quarta-feira, 29 de julho de 2009

Tudo o que é preciso saber?

Post convidado de João Boavida, antes publicado no Semanário As Beiras.

Vale a pena ler:

Título: Cultura - Tudo o que é preciso saber
Autor: Dietrich Schwanitz
Edição: Dom Quixote (2006)

"É um grosso livro, de perto de 700 páginas, tipo 10, “times”, formato para o grande, mancha densa, ou seja, um livro acima do habitual em tamanho e conteúdo, e que, apesar disso, e do título (há quem fuja mais à cultura que o gato à água fria), em quatro anos fez umas dez edições em Português, ou mais. É obra! Poderemos dizer mesmo que é obra de duas maneiras: pelo que é e pelas edições portuguesas em pouco tempo.

Mas o facto pode ter várias interpretações. Muitos portugueses, ao contrário do que se pensa e apesar dos muitos que dela fogem, estão ansiosos por cultura, e correm a consumi-la onde quer que a vêem ou lha anunciam. Outros, procurarão resolver, num único livro, tudo o que afinal interessa, lamentando o tempo gasto a aprender tanta inutilidade, e procurando assim não aprender mais coisas inúteis. Outros ainda, tendo gasto a juventude em assuntos mais práticos ou tarefas mais curtidas que a cultura, segundo pensam, vendo agora a falta que ela lhes faz, procuram recuperar, em 700 páginas de compêndio, o que importa saber para não fazer tristes figuras. Enfim, razões para um tal sucesso editorial não faltam.

É de facto um livro ao mesmo tempo sólido e acessível, e, já agora, que revela vasta cultura, o que não é coisa pouca. Mas que pouco ensinará aos que mais precisam, isto é, aos incultos, porque lhes faltará cultura para, daquela cultura, tirarem proveito cultural. Embora possa ser útil aos cultos, que de facto não precisam dele, ou que dela não necessitam tanto embora a utilizem mais, o que parece um contra-senso, mas neste caso nem é. Ou melhor, talvez não seja.

Contra-senso é o livro em si mesmo quando pretende fazer-nos saber tudo o que é preciso saber, uma vez que ninguém está habilitado a saber tudo o que é preciso saber, porque ninguém pode prever tudo o que venha a precisar de saber. Não só, como se sabe, porque não se pode saber tudo, como também porque não se pode saber o que não se sabe que não se sabe. Ora, se não se sabe o que de facto ignoramos, não só não sabemos o que não sabemos, como não temos nenhumas condições para saber o que nos falta. E, sendo assim, como saber de facto o que é preciso saber se não sabemos o que nos falta?

Uma das características da cultura é não apresentar limites prévios, nem características antecipadamente definidas como culturais, nem estatuto definitivamente estabelecido, nem caminho previamente percorrido. A cultura é, em boa medida, a consciência do que nos falta a partir do muito ou pouco que sabemos, e por muito que saibamos. Além disso, estabelecer tudo o que de facto é importante pressupõe uma arrogância que hoje perdeu muito do sentido que o eurocentrismo lhe dava e que o multiculturalismo lançou às urtigas, ou quase. Não é que a nossa cultura europeia não seja importante, e até é bom que a revalorizemos, tão envergonhados andamos dela. O que é, na verdade, uma vergonha.

Mas se tudo o que é preciso saber é aquilo que lá está, no livro, então tudo o que lá não está é como se não existisse. E se o que falta são culturas inteiras, como é o caso da cultura portuguesa, por exemplo, como poder ter a certeza do valor do que lá está e dizer-se que é tudo o que é preciso saber? Devemos perguntar: que significariam as culturas que lá estão, se as que lá faltam não tivessem existido? E que valor teriam as que lá estão se também lá estivessem as que lá não estão, possibilitando assim um quadro muito mais largo e uma diluição maior, dada a relatividade e a interacção das coisas?

Em suma, um sólido livro de cultura que se dissolve a si mesmo pela sobranceria cultural que se julgaria impossível de diluir. Sempre, todavia, com um tom jocoso, facto quase contraditório, embora curioso, e que, convenhamos, é habitual sinal de cultura. Que lá está também, temos que o reconhecer. Há coisas… digamos, muito contraditórias, por exemplo, a cultura, os modos como se manifesta e os que se presumem dela."
João Boavida

7 comentários:

  1. Sobre a cultura , mas a cultura electrónica,a cultura dos jovens e das crianças e de alguns adultos,


    EMERGÊNCIA DA NOVA CULTURA ELECTRÓNICA:
    Em 1936, Turing elabora o “ manifesto da nova ordem electrónica”. O mesmo, dá-nos a descrição simbólica que revela uma estrutura lógica e não uma construção de uma estrutura (Forester, 1993: 67-68). No Entanto, em 1950, “ Machinery and intelligence” convence-nos de que os computadores tinham capacidade de imitação da inteligência humana (Forester, 1993: 67-68), criando-se, a partir deste momento o termo inteligência artificial, associando as tarefas dos computadores ao controlo e comando no mundo científico e empresarial (Forester, 1993: 67-68).
    Beniger (Forester, 1993: 81) defende que o controlo da revolução da sociedade de informação tem início na resposta à “ crise do controlo” gerada pela revolução industrial.

    Cumpts,
    Madalena Madeira

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  2. Cultura - Tudo o que é preciso saber
    «Cultura – Tudo o que é preciso saber», de Dietrich Schwanitz, pretende funcionar como um comprimido milagroso que, tomado sem mastigar como compete ao género, dote o seu leitor de um conhecimento inaudito sobre tudo quanto define a cultura ocidental. Comprimido é o termo, uma vez que a aceleração dos relatos suprime pormenores fundamentais que, perversamente, transformam os acontecimentos, na maior parte das vezes, e para o leigo ávido de sabedoria, em situações de causalidade profundamente ridícula.
    O caso de Portugal, rotundamente ausente da cultura do Sr. Schwanitz, é aflitivo. Ficamos, por exemplo, a saber que «o galego se transformou em português» (p. 87) e, por isso, a língua que falámos não parece ter nada a ver com o latim. Também não devem importar ao cidadão culto as Descobertas, nem mesmo que um dia dividimos o mundo com a Espanha, ou que fizemos uma revolução com flores ainda há tão pouco tempo. Enfim, fomos e somos, afinal, realmente nada. Mas os italianos também têm de entender que, apesar de tudo, Da Vinci é um génio «talvez apenas comparável a Leibniz ou Goethe» (p.103); e os cristãos podem ficar a saber que o presépio se resume nesta pérola: «Não há dinheiro para alugar um alojamento, a família praticamente não tem onde cair morta e, assim sendo, Deus nasce num estábulo entre uma vaca e um burro.» (p.71), também podem aprender que Cristo «Ao mesmo tempo apregoa os ensinamentos dos posteriores hippies: Make love not war, ele acredita no poder do perdão e pratica o ascetismo. (…) No entanto, ele não é o único profeta armado em hippie antes do nome.» (p. 72). Onde estaria o Sr. Schwanitz quando lhe explicaram que o amor dos hippies não tinha que ver com a libertação sexual mas, pasme-se, com a concepção muito platónica do afecto característica do cristianismo?
    «Cultura - Tudo o que você precisa saber» é, infelizmente, um livro das Publicações Dom Quixote, em segunda edição por esta altura - a primeira data de Setembro passado - e peca por tão grande pretensão, ignorância e cínicas intenções. Está longe de ser um comprimido mágico, deve antes inserir-se na secção de leituras light destinadas a quem não quer verdadeiramente ler, que é como quem diz, para quem não quer verdadeiramente saber.

    in http://daliteratura.blogspot.com/2005/01/cultura-tudo-o-que-preciso-saber.html

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  3. Tenho o livro, li-o. É muito útil, tanto para gente que tem acesso a muitos livros que quer fazer a revisão da matéria, como para aqueles que realmente sofrem da falta de tempo, mas querem aprender alguma coisa. Não subscrevo as posições nem do post nem dos comentários anteriores. É uma forma útil e rigorosa de em pouco tempo as pessoas aprenderem alguma coisa que as faça mais felizes e não vejo, em absoluto, qualquer problema nisso.

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  4. Ahhh manda o João sair dessa Boa vida sabe

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  5. ahhhhh manda o João sair dessa Boa vida sabe !
    rsrsrs

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  6. Este livro consta da bibliografia de uma disciplina ministrada na Universidade Aberta. Algum valor há-de ter...

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