quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O [ETERNO] CONFLITO DE GERAÇÕES


                                                 (Duas gerações: eu e meu filho Nuno)

Reproduzo o “post”, da minha autoria, publicado neste blogue (07/11/2007), "O conflito de gerações", por o ter sempre actual num mundo educativo  em eterna convulsão em que pais saudosos evocam constantemente o jargão “no meu tempo”,  como se, esse tempo, fosse uma época de ouro livre de mácula com filhos bem comportados e respeitadores. Acrescento, como tal, ao título inicial, a palavra "eterno": "O eterno conflito de gerações”. Segue-se essa reprodução na íntegra:


“Transformou-se num lugar-comum atribuir às gerações actuais a responsabilidade pela perdição do mundo. Todos “sacodem a água do capote” (expressão usada na gíria militar), alijando as responsabilidades próprias. Os nossos pais disseram-no em relação a nós e nós, por nossa vez, dizemo-lo em relação aos nossos filhos.

Mais afoito, porque o fez publicamente, o médico inglês Ronald Gibson (1909-1989), numa conferência pública, começou por citar quatro frases denunciantes do comportamento dos jovens que levam à desesperança no futuro. São elas:

1. “A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais, são simplesmente maus”.

2. “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

3. “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”.

4. “Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente… A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura”.

Houve uma aquiescência na sala! E o conferencista ficou satisfeito com a aprovação geral. E o leitor?

Antes de dar o seu veredicto, impõe-se um esclarecimento sobre os autores das frases. Foi o que o médico fez. Assim, a primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.), a segunda de Hesíodo (720 a.C.), a terceira de um sacerdote do ano 2000 a.C., a quarta encontrou-se escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia tendo mais de 4000 anos" (fim de citação).

Saibamos aproveitar a lição. De futuro, quando invectivarmos a juventude, não digamos “a juventude deste nosso tempo”. Digamos, a juventude - “tout court”. Desta forma, distribuiremos o mal pela poeira dos tempos, podendo a badalada polémica sobre a “juventude rasca” encontrar alibi em críticas com origem há quatro milénios.

P.S.: No tempo em que esta foto foi tirada, não sabíamos, nem eu nem o meu filho, o que era isso de conflito de gerações, que foi fazendo o seu percurso devagar, devagarinho!

2 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

Será que alguém é dotado de qualidades pedagógicas ao ponto de estar imune contra a rebeldia e a oposição, a indisciplina e o desinteresse, a cabulice e a fraude dos educandos? A começar pelos pais?
Por ver as citações atribuídas a celebridades, lembrei-me de um capítulo (12), das confissões de Stº Agostinho, em que ele se queixa amargamente dos discípulos de Roma, para onde tinha ido para ensinar retórica. De resto, noutros capítulos, ele confessa a sua própria indisciplina e desobediência, até relativamente aos pais e, sempre, relativamente a Deus. Os professores e as escolas, e os encarregados de educação, e as polícias, já começam a estar mais preparados para os conflitos. É crucial que se existam estruturas preparadas para lidar com os conflitos e resolvê-los, porque eles raramente são salutares e são muitas vezes perturbadores e destrutivos.

Rui Baptista disse...

Os conflitos têm origem em os filhos terem os pais como "botas-de-elástico" e os pais não compreenderem os filhos num tempo de evolução vertiginosa quer de hábitos, de costumes e de moralidade. Construir uma ponte de passagem entre estas duas atitudes, por vezes, abissais pode ser uma solução. Lembro-me, por exemplo, de uma mãe, angustiada com a educação do filho, ter perguntado a Freud: "Professor como hei-de de educar o meu filho?" E a resposta ter sido demolidora: "Minha senhora: faça o que fizer, fará sempre mal!" Hoje, então, torna-se cada vez mais difícil por a informação sobre a sexualidade, por mais perversa que seja,está à disposição das teclas do computador que os jovens manejam como quem bebe um copo de água e, a maioria dos pais, tem como um osso duro de roer mesmo aqueles que tem a dentição completa, para mais quando os dentes são substituídos por próteses dentárias. A propósito, ocorre-me aquela estória de uma irmã e um irmão, terem peguntado, com malícia, à avó: "Vovó, como é que nascem os meninos?" E lá veio a velha estória do tempo dos velhotes: "Vêm de Paris no bico de ma cegonha!" Atónitas com tanta ingenuidade volta-se uma das crianças para a outra: "Explicamos à avó ou deixamos a velha morrer na ignorância?". Criar uma ponte entre gerações diferentes exige uma adaptação dos pais e dos filhos aos tempos que correm!

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser r...