domingo, 13 de abril de 2008

Banhas da cobra sortidas



Via Pharyngula cheguei a um blog que já adicionei aos meus favoritos, «Crap-Based Medicine (A sensible alternative to reality)», onde de forma hilariante são desmontadas algumas das mais imbecis propostas de «medicina» alternativa.

O blog, como reconhecem os autores, não é actualizado com muita frequência, porque as banhas da cobra não sofrem grandes alterações desde há uns séculos largos. As únicas alterações sofridas, por exemplo, pelas homeopatetices, são ilustradas neste vídeo e residem essencialmente na forma como os charlatães conseguem chegar ao público através de publicidade (enganosa). A Helena já nos falou de um livro, que pelo excerto vale a pena ler, que trata do valor deseducativo da publicidade. Este anúncio, e o sucesso nas vendas que despoletou, é um paradigma dessa deseducação, que, tratando potenciais consumidores como Neandertais, me deixa as interrogações que manifestei no post «Publicidade Relativista».

O Head-on não passa de um excipiente gorduroso perfumado com menta, e é uma sorte que o charlatão que congeminou este esquema de enriquecimento fácil tenha optado por um medicamento homeopateta tendo em consideração o que achou ser mais indicado para «curar» dor de cabeça. Entre os componentes (inexistentes, felizmente) estão algumas «estrelas» da homeopatetice, Iris Versicolor e Hydrastis Canadensis, ambas plantas moderadamente tóxicas, com efeitos laxantes quando ingeridas e irritantes por contacto. Na listagem de ingredientes que não existem indicou ainda um tóxico sal de crómio VI (dicromato de potássio) e briónia branca (Bryonia alba), uma trepadeira da família das Cucurbitáceas, muito parecida com a videira, extraordinariamente tóxica por via oral, que era usada na farmacopeia de antanho.

Embora as aldrabices homeopatetas não me surpreendessem, apenas o sucesso que este produto completamente imbecil está a ter nos Estados Unidos, devo confessar que fiquei boquiaberta ao perceber quão populares são enemas sortidos(os clisteres de outrora) entre aqueles que dizem coisas fantásticas como a inscrita na figura da esquerda.

Nunca sequer imaginei as variantes que alguns New Agers recomendam para «melhorar» experiêncas «enémicas», de iogurte a café passando por chás e infusões sortidas, muito menos pensei que existissem chat rooms devotados a discutir o tema!

Foi igualmente chocante perceber que a frenologia, inventada exactamente no mesmo ano que a homeopatetice, 1796, que eu pensava estar definitivamente encerrada na gaveta da História, afinal ainda mexe e recorre às mesmissimas tácticas de vitimização dos neo-criacionistas. No vídeo que se segue, Bob McCoy, o perito em Medical Quackery e fraudes médicas que fundou o «Museum of Questionable Medical Devices», agora integrado no Museu de Ciência do Minnesota, conta uma breve história da frenologia e mostra o psicógrafo, uma máquina que supostamente conseguia a façanha de «ler» a personalidade dos «pacientes». Aparentemente ainda há muitos que enfiam este barrete nos dias de hoje!

13 comentários:

  1. A mediciana tradicional chinesa trata centenas e centenas de milhões de pessoas, talvez mais do que a medicina ocidental. É uma charlatanice?

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  2. Cara Palmira

    Estou em querer que o Rerum entrou em guerra com a Publicidade? Espero que não.
    Devemos só ter em conta que a Publicidade é apenas uma disciplina da ciência do Marketing.
    E tal como no paradigma da Cannabis, tudo depende das doses e da forma de utilização :).
    Não se deve por isso "endemonizar" a disciplina, só porque pessoas sem escrúpulos, sem ética e sequer sem consciência do imperativo evolucionista de não causar dano aos seus companheiros de espécie, tomam a liberdade de copiar produtos e conceitos para fins diferentes dos que estiveram na base dos seu desenvolvimento.
    Infelizmente existem pessoas desta índole em todas as actividades. Que devem obviamente ser expostas por todos os meios.

    Mas neste contexto, a Publicidade é apenas uma variável, quase independente, no modelo explicativo de tanta tonteria e patetice.

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  3. Não se elogou por aqui o nosso maior frenólogo, seguidor canino de Lombroso?
    Miguel Bombarda.
    É uma pena que quando toca ao anti-clericalismo até os que se dizem cientistas dão logo a mão aos charlatães.

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  4. Luís Bonifácio:

    O Miguel Bombarda morreu há quase 100 anos, em 1910.

    Na altura, com um quase nulo conhecimento do cérebro, a frenologia fazia algum sentido.Aliás, a frenologia, embora errada, foi um marco importante. Depois evoluímos um bocadinho no conhecimento e a frenologia deixou de fazer sentido.

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  5. Gostava de ver o que as Palmiras do século XXII irão dizer quando se aperceberem que no século XXI se faziam coisas semelhantes a estas tretas tais como inferir características de personalidade e capacidade para a análise espacial pelo rácio dos dedos anelar/indicador porque está correlacionada com a exposição intrauterina a testosterona.

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  6. Está enganada cara Rita.

    Nesses tempos a frenologia já era posta em causa.

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  7. Um dos pontos da homeopatia é a dita "memória" das moléculas!
    Agora li e ouvi nos media, que o coração de um suicida, foi transplatado noutro homem que também se suicidou. Os cientistas disseram que o órgão tinha memória! e por isso talvez fosse possível ter induzido o portados ao suicídio!
    Não vale meter tudo no mesmo saco!
    Tomar chá para o autor deste post, é uma patetice. Mas se for para as termas beber água e tomar banho já é alta ciência! Ou estou enganado?
    Qualquer asmático lhe dirá que o primeiro café da manhã, bem forte, é remédio santo para a farfalheira sem os inconvenientes da "bomba", que também é necessária, está claro...
    Xico

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  8. portados não. Portador. E é claro que me referia ao café tomado da forma "normal". Embora nada tenha contra os edemas. Talvez não saiba que os mesmos foram copiados da prática animal, (pássaros).
    Xico

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  9. Caro Xico:

    Por acaso bebo diariamente pelo menos um litro de chá, uma bebida que muito aprecio e sobre a qual até já escrevi um post «A Química do Chá».

    Sobre a suposta "memória" da água,pode ler um post que escrevi em tempos «Homeopatetices - O Memorial da Água» e aconselho-o a ler a série de 5 posts, indicados no «Homeopatetices - O Sono da Razão».

    Em relação à história que conta, parece-me estranha essa sua afirmação que "cientistas" tenham dito semelhante disparate! Parece-me mais uma interpretação cinematográfica inspirada no Regressa para Mim, filme protagonizado (apropriadamente) por David Duchovny, o Mulder da série «Ficheiros Secretos». E passe a propaganda, pode ler outro post que escrevi «Encefalização, cardiocentrismo e medicina».

    Em relação aos enemas, tenho uma certa relutância em aceitar que determinada praxis seja justificada por ser praticada no mundo animal. Há uma série de comportamentos animais que não considero muito desejável serem copiados.

    Não me parece que este seja assim um argumento válido, assim como não é válido o argumento dos números do primeiro anónimo. Aliás este primeiro comentário é um exemplo típico de umamistura de falácias conhecidas como Argumentum Ad Numerum (apelo aos números) e Argumentum Ad Populum (apelo ao povo)

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  10. Doutora Palmira, por favor explique-nos o que faz dos rácios 2d/4d (ver por exemplo http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=944403) ciência e o que o diferencia da pseudociência que é (ou discorda?) a quiromancia.

    Muito obrigado.

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  11. cara Palmira,
    Eu limito-me a constatar alguns factos e a pôr questões. A Palmira pelos vistos só tem certezas, de tal forma que me manda ler os seus posts, como se fossem a última palavra científica sobre os assuntos aqui enunciados.
    Eu nada sei sobre a memória das moléculas, mas deixo aqui este link: http://jn.sapo.pt/2008/04/09/ultima/com_coracao_suicida_matouse.html onde poderá ler que são cientistas a dizerem que os órgãos têm memória.
    Eu ainda sou dos que acreditam que uma ferida se cura com um beijo da nossa mãe ou de uma pessoa muito querida. Mesmo que me venham dizer o contrário.
    É que a ciência para mim é um meio não uma fé!
    Xico

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  12. Xico, puxando para o chiste, poderíamos dizer que o transplantado se terá matado por se ter casado com a viúva do suicida original.

    Procurar causas, sem se saber seja lá o que for, é especulativo. É sabido que muitos transplantados sofrem de depressão, mas este terá sobrevivido 13 anos com o coração, pelo que a depressão se deveria ter instalado mais cedo. Por outro lado, se viveu 13 anos com o coração, o efeito dessa memória será algo lento. Um tiro na cabeça, por outro lado, não me parece nada de invulgar como método de suicídio, portanto essa parte da notícia é desinteressante.

    Parece-me mais que o novo suicida terá ficado sugestionado com coincidências e acabado por se matar, nada de mais.

    Quanto à memória, há que questionar primeiro que nada se a pesquisa é legítima. O autor, Paul Pearsall, tê-la-à publicado na revista Integrative Medicine, Vol. 2 (2000), Issue 2-3, pags 65-72. O trabalho baseou-se em 10 pacientes, dos quais pelo menos um bebé (isto lendo o abstract) e o trabalho não parece ter sido citado nestes 8 anos. Na editora, Elsevier (http://www.sciencedirect.com/) não há mais artigos do autor. Paul Pearsall parece ser autor apenas de livros e de conferências, especialmente ligadas ao poder do espírito e coisas que tais. Ou seja, parece ser um verdadeiro New Ager. Não será portanto a melhor referência.

    Em contrapartida, a procura por "cell memory", seja de que forma for, apenas devolve resultados sobre artigos que falam de memória verdadeiramente celular, ao nível bioquímico, não numa perspectiva de memória do cérebro.

    O artigo do JN é portanto uma banhada que o/a jornalista leu num lugar qualquer e decidiu publicar, sem perceber o mínimo que seja sobre ciência (e, diria eu, sobre jornalismo).

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  13. Conheço muito boas farmacias que vendem medicamentos homeopaticos.

    Camilo

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