quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

DEPOIMENTO SOBRE A CRÍTICA

 Novo texto de Eugénio Lisboa:

 

Recupero aqui um depoimento sobre a crítica, que me foi pedido em 2003. Há, por isso, uma ou outra passagem datada, como, por exemplo, aquilo que digo da Colóquio / Letras, que é hoje muito menos justificado. No seu todo, porém, o texto parece-me actual. 

Suponho que, ao falar-se na crítica como "mediadora entre o livro e o leitor", os organizadores deste dossier estão preocupados com a situação do livro ou, melhor, com uma certa crise do livro. Portanto, que fazer para minimizá-la ou mesmo para resolvê-la?

Permita-se-me desde já observar que esse papel não caberá apenas à crítica mas também aos livreiros: só livreiros competentes, amantes e conhecedores do produto que vendem e dotados de um mínimo de decência intelectual estarão à altura de promoverem bons livros não imediatamente visíveis, ajudando o comprador e não descansando, preguiçosamente, na venda certa daquela literatura pimba de autores que os nossos media, mesmo fingindo que os desprezam, não deixam de aproveitar, interrogar, entrevistar, em suma, promover. A verdade é que um grande número de livreiros faz exactamente o contrário do que deve fazer: investem-se quase todos naquilo a que podemos chamar "fazer chover no molhado". Despenham-se, com grande alarde de meios e alta gritaria, na promoção do que está, por natureza, vendido: os Paulo Coelho, as Margarida Rebelo Pinto e quejandos e quejandas andam numa roda viva, e aqueles três ou quatro autores que vão surgindo com obra original e até atraente e que um pouco de patrocínio promotório ajudaria a uma certa visibilidade são deixados cair e mais tarde acusados de se venderem pouco... Eu costumo dizer que, no actual sector do livro, não há, infelizmente, verdadeiros vendedores: há só compradores. Falo por experiência antiga e intensa. Vejo-me às vezes perdido para adquirir espécies bibliográficas que vejo anunciadas e que muitos livreiros não sabem que existem ou não sabem mesmo que têm nas prateleiras. Numa grande livraria de Lisboa já me tem sido declarado peremptoriamente que tal livro não existe, indo eu à estante buscá-lo - ali, onde ele sempre esteve. A FNAC, para dar outro exemplo, faz muita questão de indicar, com grande visibilidade e orgulho, AS ESCOLHAS DA FNAC, as quais, curiosamente, coincidem sempre com as escolhas mais aparentes do chamado grande público (incluindo uma grande percentagem de espécies pimba ou para-pimba). Não seria mais interessante que publicassem duas listas: uma com as escolhas do grande público, outra, mais exigente, com as escolhas da FNAC? Ou será que a FNAC escolhe mesmo a Margarida Rebelo Pinto ou outro qualquer autor com uma "história de sucesso"? Será que o único critério de um livreiro é vender muito e muito depressa? Será que o livro-lixo é o único que os livreiros respeitam? Confesso que é hoje para mim, antigo frequentador de livrarias que sou, um sofrimento entrar numa livraria ou mesmo loja de revistas e livros, em Portugal: assaltam-nos, logo, nas montras e nos tabuleiros mais em evidência, as espécies mais pirosas e mais ostensivamente petulantes. E informam-me até de que, num grande número de casos, o editor paga para garantir essa proeminência! E não paga pouco, ao que também me dizem. Chegámos a isto. Dizia o saudoso H.L. Mencken que "de uma maneira geral só há duas espécies de livros: aqueles que ninguém lê e aqueles que ninguém devia ler". A filosofia dos nossos livreiros é não repararem na existência dos primeiros e concentrarem-se na venda dos segundos.

Peço me desculpem este preâmbulo, mas era necessário visto que se impõe, então, uma pergunta: contra este pano de fundo, que poderes tem  - mesmo no caso de existir - uma crítica sistemática, exigente na avaliação e arrancando dos pressupostos de uma cultura vasta que dê ao crítico a necessária perspectiva? Contra esta obscena máquina de puro marketing, que valem as considerações argutas de um António Guerreiro ou as postulações penetrantes e envolventes de um Fernando Guimarães, de um Fernando J.B. Martinho, de uma Teresa Martins Marques, de um Eduardo Pitta, de um João Barrento, entre tantos outros que, sem maldade, omito? Julgo que estes poderes têm uma certa mas diminuta eficácia, contra um pano de fundo de materialismo petulante e contente.

Por outro lado, julgo que há uma certa leviandade na atribuição de singulares poderes a colunistas críticos ainda demasiado jovens. Um jovem de vinte e poucos anos pode fazer uma sensacional descoberta científica mas uma saudável perspectiva crítica, que só uma vasta cultura dá, não se obtém com poucos anos de vida. Por outras e antipáticas palavras: a cultura leva tempo. Dizia Philip Hope Wallace que "o melhor crítico será o epítome de tudo o que há de melhor numa audiência: a sua cabeça, o seu coração e a sua alma." É uma exigência justa mas é uma exigência de truz - que exige trabalho, vocação, amor à literatura, sentido crítico e, sobretudo - tempo. O gosto aguça-se - com tempo e meditação. Sair-se dos bancos da escola para a coluna crítica é uma leviandade. Para muitos críticos até parece que a literatura começou anteontem e consiste apenas daqueles autores que se conhecem pessoalmente e aparecem na televisão e nos jornais. Um crítico teve há pouco o topete, a propósito da controversa antologia O Século de Ouro, de estranhar que se tivessem seleccionado para ela autores "tão pouco relevantes" como Carlos Queirós ou Reinaldo Ferreira... Cada um estranha o que pode e a mais não é obrigado. Um ensaísta (e criador) tão culto, inteligente e sensível, como David Mourão Ferreira não teria estranhado nenhuma daquelas escolhas. Mas, para aqueles que julgam ter a literatura portuguesa começado com a poesia de Gastão Cruz, todas as estranhezas são possíveis. A mim, o que me espanta é o misto de petulância, leviandade e ignorância que tão frequentemente exibem críticos tão afirmativos quão ridículos. Dizia Eliot que a grandeza da literatura não pode ser determinada apenas por padrões literários - e é todo esse lastro não propriamente literário (vital, espiritual, cultural, civilizacional) que é fundamental mas trabalhoso, moroso e consumidor de uma prodigiosa energia nervosa. O grande crítico faz-se de tudo isto, é uma prodigiosa e lenta construção que se não compadece com a ligeireza nem com o atrevimento de tanto jovem  crítico. Num texto destinado a festejar o 40º aniversário da vida literária de João Gaspar Simões, o seu camarada da presença, José Régio, inventariava, como ingredientes fundamentais do grande crítico, entre dons naturais e aquisições necessárias, os seguintes factores: sensibilidade, imaginação, inteligência, largueza de espírito, gosto da diversidade, objectividade e cultura. De entre este imponente inventário de riquezas, apetecer-me-ia hoje salientar o gosto da diversidade, que impede o crítico (ou o artista, quando se afirma como crítico) de se fixar, com estreiteza, num modelo de poesia ou de ficção que passa a ter o estatuto de norma. Poesia que não obedeça à "norma" não seria poesia digna desse nome. De aí os ódios vesgos à "discursividade" de um Régio, a pretexto de uma "incontornável" poesia mais despojada. Mas o curioso é ser mau, no Régio, o que não faz mal nenhum num Claudel, num Saint-John Perse, num Dante ou num Camões (ou num Álvaro de Campos, num Walt Whitman ou num Cesário...).

O crítico verdadeiro - Régio repetiu-o até à náusea - não entra em luta com o génio próprio de cada artista que sonda: "Com um artista", observava o filósofo George Santanyana, "nenhum homem em seu pleno juízo briga, do mesmo modo que não briga com a cor dos olhos de uma criança." Desvalorizar um poeta porque é discursivo ou porque não é suficientemente discursivo, porque é lírico e não satírico ou porque é satírico e não lírico, porque escreve oitavas em vez de quadras ou quadras em vez de oitavas - é uma óbvia tontice mas não tão óbvia que nela não caiam legiões de críticos muito reputados. Aos espíritos estreitos há sempre uma qualquer norma que os aspira como um abismo de vácuo aspira os objectos que se distraem. A verdade, a verdade é que as razões para se dizer mal de um livro são quase sempre posteriores à vontade de se dizer mal dele. As razões encontram-se depois e quase nunca disfarçam muito bem a má fé que as veste e as desfeia.                                  

Lamenta-se muito a quase inexistência, entre nós, de uma crítica que sistematicamente acompanhe, com maturidade e atenção, o que de melhor se produz e edita. Uma crítica, no limite, à maneira das magníficas recensões críticas de um Times Literary Supplement ou de uma New York Review of Books.  Esquece-se, quando assim se fala, um pequeno pormenor: ninguém hoje se presta a participar num empreendimento desses ( escrever todas as semanas ou todos os quinze dias um "feuilleton" abrangendo um ou dois livros recenseados), a não ser que lhe seja pago pelo menos o suficiente para viver só disso - no caso, evidentemente, de se pretender trabalho asseado e não uma pseudo-recensão bebida na leitura das badanas ou da contracapa. Francamente, não creio que Portugal tenha dimensão para permitir financiar algo deste género. Manter um naipe de meia dúzia de bons críticos disponíveis em quase exclusividade (e pagos para isso) - qual o jornal que ganha para durar, fazendo isso, a não ser com um aliciante subsídio cuja continuidade e durabilidade  nem o Estado nem as fundações privadas são capazes de garantir? Rendamo-nos à nossa dimensão - Portugal é pequeno e pobre e os países do restante espaço lusófono não têm para mandar cantar um cego, quanto mais sustentarem os nossos luxos. É realmente pena, mas as New York Review of Books não são facilmente imagináveis a não ser em impérios poderosos como aquele que se prepara para anexar o Iraque à sua esfera de influência. Uma revista como a Colóquio/Letras, com todos os méritos que tenha - e tem-nos - não satisfaz, de modo nenhum, este requisito de um acompanhamento a tempo do que de melhor entre nós se publica: muitos livros são ali recenseados dezoito meses ou dois anos depois de publicados, isto é, quando já desapareceram dos espaços visíveis das livrarias. Resumindo, a Colóquio tem, em recursos financeiros, o que lhe falta em assiduidade. E mesmo os recursos financeiros, nos tempos que correm...

Poder-se-ia pensar também que, não seria impossível ao Instituto Camões manter uma boa revista bimensal que mais ou menos permitisse acompanhar criticamente - numa substancial secção dela - a produção lusíada. Mas o Instituto Camões, como tudo que em Portugal é cultura, está a viver dias maus. Assim como antigamente se dizia que a natureza tem horror ao vazio, pode hoje dizer-se que as Finanças, em Portugal, têm horror à cultura. Cada um odeia o que pode.

Do que acima disse, gostaria de reter, sobretudo, isto, que gostaria de aqui deixar para meditação: não brigue o crítico com o génio próprio de cada escritor. Não queira que ele seja outra coisa diferente do que é. Não peça ao lírico que escreva épicos nem ao pujante que se depene. O humorista James Thurber disse um dia: "Eles criticavam Henry James como se criticassem um gato por não ser um cão."

Eugénio Lisboa 

                                                 S.Pedro do Estoril, Março, 2003

1 comentário:

  1. A arte não tem outro modo de ser senão ela própria. A um «objecto» de arte, seja poema, pintura, escultura, música, não se pode exigir nada. Não se pode exigir que esteja "bem escrita", "bem pintada", etc.. Em tempos, numa conversa de passagem pelo corredor da escola, disse a um professor de português, a propósito não sei de quê, que um poema, um conto, um romance, por mais erros de ortografia, e outros, que tenha, não pode ser considerado mal escrito. Ele ficou a olhar para mim sem perceber que eu estava a falar a sério e riu-se. O artista não está vinculado a nada. O autor de uma tese está vinculado a imensas coisas, não pode escrever o que lhe der na veneta. O executante de uma partitura e o professor de português, também. Só o artista não. Nem sequer está vinculado a fazer arte.

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