domingo, 21 de fevereiro de 2021

CARRASCOS, VÍTIMAS, CÚMPLICES E PASSIVIDADE. O CASO DA PIDE


 Novo texto de Eugénio Lisboa (na foto a historiadora Irene Pimentel):

 Acabo de ler, com o título acima, no jornal Público, o belo artigo da historiadora Irene Pimentel, comentando, com admirável documentação e galharda objectividade um artigo publicado no mesmo jornal pelo investigador Duncan Smith. Pela minha parte, nunca quis, de maneira nenhuma, meter-me numa polémica entre os dois historiadores, muito menos, tomar qualquer partido contra uma historiadora que muito estimo e admiro e que leio com grande regularidade e sempre com grande prazer e proveito. Se me não apercebi logo das implicações submarinas de Duncan Smith, foi só porque, não sendo historiador não me apercebi claramente de que DS se estaria a arrogar propriedade de descobertas já feitas por IP, podendo assim dar a impressão de me estar a associar a ele contra a historiadora. A razão disto?  Responderei com a mesma candura com que o grande sábio Samuel Johnson respondeu a uma Senhora que lhe perguntava qual a razão de ele ter cometido um erro clamoroso, num verbete que escrevera para o célebre dicionário: “Ignorância, minha Senhora, pura ignorância!” Terá sido o meu caso e disso me penitencio, junto da historiadora Irene Pimentel. Não me custa nada reconhecer os meus erros, quando os cometo. É assim que as ideias fazem o seu bom caminho. 

Na realidade, o que eu estava a tentar fazer era apenas partir de uma afirmação de DS, de que uma larga fatia de portugueses se tinha ou acomodado ou mesmo colaborado com a PIDE, ou por razões de interesse pessoal, sem prejudicar terceiros, ou denunciando-os para se apropriarem de vantagens de que essoutros desfrutavam. Este fenómeno da acomodação ou aproveitamento do mal em favor de vantagens ou carreiras ou mesmo de pura sobrevivência sempre me fascinou. E fascinava-me, sobretudo, como aconteceu com Hannah Arendt, ao assistir ao julgamento de Eichmann, em Israel, o facto de estes perpetradores do mal não serem, na aparência, seres monstruosamente satânicos, mas simples personagens medíocres, banais, cinzentos, com que nos cruzávamos na rua ou nos cafés, sem darmos por eles. Eram seres banais que se integravam na sociedade, às vezes mantendo relações cordiais com adversários do regime. Eu assistira a muito disso, mesmo no meio mais rarefeito de Lourenço Marques (hoje Maputo). Conto uma história, entre muitas que poderia contar. No Café Nicola, na Praça 7 de Março, em Lourenço Marques, muito antes do 25 de Abril, reunia-se diariamente uma tertúlia de elementos da oposição, entre os quais, um tenente miliciano, António Vaz, em final de comissão. Este, um dia, desabafou, dizendo que, estando a sua comissão a chegar ao fim, teria de começar a ver se arranjava uma colocação qualquer, porque não queria regressar à metrópole. Um dos seus companheiros de tertúlia, em ar de gozo, para se meter com ele, disse-lhe que estava aberto um lugar para director da Delegação da PIDE, em Moçambique. Por que não se candidatava? Toda a gente se riu muito, mas, de aí a pouco tempo, o riso amareleceu, quando verificaram que o novo director da PIDE era o António Vaz, que todos conheciam tão bem e de quem eram amigos! Ele transitara, sem pestanejar, de membro de uma tertúlia oposicionista, para chefão da polícia política que os iria vigiar implacavelmente. Vaz não era um demónio, era apenas um tenente miliciano, casado e com uma filha pequena, que precisava de ganhar a vida. Não era um porta-voz do inferno, era um homem como os outros. A banalidade do mal, como disse a admirável Hannah Arendt, o que lhe valeu uma terrível controvérsia que a perseguiu até à hora da morte. Vaz integrou-se na chamada “alta sociedade”, era amigo de pessoas respeitabilíssimas e até um dos mais altos representantes da oposição, em Moçambique tinha cordialíssimas relações sociais com ele. Um respeitado notário, cujo nome oculto, pessoa muito respeitada e honesta , no meio lourençomarquino, gostava de ser visto, nos intervalos do cinema, entretido em amena conversa com o Vaz. Nunca me esquecerei de um episódio que se passou comigo e com a minha mulher. Ela ouvia constantemente falar no “Vaz da PIDE”, mas nunca o tinha visto. Um dia, indo nós na rua, vi o dito Vaz a pouca distância, e apontando-o, disse-lhe: “Vai ali o Vaz da PIDE”. Minha mulher ia tendo uma síncope: ficou tão perplexa que empalideceu. Perguntei-lhe o que se passava: em voz estrangulada esclareceu-me: aquele senhor, casado e com uma filha, tinha, durante alguns meses, vivido na mesma residencial em que a minha mulher, nessa altura ainda solteira, vivia com os pais. Aquele senhor era um cinzentão simpático e a minha mulher brincara muitas vezes com a filha. Como era possível aquela pessoa dirigir um serviço que perseguia e torturava pessoas? Era a horrível “banalidade do mal”, que tanto atormentou a admirável Hannah Arendt. 

Quanto à mais do que provável apropriação de descobertas feitas por Irene Pimentel, ocultando-as, DS não terá feito nada que não seja também “banal”. A mim, em Portugal e, abundantemente no Brasil, a rapinagem tem sido farta. Há uns que, gentilmente, nos cobrem de elogios e, feito isto, sentem-se de consciência aliviada para nos copiarem sem dizerem onde foram buscar as descobertas. Outros, pura e simplesmente rapinam, sem dizerem “água vai”. Como dizia o nosso bom António Guterres, é a vida! Mesmo os grandes, os que não precisam, fazem mão baixa de um achado, se lhes convém. O notável pintor James Whistler era, além de pintor, um conhecido homem de espírito, talvez o único capaz de rivalizar com Oscar Wilde. Para dar só um exemplo, tendo-lhe um dia alguém perguntado se o pintor achava que o génio era hereditário, Whistler respondeu prontamente: “Não posso dizer se o génio é hereditário, porque o céu não me concedeu nenhuma descendência.” Apesar da fama que Wilde conquistara como brilhante fabricante de paradoxos, tanto em conversa, como nas suas admiráveis peças de teatro, Whistler estava convencido de que Wilde se apropriava descaradamente de “bons mots” proferidos por outros. Morria por lho atirar à cara, mas aguardou a oportunidade de o fazer, até que esta chegou, aproveitando-a para entalar o amigo, de forma elegante. Estando, com Wilde e um grupo de amigos, em amena conversa, um dos presentes teve uma saída espirituosa. Wilde reagiu, entusiasmado: “Quem me dera ter dito isso!” Ao que Whistler repontou: “Hás de dizê-lo, Oscar! Hás de dizê-lo…” Minha estimada e admirada historiadora, nós os que escrevemos e investigamos, estamos sujeitos a vermos os nossos escritos e descobertas “ditos” por outros, com ar de quem descobre a pólvora. Provavelmente muito cumprimentados e premiados. São os ossos do ofício. Mas habituamo-nos e acabamos por nem já reagir! 

Eugénio Lisboa

3 comentários:

  1. Muito caro Eugénio Lisboa (permita-me que o trate assim).
    Sempre me habituei a ler o que escreve, que considero muito bom. Admiro a sua riquíssima vida e a forma maravilhosa como a conta. Além do mais, partilhamos amigos comuns.
    Por isso mesmo, embora percebendo por que gostou do texto de DS, fiquei preocupada e com o desejo de repor a verdade.
    É devido à admiração que tenho por si que quis esclarecer. É evidente que, como eu disse, a PIDE teve inúmeros colaboradores e candidatos a informadores. Assim se passa sempre em ditadura e é também por isso que devemos evitar e combater qualquer regime desse tipo que é o alfobre da referida banalidade do mal.
    A história que conta sobre António Vaz é extraordinária. Eu não a conhecia, embora soubesse que muitos ex-militares ingressaram na polícia política, a "fazerem pela vida". António Vaz e São José Lopes, segundo me recordo, estavam na chamada "metrópole" em 25 de Abril de 1974, devido a reuniões do Plano Alcora, um acordo entre Portugal, África do Sul e Rodésia, no âmbito africano. Penso que conto isso no meu livro "Os Cinco Pilares da PIDE", onde incluo precisamente as biografias de cinco carrascos, que justamente se destacaram pela banalidade do mal que praticavam, surgindo como homens vulgares, fora da PIDE.
    Agora, estou a investigar o relacionamento da PIDE com os serviços secretos e policiais desses países africanos "brancos", mas também com os das democracias (CIA, SDECE francesa) e é extraordinária a colaboração entre eles e a polícia política na ditadura.
    Peço-lhe autorização para poder partilhar este seu texto no meu facebook
    Abraço amigo
    Irene

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    1. Prezada Amiga, , muito grato fico pelo seu comentário. Penso que convergimos perfeitamente.
      Quanto a partilhar o meu texto, claro que sim: ele foi feito para circular.
      Bom abraço de admiração e elevada estima do
      Eugénio lisboa

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  2. Sabe-se muito bem que Eichmann era um nazi fanático e um antissemita convicto, não um simples tenente miliciano com uma filha para alimentar.
    https://jewishreviewofbooks.com/articles/1106/the-banality-of-evil-the-demise-of-a-legend/

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