segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lobo Antunes e Saramago, duas personalidades nos antípodas


Rui Baptista escreve sobre José Saramago e António Lobo Antunes:

“Casos, opiniões, natura e uso / Fazem que nos pareça desta vida / Que não há nela mais que o que parece”.
(Luís de Camões)

O post de Augusto Küttner de Magalhães “António Lobo Antunes versus José Saramago” teve, entre outras, a legitimidade e a virtude de trazer para a discussão pública os traços de personalidade bem diferentes de “dois bons escritores portugueses” e de enfatizar o que de bom para as Belas-Letras os dois representam.

Uma coisa comum os irmana: o terem ambos estado recentemente em situação de doença grave, que fez perigar as suas vidas. Para António Lobo Antunes essa proximidade com a morte, julgo eu, tornou-o mais humano, e aproximou-o mais de Deus. No caso de José Saramago, julgo eu, ainda, exaltou-lhe a doxomania bem patente nas entrevistas que dá sobre os livros que publica numa espécie de mercantilismo literário.

Mas reconheço falecerem-me conhecimentos para penetrar na insondável mente humana e seus desígnios. A outros caberá essa missão que poderá explicar o sadismo de José Saramago em chocar a opinião pública com o seu deambular incansável em temas de carácter religioso arreigados no povo por tradição, como diria Fialho de Almeida, para se alcandorar ainda mais alto ao Olimpo da fama. Seja com a preciosa ajuda dos seus apoiantes incondicionais ou seja, ainda, no papel de vítima perante os que dele discordam, num país que, segundo ele próprio diz, incorre no risco de desrespeitar o direito à liberdade de opinião numa espécie de retorno a fogueiras inquisitoriais. E aqui a sua razão pode encontrar caboucos sólidos na opinião de um juiz norte-americano: “O direito à liberdade de expressão não protege o direito de ter razão, mas o direito a não a ter”. Ou seja, os que discordam da sua razão devem respeitar o direito de Saramago em não ter razão.

Aliás, as críticas que lhe são feitas devem alinhar pelo mesmo diapasão. Os que discordam dos seus obcecantes e desvairados ataques à fé cristã têm o direito a não terem razão ou de darem razão ao Papa Bento XVI: “Quem quiser fugir das incertezas da fé terá de suportar as incertezas da ausência de fé, e nunca poderá dizer que a fé não é a verdade”.

Falemos agora de António Lobo Antunes e dos seus traços de personalidade que o colocam nos antípodas de José Saramago. Ou melhor, deixemos ser Laurinda Alves a falar dele numa bela crónica, intitulada “É bom beijar um homem e eu não sabia” (“I”, 24/25 Outubro 2009), sobre uma entrevista dada na RTP a Judite de Sousa. Escreve ela, a certa altura:
“António Lobo Antunes, o escritor que não gosta de falar de si nem gosta particularmente de ser entrevistado, aceitou ir ao programa de Judite de Sousa na quinta-feira passada e deu uma entrevista colossal. Falou de livros e escritas, hábitos e gostos, amigos e programas, e também de homens e mulheres marcantes na sua vida. Disse coisas maravilhosas naquele seu tom grave, meio surdo. De quem por princípio desconfia mas acaba sempre por demonstrar uma ternura fundamental. (…) Falaram sobre tempos antigos e coisas de agora, divagaram sobre o sentido da vida, nomearam Deus e elevaram a conversa a níveis de transcendência. Tocaram fatalmente nas questões que envolveram a doença e a convalescença do escritor. ‘O que passei a fazer diferente? Olhe, passei a beijar os meus amigos. É bom beijar um homem e eu não sabia’”.
Aceitemos, pois, a dádiva divina (ainda mesmo que a Saramago não agrade, porventura, a expressão) de termos em nossa contemporaneidade dois vultos grandes da cultura, e aceitemos, também, os traços idiossincráticos de duas personalidades tão diferentes mas afinal tão próximas do génio que os caracteriza como património literário de uma aldeia global sem fronteiras. Perante a intransigência de José Saramago em aceitar os princípios da fé cristã não se deixará de cumprir o propósito do filósofo Martin Buber: “Deus não me pedirá contas de eu não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai-me pedir contas de não ter sido eu completa e intensamente”. Ora, inegavelmente, Saramago é uma personalidade que vive o seu eu “completa e intensamente”. Pelo menos por este lado, o Nobel da Literatura pode dormir descansado!

11 comentários:

  1. Saramago inevitávelmente terá razão, tem que a ter!
    Quando um homem, só um homem, perto dos 90 anos consegue que toda uma sociedade (um país?)se vire contra ele, lhe chame nomes, o critique pelo que fez (e não fez)chegue ao ponto de (pela voz de um Eurodeputado) o querer banir mas sem nunca chegar a debater (sériamente) o que é proposto por esse homem, ficando-se sómente pelos gritos de Blasfémia Blasfémia! (todas as grandes verdades começam por ser blasfémias B. Shaw)algo está muito errado com essa sociedade (país)sobretudo quando se dá tal importância e prioridade, quando afinal cerca de 50.000 idosos dessa dita sociedade passam FOME!
    Saramago caíu em desgraça aos olhos dos Portugueses (sómente dos portugueses) o que não pode deixar de ser um excelente indicador à genealidade do seu espirito Inquiridor e inconformista!
    Adoro ver toda uma sociedade de acomodados "incomodada" justamente por Saramago, um homem cuja influência se resume à área da literatura, nunca das Finanças, Politica ou do Poder, lobys esses sempre e verdadeiramente respeitados (idolatrados?)pelos seus mais acérrimos criticos!
    Quando Saramago já tiver morrido certamente será recuperado e homenageado (como Português) por todos estes que agora lhe atiram pedras.
    É o Luso costume!
    Viva Saramago!

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  2. O problema deveria cingir-se à Bíblia porque foi sobre a obra que Saramago falou, e o legítimo e curial, seria as pessoas, em vez de gritarem "aqui d'El-Rei", apresentassem o contraponto, o contraditório, o argumento que mostrasse a outra face da Bíblia.

    Optaram pela via mais fácil e menos remuneratória, abominar o autor. E mais fácil porque ninguém se sentiu capacitado para defender a Bíblia e apresentar a razão da sem-razão de Saramago.

    Gustavo Flaubert esclareceu que "o autor, na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma", mas as pessoas entenderam dar a visibilidade que Saramago nunca solicitou.

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  3. O problema saiu deslocado do seu trajecto porque deveria ter-se cingido à Bíblia que foi o alvo de Saramago, e legítimo e curial seria o de as pessoas, em vez de gritarem "aqui d'El-Rei", apresentarem o seu contraponto, o contraditório, a outra face da Bíblia.

    Optaram pela via mais fácil e menos congruente: abominar o autor. E mais fácil porque ninguém se sentiu capacitado para defender a Bíblia e apresentar a razão da sem-razão de Saramago.

    Gustave Flaubert esclareceu que "o autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma", mas as pessoas entenderam dar a Saramago a visibilidade que nunca solicitou.
    Gustave Flaubert

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  4. Claro que não navego nos sulcos de intolerância do deputado citado no comentário de “dumoc”.

    Compete-me o ónus da prova com a transcrição de um simples parágrafo do meu post: “Aceitemos, pois, a dádiva divina (ainda mesmo que a Saramago não agrade, porventura, a expressão) de termos em nossa contemporaneidade dois vultos grandes da cultura [Saramago e Lobo Antunes], e aceitemos, também, os traços idiossincráticos de duas personalidades tão diferentes mas afinal tão próximas do génio que os caracteriza como património literário de uma aldeia global sem fronteiras”.

    Deixando, portanto, o escritor na paz das suas convicções, o que eu não tolero (no direito de ter uma opinião própria) no homem José Saramago é a sua tentativa, nas entrevistas em que se desdobra nos jornais e na televisão, de dar o dito por não dito quando se trata de uma espécie de quadratura do círculo em dar o escrito por não escrito.

    Felizmente para ele e para todos nós, admiradores ou não das suas obras de iconoclasta, que não existem em sociedades democráticas bombeiros como os do inesquecível filme de François Truffaut, “Fahreneith 45”.

    Assim, por mais que se afobe, os testemunhos da sua prosa ficarão a atestar no tempo aquilo que escreveu verdadeiramente não lhe permitindo o papel do velho mestre-escola que à ponteirada nas cabeças mais relapsas obrigava os alunos a seguirem a sua cartilha, estivesse certa ou errada.

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  5. Caro João Boaventura:

    A Classicista Alexandra Azevedo seguiu a via por si preconizada em post recentemente aqui deixado, intitulado "São eternidade", e por si próprio calcorreado, com conhecimento de causa, em comentário feito a um post de 23 deste mês sobre esta temática.

    Refiro-me ao post “Galileu e Saramago”, da autoria do Prof. Carlos Fiolhais.

    Um abraço,

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  6. Caro Rui Baptista

    Grato pela atenção.
    Já tinha lido "São eternidade" e apreciado o texto porque a autora, ao abordar os poemas homéricos, mais não faz do que aproximar o Novo Testamento (escrituras gregas) do mundo apologético dos deuses.

    Não esquecer que as imagens utilizadas pela Igreja (menino Jesus, São José, Virgem Maria, Cristo, e posteriormente de todos os Santos), foram inspiradas nas representações dos deuses que os helenos nos legaram, quer através das pinturas nos vasos, quer nas esculturas.

    Aí está uma via bem conseguida para abordar a Bíblia.

    Um abraço

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  7. «Saramago é uma personalidade que vive o seu eu “completa e intensamente”.»

    Bela e expressiva metáfora! Não podia estar mais de acordo... :-)))
    Cumprimentos
    Nicolina Cabrita

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  8. A ambos - portadores de doençazitas das que afectam o comum dos mortais e os levam a morrer, coisa pouca - deu-lhes para divagar sobre as crenças no acaso ou na necessidade.
    A um, bem nascido e criado entre gente bela e doutorada, a outro, nem tanto, deu-lhes para se revelarem ainda mais do que nos seus livros. Ambos interessantes quanto baste, exploram os seus sentimentos e os media.
    Porque não o deveriam fazer?
    Por respeito e deferência para com quem?
    Ãh???
    MJ

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  9. Foi precisamente essa a linha que pretendi seguir no meu post. Estabelecer um confronto entre duas personalidades perante uma mesma situação de terem estado às portas da morte que igualiza tanto o rico como o pobre, o escritor laureado ou aquele que escreve simples cartas para a família ou mail's para os amigos.

    E ninguém melhor que os escritores da envergadura literária de Saramago ou Lobo Antunes (0u vive-versa)para o fazerem tornando-se personagens de si próprios. Daí o meu interesse em seguir essa linha, embora reconheça que, a exemplo do poeta que é um fingidor, segundo Pessoa, o prosador não esteja a coberto dessa tentação.

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  10. Um pequeno, mas necessário,acrescento ao meu comentário anterior. Depois da morte, alguns dessa lei se libertam (Camões). Será esse o caso dos escritores aqui referidos

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  11. Embora extemporâneo este comentário (mas justificado pelo facto de só agora ter tomado conhecimento do que aqui dou conta), não resisto em transcrever a doxomania paroxística da sua autora, Pilar del Rio (mulher de Saramago): "Se Deus existisse, falaria com Voltaire e Saramago" ( Revista "Focus", de 28/10 a 03/11/2009).

    Registo, todavia, a "humildade" de Pilar del Rio em dar a primazia da referência a Voltaire. Mas, por outro lado, chamo a atenção para a facilidade com que num estalar de dedos resolve o problema da existência de Deus que tanto tem despertado a atenção de teólogos, filósofos ou até do simples mortal. Espero que ela saída da banheira não tenha exclamado: "Eureka"!

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