos que atravessam as políticas e pesquisas educacionais. 
Esperamos que aproveite a viagem. Use-os com boa saúde. A pandemia COVID-19 lembra-nos que esses futuros alternativos não são um sonho distante, podem ser a nossa realidade amanhã.

3 comentários:

  1. O que torna o futuro mais apetecível é este presente sofrível, para não dizer deprimente. Há muita gente que se apazigua e encontra panaceias na imaginação do passado. Outros procuram sair do presente, o mais rapidamente possível, dispondo-se a pagar um preço por isso. Outros ainda, fazem todo o tipo de esforços para não saírem do presente, por várias razões, entre elas, não quererem voltar ao passado (como se isso fosse possível), nem quererem o futuro, onde, de certo, só há coisas más ou menos boas, tudo o mais tem de ser construído, edificado, com imenso esforço, muito mais do que aquele que é necessário, todos os dias, para que tudo continue na mesma.

    Mas o futuro já começou ontem.

    Os ovos do futuro já estão a incubar. Podem não eclodir todos, mas os que eclodirem serão mais determinantes do que os outros. Ovos de víboras e de serpentes, de pombas e de andorinhas, de peixes e de galinhas...E ovos de ouro...E muitos outros ovos em cestas de investimentos diversificados, em apostas...

    Mas isto dos ovos é terrível, porque os ovos de uns são uma ameaça, ou um perigo, para os ovos de outros. Há quem se ocupe em destruir e devorar os ovos dos outros.

    E, na realidade, por mais ecografias que se façam, nunca se sabe se vai eclodir um monstro.

    Mais do que uma esperança, o futuro apresenta-se como uma fatalidade.

    É preciso estar imbuído de uma boa dose de desespero e de infortúnio para forçar a casca e tentar uma saída. Uma saída é isso mesmo, não necessariamente para um local melhor, para uma situação melhor (pode ser para a boca de um predador), mas mesmo quando se conhecem os riscos, nem sempre é possível deixar de os correr e pode ser melhor corrê-los.

    Se isto é aplicável a qualquer época, ou momento histórico, o nosso apresenta a particularidade de, em geral, os riscos, aparentemente, estarem ou poderem ser controlados. Acreditamos nisso.

    Isto pode não encorajar suficientemente a tal saída, mas o nosso maior desafio é esse: ousar, que nunca o risco foi tão pequeno, nem as expectativas tão grandes, e não deixar os nossos “negócios” ao acaso, nem os nossos créditos por mãos alheias.

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  2. Agradeço desde já a partilha deste texto que me deixa, tal como outros saídos do mesmo útero, muito apreensivo e chocado com a IRRESPONSABILIDADE perante aquilo que a vida tem de mais sagrado, a Educação das crianças e dos jovens.
    A estratégia é sempre a mesma, parte-se sempre de um "é preciso mudar", sem argumentação, aliás, a que existe tira-lhe, logo à partida, toda a razão, seguido da imposição "não se muda porque existem agentes que têm medo, daí, resistirem", estratégia esta muito bem enquadrada no ensaio do José Gil sobre a “ditadura subtil, o risco da nossa democracia”.
    Sem recorrer à análise de conteúdo por considerar não ser este o espaço e o tempo certos, vejamos apenas sob a lente da lógica da filosofia dois aspetos:
    1. Como se considerará, do ponto de vista da educação e instrução, Andreas Schleicher? Um visionário fabuloso? Um criativo sem paralelo? Um indivíduo com uma capacidade e um conhecimento superior? Não estou a ver que assim não seja. Então, se esta figura é capaz de um pensamento tão brilhante, como é que o adquiriu? Foi com a educação e instrução que não lhe deram, a tal do futuro que preconiza? Então não foi a escola tradicional que lhe gerou tal brilhantismo? Vamos, então, trocar aquilo que resulta por algo não comprovado, sendo que este algo é um NADA?
    2. No seguimento da reflexão anterior, mais concretamente sobre o NADA, dizer que aquilo que é preconizado, “preparar para as mudanças que não esperamos”, pressupõe uma não instrução, não poderá haver um corpo teórico-prático para aquilo que não sabemos, ou seja, nessa escola do futuro vai-se ensinar o quê? Pois.
    Ao que vem Andreas Schleicher sabemos nós muito bem, escola de proletariado para o grosso e deixar a escola tradicional, livresca, apenas para a elite.
    Cumprimentos.

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  3. Gosto imenso de ler os seus textos, Helena Damião. Parabéns!
    Teresa Biu

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