quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Aprender a aprender" ou "aprender a aprender a aprender"?

Em pedagogia, e penso que não é só na pedagogia, a linguagem é uma fonte de equívocos. Certa frase ou palavra pode desencadear múltiplos entendimentos, alguns dos quais contraditórios.

Uma boa ilustração desses (des)entendimentos é o “aprender a aprender” que se opõe (ainda que dissimuladamente) a “aprender” (porquê!?).

O mais importante na educação escolar, dizem uns, não é “aprender” no sentido de adquirir conhecimentos, é “aprender a aprender”. Porque, veja-se, os conhecimentos estão nos livros, na internet, por aí, logo se alguém precisar deles, procura-os, sendo certo, que os encontra. E, além disso, os conhecimentos estão sempre a mudar: o que se tem por verdade hoje, já não o é amanhã. Logo, quando alguém precisar de aprender algum conhecimento, terá acesso à “última versão”, por assim dizer. A questão é, pois, de atitude e de processo: levar os sujeitos a perceberem que vivemos numa “sociedade do conhecimento” e que são eles próprios que têm de vasculhar em seu redor para chegarem àquilo de que precisam.

O mais importante, dizem outros, é mesmo “aprender”, pois quem adquire conhecimentos, nesse trabalho de adquirir conhecimentos, também “aprender a aprender”. Ainda que os conhecimentos estejam disponíveis algures, não se saberá procurá-los se previamente não se tiver adquirido conhecimentos, nem, nem sequer, haverá curiosidade para os ampliar. Ou seja, sem desvalorizar o processo, o produto (ter chegado a certos conhecimentos) é fundamental. Por outras palavras, para se “aprender a aprender” é condição que se “aprenda” e em profundidade. Não há volta a dar.

Esta antinomia assume outras formas que pouco mais valor têm do que um jogo de palavras... Por exemplo: ensinar a "aprender a aprender", mas como a palavra "ensino" é evitada (pois, afinal, diz-se "ninguém ensina nada a ninguém"), será melhor dizer-se "levar os alunos a aprender a aprender" ou, ainda melhor, "aprender a aprender a aprender”.

2 comentários:

Anónimo disse...

Faz-me lembrar certos aspectos da Teoria do Números Ordinais. Que eu domino mal. Aprendi a aprendê-la, nunca a aprendi (preguiça!) mas tenho as bases para aprender uma vez que aprendi a aprender. Mas não sei nada, qualquer dia ponho em prática os meus conhecimentos (ai que sorna tenho sido) e assim aprenderei o que quer que seja. Quando a isso me dispuser; por enquanto sou analfabeto apesar de ter adquirido o maior dos conhecimentos: saber aprender.

José Batista da Ascenção disse...

Já agora, porque não "aprender a aprender a aprender a aprender"?
Ou:
"Aprender a aprender a aprender a aprender a aprender"?
Ou:
(...)
Algures escrevi o seguinte:
«Quanto à fórmula "aprender a aprender" afigura-se-me tão infeliz, e mesmo trapaceira, que há muito deixei de a considerar.
Compare-se com esta outra: "aprender a gostar de saber". Isto sim. Ou esta outra: "as matérias são sempre bonitas para quem as conhece". Pois são.»

E pergunto: porque raio não podem as escolas definir-se segundo metodologias claras e se deixa aos cidadãos a decisão de escolherem as que julgam mais adequadas para ensinar os seus filhos?
É assim tão difícil?
Ou melhor, porque é que é tão difícil?
Ou ainda, a quem interessa tal dificuldade?
Responda quem souber.

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...