segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Leitura – a estrela da vida cultural

Ter um livro para ler e não o fazer, é uma obra de Albano Estrela, constituído por uma série de textos escritos para o blog 7 leitores e foi há algum tempo publicado pela Indícios de Oiro (Lisboa, 2010).

O título é, como sabem, tirado duns versos de Fernando Pessoa e é, em si mesmo, uma ironia e uma provocação. Porque se há livro que nos abra à leitura e ao seu valor inestimável, que nos estimule à leitura, é este. Portanto, ter um livro para ler e não o fazer só pode ser interpretado como uma forma de valorização daquilo que se nega, explicitamente, para implicitamente o afirmar, valorizando.

É pois, (deve ser) um estratagema para prolongar o prazer que se vai ter, em suma, um método irónico de valorização das leituras. Assim como quem passa o dia a sonhar com o prazer de, à noite, mergulhar no romance maravilhoso que anda a ler, mas, temendo terminá-lo já hoje, guarda o resto para amanhã. Hoje não, mas amanhã sim, e com ânsia redobrada. É pois uma forma de falar, uma brincadeira à Albano Estrela que nos quer dizer justamente o contrário daquilo que nos parece querer dizer. Enfim, uma forma de retardar e reforçar o prazer.

Porque Albano Estrela revela-se (o que aliás já sabíamos) ser um leitor insaciável e de grande qualidade. Ou seja, passou a vida a ler livros e foi acumulando disso uma capital e uma qualificação que o transformam num crítico informado, vivo, actual e frequentemente inesperado. Embora não seja crítico literário, como diz. Mas o que é facto é que apanha os textos não só pelo lado em que a maior parte das pessoas o faz mas ainda por outros pontos de vista, abrindo perspectivas inesperadas, interpretações que não estariam na ordem do dia mas que ele introduz fazendo pontos de ordem à mesa e obrigando-nos ao debate, isto é, ao pensamento. E pelo meio, de passagem, dando informações, fazendo críticas, fornecendo dados culturais, falando de vivências, memórias, sempre com a ironia à espreita, e numa prosa leve, corrida, coloquial, elegante e cheia de humanidade e de compreensão para os autores.

O livro tem uma apresentação do próprio Albano Estrela e um prefácio de José Fanha, um dos responsáveis do referido blog 7 Leitores, de que Estrela é dos colaboradores mais assíduos. São pequenos textos, como disse, sobre «leitura e leitores», «escrita e escritores», «contos e contistas», «minificções e pequenas histórias», «romances e romancistas», «memórias e memorialismo», «entrevistas e entrevistadores», «ensaios e ensaístas», «poesia e poetas», «crítica e críticos literários», «traduções e tradutores», «edição e editores», «livreiros e livrarias» «literaturas paralelas» «fotografia, cinema». Ou seja, pequenas crónicas sobre todo o mundo da cultura, a partir dos livros, lidos e relidos, e com a riqueza, uma já longa experiência de leitor e um gosto fino e de grande qualidade que tornam o livro, de facto, uma preciosidade. Já não há muitos leitores assim, e gente disposta a falar, sem presunção mas com inteligência, sensibilidade e gosto do que vai lendo, ainda há menos.

E a propósito, não podemos deixar de considerar o que de muito bom os blogs têm trazido à cultura, como aliás os leitores do De Rerum Natura sabem. Se não fosse o blog 7 Leitores provavelmente nunca Albano Estrela escreveria todos estes textos. É, pois, de algum modo, uma homenagem aos blogs e aos que neles trabalham com inteligência, cultura e civismo.

João Boavida

1 comentário:

  1. Sempre interessante, livros derivam idéias em pensamentos náufragos e barcos para além das marés.

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