THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

quarta-feira, 30 de Abril de 2008

TOP TENS


Os mandamentos são dez. Os "top-tens" são muito populares para livros, discos, filmes, etc. O matemático John Allen Paulos, no seu livro "As Notícias e a Matemática" (Europa-América, 1997) dá dez razões para gostarmos de "top tens". A primeira é que dez é "um número comum e familiar, a base do nosso sistema numérico". Acaba de sair um livro de listas de dez, intitulado "Deciclopédia". A editora é a Tinta da China, o seu autor é Gideon Haigh e o seu tradutor e adaptador é Vladimiro Nunes, tal e qual como a "Inciclopédia" da qual já aqui falei.

Transcrevo aqui a lista de dez listas escolhida para a badana (com um cheirinho do conteúdo que acrescento entre parêntesis):

1- Dez ditos em mirandês (um deles é "Mulhieres i bino fáien ls homes perder l tino", nem precisa de tradução).
2- Dez dedicatórias em obras literárias (uma delas é "Para Vera e Alex e, é evidente, para o gato Benevides, que me deu tremendas lições de dignidade", Mário-Henrique Leiria, "Novos Contos do Gin", 1974).
3- Dez coloquialismos dos mercados financeiros (um deles, de significado óbvio, é "Tudo ou Nada", mas há outros mais esotéricos como "alavancagem").
4- Dez chefes do governo mais corruptos (ganha Suharto, seguido por Ferdinand Marcos e por Mobutu Sese Seko).
5- Dez lugares de Portugal com nomes mórbidos (Campa - Paredes, Campa do Preto - Maia, Enforca-Cães - Abrantes, Fonte do Judeu Morto - Castro Marim, Matança - Fornos de Algodres, Mina da Caveira - Grândola, Monte da Forca - Avis e Braga e Serva Morta - Amares).
6- Dez momentos de soberba militar ("A esta distância, eles nem num elefante acertavam" foram as últimas palavras do general John Segdwick, do exército da União, antes de levar um tiro na cara numa batalha na Virgínia, em 1864, na Guerra Civil americana).
7- Dez métodos contraceptivos e sua eficácia (o mais eficaz é a esterilização e o menos eficaz a abstinência periódica).
8- Dez tratados (vêm o de Roma e o de Maastricht mas não o de Lisboa!)
9- Dez pragas do Egipto (a primeira é que o rio Nilo e toda a água do Egipto se transformam em sangue...).
10- Dez grandes economistas (estão, além de Karl Marx e J. M. Keynes, nomes menos conhecidos como Leon Walras, Carl Menger, Alfred Marshall, Vilfredo Pareto, Eugen von Bohm-Bawerk, Frank Taussig, Irving Fisher e Wesley Mitchell; a lista foi tirada do livro "Dez grandes economistas", de Joseph Sumpeter, 1951).

A leitura, seguida ou ao acaso, destas e doutras listas de dez é bem divertida!

Física @ UC

Informação recebida do Departamento de Física da Universidade de Coimbra:

O Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra recebe estudantes do ensino secundário numa Escola de Verão.

Durante uma semana, de 21 a 25 de Julho próximo, os estudantes poderão realizar experiências, assistir a palestras e fazer projectos. Para mais informações ver aqui.

terça-feira, 29 de Abril de 2008

Dicionário Escolar de Filosofia

Publicado em 2003 pela Plátano Editora, e entretanto esgotado, este dicionário está agora integralmente disponível na Internet: www.defnarede.com. Sendo de acesso gratuito, este site permanecerá gratuito e disponível mesmo depois de ser publicada em papel a nova edição revista e aumentada do dicionário, prevista para Setembro de 2008.

"E ela dança"

“Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite,
ela dançava pela sala fora (…).
E ela dançará.
Ao longo das sílabas dos poemas,
como dançava na minha infância.”
Miguel Sousa Tavares


No dia de hoje, em que se comemora essa arte magnífica que é a da dança, lembro-me de um poema - Por delicadeza - e de um quadro - O baile - de duas senhoras que representam duas outras artes magníficas: Sophia de Mello Breyner Anderson e Paula Rego.

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo

Tão cedo negado

Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei


Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui

Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desate

Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi a minha vida»


(Citação de Miguel SousaTavares in Jornal Público, 12 de Junho de 1999).

Alta tensão, telemóveis, incerteza e risco


Informação recebida da "Ciência Viva":

Já estão disponíveis o vídeo e as fotografias do Café de Ciência sobre Redes de alta tensão, antenas de telemóvel, incerteza e percepção de risco, que teve lugar no passado dia 16 de Abril na Biblioteca da Assembleia da República.

À mesa deste Café de Ciência estiveram investigadores e deputados, debatendo num ambiente informal os possíveis efeitos biológicos das redes de alta tensão e das antenas de telemóvel, numa perspectiva de avaliação de riscos e de definição de normas de segurança.

Esta iniciativa contou com a participação do Presidente da Assembleia da República, do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, do Presidente da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, do Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, da Directora Executiva do ECSITE e da Presidente da Ciência Viva.

Pelo terceiro ano consecutivo, a Ciência Viva, o Conselho dos Laboratórios Associados e a Comissão Parlamentar de Educação e Ciência organizaram esta iniciativa, que tem como objectivo promover o debate entre políticos e investigadores sobre temas prementes na sociedade, contribuindo para que a decisão política seja apoiada no conhecimento científico.

Mais informação e vídeo do evento:
http://www.cienciaviva.pt/divulgacao/cafe

A “cicuta de Sócrates às colheres”: A polémica portuguesa do século XIX aos nossos dias


Nova crónica de Rui Baptista:

“Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste”
(Sigmund Freud)

A polémica com uma forte componente agonística tem raízes profundas na tradição portuguesa e no contexto europeu. Mas para que se afirme em toda a plenitude e riqueza argumentativa é condição, “sine qua non”, não haver despotismo que combata ferozmente a liberdade de expressão. Um ataque sem quartel a este direito teve lugar na Inglaterra, no decurso do século XVIII, quando o bispo e filósofo George Berkeley (1685-1753) escreveu e fez publicar, no jornal “Guardian”, uma série de artigos contra os livres pensadores.

Passado mais de um século, neste rectângulo peninsular assistiu-se a uma polémica de grande escândalo nacional com o encerramento das chamadas “Conferências do Casino”, por ordem do tristemente célebre ministro Ávila e Bolama. Este “acto tolo” (Antero) suscitou o protesto veemente dos seus organizadores: “Em nome da liberdade de pensamento, da liberdade da palavra, da liberdade de reunião, bases de todo o direito público, únicas garantias da justiça social, protestamos, ainda mais contristados que indignados, contra a portaria que manda arbitrariamente encerrar as salas das Conferências democráticas”.

Uma das finalidades consignadas no programa dessas conferências por doze dos seus doze mentores, rezava: “Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos”. Sem desprimor para todos os outros subscritores, nesta tribuna de ideias e críticas sociais destacaram-se personalidades da vida cultural e política nacional como Eça, Antero, Teófilo Braga e Manuel de Arriaga que viria a ser o primeiro presidente da República Portuguesa sendo sucedido por Teófilo Braga.

Vivia-se então em plena época de ouro da polémica em Portugal em que pontuava a verrina de Camilo - segundo Jacinto Prado Coelho “o demónio da polémica violenta estava-lhe na massa do sangue” - arrogando-se ao direito “em não respeitar os tolos”. Igualmente, com a pujança da sua figura atlética, retratada por ele próprio quando diz ter nascido para “hércules de feira”, destaca-se a Ramalhal figura que “retesa o arco com toda a musculosa força da sua prosa” (João Maia) para escrever, de parceria com Eça, “As Farpas”.

Esta obra literária de grande fôlego, com a finalidade, segundo os seus autores, de “farpear a velha Tolice Humana que tem cabeça de touro”, está repleta de páginas de sátiras mordazes às letras, à política e aos costumes de uma época em que “o sapateiro é secretário do centro reformista da sua rua, e alia o labor do botim ao da eloquência política, o que dá algumas vezes em resultado empregar a metáfora no calçado e a sola e vira no discurso”.

Eça de Queiroz (1845-1900), pairando no domínio doutrinário, pugnou para que a polémica se desenrolasse num clima de plena igualdade entre os contendores: “Estabeleçam-se forças lisas e desatravanque-se a arena. Não se admitem cá tiaras que resguardem as frontes, nem degraus a que não seja lícito subir, nem púrpuras roçagantes em que seja fácil tropeçar. Os atletas querem-se nus como os típicos lutadores da estatuária grega”.

Este notável romancista, apesar de declarar o firme propósito de “acutilar instituições, costumes, tipos humanos e aplicar-lhes a moralizadora ‘bengalada do homem de bem’”, não deixou de alertar para a incomodidade em se cruzarem ferros: “Eu digo – é útil balar como os carneiros; ganha-se a estima dos néscios, as cortesias do chapéu do Roxo [conceituado chapeleiro com loja no Rossio], palmadinhas doces no ombro, de manhã à noite uma pingadeira de glória. Mas ir sacudir, incomodar o repouso da velha tolice humana traz desconfortos, vêm as caluniazinhas, os odiozinhos, a cicuta de Sócrates às colheres”.

Nem a propósito, no passado dia 22 de Abril, José Saramago denunciou o estado actual de um país sem fibra nem raça para discutir os graves problemas nacionais: “Falta em Portugal espírito crítico: estamos um pouco aborregados”. Desta forma, em censuras que se entrecruzam, estão irmanados, em um mesmo propósito de coragem, Eça e Saramago, dois dos grandes vultos da literatura nacional, ainda que com datas de nascimento separadas entre si de 77 anos.

Mesmo sem os sinos dobrarem a anunciar a morte da polémica, é de temer que resquícios de longos anos do lápis azul dos coronéis do Estado Novo tenham reflexo numa possível falta de coragem das gerações dos nossos dias em participarem activamente na discussão pública dos momentosos problemas sociais da vida nacional. Para além da crença de Vitorino Nemésio de que “o português gosta de ver um bravo, ou mesmo um louco, ao parapeito”, trata-se mesmo de um dever de cidadania dos povos do mundo livre.

Obras consultadas:

- As Grandes Polémicas Portuguesas, II volume, Editorial Verbo, Lisboa. 1967.

- As Farpas”, coordenação geral e introdução de Maria Filomena Mónica, PRINCIPIA, Publicações universitárias e científicas S. João do Estoril, Cascais, 1.ª edição, 2004.

- As Polémicas de Camilo, recolha, prefácio e notas de Alexandre Cabral, tomos I,II e III, Portugália Editora, Lisboa 1967.

Crise alimentar internacional



A Ministra dos Negócios Estrangeiros da Serra Leoa chama a atenção para o problema da crise alimentar internacional. Eis uma lista de artigos recentes sobre o assunto na imprensa mundial:

1. BBC: "How to stop the global food crisis": http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/south_asia/7365798.stm

2. "The New Economics of Hunger", Washington Post, 27 April 2008 http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/04/26/AR2008042602041_pf.html

3. Chinese news citing World Bank figures: http://www.cctv.com/english/20080426/102406.shtml

4. Reuters: "Rising food prices to top UN agenda" http://www.reuters.com/article/gc08/idUSL1890947220080424

5. "Rising Food Prices" by Alex Evans (Chatham House report) http://www.chathamhouse.org.uk/files/11422_bp0408food.pdf

6. UN scientific report on fixing the world food system: http://news.bbc.co.uk/1/hi/sci/tech/7347239.stm

7. The Guardian: "Credit crunch? The real crisis is global hunger", George Monbiot http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/apr/15/food.biofuels

segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Mestrado em quê!?


Mestrado em Gestão e Manutenção de Campos de Golfe
in Diário da República, 2.ª Série, n.º 51, 12 de Março de 2008

E, se o leitor reparou, o Mestrado em causa confere duas especializações: "Gestão de Campos de Golfe" e "Manutenção de Campos de Golfe".

Por outro lado, pela ordem natural das coisas, segue-se o Doutoramento...

Para mais informações, consultar, por exemplo, o "Guia do estudante" do semanário Expresso.

Rui Baptista versus Fenprof

Na sequência de post anterior, transcrevemos a resposta do nosso habitual colaborador Rui Baptista, que foi publicada no "Público" de 25/Abril/2008:

As minhas razões


Face ao esclarecimento da Fenprof, publicado hoje dia 22 de Abril, em resposta à minha carta “A máscara” de 17 de Abril, e pelo respeito que me merecem os professores e outros eventuais leitores das duas cartas, esclareço o seguinte:
1. Alerta o dr. António Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados: “Hoje há autocensura, pior do que a censura. Há medo instalado nas pessoas e falta de coragem para exercer a liberdade de expressão” ("Público", 21 de Abril).
2. “No uso da licença e da liberdade de quem não pede favor senão justiça”, como foi costume na vida do Padre António Vieira, começo por esclarecer que não estou, nem nunca estive, contra um novo escalão de vencimentos a contemplar com justiça os professores titulares com trabalho acrescido no desempenho do cargo.
3. Limitei-me a chamar a atenção para o facto de o documento emanado do ministério da Educação, no ponto 10, especificar que essa atribuição contempla “designadamente titulares de cargos políticos, autarcas e dirigentes de associações sindicais” (sic).
4. Esse facto levou-me a mostrar a minha estranheza pela aceitação da divisão da carreira docente em duas categorias – professor e professor titular - que parecia um ponto de honra da plataforma no pomo de discórdia com o Ministério da Educação.
5. Lamentei que os professores não titulares tivessem o acesso aos escalões superiores congelados com real prejuízo para as suas vidas. E, de entre eles, a acessão a professor titular cada vez mais dificultada.
6. Convém dizer-se que os princípios ora acordados entre a plataforma e o ministério não mereceram a aprovação de todos os professores.
7. A minha metáfora da plataforma se ter “ajoelhado aos pés da ministra” mais não quis significar que a cedência a princípios que poderiam parecer inalienáveis deste o princípio deste braço-de-ferro.
8. Discordar das posições da plataforma não é beliscar sequer o “bom nome dos sindicalistas”. Somente a minha divergência, desde o início, com o facto da plataforma, constituída por 14 sindicatos, agregar organizações que anteriormente defendiam pontos de vista diametralmente opostos.
9. O próprio Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, admitiu em Coimbra, numa sessão com a presença de meio milhar de professores, levada a efeito na noite de 21, “ter existido alguma ‘confusão’ sobre o acordo alcançado” (“Diário de Coimbra”, 22.Abril.2008).
10. Finalmente, até posso admitir que essa ‘confusão’ possa ter transparecido na carta. Nada mais.

Rui Baptista (Coimbra)

Charlatanices, pseudo-ciência e pós-modernismo - II

Como já referi, no dia seguinte à constatação pelo Ludi de que é complicada «a refutação detalhada das patranhas que eles [criacionistas] despejam» tive uma experiência «mística» e hilariante noutro debate que me permitiu confirmar a origem pós-moderna das banhas da cobra e pseudo-ciências que insistem em explorar o desconhecimento alheio.

Na sequência da minha (mui) breve intervenção no programa do provedor do telespectador da RTP, fui contactada por uma jornalista do RCP para saber da minha disponibilidade em elaborar o que pensava sobre astrologia agora aos microfones desta rádio. Claro que estava disponível e só uns dias depois fui informada que estaria igualmente no estúdio um «astrólogo».

A gravação do programa foi uma revelação! Apesar de um certo bias da jornalista, que se fartou de repetir qual mantra também «acreditar» em ciência, compensado pelo bom senso de Rui Mendes, o actor que connosco partilhou as ondas hertzianas, diverti-me imenso durante a cerca de uma hora que lá estive. De facto, nunca vira alguém debitar ao vivo um discurso completamente vazio mas repleto de palavras «caras», sem qualquer sentido e tão irracional quanto o da homeopateta do vídeo anterior - embora o astrólogo que me saiu na rifa não atribuisse a partículas youees as formas de energia desconhecidas com que recheou a prosa decorada dos cartões sortidos que o acompanhavam!

O «astrólogo» parecia saber que o dogma central da astrologia fora definitivamente arrumado na prateleira das banhas da cobra por um estudo que acompanhou ao longo de 50 anos mais de 2000 «gémeos temporais». O estudo verificou o que qualquer pessoa racional já sabia, sem necessidade de confirmação experimental: as nossas características, destino, etc., não sofrem a mínima influência da posição que calhaus ou globos de gás ocupam na treta que dá pelo nome de «carta astral ou astrológica».

Assim, depois de nos explicar que se virara para a astrologia devido a sentimentos de desadequação e inadaptação ao mundo, esforçou-se imenso por reiterar que, embora não fosse ciência, a astrologia não era charlatanismo embora existissem muitos charlatães a praticar a «profissão».

O que era então a astrologia que não é ciência para Nuno Michaels que não é «charlatão»? Bem, ouvi estupefacta um crescendo de dislates que começaram New Age e terminaram pós-modernos, com direito a leituras, dos tais cartões, de citações de Boaventura Sousa Santos, o grande argumento de autoridade que «legitimava» epistemicamente a astrologia.

Considerando que a maioria dos ouvintes da RCP não deve ter grande traquejo para pós-modernices misturadas com patetadas New Age só posso esperar que muitos tenham percebido que ler o horóscopo ou consultar um «astrólogo» é um disparate total. De facto, diria que ficaram completamente mistificados ao ouvir o «astrólogo», que não conseguia explicar o que cargas de água era a astrologia que não tem contraparte física, isto é, não tem nada a ver com a posição de calhaus num qualquer mapa «celeste». Bem, de contradição em contradição o astrólogo lá deixou escapar referência à «Lei Cósmica da Correspondência Sistémica» (???) que supostamente une todos os sistemas do Universo - por vibrações, claro, embora por muito que eu tentasse não conseguisse descobrir que cargas de água eram as vibrações atribuídas, por exemplo, a Plutão e se estas seriam diferentes se Venetia Burney se tivesse lembrado de outro nome menos... simbólico para o ex-planeta. Também não consegui perguntar-lhe porque razão são irrelevantes as «vibrações» de Ceres, muito maior que Plutão ou mesmo Mercúrio.

A tirada semiótica que se seguiu deixou-me morta de riso: achei divertida a confirmação de que a astrologia usa simbolicamente os planetas (como poderia usar búzios, tarot ou outra coisa qualquer) para esclarecer, de forma igualmente simbólica, isto é, completamente arbitrária, as angústias que a sociedade fria e científica provoca nos consultantes.

Embora não me recorde exactamente dos termos desta tirada - é humanamente impossível alguém recordar na íntegra aqueles longos minutos de prosa vazia, pomposa e sem sentido - os meus apontamentos, que utilizei para o interpelar das poucas vezes em que tive direito de palavra, permitiram-me localizar algumas das pérolas redondissimas utilizadas na sebenta de Semiótica - «A linguagem, a verdade e o poder - Ensaio de Semiótica geral», de Moisés Martins. O Pedro Romano transcreveu alguns excertos da dita sebenta no seu blog, nomeadamente a parte que se segue, debitada no geral se não mesmo nos pormenores pelo «astrólogo» e em que semiótica foi substítuida por astrologia:

«A semiótica visa uma antropologia estrutural do imaginário (no seu sentido metapsicólogico) humano. Ora esse imaginário é assemântico ou não subjectivado. A matéria prima da Semiótica é uma substância que não é uma substância de conteúdo, mas um puro medium imaginário entre a regulação biológica e a idealidade, indizível, do absoluto. Se o conceito de estrutura é o conceito formal de base da semiótica, o do imaginário como carne é o seu conceito substancial de base».

Os ouvintes nesta parte já se deviam interrogar sobre que raios estaria o senhor a falar que muitos pensariam certamente ser sobre algo completamente desconhecido. As citações ao roubo do fogo sagrado por Prometeu (esqueceu-se do funcho) e o elogio a Platão e seus arquétipos poderiam ter enganado os mais incautos como sendo referências filosóficas mas na realidade foram uma elegia literal aos arqué de Empédocles.

De facto, parece que a astrologia «é uma dinâmica de Ascenção [sic, descobri que astrologia e ortografia não rimam], activada pela inter-relação dos Elementos: o Fogo, a Terra, a Água e o Ar», ou seja, esta gente quer ainda recuperar a alquimia. Ou antes, vende a sua banha da cobra como «o Projecto Alquímico que cada um de nós traz ao nascer, contido nas tensões do seu Tema Astrológico». Não sei se estas tensões rimam com vibrações mas não faltaram para compor o ramalhete termos como «holística» , dicotomias «visível» -«invísivel», «heranças energéticas», «energias específicas» e demais tretas. Assim como não faltou um esperado ataque à ciência e um elogio aos pós-modernistas em geral (Boaventura Sousa Santos em particular foi louvado como um profeta da boa-nova) que tanto contribuem para o sucesso de toda a espécie de charlatães e vendedores de banhas da cobra.

De facto, os grandes aliados do criacionismo e de todos os charlatanismos pseudo-científicos/alternativos são o eduquês e o pós-modernismo. O eduquês porque se devota a formar analfabetos científicos e também porque , sem qualquer surpresa, o discurso oco de ambos se confunde e muitas vezes se acumula num mesmo «especialista».

Steve Fuller, o «esquerdista pós-moderno» arregimentado pelos apóstolos do Discovery Institute para depor a favor do Desenho Inteligente no julgamento de Dover é um exemplo dessa coligação. Para Fuller, tal como para os eduqueses, a ciência não é neutra, é um instrumento de opressão e, com um discurso familiar aos que leram o post «Química no ensino básico: quem nos liberta desta cruz», rejeita «a epistemologia clássica» que considera «uma forma encoberta de distribuir poder».

O Carlos, a Helena, eu própria e o Desidério já abordámos o relativismo pós-moderno que basicamente assenta na presunção de que a ciência tem tanto valor epistémico quanto os delírios de qualquer feiticeiro tribal. Pessoalmente concordo em pleno com o filósofo alemão Jürgen Habermas que relaciona o conceito de pós-modernidade a tendências políticas e culturais neoconservadoras, determinadas em combater os ideais iluministas.

De facto, graças aos ideais iluministas houve espectaculares avanços civilizacionais e científicos nos últimos 250 anos. Na ética, na política, no direito, no conhecimento e nas metodologias. Estes avanços deveriam impor ao nosso intelecto a disciplina do pensamento crítico e da comprovação prática da validade de uma qualquer afirmação. Foi assim que a ciência e com ela a nossa civilização avançaram. Todavia, os estragos operados pela transposição para as nossas escolas e media da verbosidade mística dos apóstolos do pós-modernismo e do eduquês permitiram que qualquer charlatão possa afirmar o que quer que seja sem recear que lhe peçam qualquer comprovação (especialmente se disfarçar a vacuidade do discurso num palavreado impenetrável, aparentemente muito «intelectual», com muitas mensagens de paz, amor, tranquilidade e preocupação com a natureza e esgrimindo que há formas alternativas de conhecimento se tudo o resto falhar).

No livro «Pós-modernismo, razão e religião», de 1992, Ernest Gellner refere-se ao pós-modernismo da seguinte forma:

«O pós-modernismo é um movimento contemporâneo. É forte e está na moda. E sobretudo, não é completamente claro o que diabo ele é. Na verdade, a claridade não se encontra entre os seus principais atributos. Ele não apenas falha em praticar a claridade mas em ocasiões até a repudia abertamente...».

Gellner rejeita, como qualquer pessoa de bom senso - e mesmo o mais empedernido pós-moderno não usa telepatia em vez de telefone ou rezas em vez de medicamentos-, que uma afirmação factual, quer científica quer mitológica ou mágica tenha o mesmo valor epistémico e só possa ser considerada verdadeira ou falsa em relação a uma determinada cultura. Um portátil funciona da mesma maneira em Ouro Preto e em Osaka; afirmar que o oxigénio, O2, no seu estado fundamental, é uma espécie paramagnética é a constatação de um facto que tem o mesmo valor epistémico aqui, no Afeganistão ou na China. Como continua Gellner:

«O mundo em que vivemos é definido, acima de tudo, pela existência de um sistema de conhecimento único da natureza, instável e poderoso, e pela relação corrosiva e conflituosa que mantém com outros conjuntos de ideias ("culturas") que orientam a vida dos homens.(...)

Existe um conhecimento externo, objectivo e que transcende a cultura: existe, de facto, um "conhecimento para além da cultura." (...) A faculdade, inerente à cognição, que lhe permite ultrapassar as fronteiras de um qualquer casulo cultural e atingir formas de conhecimento válidas para todos - e, consequentemente, um entendimento da natureza que resulta numa tecnologia extraordinariamente poderosa - constitui o facto crucial das nossas condições sociais comuns».

Esta faculdade inerente à cognição que nos permite transcender limites étnico-culturais é estrangulada quer pelo pós-modernismo quer pelo eduquês, que, sob a capa do multiculturalismo e respeito pelas diferenças, na prática aprisionam os membros de uma dada «comunidade cultural» ou social. A experiência do Ludi e a minha são apenas gotas de água que reforçam ser urgente que, para além de acendermos muitas velas de Sagan, não esqueçamos sobretudo o aviso de Joe Kaplinsky: «quando o criacionismo [a que acrescento patetadas como a astrologia] pode vestir-se de 'pensamento crítico' deveria ser evidente de que não é apenas com os fundamentalistas cristãos que precisamos preocupar-nos - é com todo um sistema educacional imbecilizante!»

domingo, 27 de Abril de 2008

Homeopatetices


Simplesmente não consegui acreditar que alguém fosse capaz de debitar em apenas 8 minutos esta quantidade de dislates! Como refere Ben Goldacre, esta coisa está simplesmente para além da paródia, é demasiado imbecil para ser verdade! No caso de os homeopatetas conseguirem de novo retirar esta pérola do YouTube, que explica de facto o que é a homeopatetice, podem ver aqui a transcrição desta sandice e ignorância total de ..., bem tudo.

Apesar do que descobri na pesquisa para a escrita da série sobre homeopatetices, juro que me mistifica como é que alguém pode dizer com um ar convicto coisas como a que se segue, muito menos consigo entender como alguém engole tanta asneira:

«Vocês pensam que são uma quantidade de massa, certo? Bem, toda a massa universal pode ser consolidada numa coisa do tamanho de uma bola de bowling. Isso é tudo o que há no mundo inteiro e no Universo! Assim, quanta massa são vocês? É verdade -- uma quantidade infinitesimal. Assim, se pegarem naquela fórmula -- E igual a M C ao quadrado -- quase que se pode cortar a massa! A fórmula reduz-se a ser energia igual à velocidade da luz. E por isso é que a visão é tão importante [aponta para os olhos] porque nós temos montes de fotoreceptores que recebem luz».

Não percebi muito bem porque razão, se o objectivo era arranjar uma relação entre energia e luz, a senhora não foi buscar a relação de Planck, embora admita que nem E=hν= h c/λ (que pelo mesmo raciocínio de «cortar» tudo o que é pequeno também se reduziria a E=c) nem Max Planck são tão sexys e famosos quanto Einstein e a sua equação. Suponho por outro lado que ninguém se tenha lembrado de fazer contas, com um átomo de carbono, por exemplo, mas para os homeopatetas, que trabalham a diluições infinitas, os 90 mil biliões (9x1016 J) que resultam de «cortar» a massa devem ser praticamente iguais, mais diluição CH menos diluição CH, aos 0.00000000018 (ou 1.8x10-9) J que resultam na ausência do «corte». Mas pensaria que mesmo o mais iliterato científico perguntasse o que cargas de água tem E=m (cortado ou não)x c2 a ver com visão (passe o trocadilho).

A parte que mais me divertiu é aquela em que a senhora nos explica que a massa de facto não existe e que tudo é na realidade energia e energia é vibração e vibração significa que se os dejectos do cão do meu vizinho me chatearem e eu deitar uma bomba na casa do meu vizinho apenas lhe mudo a sua forma estrutural e isso é a homeopatetice (Ufa).

Acho de facto apropriado usar dejectos de cão para explicar o que é a homeopatetice mas maça-me que os homeopatetas deturpem ciência desta forma simplesmente patética no afã de justificarem «cientificamente» as suas banhas da cobra. Por exemplo, é assombroso descobrir que a teoria de cordas, que nos foi «dada» por Deus por intermédio de Stephen Hawkings (sic), permite um «diagnóstico» instantâneo de tudo e mais umas botas. Parece que os homeopatetas concluem da teoria de cordas que esta descobriu umas «novas» partículas energéticas em forma de «youees» (aceitam-se apostas sobre o que será um youee), facto que os permite afirmar que «cada um de nós vibra com uma certa vibração. Nós ou vibramos com uma planta, um mineral ou um animal».

Ou seja, estas «vibrações» youeeisticas, embora desconhecidas da ciência, somadas à teoria da relatividade (restrita, sem trocadilhos, a E=c2) são a alma matter da homeopatetice já que nos ligam misteriosamente (gluões youeeisticos ?) a vegetais e calhaus - se bem que um calhau seja exactamente o que me faz lembrar quem diz estes disparates.

A mística energia dos youees permite aos seus visionários concluir, só de olhar para um «paciente» com um joelho «squeaky», não só que este era «assim como que resistente à insulina, a modos que a caminho de um estado de diabetes» mas também que vibrava «em ressonância» com bicarbonato de potássio - a Kali carbonica que é de facto eficaz a tratar acidez do estomâgo, tão eficaz quanto uma pastilha Rennie, carbonato de magnésio, ou sais de fruto, bicarbonato de sódio, mas diria que é impotente para tratar os sintomas da oradora, que parece padecer dos efeitos de outro ácido que não clorídrico. Claro que a prescrita solução 30CH, que é só água, apenas alivia a acidez do estomâgo quando preparada em determinadas localidades, conhecidas pela dureza da sua água, ou se o homeopateta que se encarrega das sucussões tiver uma predilecção por água de fontes localizadas num terreno calcário (água de Monchique,por exemplo).

Mas enfim, quando leio que até um professor de medicinas alternativas condena os guias, que louvam inexistentes benefícios de banhas da cobra sortidas, produzidos pelo herdeiro da coroa britânica, isto é, por quase um milhão de libras dos dinheiros públicos, acho que não me devia espantar com nada. Ou antes, devia congratular-me pelo facto de o pensamento crítico do professor Edzard Ernst ter finalmente recuperado da estase em que esteve mergulhado nos últimos anos e no seu último livro concluir o que era óbvio: «A maioria das terapias alternativas são clinicamente ineficientes e muitas são totalmente perigosas».

Charles Darwin: bem-vindo à blogosfera

A Nature Publishing Group, que publica uma das mais prestigiadas revistas científicas, desenvolveu um projecto online a que chamou Nature Network. O objectivo da rede é, para além da divulgação de ciência, providenciar um suporte para a discussão de ideias e construção de comunidades científicas.

A rede inclui uma série de blogs, como o de Bob O'Hara, um bio-matemático da Universidade de Helsínquia ou o «Mind The Gap», de que gostei especialmente do post «In which I marvel at bureaucratic insanity».

Mas sem dúvida que a estrela da companhia é o recém-chegado Charles Darwin, despertado do seu sono de 126 anos pela patetice que dá pelo nome Expelled.

Chaz informa que a Nature foi muito simpática ao oferecer-lhe um blog e pedir-lhe para espreitar a ciência actual. Embora reconheça ter muito a estudar para se pôr a par das revoluções científicas do último século, Darwin aceita sugestões de assuntos a comentar via correio electrónico endereçado para chazdarwin(at)gmail.com.

sábado, 26 de Abril de 2008

Charlatanices, pseudo-ciência e pós-modernismo - I

Benoît Jules Mure (1809-1858), discípulo de Samuel Hahnemann, o pai da homeopatetice, foi um grande apóstolo desta banha da cobra, nomeadamente foi o introdutor da dita no Brasil, onde chegou a 21 de Novembro de 1840 e onde permaneceu até Abril de 1848. Louis Léger Vauthier, um engenheiro revolucionário que desenhou obras emblemáticas do Recife, descreveu Mure de uma forma que se aplica como uma luva a todos os vendedores de banha da cobra «é um charlatão, mas enfim sabe usar da língua e palavras melífluas» (Diário íntimo do Engenheiro Vauthier, 1940, página 183).

Lembrei-me desta descrição ao ler as reflexões do Ludwig acerca do debate «Razão da Criação ou Fé na Evolução» incluído nas XX Jornadas Teológicas. Não me espanta minimamente que o Ludi tenha escrito, após descrever um dos dislates delirantes de Jónatas machado que:

«É por causa destas coisas que muitos recomendam não debater com criacionistas. A audiência assume que os participantes falam do que sabem e que são honestos e responsáveis nas suas alegações».

Como é óbvio, só alguém muito ingénuo - categoria em que não incluo o Ludwig - poderia pensar que os criacionistas fazem exposições objectivas de argumentos: a desonestidade intelectual e as mentiras puras e duras são o seu único apanágio. Como todos os bons vendedores de banha da cobra, a língua e palavras melífluas com que sem vergonha na cara debitam as maiores inanidades são muito eficazes em convencer os mais incautos ou mais cientificamente ignorantes de que não só sabem do que estão a falar como têm razão no que dizem.

Como refere igualmente o Ludi, a asneira é de tal calibre que se torna complicado rebater o óbvio, que tudo o que o Jónatas debitou não passa de mentiras puras e duras, sem dar a «impressão de recorrer a ataques pessoais por falta de argumentos».

Embora o que debita seja totalmente falso, importa conceder o benefício da dúvida: talvez as mentiras óbvias do Jónatas não sejam intencionais mas sim resultantes de uma completa e absoluta ignorância de ciência e a desonestidade intelectual não o seja de facto mas apenas uma postura pós-moderna que confere o mesmo valor epistémico a um mito e à ciência.

A minha total ignorância de pintura poder-me-ia levar a pensar ao olhar para o quadro «La Fortune» de Man Ray com que se inicia o post ou este «Mulher com uma flor» de Picasso que poderia pintar não só como eles mas francamente melhor. Se não gostasse de surrealismo, poderia mesmo, na minha total ignorância dos métodos e técnicas subjacentes, arrogar-me a dizer que Dali e estes geniais e emblemáticos artistas não sabiam pintar ou quejandos e apontar os «óbvios» problemas técnicos das suas obras!

Claro que qualquer estudante de Belas-Artes, se eu me atrevesse a tal prosápia, olharia com comiseração para mim e provavelmente consideraria uma tarefa inglória e uma missão impossível tentar explicar a alguém obviamente tão ignorante e tão insuportavelmente arrogante o b-a-ba da pintura. Ou apontar uma frase de Picasso, filho de um pintor e professor de desenho: «Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças». Mas provavelmente conseguiria convencer aqueles como eu totalmente ignorantes de arte (e da obra dos pintores referidos) de que as obras de Picasso, Dali, etc., não passam de rabiscos que qualquer um pode fazer.

Os dislates de Jónatas Machado assentam essencialmente no facto de que este, totalmente ignorante do que seja a ciência ou o método científico, olha a ciência da forma subjectiva com que muitos olham uma pintura surrealista: «rabiscos» que qualquer um pode fazer. Assim, não percebe que a ciência e os factos científicos não são obras de «arte» que cada um interpreta subjectivamente de acordo com as suas crenças e sensibilidade estética. De qualquer forma, considerando o fundamentalismo evangélico que o inspira para os disparates, é uma tarefa completamente inglória e fadada ao insucesso sequer tentar explicar-lhe o que é a ciência e o método científico ou recomendar a excelente série de artigos sobre evolução que a revista New Scientist publicou recentemente [Evolution: 24 myths and misconceptions].

No dia seguinte ao debate do Ludi com o Jónatas, tive uma inesperada experiência surrealista no estúdio do Rádio Clube Português, que contarei no próximo post e que corroborou o que penso sobre a génese pós-moderna desta onda de irracionalidade que varre o globo e sobre as culpas do eduquês na formação de cidadãos que não sabem distinguir realidade de ficção, ciência de pseudo-ciência ou pensamento crítico de pensamento mágico.

sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Um homem da Liberdade

A data de hoje justifica que se recorde o encontro de dois homens de carácter que se admiravam mutuamente: Francisco Sousa Tavares e Salgueiro Maia. Encontro que é contado pelo jornalista António de Sousa Duarte, num livro que vale a pena ler: Salgueiro Maia, um homem da Liberdade.

"É neste momento que o advogado Francisco Sousa Tavares, a pedido de Salgueiro Maia, dirigindo-se à população, pedindo respeito pelos vencidos e anunciando a «libertação do jugo fascista». O ex-candidato no acto eleitoral de 1969 nas listas da depois extinta Comissão Eleitoral da Unidade Democrática trava aí uma amizade com o capitão Maia. Mais tarde, o velho democrata recordará:

«Era um militar de bravura inigualável, mas também extremamente sensato e um homem de coração. Maia era um chefe nato e dele emanava a força serena dos homens habituados a dominarem-se e, sendo preciso, a dominar os outros. Foi assim que Salgueiro Maia, com os seus homens, dos quais a maioria sem qualquer experiência e praticamente sem instrução de tiro, venceu na Revolução e virou a página da História de Portugal.
Dominou calmamente o terreiro do Paço, o tenente-coronel Ferrand de Almeida, dominou o brigadeiro (!!!) que se lhe quis opor e, pela calma fixa do seu olhar, dominou um a um os homens que receberam ordem para disparar sobre ele. No Carmo dominou tudo e todos: dominou a guarda, dominou o Governo, dominou os ministros que choravam, dominou a multidão, dominou o ódio colectivo dos que gritavam vingança. E dominou o tempo e a vitória que veio ter com ele, obediente e fascinada»" (página 115).

Livro referido:
- Duarte, A. S. (1999). Salgueiro Maia, um homem da Liberdade. Lisboa: Âncora.

SEPARAR O TRIGO DO DIESEL


Minha crónica do "Público" de hoje:

É impossível separar o trigo do diesel uma vez que, para cultivar cereais, são precisos combustíveis. Assim como são precisos combustíveis para transportar os cereais e transformá-los em alimentos.

Ora, os preços dos cereais aumentaram muito no último ano (muitíssimo nos últimos meses!), pelo que os alimentos estão, pelo planeta fora, a faltar. Nos Estados Unidos o diesel nas bombas subiu, no último ano, de 129 por cento. Mas isso não chega para explicar o aumento do preço do trigo, que no mesmo país, ascendeu 90 por cento só no último mês. O preço do trigo nunca esteve tão alto. As reservas de trigo nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, estiveram tão baixas. O mesmo ou algo semelhante se passa com outros cereais. E passa-se em todo o mundo e não só na América. Começa a haver a ameaça de fome generalizada, que já tem originado rebeliões populares, no Bangladesh, no Egipto, na Indonésia, etc. No Haiti até já caiu o governo por causa do preço da comida. A globalização faz com que uma borboleta que bata as asas no Brasil cause uma tempestade no Texas, para usar a imagem de Edward Lorenz, o teórico do caos.

Que outros factores inflenciam a subida vertiginosa dos preços dos cereais? Há um aumento da procura, o que tem a ver com a subida dos padrões de vida, nomeadamente em países como a China e a Índia. E há questões climáticas, como, por exemplo, uma seca prolongada num país grande exportador de cereais como a Austrália. Claro que também há especulação. Mas há um factor essencial que está a ser cada vez mais discutido: a redução das áreas cultivadas para fins alimentares em benefício dos biocombustíveis. Deixou-se de se plantar trigo para se plantar soja, que dá biodiesel, para misturar no diesel, ou para se plantar milho, que dá bioetanol, para misturar na gasolina. As novas plantações de soja e de milho não são para abastecer os supermercados, mas sim para fazerem andar os carros e os camiões. Quer dizer: o trigo e o diesel estão mais ligados do que poderia parecer.

Tem havido uma enorme pressão internacional para incorporar produtos de origem vegetal nos combustíveis. A União Europeia fixou para 2020 a incorporação de dez por cento de produtos de origem vegetal nos combustíveis para transporte. Portugal, como “bom aluno”, apesar de estar bastante atrasado, quer antecipar essa meta para 2010. A Galp, além de ter participação no petróleo do Brasil, tem participação em grandes plantações nesse país e em África (as empresas mais sujas querem limpar a imagem, aparecendo com o look de empresas verdes). O argumento é que a emissão de dióxido de carbono devida à queima dos combustíveis pelos veículos seria compensada pela absorção de dióxido de carbono que as plantas fazem quando crescem. Mas saber-se-á isso de ciência certa?

Não. A revista Science publicou em Fevereiro passado dois estudos que contestam esse pressuposto. Acontece que a produção agrícola para criar biocombustíveis, feitas bem as contas, produz dióxido de carbono que, juntamente com o que surge com a queima do combustível “bioaditivado”, é muito mais do que o que é absorvido pelas plantas. E há mais críticas aos biocombustíveis. Para atingir as metas impostas será preciso reconverter extensas áreas de solos, com graves prejuízos ambientais. Além disso, o norte-americano David Pimentel, professor de Ecologia na Universidade de Cornell (de origem portuguesa), tem defendido desde há muitos anos que os biocombustíveis nem sequer são energeticamente eficientes, isto é, gasta-se mais energia a fazê-los do que se obtém no final à custa deles.

A continuar assim, a Terra poderá estar à beira do abismo. Mas, em vez de dar o proverbial passo em frente, pode ainda recuar. Organismos mundiais como as Nações Unidas estão a lançar um forte SOS. O governo britânico já vai de marcha atrás e a União Europeia irá provavelmente rever os seus planos. E há males que vêm por bem: o “bom aluno” Portugal ainda bem que se atrasou no trabalho de casa, pois esse trabalho agora vai ser outro.

Imagine


Yoko Ono, a viúva de John Lennon, Julian e Sean Ono Lennon processaram os produtores do documentário «Expelled: No intelligence allowed», pelo uso abusivo da canção «Imagine», que passa sem autorização na mega-produção criacionista enquanto se veêm imagens de Stalin e soldados a marchar na China comunista. De igual forma, a banda «The Killers» explica que não estar nada contente com o uso pelos criacionistas - a quem pediram que retirassem a sua canção «All these Things That I Have Done» do filme, depois de perceberem que tinham sido enganados por estes.

Se somarmos a isto o facto de a XVIVO ter igualmente processado os produtores pelo plágio da sua animação «A vida íntima de uma célula», dir-se-ia que a estratégia de marketing seguida pelos criacionistas parece assentar em antagonizar tudo e todos de forma a poderem carpir que as reacções à sua desonestidade (a todos os níveis) são «perseguição».

Felizmente não houve grande adesão do público norte-americano a este monte de dislates, apesar das tentativas de suborno às escolas e às igrejas pagando-lhes até 10 000 ou 1000 dólares respectivamente para que levassem grupos aos cinemas na estreia, que ocorreu no passado fim de semana. A receita nominal do filme (falta saber qual foi de facto a real) ficou muito aquém das expectativas não obstante o número elevadissimo de cinemas em que o filme se estreou: 1052 salas exibiram este monte de lixo num fim de semana em que não houve outras estreias de monta.

Entretanto o The National Center for Science Education, NCSE, organizou uma página muito didáctica que expõe não só as inúmeras mentiras, falsas alegações, enfim a total desonestidade do filme, como explica de uma forma liminar ser completamente falso que exista uma «ortodoxia» científica ou que quem se atreve a questionar essa ortodoxia seja imediatamente ostracizado ou perseguido.

Recorrendo a exemplos como Barbara McClintock. O trabalho de Barbara sobre transposição génica contradizia o que na altura se pensava sobre o ADN, pelo que foi recebido inicialmente com muito cepticismo e só começou a ser aceite após Jacques-Lucien Monod (1910-1976) e François Jacob (1920-) terem descoberto os mecanismos da regulação da expressão génica ao estudarem o operão lac. McClintok é actualmente considerada uma das maiores figuras da genética e o seu trabalho revolucionário mereceu o prémio Nobel da Medicina em 1983.

De igual forma, é citado o autor de um dos ataques mais «violentos» (e bem sucedidos) ao tal «darwinismo» que os criacionistas confundem com a teoria da evolução. No final da década de 60 Motoo Kimura propôs que era possível ocorrer evolução por deriva genética mesmo em grandes populações e por longas escalas de tempo. Esta teoria neutralista da evolução ia contra tudo o que era aceite na época ao reduzir o papel da selecção natural à eliminação de mutações negativas e por considerar que a maioria das mutações seria neutra do ponto de vista adaptativo, podendo fixar-se na população sem qualquer vantagem para os indivíduos delas portadores.

Não é assim de espantar que tenha gerado uma enorme controvérsia, a controvérsia neutralista-selecionista que por vezes assumiu contornos muito acesos. Embora muito contestada inicialmente, à medida que a descodificação do ADN progredia, a teoria de Kimura ajudou a esclarecer observações doutra forma impossíveis de explicar, como o elevado nível de polimorfismo genético em populações naturais e actualmente é incluída em todos os livros de texto.

Isto é, do conflito inicial entre neutralismo e seleccionismo, pela própria natureza da ciência, em que não há nem dogmas nem ortodoxia, resultou uma nova teoria da evolução, mais abrangente, mais robusta e com maior poder de explicação. Os exemplos escolhidos pelo NCSE são apenas alguns que comprovam serem treta os queixumes de várias pseudo-ciências (ou antes, fraudes pseudo-científicas) de que a única razão que justifica os seus disparates/banha da cobra não serem aceites é uma suposta (e inexistente) conspiração de uma Intelligentsia científica! Estes não são aceites apenas porque não passam disso: disparates e/ou banha da cobra!

quinta-feira, 24 de Abril de 2008

X FESTIVAL TEATRO DE TEMA CLÁSSICO

Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra

Entre 29 de Abril e 20 de Junho decorre em várias localidades do país – Coimbra, Conímbriga, Odrinhas, Viseu, Braga, Fundão, Penela e Santiago da Guarda – o X Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico (FESTEA).

A Associação Cultural Thíasos, responsável por este evento, incluiu nesta décima edição, os seguintes grupos: Grupo Thíasos, do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Coimbra, Grupo de Teatro Clássico da Universidade de Alicante, e Grupo de Teatro Clássico ESAD de Málaga.

Além de reposições de Agamémnon, de Ésquilo, e d`As Suplicantes, de Eurípides –, o Grupo Thíasos estreia a pela Vespas, de Aristófanes.

A ENTRADA É LIVRE

As fatias do bolo-rei

Do novo livro de Nuno Crato, "A Matemática das Coisas" (Gradiva), que saiu ontem, no Dia Mundial do Livro, transcrevemos um dos capítulos. Esperamos que abra o apetite para o resto!

«Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte», diz um ditado popular. É verdade: se a pessoa a fazer a divisão for também a que fizer a escolha, nada garante que um dos parceiros não fique prejudicado. Por isso, e para evitar que alguém se possa queixar do resultado da partilha, o melhor é proceder em duas etapas: um dos parceiros divide o bolo e o outro escolhe a sua fatia. Desta forma, é do interesse do primeiro fazer a divisão da forma mais equitativa possível, pois, se assim não acontecer, terá a certeza de ficar com o pior bocado. É uma sábia conjugação de situações, pois os dois parceiros, afinal ambos movidos pelo egoísmo, colaboram de forma que nenhum fique prejudicado.

A história é muito conhecida e aplicada em muitas situações do dia-a-dia, e não só na divisão de guloseimas entre crianças. O problema complica-se, contudo, se o bolo tiver de ser dividido entre mais de dois parceiros. Como se há-de fazer se forem três, por exemplo? Ou se forem muitos mais? E se tivermos um bolo a dividir entre vinte pessoas igualmente gulosas? O problema não é simples e os matemáticos têm vindo a desenvolver algoritmos para partilhas equitativas. Esses algoritmos podem ter aplicações em áreas muito diversas, desde a partilha de heranças e a divisão de obrigações pecuniárias até às negociações de desarmamento ou ao estabelecimento de fronteiras entre países.

O algoritmo «um parte, outro escolhe» pode aplicar-se a mais de dois parceiros. Se tivermos quatro pretendentes a um bolo, por exemplo, o algoritmo desdobra-se em duas etapas. Começa-se por agrupar os pretendentes ao bolo em dois grupos, com dois elementos em cada grupo. Um dos grupos divide o bolo em duas partes e o outro escolhe a sua metade. Na segunda etapa, cada par de gulosos divide a sua metade de bolo ao meio, seguindo de novo o processo de um partir e o outro escolher.

É fácil ver que este método iterativo pode funcionar igualmente para oito pessoas ou, em geral, para potências de dois. Mas já não é tão simples encontrar uma solução no caso de haver três pessoas. Mas pensando bem, consegue arranjar-se um método que funcione nesse caso. Quer o leitor dar uma sugestão?

Os matemáticos, contudo, não gostam de soluções que apenas funcionam para casos particulares, pelo que têm procurado algoritmos mais gerais. O ideal seria encontrar um método que funcionasse com qualquer número de pessoas. Um desses métodos, proposto pelos matemáticos polacos Stefan Banach (1892–1945) e Bronislaw Knaster (1893–1980), resolve o problema com um número qualquer de parceiros. É o chamado algoritmo da faca deslizante. Este caso é mais fácil de perceber com um bolo sobre o comprido, como um bolo inglês.

Os diversos pretendentes às fatias do bolo reúnem-se à sua volta enquanto uma pessoa, possivelmente um deles, pouco importa, começa a fazer deslizar a faca sobre o bolo, a partir de um dos lados. Vai progredindo com a faca até que um dos parceiros diga «Pára!». Nesse momento pára a faca e corta uma fatia, que é entregue a quem falou. O parceiro em causa fica assim com uma parte que considera ser, pelo menos, uma fracção justa do bolo — se pensasse que a faca não tinha ainda chegado a essa fracção justa, não a teria reclamado. Os outros, por seu lado, vêem ser retirada ao bolo uma quantidade que consideram ser inferior ou igual a uma fracção justa — se algum deles achasse que a faca tinha já ultrapassado o momento certo, deveria ter reclamado a fatia correspondente.
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Como dividir um bolo rei?

Para dividir equitativamente um bolo homogéneo por um número arbitrário de pessoas pode utilizar-se o algoritmo da faca deslizante. Uma pessoa desloca uma faca sobre o bolo até que um dos parceiros diga «Pára!» e reclame a fatia de bolo correspondente. O processo prossegue até que novo parceiro reclame nova fatia, e assim sucessivamente, até que o bolo esteja dividido por todos.
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Depois de ter recolhido a sua fatia, o primeiro parceiro afasta-se do jogo, enquanto a faca continua a deslizar, até que um dos restantes parceiros diga «Pára» e recolha a sua fatia. O processo repete-se até restarem apenas dois parceiros.

Nessa altura, o primeiro a falar é o que fica com a fatia reclamada e o último fica com o restante. O interessante neste processo é que, mesmo admitindo a falibilidade de todas as pessoas, nenhuma delas pode reclamar que está a ser prejudicada. Se o está, é por sua culpa, pois não terá falado a tempo, ou terá falado cedo de mais, sem ninguém a ter obrigado a isso.

Este método parece perfeito, mas deixa de fora alguns casos interessantes. Funciona para um bolo homogéneo, mas funcionará para um bolo com constituintes diversos e irregularmente distribuídos, como é o caso do bolo-rei? Será possível arranjar um algoritmo que garanta que todos fiquem com igual quantidade de abóbora cristalizada, de pinhões, de passas e de massa? A resposta a esta questão foi dada por um teorema que o matemático polaco Hugo Steinhaus (1887–1972) demonstrou nos anos 40 e que veio a ser conhecido pelo curioso nome de teorema da sanduíche de fiambre.

Considere-se um objecto tridimensional com três componentes, por exemplo, uma sanduíche com pão, queijo e fiambre — pouco importa que esses componentes estejam bem ou mal distribuídos, se concentrem em lados diferentes ou estejam uniformemente espalhados. O que esse teorema prova é que há sempre um plano que divide o objecto em duas partes de tal maneira que cada uma delas contenha igual quantidade dos três componentes. Ou seja, mesmo que o fiambre e o queijo estejam mal espalhados, há sempre uma maneira de cortar a sanduíche em dois bocados rigorosamente iguais.

Quando se considera um objecto bidimensional, já a partição equitativa apenas funciona com dois componentes. Suponha-se que se espalha sal e pimenta numa mesa, por exemplo. O teorema de Steinhaus mostra que há sempre uma recta que divide a superfície da mesa em duas partes que têm iguais quantidades de sal e de pimenta. Se houver três ingredientes, suponhamos sal, pimenta e açúcar, é fácil imaginar uma concentração em três locais diferentes de tal forma que não haja linha recta que os divida de forma equitativa. De forma geral, o teorema diz que em n dimensões há sempre um hiperplano que divide simultaneamente ao meio n componentes. Como parece que vivemos a três dimensões e o bolo-rei tem muito mais de três constituintes, ficamos a saber que não há faca que os reparta todos equitativamente.

Química no ensino básico: quem nos liberta desta cruz?

Para tentar entender como surgira a aberração química incluída nas orientações curriculares da área disciplinar «Ciências Físicas e Naturais» para o 3º ciclo do Ensino Básico, passei dias mergulhada em documentos absolutamente indescrítiveis e simplesmente aterradores, recheados de expressões aparentemente inócuas (embora de uma vacuidade atroz) mas que, na pena do eduquês, se transformaram em armas de destruição massiva da literacia científica.

Descobri expressões bizarras como «Cognição Corporizada» que aparentemente implica ser «fundamental ter em conta os constrangimentos não-arbitrários, biológicos e experienciais que moldam a actividade social e a linguagem, através dos quais a cognição e a aprendizagem são empreendidas num processo genuinamente corporizado».

Ainda não consegui entender o que cargas de água isto significa, se se recomenda estar na sala de aula em posição de lótus ou quejandos, mas percebi muito rapidamente que o eduquês tem uma aversão vincada ao ensino de conteúdos, embora a tente disfarçar com expressões como a supra-citada ou outras igualmente delirantes como «processo cognitivo e social contextualizado» e afins.

Assim, as orientações curriculares para Química não têm conteúdos, pior, não têm qualquer lógica química: quimicamente são recortes de revistas cor-de-rosa reunidos de forma desconexa numa baralhação que garante que, se forem seguidas, nenhum aluno termina o básico com a mínima ideia sobre o que seja Química e que apenas adquire uma competência duvidosa na arte de decorar factóides (e fórmulas) químicos!

O saltitar constante entre assuntos dispersos para satisfazer os temas impostos pela perspectiva CTSA torna uma missão impossível o esforço louvável de alguns autores de manuais em dar alguma unidade química e um fio condutor a esta salganhada - que pretende não dar conhecimentos em química aos nossos alunos mas sim dar-lhes um empurrão para orbitarem a cidadania segundo o eduquês. Assim como torna impossível que alguém aprenda química ou desenvolva um pensamento químico quando as orientações são seguidas à letra.

Não admira pois que tenhamos cada vez mais analfabetos químicos, presas fáceis para lendas urbanas e vendedores de banha da cobra sortidos, que, competamente a leste do que seja química e ciência, embarcam em qualquer conversa da treta que inclua termos pseudo-científicos.

Assim como não admira que aqueles que conseguem sobreviver aos estragos do eduquês no básico nos cheguem à Universidade sem qualquer compreensão crítica de ciência, «agarrados» a fórmulas como se estas fossem a tábua de salvação da sua sanidade intelectual, sem perceber o que é um modelo e que fiquem completamente confusos quando se apercebem que há limitações em muitos modelos que utilizamos e que as «fórmulas» que deles resultam não são sacrossantas.

Ao tentar descobrir como foi possível esta aberração, cujos resultados práticos são evidentes para todo e qualquer docente do 1º ano nas universidades nacionais, fiquei ainda mais pessimista em relação ao ensino de ciência num futuro próximo, se não se tomarem de imediato medidas que combatam o descalabro (e desmontem as trincheiras do eduquês construídas no ME ao longo de quase três décadas ).

Descobri ainda que as orientações curriculares da Química seguem o credo enunciado pela etnomatemática e a razão porque não reconheci qualquer conteúdo químico digno desse nome nas orientações reside simplesmente no facto de, sem assumpção do novo nome, a reforma curricular ter transfigurado a Química em Etnoquímica!

A Helena já nos falou da Etnomatemática mas vale a pena ler a apreciação que, a 10 de Dezembro de 2005, Henrique Monteiro escrevia no Expresso. O artigo «Quem nos liberta desta cruz?» do actual director do semanário refere um dos apóstolos da etnomatemática em Portugal que, no artigo «Educação matemática e cidadania», nos explica porque razão advoga que «a disciplina de matemática deve ser urgentemente eliminada dos currículos do ensino básico» para ser substituída por «educação matemática».

Esta história da educação matemática (?) é exemplarmente ilustrada pelo autor com um problema típico da matemática a eliminar. Este consiste no cálculo do custo da ida de autocarro ao Oceanário do casal Silva e seus dois filhos, sabendo que a viagem custa €1 por pessoa. Na matemática «reaccionária», ao serviço de um aparelho do Estado capitalista interessado em reproduzir as desigualdades sociais, o problema tem resolução simples e objectiva, um anátema que simultaneamente avalia «componentes específicas e compartimentadas do conhecimento dos alunos» e é um «filtro social» que excluiu os que não sabem que 4x1= 4.

Na abordagem construtivista da «educação matemática» ter-se-ia:

«A área disciplinar de educação matemática (no sentido que mencionei) tomaria este problema de palavras como um ponto de entrada para questões susceptíveis de uma análise mais global uma vez que os preços e a eficácia dos transportes públicos e privados numa cidade são elementos que ajudam a definir a mobilidade dos cidadãos e consequentemente a sua qualidade de vida (elemento naturalmente essencial na educação dos jovens)».

De facto, há quem considere que «o ensino da matemática tem tido em muitos países uma função social de diferenciação e de exclusão» sendo «essencial reconhecer a dimensão social, ética e política do ensino da matemática e assumir que não existe neutralidade nesse ensino». Resumindo um monte de verbosidade no dialecto eduquês, considera-se que os mais desfavorecidos não conseguem aprender matemática e a solução que propôem é a eliminação do «filtro social» que é «o ensino da matemática na escola básica e secundária», ou seja, a transformação de Portugal num país de analfabetos matemáticos.

Henrique Monteiro, no artigo que continua actual, refere que «o professor tem uma religião e quer impô-la. E o seu primeiro mandamento é que nada se deve ensinar, salvo ensinar a aprender».

De facto, uma das características do «eduquês» - para além da vacuidade do discurso prolixo que levou Marçal Grilo a pedir que falassem português em vez de «eduquês» e da já referida profunda antipatia a conteúdos - é esta ideia lírica que não se deve ensinar nada às criancinhas porque elas por artes mágicas redescobrem sózinhas todo o conhecimento acumulado em cerca de 2500 anos de civilização!

Esta convicção mística, uma verdadeira religião assente em crenças completamente injustificadas e imposta a todos na escola pública, traduz-se em dogmas enunciados com uma superabundância de termos como «aprender a aprender», «o ensino centrado no aluno», «aptidões metacognitivas», «aprendizagem permanente» «diferenças individuais dos alunos», «estilos individuais de aprendizagem», «ritmos diferenciados», «inteligências múltiplas», «ensinar a criança e não a matéria» «construtivismo», «aprendizagem cooperativa», «aprendizagem por descoberta», «aprendizagem holística», etc.

Para além de ser uma crença sem qualquer sustentação, bem pelo contrário, todos os indicadores negam os dogmas dessa crença, o eduquês admite abertamente a sua vertente confessional. Foi boquiaberta que li que «as escolhas curriculares são eminentemente de natureza política e ética» e que os currículos de matemática ( e pressuponho que também os da química, essa horrível arma de opressão), «são um campo de conflito e de luta claramente marcada pelas relações de poder».

Mas não percebo muito bem como gente tão preocupada com a cidadania, que certamente acredita na democracia representativa, impõe por uma sucessão de decretos-lei e legislação sortida as suas crenças. Tanto quanto me lembre o eduquês nunca foi a votos nem discutido na praça pública, foi-se infiltrando devagarinho qual erva daninha.

Orwell no ensaio «Verdade Histórica» escreveu: «A coisa verdadeiramente assustadora no totalitarismo não é que cometa 'atrocidades', mas que ataque o conceito de verdade objectiva». Há assim quem se considere libertário mas que, pela forma antidemocrática e sem qualquer respeito pela verdade objectiva com que impõe as suas crenças, sucumbe na realidade a tentações totalitárias em nome dessas crenças vazias e falsas, que sacraliza num travesti de construtoras e zeladoras de uma sociedade alegadamente igualitária, saudável e feliz.

Para que de facto a cidadania seja assumida por todos é necessário que todos tenham acesso à melhor educação possível - e em ciência esta passa pela solidez científica dos programas, completamente ausente dos actuais. Passa igualmente pelo respeito e pela garantia das liberdades individuais: não cabe ao Estado impor nos programas da escola pública a crença de alguns sobre o que deve ser a cidadania ou a felicidade, saúde e bem-estar da nação, pois, como avisou Humboldt há 200 anos, tal pretensão pode resultar nas piores formas de tirania.

Artigos anteriores:
Química no ensino básico - conhecimento holístico
Química no ensino básico - um instrumento de opressão

Imagem: gravura de Pieter van der Heyden publicada por Hyeronimus Cock, inspirada na obra de Pieter Brueghel, o Velho, "peixes grandes comem peixes pequenos".

quarta-feira, 23 de Abril de 2008

PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:

08 MAI 08

Peter Trickett, jornalista britânico residente na Austrália, discute no seu livro Para Além de Capricórnio a teoria segundo a qual os portugueses terão sido os primeiros colonos europeus a chegar à Austrália, ainda durante a primeira metade do século XVI.

O autor baseia a sua tese no estudo de alguns mapas do Atlas Vallard (1545), ao constatar que, fixando metade de um mapa e rodando a outra metade por um ângulo de 90º, se conseguem obter as costas australianas Leste e Sul com grande pormenor e atribui a Cristóvão de Mendonça a descoberta da Austrália.

O Museu da Ciência convidou vários especialistas para debaterem este assunto no próximo dia 8 de Maio num colóquio que decorrerá das 10h00 às 13h00 e das 14H30 às 18h00.


COMUNICAÇÕES

LUÍS FILIPE THOMAZ

Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica

Não foi Cristóvão de Mendonça quem descobriu a Austrália


JOSÉ AZEVEDO E SILVA

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Viagens e mistérios nos mares da Indonésia e da Austrália


JOÃO PAULO DE OLIVEIRA E COSTA

Departamento de História da Universidade Nova de Lisboa

Uma terra desinteressante. Os naufrágios holandeses na Austrália Ocidental do século XVII


FRANCISCO ROQUE DE OLIVEIRA

Departamento de Geografia da Universidade de Lisboa

A influência portuguesa na cartografia da Escola de Dieppe: de Nicolas Desliens a Jacques de Vau de Claye, 1541-1579


JORGE SEMEDO DE MATOS

Escola Naval

As rotas tradicionais do arquipélago e sua relação com as rotas não tradicionais


JOSÉ ALBERTO LEITÃO BARATA

Mestre em História dos Descobrimentos

A exploração dos litorais de Samatra


DEBATE MODERADO POR

FRANCISCO CONTENTE DOMINGUES

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

terça-feira, 22 de Abril de 2008

Agamémnon, senhor da casa, senhor da guerra

Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra

Vai realizar-se nos próximos dias 28 e 29 de Abril, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Colóquio Internacional Agamémnon, senhor da casa, senhor da guerra. O mote é o seguinte:

Agamémnon, o poderoso senhor da Casa dos Atridas, representa, por si, o núcleo em que se concentram conflitos e paradoxos extremos que se hão-de desdobrar, mediante a força narrativa que possuem e a inspiração neles encontrada por poetas, músicos, pintores, desde a Antiguidade. É sobre este mito que o convidamos a reflectir.

A ENTRADA É LIVRE

PIONEIROS PORTUGUESES VISTOS POR UM INGLÊS


Acaba de sair em português mais um livro do historiador inglês, formnado em Oxford, e que ensina na Universidade de Londres (Queens Mary College) e na Universidade de Tufts, nos Estados Unidos, Felipe Fernández-Armesto. Nascido em 1950 e muito prolixo, detém actualmente a cátedra de História Ambiental Global em Londres e dirige o programa de História Global do Institute of Historical Research da Universidade de Londres. A sua especialização é, portanto, a “história global”, sendo autor de numerosos livros de grande difusão que pretendem fornecer perspectivas históricas abrangentes sobre temas como os descobrimentos, as ideias, a alimentação, a reforma religiosa, etc. Muitos dos seus livros estão traduzidos em português, mas só alguns em português europeu. É o caso de Cristóvão Colombo, Presença, 1992, Milénio, Presença, 1996, As américas: história breve, Círculo de Leitores, 2004, e Ideias que mudaram o mundo, Civilização, 2005 (consultei as fichas da Biblioteca Nacional de Portugal, que, curiosamente, dão o autor como morto).

O novo livro intitula-se Pioneiros” e subintitula-se “A história épica das explorações do homem ao longo dos séculos”. Trata, ao longo das suas 508 páginas, da história das grandes explorações e dos grandes exploradores, desde as peregrinações dos homens pré-históricos até aos nossos dias. É sabido que Portugal teve um papel de vulto na descoberta do nosso planeta. Comprei curioso para saber como Portugal era tratado. Lá estão, como não poderia deixar de ser, alguns dos maiores exploradores portugueses: o Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Fernão de Magalhães. Mas esses nossos locais não aparecem muito bem tratados no contexto global. Os portugueses como eu não especializados em história e, por formação escolar, receptores da historiografia oficial do Estado Novo, que tendia a heroicizar os nossos descobridores, encontrarão motivos de surpresa neste livro.

Quando Fernández-Armesto disseca os motivos que levaram aos descobrimentos ibéricos começa logo por relativizá-los ao escrever: “Podem aplicar-se à Península Ibérica as palavras de um camponês que, ao ser-lhe pedido por um motorista que passava que o orientasse, respondeu: ‘Se fosse a si, não começaria por aqui’. Por vezes, o dinamismo da actividade marítima resulta da abundância de recursos, de um poder dominante ou de um excesso de população. A Península Ibérica pertence a uma categoria menos privilegiada. A saída para o mar da Espanha e de Portugal faz lembrar os países do Terceiro Mundo que actualmente [sic], pela sua partida desesperada em busca de recursos e a sua confiança inicial no capital estrangeiro e no seu ‘savoir-faire’, já que os empresários e técnicos italianos, especialmente os genoveses, desempenharam um papel importante nas aventuras marítimas dos espanhóis e dos portugueses nos séculos XIV e XV.” É certo que no século XIV éramos pobres e em larga medida dependentes, mas talvez seja algo exagerado atribuir aos italianos o mérito na partida dos portugueses para a aventura marítima. Talvez seja mais certo dizer que estávamos no sítio certo, a ponta Europa, na altura certa, o fim da Idade Média.

Sobre o Infante Dom Henrique, o historiador inglês não é menos surpreendente para um leitor português. Diz que o cognome internacional de “Navegador” é “enganador, porque se aplica a um patrono de navegadores que nunca fez mais de duas ou três viagens marítimas por rotas conhecidas entre a Península Ibérica e Marrocos”. Até aí tudo bem, pois, de facto, o Infante permaneceu em terra. Mas para o autor inglês o nosso Infante era um pirata e um comerciante de sabão: “Henrique vivia num mundo de aparências. As suas gratificações aos homens de letras, apesar de serem dinheiro bem gasto, provinham de magros recursos. Parece que a sua fortuna prematura lhe vinha da pirataria e da sua crescente habilidade no monopólio do sabão. Apesar de falar e escrever sobre as suas empresas como guerreiras, esforçou-se por conciliar os seus interesses com o espírito das cruzadas. (...) O seu castelo da em Sagres, que costuma ser considerada [sic], inapropriadamente, uma espécie de lugar de encontro de sábios, estava possivelmente mais próximo em espírito, e prefigurava de algum modo, o Castle Drogo de Julius Drewe, que fundou a cadeia Home & Colonial Stores, ou talvez – por causa do sabão – o Thornton Manor de William Lever, o fundador da Unilever”. Já sabíamos que a escola de Sagres não existiu aí, mas agora ficámos a saber que Sagres é comparável ao castelo de imitação feito no século XIX por um comerciante inglês ou à mansão de um industrial de sabões da mesma época...

Ficamos também a saber que D. Henrique tinha uma grande crença na astrologia: “ ‘A motivação que deu origem a todas as demais’, afirma Zurara, foi a fé de Henrique no seu próprio horóscopo. Marte e Vénus eram as suas influências dominantes, com Marte na sétima casa dos ‘segredos e ambições’ “. Mas isso não admira nada pois na época não tinha nascido a astronomia moderna... Ficamos ainda a saber sobre a fama do Infante, iniciada por Zurara: “A adulação científica que Henrique conseguiu no seu tempo não era mais do que o equivalente aos títulos honoríficos que actualmente professores bajuladores concedem a ‘estadistas’ sem escrúpulos ou a ‘piratas’ financeiros bem sucedidos”. Mas há pior, D. Henrique era para o historiador inglês o chefe de um grupo de bandidos: “Uma parte surpreendente dos documentos que se conservaram referentes a Henrique são indultos para membros do seu séquito por crimes violentos, especialmente homicídios e violações. “ Por último, Fernández-Armesto desmente que D. Henrique pretendesse expandir a fé, como eu e muitos outros aprendemos na escola: “Com excepção das doações feitas no final da sua carreira para o estudo da teologia em Lisboa e Coimbra, Henrique nunca investiu recursos para espalhar a fé. O reino por cuja expansão lutava era, em todos os aspectos, deste mundo. É notável que os únicos frades que obtiveram uma bula para actividades na costa da Guiné- ou seja, na região ao sul de Marrocos – em vida de Henrique ou pouco depois, não foram sequer portugueses, mas franciscanos de Castela, para quem os portugueses eram ‘piratas com nomes de cristãos’ “

Vasco da Gama não fica melhor no retrato: “Vasco da Gama não foi nem herói nem vilão, mas um provinciano irascível, sem estômago para a vida na corte: um ‘hobereau’, um fidalgo provinciano catapultado para uma situação de poder, um xenófobo que dificilmente se teria mudado para os trópicos, um frustado adepto do culto renascentista da fama que procurava promover o comércio através das armas. Foi também uma vítima a quem as coisas saíram bem. Se saiu do anonimato e lhe confiaram a missão de comandar a expedição, isso só aconteceu graças à aquiescência de uma fracção que esperava que fracassasse”. E, mais adiante, acrescenta Fernández-Armesto: “Vasco da Gama tinha cometido praticamente todos os erros imagináveis. A sua famosa travessia do Atlântico Sul merece ser reconhecida como o trajecto em mar aberto de maior duração até então realizado por um navegador europeu. No entanto, foi mais uma demonstração de audácia que de perícia”. Pergunto: de que lhe serviria, naquele tempo, a muita perícia sem a equivalente audácia?

Poder-se-á dizer que o historiador inglês é descendente de espanhóis (o seu nome hispânico provém da nacionalidade espanhola do pai) e que a velha rivalidade ibérica não será estranha a alguns dos conteúdos do livro. Mas poder-se-á também dizer que são bem conhecidas outras afirmações do mesmo tom de ingleses sobre Portugal e os portugueses. Foi Lord Byron quem se interrogou num poema (“Childe Harold's Pilgrimage”, 1818) porque desperdiçou Deus os seus talentos com os “escravos” lusitanos? Poor, paltry slaves! yet born 'midst noblest scenes / Why, Nature, waste thy wonders on such men?” O historiador inglês não foge à regra ao dizer a certo passo que os habitantes do Índico “mal se deram conta da presença dos pobres bárbaros de Portugal”. Enfim, um livro que se tem de ler com algumas reservas.

- Felipe Fernández-Armesto, Pioneiros. A história épica das explorações do homem ao longo dos séculos, Dom Quixote, 2008.