sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O ENSINO DAS CIÊNCIAS: DE MAL A PIOR


Minha crónica no "Sol" de hoje, sobre um assunto que já abodei neste blogue:

O Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação, que já tem deixado passar erros em várias provas nacionais, não pára de nos espantar. Agora resolveu, num teste intermédio do 11.º ano da disciplina de Física e Química A, repito do 11.º ano, fazer uma transcrição de um livro meu (“Física Divertida”, Gradiva, 1991), com apenas quatro linhas mas adaptada (adaptada?), e pedir aos alunos para "transcrever" (sic) uma informação trivial que se encontra no texto. Queria tão só que os alunos fizessem uma transcrição a partir da transcrição que o Gabinete tinha feito, como se apenas estivesse interessado saber, num teste de Física do secundário, se os jovens sabiam o que significa aquela palavra. Talvez o Ministério venha um dia a pedir, para poupar esforço e tinta, que os alunos sublinhem uma frase a fim de obterem toda a pontuação. E talvez inclua nos testes de Física um glossário com o significado das palavras usadas nos enunciados.

A Divisão Técnica de Educação da Sociedade Portuguesa de Física ficou justamente indignada com aquela prova:

"A questão 1 do Grupo I na qual o aluno deve transcrever a parte de um texto, de apenas 4 linhas, que refere o que Oersted observou, não é admissível neste ano de escolaridade. Esta questão pode ser respondida por um aluno do 2º ciclo do ensino básico que nunca tenha estudado o assunto abordado (...) Este teste intermédio dá indicações erradas aos alunos sobre as suas aprendizagens e não os estimula ao esforço que é necessário para que sejam atingidos os objectivos de aprendizagem da disciplina.”

Não posso estar mais de acordo. Para que o leitor julgue por si próprio, com este exemplo singelo, o estado do nosso ensino das ciências, deixo o pedaço do meu texto que foi usado pelo Ministério da Educação:

"Durante algum tempo o magnetismo e a electricidade ignoraram-se mutuamente. Foi só no início do século XIX que um dinamarquês, Hans Christian Oersted, reparou que uma agulha magnética sofria um desvio quando colocada perto de um circuito eléctrico, à semelhança do que acontecia quando estava perto de um íman. Existia pois uma relação entre electricidade e magnetismo.”

E deixo a pergunta que o Ministério colocou aos alunos: “Transcreva a parte do texto que refere o que Oersted observou."

Podia ter-lhes, ao menos, pedido para usarem palavras suas. Ou para interpretarem o que Oersted observou, tal como o próprio fez. Mas não. Escolheu o mais fácil. Claramente, está a preparar o alargamento da escolaridade obrigatória para doze anos através do lamentável caminho que vem sendo seguido até aqui: o caminho da facilidade progressiva.

14 comentários:

  1. o caminho da facilidade progressiva que leva a "estudar para ser escravo " , a que optem por cursos que não têm nada a ver com as necessidades da esfera económica mas são fáceis e os coloca na situação da mais completa dependência sem nada saberem fazer que precisemos. tão estranho que essas pessoas que se atrevem a comandar o destino de tantas outras não percebam os erros graves que estão a cometer.

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  2. Duarte disse...

    Sendo eu um dos alunos que realizou este teste intermédio, tenho conhecimento de várias pessoas que erraram esta resposta... Contudo, penso que teria muito mais sentido perguntar a conclusão que poderíamos tirar a partir do fenómeno observado do que pedir para transcrever o fenómeno em si.

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  3. Tal como refere o aluno que realizou a prova, vários erraram esta questão. No entanto não foi por não saberem a resposta , mas porque os critérios de correcção indicados pelo GAVE referirem que, caso o aluno transcrevesse desde ",,, Oersted, reparou que uma agulha..." até "... relação entre electricidade e magnetismo." teria zero valores. Não se pode dizer que não são exigentes.

    Alexandre

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  4. Há muito que o objectivo do ME é a destruição total do ensino. Nos gabinetes da 5 Outubro pululam os pedagogos da treta e os mangas-de-alpaca incompetentes. Abula-se este ME e 90% dos problemas da educação portuguesa desaparecerão em pouco tempo.

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  5. A primeira medida de qualquer governo seria fechar o ministério da "educação" para balanço durante o tempo que fosse necessário, colocar uma vedação à volta dos inúmeros edifícios ocupados pelo monstro, deixar avisos a mais de 15km de distância com dizeres como "PERIGO! RADIAÇÃO!" e com soldados à entrada de cada um dos acessos.

    Depois deste primeiro passo, seria necessário colocar todos os defensores do status quo nas escolas no papel de "professor" durante dois anos lectivos com câmaras a transmitir em directo para um programa de entretenimento numa televisão criada para o efeito. Garanto que as audiências superariam o futebol, as telenovelas e até o antigo Big Brother!

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  6. Não estou seguro de que, neste caso, haja uma intenção objectiva de facilitismo. Não sei se esta equipa tem inteligência para isso. Sinto que é simplesmente incompetência, nada mais.

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  7. este preciosismo de ser um blog convidado de um jornal semi-morto e pseudo-elitista

    também diz muito sobre o ensino fi ómega nu

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  8. Referem nos primeiros comentários que os critérios até são exigentes....Como aluna esforçada, habituada a testes com um elevado grau de dificuldade, a uma professora que procura ensinar-nos (realmente) Física, acho um insulto este Teste Intermédio. São postos no mesmo nível alunos com resultados medianos e alunos com altos resultados, devido à facilidade. E como aluna de altos resultados só posso lamentar que quem não sabe física fique enganado pelos seus resultados nestes testes, e que não estará preparado de certeza para ter cadeiras de física na universidade, se for o caso. Para quem vai fazer exame este ano, existe o medo dos erros nos testes( e que depois nao sao corrigidos como foi o caso de biologia no ano passado),que não devia ser admissível.

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  9. Para quem vai fazer exame este ano, existe o medo dos erros nos testes( e que depois nao sao corrigidos como foi o caso de biologia no ano passado)

    e mais não digo o medo dos testes

    os testes que tudo condicionam

    não são alunos

    são máquinas de testes

    faça um teste fácil setôr

    não que eu tenha algo contra a divulgação científica da gradiva

    ou sobre as ideias sobre educação

    mas apostam muito na questões dos exames
    e esse é o menor dos problemas

    e como disse os indivíduos ao retirarem textos dos ditos livros
    acham que é um avanço em relação a testes anteriores

    é o mesmo que porem nos livros o Galopim de Carvalho ou outras figuras que em tempo foram comerciais
    estão a melhorar os conteúdos

    ou seja é o sistema de pensamento que é pobre
    não os testes

    abrem-se cursos por abrir não se racionaliza
    não se pensa na educação
    pensa-se sobre a pseudo-educação
    enfim

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  10. Devo corrigir : Medos dos erros dos proprios exames( e nao testes), que foi o caso do de biologia no ano passado.

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  11. Isto que parece anedótico encerra uma tragédia: a da progressiva impreparação científica e cultural das actuais gerações, para desempenharem algum papel relevante no futuro.

    Podem alegar que basta que uns poucos destes jovens aprendam bem, para que os restantes se tornem supérfluos ou dispensáveis, que o sentido da tragédia não se altera.

    Recursos esbanjados, gente ludibriada, oportunidades perdidas e o futuro negro à frente do País que pariu tanta facilidade no Sistema de Ensino até o transformar numa enorme fraude.
    Que ao menos os Professores dignos da denominação não contemporizem com semelhante embuste, que um dia será finalmente destruído.

    Quantas mais gerações, porém, terão ainda de ser sacrificadas nas aras desta duradoura demagogia ?

    Saúde-se o propósito de Carlos Fiolhais, aqui e nos mais diversos fóruns em que tem denunciado a leviandade do «ensino socrático» estatisticamente promovido a «ensino de sucesso».

    Um dia também outros Professores o acompanharão na imperiosa tarefa de denúncia e posterior reabilitação da presente mascarada de ensino que Sócrates nos tem servido.

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