terça-feira, 29 de abril de 2008

"E ela dança"

“Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite,
ela dançava pela sala fora (…).
E ela dançará.
Ao longo das sílabas dos poemas,
como dançava na minha infância.”
Miguel Sousa Tavares


No dia de hoje, em que se comemora essa arte magnífica que é a da dança, lembro-me de um poema - Por delicadeza - e de um quadro - O baile - de duas senhoras que representam duas outras artes magníficas: Sophia de Mello Breyner Anderson e Paula Rego.

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo

Tão cedo negado

Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei


Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui

Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desate

Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi a minha vida»


(Citação de Miguel SousaTavares in Jornal Público, 12 de Junho de 1999).

2 comentários:

  1. A Helena Damião é a minha blogger preferida no De Rerum Natura.

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  2. Nestes dias de tempestade, sugiro a leitura do conto Saga, de Sophia. É tão bonito que não tem explicação.
    E mesmo a não perder, a exposição de Paula Rego, em Algés, até dia 18 de Janeiro de 2009.

    Porque é assim, de quadro em quadro, de livro em livro, no suave passar do tempo... que tudo acontece.

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