sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Evocação da Sociedade de Estudos de Moçambique

“A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur, 1913-2005).

Escrevo hoje sobre um livro, intitulado “Livro de Ouro do Mundo Português - Moçambique” (s.d.), da autoria da jornalista Maria Helena Bramão, que mãos amigas fizeram chegar ao meu conhecimento, em que, a páginas tantas (pp. 22 e 23) , é evocada a Sociedade de Estudos de Moçambique, ex libris científico, literário e cultural de Moçambique, anterior à criação dos respectivos Estudos Gerais Universitários (1962) e depois em futura e frutuosa parceria. A esta Sociedade (julgo que extinta depois de 1975) ligam-me recordações, quase diria umbilicais, por aí ter proferido duas conferências, respectivamente, nos anos de 1972 e 1973, vindo nela a ser eleito para os cargos de vice-presidente da Secção de Ciências e bibliotecário (1974) e de presidente da Secção de Ciências e 1.º secretário (1975). Consta deste livro um elucidativo capítulo subtitulado “Sociedade de Estudos de Moçambique - uma instituição cultural pioneira”, que transcrevo abaixo na íntegra com o esclarecimento de se reportar, apenas, à vida da Sociedade de Estudos de Moçambique até meados da década de 60:

“A Sociedade de Estudos de Moçambique foi instituída em 6 de Setembro de 1930, data em que foram superiormente aprovados os seus Estatutos, publicados pela Portaria n.° 1185, daquela data. Resultou de um movimento inspirado pelo Engenheiro de Minas, António Joaquim de Freitas, que veio a ser o seu Sócio Fundador n.° 1. Na Circular-Convite que dirigiu aos intelectuais de Moçambique, a propor a fundação da Sociedade, mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos 'estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro'. Os Estatutos aprovados definiram como objectivos da Sociedade de Estudos, contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique; e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados.

A António Joaquim de Freitas juntaram-se 101 Sócios Fundadores. E depois, desde 1930, muitos outros, que com esforço, dedicação e inteligência têm vindo a realizar com persistência os objectivos da Sociedade. Foi o primeiro Presidente da Direcção da Sociedade de Estudos o Coronel Eduardo Augusto da Azambuja Martins. Sucederam-lhe o Eng.° Joaquim Jardim Granger (1932-34); o Coronel João José Soares Zilhão (1935 e 1940-41); o Eng.° Mário José Ferreira Mendes (1936-38 e 1946-49); o Comte. José Cardoso (1939); o Eng.° António Joaquim Freitas (1942-45); o Dr. António Esquivei (1950-60); o Contra-Almirante João Moreira Rato (1961-62); e o Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro (1963). O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado.

Foram nomeados Sócios Beneméritos, pelos relevantes serviços prestados à Sociedade de Estudos, o Contra-Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal de Lourenço Marques. A Sociedade de Estudos foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1956), grau de Oficial da Ordem de Instrução Pública (1960), Medalha de Ouro de Serviços Distintos da cidade de Lourenço Marques (1960) e Palma de Ouro da Academia das Ciências de Lisboa (1960).

Dentro da acção desenvolvida desde 1930, a Sociedade de Estudos tem promovido a realização de estudos, cursos, lições, conferências, congressos, exposições e sessões de cinema. Desde 1931 que se publica o 'Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique', que é presentemente trimestral. Tem editado outras publicações entre as quais se destaca 'A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique, 1500-1860' da autoria do ilustre historiógrafo Comte. Avelino Teixeira da Mota, que a dedicou ao Contra-Almirante Sarmento Rodrigues e a ofereceu à Província de Moçambique. A edição foi custeada por subsídio especial concedido pelo Governo-Geral de Moçambique, tendo-se feito a versão inglesa. As publicações da Sociedade de Estudos são permutadas com as de numerosas instituições nacionais e estrangeiras em todo o Mundo. Foi assim organizada progressivamente uma Biblioteca de carácter enciclopédico, que conta cerca de 25 000 volumes; e uma biblioteca juvenil, com perto de 1500 volumes, convenientemente escolhidos.

O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado. A Sociedade de Estudos tem-se feito representar em diversos congressos e reuniões de carácter cultural, no país e no estrangeiro. Desde 1934 que participa nos congressos anuais da Associação Sul-Africana para o Progresso da Ciência, tendo colaborado na Organização dos Congressos de 1948 e de 1958, que se realizaram em Lourenço Marques. Já nos Estatutos aprovados em 1930 se previa a necessidade de se conseguir ‘uma sede suficientemente ampla, cujos meios de trabalho e conforto irá sucessivamente aumentando, por forma a tornar a sua frequência cada vez mais agradável’. Depois de grandes esforços, foi finalmente decidia a construção do novo Edifício-Sede em 1962, sendo Presidente da Direcção o Contra-Almirante João Moreira Rato, que desenvolveu valiosa acção para tornar viável a realização. Os encargos foram suportados por subsídio, concedidos pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues, pela Fundação Calouste Gulbenkian, por reservas criadas, por quotização suplementar por parte dos sócios, e por um empréstimo a amortizar anualmente.

O edifício, segundo projecto do arquitecto Marcos Guedes e o Eng.° Carlos Pó, foi executado em 1963, sob a orientação da Direcção presidida pelo Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro, tendo sido inaugurado oficialmente em 21 de Abril de 1964, pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues. Registam-se também as numerosas e várias ofertas recebidas de diversas entidades para o apetrechamento do novo Edifício-Sede.

Na sua estrutura actual, a Sociedade de Estudos compreende as seguintes secções: Artes e Humanidades; Ciências Exactas; Ciências Naturais; Ciências Sociais; Agro-Pecuária; Economia e Finanças; Engenharia e Arquitectura; Legislação e Jurisprudência; Medicina, Veterinária e Farmácia; Estudos Brasileiros; Estudos Franceses; Etnologia Africana; Feminina; e de Iniciação Cultural. No relatório da Direcção, relativo a 1964, figura o seguinte resumo das sessões públicas realizadas naquele ano: 21 conferências; 39 conferências ou lições incluídas em cinco ciclos de conferências e cursos; 6 exposições diversas; 7 sessões de cinema; 18 sessões de cinema para jovens, com filmes educativos e recreativos. A Sociedade de Estudos de Moçambique muito tem contribuído para o estudo e valorização da Província de Moçambique, assim como para o seu desenvolvimento moral e intelectual”.


Num país agora confinado às suas fronteiras europeias e, por vezes, de costas voltadas para um passado, mais ou menos, recente, entendo, em nome de uma necessária justiça e apego à memória dos factos, que a juventude portuguesa deve ser despertada para as realizações portuguesas além-mar como esta sobre o valioso espólio científico e cultural da Sociedade de Estudos de Moçambique até 25 de Junho de 1975, data da Independência deste jovem e promissor país do continente africano. E numa altura de lamúrias sobre o nosso presente e descrença sobre o nosso futuro como nação secular, tento encontrar réstias de esperança em Eça quando, como agora, o revisito: “Uma nação, vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.

15 comentários:

  1. "A Sociedade de Estudos de Moçambique muito tem contribuído para o estudo e valorização da Província de Moçambique, assim como para o seu desenvolvimento moral e intelectual”.

    Pergunto: a população negra podia ser membro de tal sociedade?

    mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos 'estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro'.

    Pergunto, na altura, os negros podiam pertencer ao grupo dos que viviam pelo cérebro?
    HR

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  2. Não queria o julgo da pertinência, porém, ontem assistindo Tv, e, por momentos um documentário muito singular da cultura portuguesa em diversos países, e para Goa, Singapura, Timor, Índia, entre outras do continente africano, cujo núcleo de tradições, muito expressivo animava o depoimento dos intelectuais locais refazendo o curso da história em que a nação portuguesa estendia como herança de língua e conceitos no contexto como expressão e que da surpresa não fora só América e África, aliás diga-vos pela modéstia de compreender vossa cultura no oriente.

    Porém, até onde interfere ou induz o passado, quer por tolerância ou pressão das relações com a nova geração portuguesa afirmando o juízo de causa que cobra desta grandeza um suporte pelo ideal do que fora Portugal e que ecoa tão viva suas raízes. Afinal, os jovens têm orgulho ou frustração, quando ouvem falar de factos cuja compreensão está além do alcance, no sentido em que também ressoa como impacto a voz destes países. E, se como professores em vossa lida por vezes, com a sombra do passado, outros valores correm o risco de inflar a cultura. Pois Portugal tem um saber compacto e lida com esta distribuição de ensino por vezes, moderando um pensamento que incide em nível mundial, assim como também assimila a tensão mundial. Gostaria de saber do Sr. Rui Baptista a opinião, pois as vezes percebo que os portugueses esnobam um ranço, proveniente desta cobrança e justamente por não ser o vosso caso, penso na honestidade da opinião, já que o tema de causa é de suma clareza.

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  3. Cara Cláusia

    Não há ranço nem saudade mas uma amálgana entre os ex-colonialistas moçambicanos e os actuais naturais independentes moçambicanos, a que se chama "moçambiquinades" que consiste, tanto de um lado, como do outro, em falar como se ambos tivessem nascido em Moçambique, exteriorizando uma paixão que só normal é entre os naturais.

    Exactamente como haverá a mesma amálgama entre Brasil e Portugal, como se a universalidade aí estivesse representada.

    Por isso diz, a cara Cláudia, e com razão, que "o tema da causa é de suma clareza".

    De resto, a tropicalidade lusitana, tão bem retratada por Glberto Freyre, é capaz de ter dado já todas as respostas possíveis, até às perguntas ainda não imaginadas.

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  4. Prezado HR: Boa pergunta, a sua: "a população negra podia ser ser membro de tal sociedade?" O mais que lhe posso dizer é que dos referidos estatutos não constava qualquer impedimento discriminatório desse género.

    "Mutatis mutandi", pergunto-lhe eu, por meu turno: a população branca portuguesa pode ser sócia da Academia de Ciências (recordo-lhe que a Sociedade de Estudos era "Palma de Ouro" desta Academia")?

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  5. Adenda: Antes da expressão "mutatis mutandi", acrecento: Generalizando.

    Isto não quer dizer, por analogia, que os portugueses que não são sócios da Academia de Ciências não pertençam ao grupo dos que vivem "pelo cérebro".

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  6. Prezado Rui Baptista: a população branca portuguesa pode ser sócia da academia de ciências, bem como a população portuguesa negra o pode, actualmente. Mas à época a que se reporta a minnha pergunta, mesmo sem inpedimento nos estatutos, a população negra moçambicana não poderia viver "pelo cérebro" porque, salvo raras excepções, não tinha acesso a grandes estudos. Não pretendi, de modo nenhum, tirar mérito às suas memórias, mas se o colonialismo foi muito bom para os invasores, não me parece que tenha sido muito bom para os invadidos,
    HR

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  7. Caro HR: Plenamente de acordo. Nenhuma forma de colonialismo é boa. Todavia, permito-me defender que o colonialismo português com os seus defeitos e virtudes (que também as teve) foi, de uma forma geral, diferente do colonialismo de outros países europeus. . Repare que os colonos portugueses se fixaram em terras africanas sem ser, salvo excepções, em comissões de serviço, para regressarem ao torrão natal com os bolsos cheios. Aí se fixaram casais indos da então chamada Metrópole, aí tiveram os filhos e até os netos, aí morreram ou pensaram vir a morrer.

    Em contrapartida, colonos oriundos de outras paragens europeias deixavam as mulheres nas suas terras de origem. E se, porventura, se se desse o caso de estarem com os maridos em África quando engravidavam deslocavam-se à Europa para os filhos aí nascerem.

    Sem pretender, de forma nenhuma, generalizar, também lhe ouso dizer que a pior forma de colonialismo é o neocolonialismo a que hoje se assiste: irem os grandes tubarões para África durante uns tantos anos, encherem os bolsos e regressarem a penates.

    Meu Caro HR: Agradeço-lhe a forma correcta dos seus comentários, sejam eles a favor ou contra. Discordar de alguém não deve significar uma posição de intransigência que não admite qualquer forma de diálogo civilizado.

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  8. Caro Rui Baptista,

    Sendo mais novo do que o Senhor, há muito que me intrigo com a intransigência de grande parte das pessoas quando se confrontam com ideias diferentes, o que é compreensível em gente mais nova, mas inadmissível em gente mais madura. Pelo-me por uma boa conversa em que a diversidade de opiniões e de experieências alimenta conexões inesperadas. Aprecio o entusiasmo de quem defende uma ideia com veemência: mas não me sinto confortável com a má educação que impede o "diálogo civilizado". O egocentrismo obcecado que me parece característico das últimas décadas impede o salutar fluir das ideias. Como dizia um violinista falando do seu maestro, "estamos frequentemente em desacordo, mas nunca deixamos de dialogar".

    Também sei que o nosso colonionalismo foi menos "indecente" do que o de outros países europeus, mas, como o Senhor disse, "nenhuma forma de colonionalismo é boa".

    Chegados a este consenso, nada mais tenho a dizer, a não ser que é sempre um enorme prazer "lê-lo". Pena tenho que as circunstâncias da vida não nos tenham colocado frente a frente, com um café pelo meio.

    HR

    HR

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  9. Prezado HR: Também eu teria imenso prazer em ter tido a oportunidade de me sentar à mesa consigo para saborearmos um café e aí passarmos parte do nosso tempo em amena, ainda que controversa conversa (vezes sem conta dou comigo a citar Ortega y Gasset: “Cultura é, frente ao dogma, discussão permanente”) que os comentários dos blogues não permitem. Logo eu que me pelo por essa espécie de tertúlia caída quase em desuso quando os cafés de antigamente (um antigamente de poucas dezenas de anos atrás) trespassaram ao grande capital da banca, para abertura das respectivas agências, as suas paredes não como antro de maldizer – que também o foram; há que dizê-lo - , mas como centro de convívio das coisas de espírito.

    Aí Pessoa escreveu páginas da sua Obra no Martinho das Arcadas do Terreiro do Paço. E num café de Portalegre o grande José Régio conheceu Eugénio Lisboa, que nessa cidade se encontrava a prestar serviço militar com oficial miliciano, primeiro desconfiado de um jovem que apresentava como credenciais o seu diploma de “técnico” (engenheiro electrotécnico pelo IST) embrenhando-se nos meandros que, de certo modo, que lhe deviam estar vedadas “por uso e costume”, das Belas-Letras. Daqui viria a nascer uma bela amizade entre ambos de que Eugénio Lisboa se tornou guardião em respeito pela memória de Régio e pela sua Obra.

    Repare, meu Amigo, que falo de inícios da década de 50 do milénio passado! Hoje, essa dicotomia tende a esbater-se até por médicos disputarem os favores da Literatura Portuguesa, e aí se ancorarem, como seus lídimos representantes , “verbi gratia”, os romancistas António Lobo Antunes, Fernando Namora, Júlio Dinis. Outros nomes não me ocorrem de momento, mas injustiça seria não me referir ao festejado académico de Medicina pelo domínio de um português de elevadíssima qualidade que se espelha nos livros que escreve e nas conferência que profere, de seu nome João Lobo Antunes.

    Cordiais e amigos cumprimentos,
    Rui Baptista

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  10. Prof Rui Baptista,

    Congratulo-o pela evocação que faz da Sociedade de Estudos de Moçambique cuja fundação surgiu, tal como refere, de uma ideia do Engº António Joaquim de Freitas que foi Director da então designada Repartição de Indústria e Geologia da Província de Moçambique, entre 1928 e 1958. Esta Sociedade contribuiu, de facto, para congregar técnicos e cientistas das mais diversas áreas da actividade económica que trabalhavam em Moçambique com o único objectivo de estimular o intercâmbio de ideias e de experiências científicas, técnicas e profissionais, pois nenhum fórum existia na altura em Moçambique com estas preocupações.

    Nos comentários ao seu texto alguém pergunta se "a população negra podia ser membro de tal sociedade?". A minha resposta a esta questão é a seguinte: a população negra tinha tanto direito ou possibilidade de ser membro desta Sociedade quanto o tinha de qualquer outra Associação, como por exemplo, o Grémio Náutico, o Clube Inglês, a Associação dos Velhos Colonos, a Associação dos Naturais de Moçambique, etc. Se por estatuto impedimentos não havia, na prática, quem orquestrava a ordem social e política e ditava os "usos e costumes" eram outras forças que, por bem conhecidas, dispensam apresentação. E pouco ou nada adiantava teimar contra essas forças sob pena de danos pessoais, como é sabido.

    No exercício das suas funções o Engº A J Freitas calcorreou a maior parte do território de Moçambique tendo conhecido, melhor que muitos na altura, as condições de vida das populações autóctones e a forma como a administração colonial lidava com elas. Nos seus relatórios de missão muitas vezes propôs programas para a melhoria das condições sanitárias e de trabalho das populações tendo as suas preocupações não só caído em saco roto como, mais tarde, constituído motivo para convites de aposentação precoce por "excesso de trabalho e de zelo".

    Aposentou-se em 1958 e nos anos seguintes escreveu um livro intitulado A Geologia e o Desenvolvimento Económico e Social de Moçambique que acabou por ser publicado uns anos depois pela Agência Geral do Ultramar não sem lhe terem sido limadas muitas arestas através da então vigente inspecção prévia.

    Em 1965 volveu a Portugal (e aos Açores, sua terra natal), com os bolsos vazios, tendo falecido em 1968 aos 80 anos de idade.

    Quando se fala de colonialismo normalmente não se mencionam os reais obreiros e principais beneficiários da pilhagem colonial: os senhores que a partir da metrópole europeia mantinham as colónias sob apertados controlo e vigilância, impedindo os que para lá foram estabelecer as suas vidas pudessem construir uma sociedade justa e inclusiva. Não se ouve questionar as condições desumanas a que eram sujeitos os negros que extraíam as matérias primas que alimentavam, a preços irrisórios, as indústrias do Portugal metropolitano e que deram emprego à sua população durante muitas décadas. Se eram colonialistas os que para lá foram, tão ou mais cúmplices desse regime foram os que ficaram. Mais frequentemente se têm lido e ouvido críticas a impedimentos colocados aos negros de participação na vida social do que críticas à exploração que se fez do seu trabalho, culpando-se os portugueses que naquelas terras tentaram fazer algo de melhor.

    Seja como fôr, pelo menos logo após a sua independência, os mencionados negros passaram a ter a oportunidade de pertencer ao grupo dos que vivem pelo cérebro e consequentemente a poderem ser membros da Sociedade de Estudos de Moçambique. Passados que são 36 anos dessa data, deverão ser imensos. Ou então eles estão menos preocupados com esta questão do que alguns portugueses.

    Vasco Freitas

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    1. Bom dia Vasco Freitas,

      Não vou discutir qualquer questão de colonialismo, ficando contudo a nota que não o aprovo nos termos que ocorreram pois desvirtuam a liberdade.

      Sou arquivista e estou a tratar uma parte da documentação da SEM, essencialmente fotografias das atividades/eventos e, tendo o Vasco vivido no lá, será que pode dar informações sobre o fotógrafo Eduardo Neves.

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  11. Professor Vasco Freitas: Agradeço o seu precioso comentário que complementou a minha justa, embora descolorida, evocação da Sociedade de Estudos de Moçambique. Apenas me atreveria a chamar a atenção de possíveis interessados para um argumento que tive sempre no pensamento, mas que ia ficando no esquecimento. Isto é, o da inscrição de membros em comunidades científicas (entre elas, a Sociedade de Estudos de Moçambique) não estar condicionada à cor da pele ou à “cor dos olhos” dos seus canditados : os critérios obedeciam a questões outras que me dispenso de enumerar, por serem por demais evidentes, como a condições outras obedece a pertença à Academia de Ciências ou Sociedade de Geografia portuguesas, por exemplo.

    Mesmo entre distinguidos académicos e intelectuais nacionais , personalidades há que têm como motivo de destaque do seu currículo de vida terem sido sócios desta sociedade moçambicana. Dou o exemplo do Professor Manuel Gomes Guerreiro, ilustre professor catedrático em várias parcelas territoriais do Atlântico e do Índico, v.g., Angola e Moçambique, que, e passo a citar, “nesta cidade [Lourenço Marques] dirigiu igualmente o Museu de História Natural Álvaro de Castro e a prestígios e a Sociedade de Estudos de Moçambique”.

    Do enorme espólio bibliográfico de obras da sua autoria e por si oferecido à Universidade de Aveiro, de que foi o 1.º Reitor, consta a “Separata do Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique” (“Viagem através das ilhas de Maraconésio”, Ano XXX, n.º 128, Julho-Setembro, 1961).

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  12. Errata: Onde está (penúltima linha do 2º §) "prestígios", emendo para "prestigiosa".

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  13. Nossa quantas falas polidas e citacões de encher os olhos... A realidade é que Mocambique vive seu pós-colonialismo de maneira tão perversa quanto colônia e isto não é culpa dos "negros", como disseram. É culpa das nacões colonizadores que em busca de expandir seus comércios e riquezas invadiram, exploraram, mataram, roubaram não só riquezas mas - por muitas vezes- a dignidade de outras nacões (como aqui no Brasil). Infelizmente, no caso de Mocambique há menos de 40 anos de sua liberdade, depois de tanta guerra, que deixou nacões destruídas (sim nacões porque o que observamos em Mocambique são várias nacöes dentro de um único país), e mais de 10 anos de guerra civil, ou seja, impossível um país - ou pessoas - se preocuparem em estudar se, em sua maioria, elas näo tem o que comer! Mais da metade do país não tem sequer água encanada, saneamento básico... Não há pré-alfabetizacao, e o português lá é a segunda língua... Muito fácil julgar e achar que colonizadores fizeram um bem, quando absolutamente, não o fizeram, muito fácil discutir em ambientes virtuais (lá são poucos os que têm este privilégio) e não me venham dizer que isso é desinteresse dos negros, porque isto, meus caros, é a pura herenca da desastrosa e desrespeitosa colonizacão!

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  14. Apenas uma reflexão sobre um dos pontos referidos por alguns dos intervenientes nesta conversa. Quer nos países colonizados quer nos colonizadores o interesse por matérias ligadas à investigação científica e à cultura em geral, é, infelizmente, apenas partilhado por minorias. E esse interesse tanto surge em meios economicamente favorecidos como desfavorecidos. Que bom seria que o entusiasmo que arrasta (e muito bem) por esse mundo fora multidões para o universo do desporto, nomeadamente do futebol, também se verificasse no domínio das letras, das artes e da ciência. Mas parece que estamos condenados a que os interessados constituam uma minoria.

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