segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Mentira política

O excelente post da Palmira põe a nu o estado de mentira política em que vivemos, e é este aspecto que vejo nitidamente no caso do aquecimento global e de muitos outros.

Num texto excelente que infelizmente não foi incluído na recente antologia que preparei para a Antígona, Orwell analisa cuidadosamente as razões que tem para pensar que a Terra é redonda. E descobre que não tem assim tantas.

O que está em causa é o problema da divisão social do conhecimento. Ao longo da história, as pessoas, na sua maior parte, nunca souberam praticamente coisa alguma excepto o que é estritamente necessário para a sua vida quotidiana e para alimentar a sua actividade favorita: a mexeriquice. Mas hoje mesmo quem procura conhecer as coisas não pode saber realmente mais do que uma pequeníssima parte; no resto, tem de confiar em especialistas. Isto é maravilhoso, porque exibe a nossa profunda dependência mútua: o conhecimento está socialmente distribuído e eu preciso dos conhecimentos que outros têm, e eles dos meus.

Mas é também politicamente perigoso, pois dá origem a perversões terríveis. Uma dessas perversões é a manipulação da verdade. A publicidade, quase na sua totalidade, certos tipos de marketing, a propaganda e os grupos de pressão mais não fazem do que poluir a cabeça das pessoas com meias verdades, vaguezas, frivolidades e completas mentiras. Neste clima político, tudo é mentira porque tudo é feito em nome de “uma causa”. E isso é assustador. Eu não sei o suficiente sobre clima nem sobre as ciências relevantes para poder avaliar o que se passa no caso do pretenso aquecimento global; tenho de confiar nos especialistas. Mas quando os especialistas estão profundamente politizados, quando pertencem a uma ou a outra “causa”, não posso confiar em qualquer deles.

E o meu caso não é o mais grave, porque tenho uma formação intelectual que me permite distinguir razoavelmente o disparate mistificador do que é plausivelmente verdadeiro. Mas o que dizer da generalidade da população, que não tem uma formação intelectual sofisticada? Que tipo de opinião pode um taxista que tem apenas o 12.º ano sobre o aquecimento global? Leia-se este artigo, por exemplo; eu compreendo a sua maior parte e sou capaz de ver se defende razoavelmente as ideias que defende ou se faz mera manipulação de palavras e dados a fingir-se ciência; mas poderá a maior parte da população fazer este tipo de juízo? Infelizmente, não. E isto é politicamente muito grave, pois é o que permite o género de manipulação que ocorre com a propaganda política, comercial e ideológica.

Precisamos de inverter a irracionalidade da sociedade contemporânea, que é feita de mentiras inventadas para vender produtos: vender o Dalai Lama, vender o conservadorismo religioso, vender banha da cobra pretensamente medicinal, vender o pânico ecológico para dar poder político a algumas pessoas. Mas não sei como é possível inverter este caminho político que começámos a trilhar e que foi previsto por Orwell. Tudo o que posso dizer é que é importante valorizar a objectividade, o estudo cuidadoso das coisas, a honestidade intelectual e humana, a procura imparcial da verdade das coisas, a atenção cuidadosa à realidade — tudo isto por oposição à ideia de que tudo é subjectivo ou intersubjectivo, que a verdade é relativa aos nossos interesses e desejos, que a realidade e a verdade se devem vergar aos nossos interesses políticos, económicos, religiosos, pessoais ou ideológicos.

Não sei como se pode cultivar o amor à verdade e ao estudo imparcial das coisas. Mas sei que ficaremos todos muito pior, e talvez catastroficamente pior, se não o fizermos.

49 comentários:

  1. Desiderio, e' que nem de proposito! ...

    O senhor do Cato diz que:

    1) "The Kyoto Protocol, despite its minimal effectiveness, is estimated to cost around $165 billion annually (in 2010-2015)."

    2)by 2015, malaria could be reduced by 75 percent for $3 billion per year,

    3) hunger by 50 percent for $12-15 billion per year

    4)and vulnerability to coastal flooding significantly reduced for $2-10 billion per year

    Eu assumo que as estimativa sao puramente tecnicas e que estao correctas.

    Agora, por exemplo, qual e' o custo da invasaso do Iraque?

    'A volta de $2 trillion, estima Joseph Stiglitz assumindo que esta' terminada em 2015. Stiglitz is a Columbia University professor who won the Nobel prize for economics in 2001.

    Isto devia-nos fazer parar um pouco para pensar, ou nao? Notemos que estes custos do Iraque sao apenas uma pequena fraccao do custo total dos conflitos militares em todo o globo. E estes tipos apenas se lembram de invocar a ineficiencia e o desperdicio de recurso associado 'a tentativa de diminuir progressivamente o nmivel das emissoes de gases geradores de efeito de estufa.... Disingenuous, indeed!...

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  2. A grande diferença é que é altamente improvável que cientistas e opinião pública consigam impedir os políticos americanos de fazer guerras lucrativas no estrangeiro, ao passo que é perfeitamente possível convencer os políticos a parar de gastar dinheiro no vão combate ao aquecimento global, investindo-o no que mais conta.

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  3. amigo desidério, dou a maior importância a este problema que tão bem expõe.

    o Poder político deseja, e tudo faz, para controlar a mente das pessoas. Assim, é muito mais fácil gerir a sociedade humana.

    As escolas formam crentes. O ensino não está feito para ensinar as pessoas a questionar a duvidar, mas ao contrário.

    Quando tive filosofia no liceu, há muitíssimos anos, estranhava o livro oficial ser um resumo das supostas opiniões dos filósofos, sem recorrer a transcrições dos textos deles. Depois percebi: esse livro só transmitia certezas enquanto os textos dos filósofos são um passeio pela dúvida

    (mais tarde foi publicada excelente selecção de textos de filósofos, agora não sei como está)

    Há imensa coisa que nao sabemos sobre o universo físico ou biológico, no entanto, o ensino dá a ideia de que tudo sabemos, nunca a nossa dúvida ou ignorância é referida.

    As pessoas são terrivelmente crentes, basta ver as incriveis «banhas da cobra» que circulam na net. Por que são assim as pessoas? Foram tornadas assim pela sociedade? É fruto de uma selecção genética ao longo dos pouco milénios de civilização, onde os crentes eram priveligiados pelo "sistema" e os cépticos perseguidos?

    E depois há outra caracterisitca humana: a necessidade de causas. Para satisfazer essa necessidade as pessoas estão dispostas a aceitar mentiras óbvias.

    Complicada a sociedade humana... e depois, quando um lider consegue uma sociedade completamente crente, vem sempre a tragédia... a guerra contra o resto da humanidade...

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  4. "é altamente improvável que cientistas e opinião pública consigam impedir os políticos americanos de fazer guerras lucrativas no estrangeiro"

    Isto por si ja' e' uma tomada de posicao politica e etica extremamente forte, pois implica defender a aceitacao passiva das guerras e violacoes sistematicas da lei internacional e dos direitos humanos. Pergunto-me qual a coerencia de, em seguida, invocar a urgencia de diminuir a miseria do mundo para adoptar solucoes politico economicas. Com uma mao se da', com a outra se tira...

    "ao passo que é perfeitamente possível convencer os políticos a parar de gastar dinheiro no vão combate ao aquecimento global, investindo-o no que mais conta."

    Nao me parece que seja consensual que o combate ao aquecimento global seja em vao, nem me parece que os participantes nestas iniciativas sejam comunistas reciclados, nostalgicos da idade media,
    ou apologistas do retorno aos campos para plantar batatas. Aqui fica uma sugestao de leitura:


    http://www.earthinstitute.columbia.edu/grocc/

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  5. Miguel, a minha posição não implica de modo algum a aceitação passiva de guerras alheias. Do facto de se afirmar que é mais provável convencer os políticos a fazer x do que y não se segue que tenhamos de ser favoráveis a y.

    Mas aqui há outra questão importante. Quer saber por que razão os políticos se agarram à história do ambiente? Por duas razões principais, entre outras. Em primeiro lugar, porque parece bem. É um discurso bonito e isso dá votos. Em segundo lugar porque sabem que, chegada a hora da verdade, os votantes não querem realmente fazer seja o que for: não querem gasolina mais cara, nem deixar de andar de carro, nem consumir menos energia, nem reciclar. Os votantes apenas gostam de ouvir falar nisso, e à hipocrisia da generalidade dos votantes os políticos respondem com a hipocrisia que para eles é um modo de vida: reuniões ao mais alto nível, discursos, acordos, políticas inúteis, etc. Nada muda, mas fica toda a gente com a impressão de que se está a fazer qualquer coisa.

    Agora repare no fundamental. Neste cenário que acabei de descrever torna-se realmente irrelevante saber se há ou não uma alteração grave do clima, se isso é provocado pelos seres humanos ou se é boa ideia tentar combater tal coisa. Nada disto importa. Desde que as pessoas pensem que há uma alteração do clima, que esta é provocada por nós e que é boa ideia fazer alguma coisa, os políticos seguem a manada e dizem que sim, e que estão a fazer alguma coisa.

    Entretanto, os povos mais pobres lixam-se ou têm pura simplesmente de se estar nas tintas para estas conversas porque precisam de consumir mais e mais energia para chegarem ao nível de riqueza dos europeus e dos norte-americanos. Mas é claro que no discurso verde europeu e norte-americano não se fala da necessidade de os países mais pobres atingirem níveis de riqueza semelhantes aos nossos; mal se fala nisso começa logo a conversa intelectual de que o nosso modelo de vida não é universal e que as pessoas que não são europeias nem norte-americanas gostam de limpar o rabo com as mãos, de tomar banho de água fria e de olhar para a paisagem em vez de verem a novela.

    O que eu penso é isto, Miguel: poucos ou nenhuns activistas verdes são sinceros ou estão bem informados. Ou são hipócritas ou defendem o que defendem só para ganhar poder, e não por causa dos ideais que dizem professar. O mundo hoje ficou assim: o activismo é sinónimo de irreflexão e desprezo pela verdade. Mal se fala da verdade, aliás, vem logo a pergunta do costume: “Verdade para quem?” E, claro, se a verdade é relativa, cada um tem a sua e a vida política torna-se uma mera luta para implantar a “verdade” do nosso grupo contra todos os outros grupos concorrentes.

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  6. Então, pergunta-se quem é que devemos ouvir e confiar? Quem? Podemos confiar no Desidério? Ou no presidente da EDP energia? Ou no especialista em ambiente que treinou o Al Gore? Ou em George W. Bush? Quem podemos confiar para nos dar as melhores respostas?

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  9. Desidério: «chegada a hora da verdade, os votantes não querem realmente fazer seja o que for: não querem gasolina mais cara, nem deixar de andar de carro, nem consumir menos energia, nem reciclar».

    Ora isto não é verdade. Se fosse, as grandes companhias petrolíferas nunca se teriam dado ao trabalho de começar a desenvolver novas áreas de estudo e de começar a diversificar os negócios. Também podemos ver o exemplo europeu, onde dezenas de políticos prometem baixas de impostos sempre que podem e não são eleitos (países nórdicos, por exemplo). Convém também relembrar os casos passados, em que os tratados para banir os CFC começaram a ser bem sucedidos quando a opinião pública começou a virar-se contra frigoríficos, aparelhos de ar condicionado e sprays que os possuíssem. É óbvio que muitas pessoas não aderem facilmente a alternativas "verdes" apenas porque gostariam, mas isso tem muito a ver com o facto de pura e simplesmente, estas serem excessivamente na fase embrionária (um híbrido, quando surgiu, poderia ser um carro normalíssimo e custar o mesmo que um Mercedes, por exemplo). Mas, para quem o pode fazer, vê-se muita gente a optar por alternativas mais amigas do ambiente, mesmo que mais caras.

    «poucos ou nenhuns activistas verdes são sinceros ou estão bem informados. Ou são hipócritas ou defendem o que defendem só para ganhar poder, e não por causa dos ideais que dizem professar» ora um exemplo perfeito daquilo que o post trata. Marketing político puro. O Desidério quer defender as ideias que tem e atira com qualquer epíteto a quem defende o oposto. É exactamente o mesmoq ue eu afirmar: «os capitalistas não ligam minimamente ao ambiente e só querem saber do lucro, sendo totalmente insensíveis a qualquer coisa que ajude os mais pobres, apenas falando em ajudar a desenvolver os países mais pobres para melhor os explorar». Esta afirmação e a do Desidério equivalem-se completamente no ridículo.

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  10. Alf: «Quando tive filosofia no liceu, há muitíssimos anos, estranhava o livro oficial ser um resumo das supostas opiniões dos filósofos, sem recorrer a transcrições dos textos deles». Não sei há quanto tempo foi isso. Quando estudei filosofia no liceu (90/91 e 91/92) o meu livro tinha as transcrições dos textos dos filósofos acompanhadas das respectivas referências. portanto, pelo menos nesse aspecto, não foi mau.

    Por outro lado, se bem me lembro, passei o período de estudo de Descartes a divertir-me com o desmontar dos argumentos dele (dentro daquiloq ue é possível a um rapaz de 16 anos numa sala de aula) só porque a professora gostava tanto dele. Nem por isso tive problemas. Pelo contrário, foi quando tive as melhores notas na disciplina, pelo que se vê que o meu espírito crítico (bem ou mal) não foi reprimido. Talvez tenha tido sorte com a professora, admito, uma vez que ela tnha sido aluna de um tio meu na universidade de coimbra (e sabia-o).

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  11. O Desiderio esta' a incorrer numa confusao conceptual ao misturar aquilo que SUPOE serem as opcoes dos cidadaos com aquilo que constitui OBJECTIVAMENTE o problema do aquecimento global e do controle dos efeitos antropogenicos -- alternando de um registo para o outro sem aviso previo.

    Depois, se os politicos e os poderosos em geral sao tao cinicos quanto diz o Desiderio (hipotese a tomar seriamente em consideracao), a que titulo devemos nos dar mais credito ao Lomborg ou ao Cato Institut (afinal o Cato e' um poderosissimo instituto ultra-liberal com ligacoes ao mais alto nivel no governo dos EUA e nas organizacoes economicas mundiais (eg Banco Mundial, FMI, ...), ideologicamente oposto ao intervencionismo estatal de qualquer tipo que nao seja militar e/ou policial, votado ao desmantelamento dos sistemas de esguranca social e com um historial de apoio e participacao em sistemas ditatoriais como a de Pinochet que envolveram a violacao sistematica dos direitos humanos)?

    Ja' agora, para esclarecimento de todos: quem e' que financia o trabalho do Lomborg?

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  12. Olhe, não faço ideia quem financia o trabalho do Lomborg, mas é óbvio que é o negócio dos créditos de carbono que financiam a campanha do Al Laureado. Estes ambientalistas da treta que nem sequer fazem aquilo que apregoam aos outros (coitado é rico, não pode consumir menos!) ganham muito dinheiro com estes discursos de púlpito para as massas convertidas à última religião ambientalista.

    É pena, porque toda esta histeria à volta do AG esvazia todos os outros trabalhos importantes ainda a fazer no campo do ambiente, e sobretudo no campo social. O que o Desidério denuncia é grave: pela causa do AG torna-se aceitável a ideia de que o terceiro mundo nunca se torne primeiro e que, ainda mais grave, se deve evitá-lo a todo o custo. Pior ainda, alguns até defendem que o primeiro se deva tornar em terceiro, para estarmos em maior harmonia com o universo.

    Ora isto é tal e qual o Pol Pot reciclado em "humanismo"! É ideologia, não é ciência, e no entanto é marketizado como se fosse uma opinião científica. Leiam-se os sites mais recentes sobre os problemas malthusianos da moda (Peak Oil, Peak Everything) e veja-se o medo, o pânico que esta gentinha espalha, e a ideologia presente.

    Isto é perigosíssimo, e não só a humanidade como também a ciência perdem com isto.

    No entanto, uma nota de esperança, Desidério. Não me parece que estejamos a caminhar para um inferno Orwelliano, pois consensos científicos idiotas não são uma moda recente, são uma presença praticamente persistente em toda a história científica. Olhe-se para os exemplos óbvios da história da Evolução, das Placas Tectónicas, do Heliocentrismo, da Teoria da Relatividade, da Mecânica Quântica, etc. Raramente o "consenso" acertou. Raramente os heréticos que acertaram na perspectiva correcta foram bem tratados pelos contemporâneos. Raramente houve fair-play científico. Tudo o que se está a passar com o AG não é um fenómeno recente e assustador, é simplesmente a normalidade.

    O que é preciso é alimentar o cepticismo. É sempre dele que se avança.

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  13. Barba Rija: O seu comentário sobre quão normal é a estupidez humana acerta em cheio. Na verdade, penso que isto acontece por uma mistura de fracas capacidades epistémicas, que todos partilhamos, com demasiado voluntarismo. Entendo por voluntarismo a decisão algo arbitrária de acreditar numa causa, sem olhar cuidadosa e imparcialmente para as coisas. É disto que eu acuso os verdes em geral. Mas tem razão; isto sempre existiu, e provavelmente sempre existirá enquanto os seres humanos não forem substituídos por outra espécie cognitivamente mais sensata.

    Miguel, é muito relevante saber o que as pessoas estão ou não dispostas a fazer, porque disso depende o sucesso de uma política ecológica. Se você pedir às pessoas para gastar o dobro do dinheiro num carro a hidrogénio, por melhor que seja o carro, elas vão comprar um a gasolina. Mas se você associar a maior loucura anti-ecológica a estatuto social, como os jipes, você vê as pessoas a comprar essas tolices ainda que custem o dobro de um carro normal. Não vale a pena fingir que as pessoas são geralmente sensatas. Não o são. São constantemente manipuladas pela publicidade, pela mentira política e ideológica, pelos seus interesses mais mesquinhos e sobretudo pela vontade macacal de exibir imaginadas superioridades sociais. Esta é uma das razões pelas quais investir fortemente na descoberta de energias alternativas baratas, comercialmente viáveis, me parece muitíssimo mais prometedor do que cortes de emissões de CO2 a martelo.

    JSA, a minha afirmação não é arbitrária porque não conheço uma só pessoa anti-ecológica, ou que declare que se está nas tintas para a ecologia e para as gerações vindouras. Mas poucas conheço que façam um gesto ecológico tão simples como deixar de comer carne. A indústria da produção de carne é uma das maiores responsáveis pela desflorestação e pela emissão de CO2, além de ser também responsável pela contaminação das reservas aquíferas. E deixar de comer carne é a coisa mais fácil do mundo, até fica mais barato.

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  14. Só mais uma coisa: os neocons norte-americanos não têm qualquer ideologia, limitam-se a defender o que pensam que lhes dará mais dinheiro. Quando pensam que terão mais a ganhar com menos intervenção do estado, defendem menos intervenção do estado. Mas quando estão a ver ao fundo do túnel negócios chorudos com o estado por detrás a dar o cacau, defendem a intervenção do estado. Por exemplo, as guerras são negócios chorudos para muitas empresas que fornecem os equipamentos ao estado; assim, os pruridos dos neocons não se fazem ouvir neste caso. Mas um serviço público de saúde nunca daria origem a tanto dinheiro quanto uma rede de hospitais particulares, que ainda por cima exigiria impostos mais pesados sobre os mais ricos — logo, neste caso os neocons defendem que o estado não deve interferir na vida dos cidadãos, e esta cantiga parece mesmo uma maravilha libertária, mas é uma treta.

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  15. Desidério: «não conheço uma só pessoa anti-ecológica, ou que declare que se está nas tintas para a ecologia e para as gerações vindouras». Parece-me óbvio que ser-se anti-ecológico é diferente de se estar nas tintas para a ecologia. Também nunca conheci niguém que fosse anti-ecológico (pelo menos abertamente, tal como nunca conheci um racista assumido) mas conheci imensas pessoas que se estão nas tinatas para a ecologia (e o Desidério também, tenho a certeza).

    Referir os neocons é um óptimo exemplo. Aí temos que se estão nas tintas para a ecologia. Querem é o dinheiro, como diz o Desidério. Se isso implicar desflorestação, poluir o ar e o mar, exaurir os recursos piscícolas, etc, etc, etc, fá-lo-ão sem problemas. A sua frase «acreditar numa causa, sem olhar cuidadosa e imparcialmente para as coisas» que usa para classificar os verdes (em geral, sem contemplações) também pode ser usada directamente para os neocons.

    Seja como for, eu não quis argumentar que ser-se verde é bom ou mau ou que o Desidério conhece ou deixa de conhecer gente que é assim ou assado. O que quis dizer, e penso que está bem claro, é que as afirmações do Desidério sobre os verdes são iguazinhas àquelas que lhes atribui a eles sobre as indústrias poluentes.

    Duas notas extra. Primeira sobre a carne. Não sei onde o Desidério compra a sua comida, mas dava-me jeito descobrir. Desde que comecei a cortar na carne (para equilibrar a minha dieta aqui na Holanda) que comecei a pagar mais dinheiro em alimentos. Isto porque, sem carne, é muito mais complicado manter uma dieta equilibrada. Mas esta é uma discussão estéril. Mais fácil ainda (e definitivamente mais barato) seria as pessoas passarem a andar mais a pé ou a deslocarem-se de bicicleta sempre que possível.

    A outra nota sobre esta afimração: «Esta é uma das razões pelas quais investir fortemente na descoberta de energias alternativas baratas, comercialmente viáveis, me parece muitíssimo mais prometedor do que cortes de emissões de CO2 a martelo». É que é esta precisamente a posição que tem sido dominante entre os ambientalistas moderados. A redução de CO2 deve ser feita com recurso a novas tecnologias e sempre com o intuito de, pelo menos, manter o nível de vida. Até porque a energia é fundamental para o uso de algumas das tecnologias limpas de que se fala (o sequestro de CO2, por exemplo, necessita de vácuo). Claro que o Desidério pode encontrar sempre idiotas que vão afirmar que o necessário é parar de poluir e pronto, como se não fosse necessário substituir o existente por alguma coisa. Mas pensar que essas seriam as posições da comunidade ambientalista em geral é confundir a árvore (podre) com a floresta.

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  16. Subscrevo totalmente o ultimo paragrafo do jsa 'as 13:04.

    Acrescento: por muito imperfeito que seja o Al Gore (eu devo dizer que nao vi o seu documentario, nem li nenhum dos seus livros), parece-me que foi ate' hoje o unico candidato 'a presidencia dos EUA (em 2000) a propor o investimento em energias alternativas como motor de crescimento economico.

    Por fim, o Desiderio assume implicitamente que o desenvolvimento deo energias aternativas baratas e' uma especie de 'free lunch'. O politico designa, o investigador investiga, o industrial implementa, depois o resultado final e' comercializado e o consumidor consome. E todos ficamos mais ricos. Faz-me lembrar o Bush quando da invasao do Iraque para os americanos: vao ao shopping, consumam muito patrioticamente, que eu trato do resto.
    Nao ha' custos, nao ha' margens de erro, nao ha' 'timeline'. Take everything on faith. Indeed.

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  17. É curioso que alguns leitores estejam a pressupor que 1) me estou nas nas tintas para a ecologia e 2) que defendo que as pessoas devem estar-se nas tintas para a ecologia.

    O que eu estou a defender nada tem a ver com 1 nem 2.

    A) Não me estou nas tintas para a ecologia. Na verdade, tenho uma vida mais ecológica do que a generalidade das pessoas. Não tenho carro, por exemplo, ando a pé.

    B) O que denuncio é a hipocrisia. E tanto a denuncio nos verdes como nos neocons.

    C) O fundamental, contudo, não é A nem B, mas sim saber exactamente o que se deve fazer, o que se pode fazer e se há ou não mudanças climáticas graves com origem nas actividades humanas.

    Na verdade, um sinal de que não se quer ver as coisas como elas são é a divisão do mundo entre bons (os verdes) e maus (os capitalistas). Quando aparece alguém a dizer que os verdes são tão maus quanto os outros, cai o carmo e a trindade. Como dizia Orwell, o problema é o gramofone, a repetição acrítica de ideias, e não o que está a ser dito. Os verdes por vezes dizem coisas verdadeiras, porque ninguém consegue estar o tempo todo a dizer disparates; mas o problema é que as repetem sem pensar, sem saber, sem se informar. É apenas mais um partido político, mais uma luta acéfala pelo pode, mais uma psicoofoda das grandes.

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  18. Parece-me que o Desidério é o único que se vê como alvo dessas acusações. Bom, pelo menos eu não as faço. Agora que faço a acusação de vitimização, lá isso faço.

    Seja como for, se o Desidério se queixa de hipocrisia, que aponte o dedo a toda a humanidade. O seu dedo vai sempre lançado direitinho, em primeiro lugar à esquerda e aos verdes (posso estar a ser injusto, por ser eu próprio de esquerda, mas não me recordo de o ver a criticar, por iniciativa própria e sem ser nos comentários, as posições mais à direita ou, por exemplo, dos neocons).

    Pior, depois de todas estas conversas sobre generalizações, o Desidério diz «Como dizia Orwell, o problema é o gramofone, a repetição acrítica de ideias, e não o que está a ser dito». Isto é precisamente o que o Desidério diz. E a discussão original que o Desidério puxou para o post, relembro, nem era o ambiente mas a ideia de spin. Claro que os ambientalistas, sendo, aparentemente, um grupo-alvo tão caro ao Desidério, foram usados como exemplo, mas isso é outro assunto.

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  19. E, já agora, dou-lhe os parabéns, Desidério, por preferir andar a pé do que de carro. Isso é um exemplo que deveria ser seguido por mais pessoas. Uma coisa é fazê-lo na Holanda, plana, com boas redes de transportes públicos e espaços para bicicletas. Outra, bem diferente, é fazê-lo nas cidades portuguesas, com relevo, nenhum respeito por bicicletas ou peões e sem redes de transporte públicos merecedoras desse nome.

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  20. "Quando aparece alguém a dizer que os verdes são tão maus quanto os outros, cai o carmo e a trindade. "

    Nao, nao e' esse o problema. Eu conheco pessoalmente 'verdes' alemaes de varios
    tipos desde muito sensatos a folcloricos.

    Mas 1) isso e' -- na discussao da necessidade de minorar e contrariar o efeito entropogenico para a alteracao climatica -- irrelevamte. Os argumentos devem ser analisados pelo seu valor concreto, nao por quem os defende.

    2) mesmo aceitando que os capitalistas sao tao bons ou tao maus quanto os verdes, existe uma assimetria na distribuicao do poder e na capacidade de determinar os destinos do mundo. Estou mais preocupado com o poder nao controlado dos centros de poder economico do que com um certo floclore verde que, na verdade, esta' muitissimo longe do poder. Se isto nao for verdade, diga-me o Desiderio que posicoes de poder politico, economico ou militar teem esses grupos verdes?

    Coloca'-los no mesmo plano, como se o poder que deteem fosse o mesmo, e' automaticamente e por omissao tomar uma posicao politica extremamente distorcida da realidade.

    Ja' agora: o Earth Institute da Columbia University e' um antro de verdes anti-capitalistas?

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  21. Desculpe, JSA, mas você não compreende as coisas. Sou de esquerda e nada é pior para a esquerda do que a esquerda idiota que é comum e que está representada nos partidos tradicionais. Sou ecologista, mas nada pior para a ecologia do que os verdes dogmáticos, fundamentalistas e tolinhos.

    Isto faz-me lembrar uma conversa que tive há tempos com uma colega, que não sabia que Orwell era socialista; pensava que ele era de direita por ter criticado tão profundamente o regime soviético. Pois é. Orwell era de esquerda mas usava a cabeça para pensar em vez de ir atrás da multidão.

    Quer ler coisas de esquerda bem pensadas e que não se limitam a ir atrás da multidão? Orwell ou Peter Singer são bons pontos de partida.

    Só mais esta: eu não vivo em Portugal.

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  22. Miguel, o que conta é que a desinformação que os verdes tipicamente lançam nos meios de comunicação é uma treta completa, geralmente. O problema é este. Responder à mentira com outras mentiras é ficar na mesma. Responder ao fundamentalismo do dinheiro com o fundamentalismo verde é ficar na mesma. Na verdade nenhum verde deve fazer a mínima ideia de qual é o problema de lixar as gerações futuras, apenas assume isso como óbvio porque faz parte da religião dele. Ao passo que os neocons assumem como óbvio que o que conta é a minha riqueza aqui e agora e os descendentes que se amanhem como puderem.

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  23. Caramba, que eu também já devo viver há demasiado tempo em Portugal para ter deixado de saber escrever em português. Não me tinha apercebido de ter dito que o Desidério era de direita. Aliás, até o Desidério ter começado a atacar a esquerda, eu julguei-o precisamente de esquerda (pelo que escrevia). depois fiquei na dúvida, mas apenas isso, na dúvida. Isso não impede que tenha escrito ultimamente de uma forma que critica fortemente (para não dizer violentamente) a esquerda e os verdes, tudo pela medida grossa. Uma coisa é fazer generalizações, outra coisa é pegar nas franjas (os «dogmáticos, fundamentalistas e tolinhos» para usar a sua expressão) e ligá-los ao grupo de que fala. E é isto que o Desidério tem feito. E não creio que o tenha feito por descuido, que a sua escrita é demasiado cuidada para isso.

    Quanto a viver ou não em Portugal, isso fui eu que depreendi. Mas se ficou ofendido por eu o ter escrito (ninharia, mas enfim, quem sou eu para julgar), então peço-lhe desculpas, que diabos. O Desidério não vive em Portugal. Pronto, mais satisfeito?

    Já agora, posso perguntar-lhe se tem raízes holandesas? É que esse seu dedo tem hábitos típicos destas terras.

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  24. Caro Desidério Murcho,

    está muito mal informado sobre o assunto. Os resultados sobre o aquecimento global foram obtidos após a publicação de milhares de artigos científicos em revistas da especialidade avaliados pelos pares, passando o crivo do que há de mais rigoroso: o método científico.

    Curiosamente, esse é o crivo que muita má ciência ou pseudo-ciência não passa, mas que faz muito ruído, como o citado Lomborg, que apesar de não ser um charlatão já foi desmentido no essencial do conteúdo das suas teorias, em revistas científicas como a Science. Se isto é politização, então o método científico deve andar politizado...

    Dê-me um exemplo de um artigo publicado numa revista científica com arbitragem em que seja dada uma explicação razoável, com uma estimativa de probabilidade como fez o IPCC, para o actual aquecimento do planeta em que o homem não esteja envolvido. Se conseguir arranjar, confronte-o que os milhares de artigos (muitos na Nature e Science) que dizem que o homem é um factor importante/determinante, e a partir daí começamos a fazer ciência. Se não aquilo que o Desidério está a fazer é exactamente aquilo que pretende denunciar, a politização da ciência. É perigos tentar politizar o método científico.

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  25. "está muito mal informado sobre o assunto"

    Ui ui, parece que aqui alguém quer discutir isto à séria! Pena é eu não ter grande tempo para debastar todos os mitos que levanta. Fala de milhares de estudos, mas não fala da robustez deles, nem sequer da sua relevância para a evidência ou não do fenómeno. Esquece-se que o IPCC fundamenta-se não em milhares de estudos, mas sim em poucas unidades de papéis para defender a sua tese de princípio, o aquecimento global provocado pelo homem. Os restantes são teses que se apoiam nestes primeiros e tentam deslindar questões ulteriores, mas sempre baseando-se nos mesmos. Fale à vontade de "milhares", como se o número de teses fosse tão importante como a robustez dos mesmos. A questão do "consenso" é falsa não só como argumento como também na prática (só nos últimos 3 anos, teses importantíssimas "peer-reviewed" desbastam nas teses principais do IPCC como faca quente em manteiga) e para aqui não é chamada. Quando fala do crivo "mais rigoroso", não misture o "peer-review"!

    O crivo mais rigoroso sempre foi a resistência à crítica alheia (processo ulterior ao "peer-review") e à experimentação no mundo real. Ironicamente, a crítica é desencorajada e insultada, mas mais gravemente, dificultada ao máximo. O processo pelo qual McIntyre e Ross McKittrick (MM2005) passaram ao tentar mostrar como o "Hockey Stick" de Michael Mann (MBH99) estava cheio de erros estatísticos que criavam por eles próprios um "HS" independentemente dos dados utilizados é uma história que está longe de acabar, e ultrajante, no modo como o estudo que supostamente ultrapassava MM2005 (AW2006) foi aceite pelo IPCC 2007 no prazo limite e a sua tese principal escondida num anexo a que ninguém teve acesso, mas parece que os autores decidiram colocar o mesmo na internet há pouco tempo (bem depois do dano feito no relatório de 2007 contra MM2005), e "hold and behold", trapaças estatísticas sobre trapaças estatísticas, longe de provarem que Mann tinha razão, chegam ao mesmo resultado que MM2005!

    Este tipo de jogadas sujas é comum e indignificante. Mas a ciência ganha sempre no final.

    "com uma estimativa de probabilidade como fez o IPCC"

    Pois mas o que se esquece é que as estimativas de probabilidades do IPCC não dizem nada sobre a probabilidade da veracidade dos mesmos! As estimativas do IPCC são sobre a variação interna dos modelos considerados pelo IPCC, não sobre a validade deles próprios. É a diferença entre ser preciso e rigoroso. Imagine que eu tenho uma teoria em que digo que 2+2=5 +-1 (margem de erro). Claro, é errado, embora inclua a resposta certa na margem. No entanto, a minha teoria não melhora em nada se eu encontrar meio de calcular que 2+2=5 -+0.01. Aumentei a precisão, mas não melhorei em nada a pontaria. Tome nota. Sempre que algum maluco diga "existe 5% de probabilidade em como o planeta Terra aquecerá 10 graus em 100 anos", lembre-se que não são 5% "reais", mas no modelo que ele concebeu, ou seja, não se sabe minimamente qual a percentagem real da possibilidade de tal evento!

    Para ultimar a coisa. O efeito do CO2 está mais ou menos bem estabelecido como sendo +-1ºC por duplicação do CO2. Esta é a base da sua afirmação sobre a acção humana. Quer isto dizer que mesmo que a atmosfera duplique o CO2 para mais de 700ppm (improbabilíssimo), da equação resulta apenas +-1ºC! Os restantes aumentos resultam dos modelos que calculam feedbacks positivos. No entanto, tendo em conta o aumento de 0.6ºC no século XX, isto parece muito pouco provável. Mesmo que todo o aquecimento do séc XX fosse devido ao CO2 (nem mesmo o IPCC defende isto), não seria de esperar sequer 1ºC de aquecimento até 2100! Os modelos recorrem a asserções e a fundamentações nunca provadas.

    Não acredite em mim. Procure por você mesmo.

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  26. Bertrand Russell já tinha estabelecido que:

    "Os cientistas esforçam-se por tornar possível o impossível, e os políticos, por tornar o possível, impossível"

    Tudo se resume a isto, porque certezas nem os cientistas as têm.
    Por isso "se esforçam para descobrir a verdade.", para almejar o ómega

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  27. Caro anónimo (coragem para escrever o nome),

    não são "milhares de estudos", são milhares de artigos publicados em revistas científicas da especialidade com arbitragem, entre os quais dezenas foram publicados na Nature e Science, as revistas em que o processo de revisão é visto e revisto até à exaustão. Estudos são muito mais do que esses milhares. Já percebi que não distingue entre estudos e artigos científicos.

    Esse trabalho que refere sobre a negação do hockey stick, é um exemplo perfeito de má ciência, em que os autores comparam dados com significância estatística completamente diferente, um erro de palmatória em matemática e estatística. A sua referência ao assunto revela bem a consistência dos argumentos que invoca, mas felizmente as revistas científicas ainda não chegaram ao ponto de publicar asneira da grossa.
    Leia bem este artigo escrito por alguns dos melhores climatologistas do mundo e perceba a dimensão da asneira:
    http://www.realclimate.org/index.php/archives/2005/02/dummies-guide-to-the-latest-hockey-stick-controversy/

    Isto está absolutamente errado:
    "IPCC fundamenta-se não em milhares de estudos, mas sim em poucas unidades de papéis para defender a sua tese de princípio, o aquecimento global provocado pelo homem"

    Se quiser contar o número de "papéis" que serviram para elaborar o relatório do IPCC, é só ir às páginas das referências, são 26 páginas, vá lá e conte o número de artigos depois diga-me quantos são se fizer favor. Eu fiz um search e só os publicados na Nature são 39:
    http://www.ipcc.ch/pdf/technical-papers/ccw/references.pdf

    Podia "desbastar" ainda mais na pseudo-ciência que apresentou mas fico-me por um último desafio porque tenho mais que fazer: em que publicação é que foram apresentadas essas "teses importantíssimas "peer-reviewed" que desbastam nas teses principais do IPCC como faca quente em manteiga"? O que é que desbastam em concreto? É que para "desbastar" milhares de artigos científicos, devem ser mesmo muito importantes, esses teses devem dar direito a prémio Nobel no mínimo!

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  28. O termo “probabilidade” é utilizado, com alguma frequência, com o sentido coloquial de verosimilhança, plausibilidade, de algo que aparenta ser verdadeiro, o que não constitui propriamente o significado rigoroso de probabilidade que é dado pela Matemática.

    Daí não vem mal mal ao mundo, excepto se alguém recorre ao termo com pretensões de rigor matemático, quando o que está em causa é apenas o sentido coloquial. E se quem o faz tem formação académica e responsabilidades científicas, o caso é grave e não pode deixar de ser apontado como atitude fraudulenta.

    O que não falta neste mundo são situações em que a definição matemática e rigorosa de probabilidade não faz sentido, ou é mesmo impossível de estabelecer e muito menos de calcular. Nem tudo é tão transparente e fácil de calcular (para quem sabe, claro) como a probabilidade de acertar no totoloto ou no euromilhões.

    Ora, atribuir uma probabilidade matemática à tese que procura explicar o hipotético aquecimento global como resultado da acção do Homem, é daqueles casos em que a probabilidade matemática não faz qualquer sentido. Pode mesmo dizer-se que não passa de uma fantasia, para não dizer charlatanice.

    Se o IPCC faz isso, é melhor não confiar no IPCC. Estávamos bem arranjados se a moda pegasse e viesse por aí algum maluco atribuir probabilidades incontornáveis, por exemplo, à hipótese de existência de Deus. Não tardava muito e estávamos no tempo da Inquisição outra vez.

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  29. Hockey Stick (taco de hóquei) é a designação por que ficou conhecido um gráfico de reconstrução de temperaturas elaborado por Michael Mann, Raymond Bradley e Malcolm Hughes da Universidade de Massachusetts, num artigo de 1998, ao qual foi dado amplo destaque no Terceiro Relatório de Avaliação do IPCC, em 2001.

    O gráfico procurava demonstrar que estamos a atravessar o período mais quente dos últimos 1000 anos, pelo que não surpreende que tenha sido entusiasticamente adoptado pelos adeptos do aquecimento global de origem antropogénica.

    A reconstrução de temperaturas ilustrada pelo Hockey Stick descreve um clima relativamente estável, com uma ligeira tendência de arrefecimento entre os anos 1000 e 1900 (período a que corresponde o cabo do taco) e revela uma subida muito acentuada durante o séc. XX (a lâmina do taco).

    Todavia, dois cientistas canadianos, Stephen McIntyre e Ross McKitrick encontraram uma falha matemática básica no programa de cálculo utilizado por Mann, que acabou por ser acusado de negligência e mesmo de fraude.

    McIntyre e McKitrick publicaram dois artigos críticos do Hockey Stick na revista Energy and Environment, em 2003, e uma terceira crítica na Geophysical Research Letters, em 2005.

    Entre outras debilidades, McIntyre e McKitrick detectaram que Mann e colegas “enviesaram” os dados proxy de que dispunham de forma a inflacionarem a importância dos valores que vieram a produzir uma curva em forma de Hockey Stick.

    A pedido do House Energy and Commerce Committee, o Dr. Edward J. Wegman, do Centro de Estatística Computacional da Universidade George Mason, constituiu uma equipa de especialistas de estatística para avaliar a crítica de McIntyre e McKitrick aos dados e à metodologia seguida por Mann e colegas.

    A equipa de Wegman concluiu que os textos de Mann, Bradley e Hughes eram algo obscuros e incompletos e que as críticas de McIntyre e McKitrick eram válidas, pois o enviesamento dos dados proxy nos trabalhos de Mann, Bradley e Hughes teve, como resultado prático, o traçado de uma curva com a forma de Hockey Stick.

    O comité considerou ainda que a conclusão de Mann, Bradley e Hughes, de que a década de 1990 foi provavelmente a mais quente do milénio e que 1998 foi o ano mais quente do milénio, não podia ser suportada pelas suas análises.

    De facto, existem inúmeros cientistas que não aprovam a linha alarmista do aquecimento global e têm vindo a publicar trabalhos nesse sentido. Por que razão serão mais válidas as posições dos cientistas que aprovam do que as posições dos cientistas que não aprovam?

    Por ocasião da Conferência de Bali, em Dezembro de 2007, um grupo de 100 cientistas com currículo internacionalmente reconhecido, escreveu uma carta aberta ao Secretário Geral das Nações Unidas, com cópia a todos os chefes de Estado dos países a que pertencem, na qual são criticados os relatórios alarmistas do IPCC, manifestada a convicção de que o ser humano não é responsável pelas alterações climáticas observadas e referida a inutilidade das acções em curso para as combater.

    Não obstante o seu profundo significado, esta carta não mereceu qualquer referência na comunicação social portuguesa.

    De facto, as posições críticas da corrente alarmista do aquecimento global muito raramente encontram eco na comunicação social portuguesa.

    A justificação para uma tal atitude deveria merecer melhor atenção de todos quantos, em Portugal, prezam a liberdade de informação.

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  30. "Ora, atribuir uma probabilidade matemática à tese que procura explicar o hipotético aquecimento global como resultado da acção do Homem, é daqueles casos em que a probabilidade matemática não faz qualquer sentido. Pode mesmo dizer-se que não passa de uma fantasia, para não dizer charlatanice."

    Errado!
    Desculpe escrever-lhe isto, mas não tem a mínima noção do trabalho científico que se faz há mais de um século em todo o mundo. O que fazem os cientistas é exactamente isso que diz que não fazem: cálculos que estabelecem resultados com barras de erro que determinam a probabilidade de um determinado resultado acontecer.
    Foi isso mesmo que fizeram os investigadores que contribuíram para o resultado IPCC, foram milhares a trabalhar mais de uma dezena de anos, para obter o cálculo do forçamento radiativo que atribui uma probabilidade superior a 90% de o aquecimento global ter origem na actividade humana:
    ver Figura TS5 (b) da pag.32 do "Technical Summary" do IPCC (http://ipcc-wg1.ucar.edu/wg1/Report/AR4WG1_Print_TS.pdf).

    Parece-lhe impossível? É o dia-a-dia da ciência, desde a relatividade geral, à física nuclear e das partículas, em todos os domínios se obtém resultados que são fruto do trabalho de milhares de cientistas ao longo de decénios, que calculam coisas mais complicadas que o aquecimento global e que ano após ano têm sido verificadas experimentalmente.

    O resultado principal de que McIntyre and McKitrick se socorreram nos artigos de crítica ao trabalho de Mann e Hughes, estava errado e por isso NUNCA foi publicado em artigo ISOLADO. Não tenhamos dúvidas de que se estivesse certo, mereceria revista científica meritória, Nature ou Science. E o erro não era um erro qualquer:

    "McIntyre and McKitrick claim that the reconstruction using only the first 2 PCs with their convention is significantly different to MBH98. Since PC 3,4 and 5 (at least) are also significant they are leaving out good data. It is mathematically wrong to retain the same number of PCs if the convention of standardization is changed. In this case, it causes a loss of information that is very easily demonstrated. Firstly, by showing that any such results do not resemble the results from using all data, and by checking the validation of the reconstruction for the 19th century.
    As you might expect, throwing out data also worsens the validation statistics, as can be seen by eye when comparing the reconstructions over the 19th century validation interval."

    Além do mais desde então já foram publicados outros artigos ainda mais precisos sobre o Hockey Stick que reafirmam o trabalho de Hughes e Mann: Rutherford et al (2005) e Moberg et al (2005). O trabalho de McIntyre and McKitrick crítico poderia ter sido meritório mas acabou na galeria dos exemplos de má ciência...

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  31. Desiderio, durante a nossa discussao tenho assumido que os resultados do IPCC sao a nossa 'best guess' da realidade do aquecimento global e dos efeitos antropogenicos.

    A minha questao e' a seguinte: o Desiderio esta' de acordo com esta premissa, ou tambem acha que o IPCC e' uma treta?

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  32. Subscrevo a pergunta do Miguel.
    Será que andamos a ser enganados por milhares de investigadores?

    É que se isso for verdade é muito grave, implica que as melhores revistas científicas e as melhores instituições científicas deste mundo estão envolvidas numa fraude de dimensão colossal. É esse cenário que lhe parece o mais plausível?

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  33. Suponho que o Desiderio ainda nao tenha tido tempo de ler estas perguntas; caso
    contrario, o silencio do Desiderio e' muito eloquente ...

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  34. Caros leitores
    Obrigado pelos vossos comentários.
    As pessoas tendem a confundir várias coisas diferentes:

    1) Saber se há realmente aquecimento global.
    2) Saber se a dimensão desse aquecimento. Afinal, o clima está sempre a mudar ao longo do tempo, é uma fantasia pensar que é basicamente sempre igual.
    3) Caso haja um aquecimento global, de grandes ou pequenas dimensões, saber se é provocado pelas actividades humanas.
    4) Caso o aquecimento global seja provocado pelas actividades humanas e caso seja grave, saber o que é melhor fazer.

    O artigo que citei de Lomborg trata principalmente de 4, se bem que trate também das fantasias catastrofistas que dizem que 2 é imenso e que afirmam 3.

    É evidente que a ciência está politizada, infelizmente. Veja-se este meu post:
    http://dererummundi.blogspot.com/2008/05/pontaps-na-cincia.html

    A mentira científica ocorre sempre que há interesses ideológicos, religiosos, políticos ou de pura tolice. A mentira é a actividade mais comum dos seres humanos e não ajuda nada a ideia de que há áreas impolutas da actividade humana, como a Ciência, a Religião ou a Minha Tia Francisca.

    Eu não tenho interesse em defender qualquer dama: que há ou que não há aquecimento global, que é ou não de grandes dimensões, que é ou não provocado pelos seres humanos, e que tipo de coisa podemos fazer quanto a isso. Quero saber a verdade. E o que vejo é que a verdade não se consegue saber porque há muita mentira na ciência que tem impacto social. Voltarei a falar sobre isso num post à parte.

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  35. É fácil dizer o que se quiser acerca do que disse ou não disse este ou aquele cientista. Ninguém vai verificar se é verdade ou mentira. E se for, volta aqui para dizer o quê? Que a minha verdade, ou a minha probabilidade, é maior do que a tua? Deixemo-nos de brincadeiras.

    O que eu concluo do que tenho lido, e começo a sentir que já perdi tempo demais com este assunto, é que na controvérsia acerca do aquecimento global, é possível ter a percepção de que as afirmações categóricas dos adeptos do aquecimento não merecem a mesma credibilidade que as posições dos cépticos.

    Por um motivo muito simples : intolerância. A intolerância de opinião que os fanáticos do aquecimento revelam em relação aos cépticos. Ora, quem não aceita opiniões discordantes e ameaça quem não concorda, pode estar cheio de razão, mas não merece credibilidade. Nem respeito.

    Se, para acreditar em Deus, é preciso ter pavor de morrer na fogueira, é porque Deus não existe.

    Vivi 28 anos no regime salazarista. Fiquei cheio de intolerância. Só de ler as barbaridades que são escritas pelos fanáticos do aquecimento, fico de cabelos em pé.

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  36. "Ora, quem não aceita opiniões discordantes e ameaça quem não concorda, pode estar cheio de razão, mas não merece credibilidade. Nem respeito."

    Caro Jorge, tera' a fineza de nos explicar quem e' que neste debate ameacou alguem seja do que for?

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  37. Para descanso dos leitores do Rerum, cumpre-me dizer que neste debate não fui, nem me senti ameaçado por ninguém. Noutros debates, já. Normalmente por energúmenos, sob anonimato.

    Mas conheço casos em que fanáticos do global warming ameaçaram os críticos. Ao contrário, nunca li nada. Mas, confesso, também não tenho a pretensão de conhecer todo o trabalho científico que se faz por esse mundo fora.

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  38. Jorge Oliveira: «conheço casos em que fanáticos do global warming ameaçaram os críticos. Ao contrário, nunca li nada».

    Pois basta recuar uns anos e leria muito. Mas mais que ameaças, leria sobre retaliações. Empresas a retirarem apoios financeiros a cientistas, professores a verem as suas posições em universidades a serem entregues a outros, ataques desferidos em jornais (científicos e outros), etc e tal. Aliás, isto acontece frequentemente a cientistas envolvidos em ambiente. Como as empresas não gostam muito deles (o que até se compreende, uma vez que estes lhes querem impor restrições ao negócio e, consequentemente, ao lucro), acabam por fazer os possíveis para os silenciar ou desacreditar. Sempre lhes sai mais barato do que adoptar muitas das soluções que os cientistas propõem para solucionar o problema que dizem existir.

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  39. Então todos os cientistas que escrevem neste site (ver curricula de cada um deles) www.realclimate.org ou James Hansen, etc. agora são convenientemente rotulados simplesmente de "verdes"; estou espantado com o nível deste "post" num blogue que é suposto ser sobre ciência. Até parece que a discussão sobre o Aquecimento Global é uma trica entre o Lomborg e o Al Gore;

    Por favor, faça um esforço; eu não sou taxista nem climatologista, mas tenho discernimento suficiente para saber quem é sério sobre este assunto!

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  40. Nota-se que há muito comentarista que pensa que os povos do 3* mundo, como lhes chamam, podem desenvolver-se e levar vida de 1*! Não reparam que comaça a aparecer muitas restrições nos recursos. Por ex., se a China gastasse o mesmo petróleo por cabeça que a América, não sobrava petróleo para mais ninguém.
    Estou farto de dizer: com a quantidade de gente que existe, a maioria será sempre pobre, além que a degradação e desertificação do planeta é inevitável.

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  41. O Relatório do PNUD sobre Desenvolvimento Humano de 2008 é dedicado às ALterações Climáticas:
    http://hdr.undp.org/en/media/HDR_20072008_EN_Complete.pdf

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  42. Já agora, este vídeo parece explicar umas coisas sobre a reacção de algumas pessoas ao AQ:



    http://poptech.org/popcasts/?viewcastid=163

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  43. O vídeo explica umas coisas, é verdade, excepto a autenticidade da hipótese de existir uma grande ameaça, embora de desenvolvimento lento, relacionada com o global warming de origem antropogénica. Julgo que as piadas ao Presidente Bush ainda não constituem prova científica em lado nenhum.

    Porque, ao fim e ao cabo, continua de pé uma hipótese que pode ser preocupante, mas que os fanáticos do global warming nunca abordam : se estiver em curso, de facto, um aquecimento global de amplitude perigosa, ainda que não imputável ao Homem, o mesmo é dizer, ao George Bush, o que é que fazemos? Acerca disso, nem uma palavra, certo? É também por isso que os alarmistas não merecem crédito.

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  44. Não confunda a sua ignorância sobre um dado assunto com a inexistência desse assunto, perdoe-me a franqueza. Há imensas propostas a esse respeito. Agora, cada qual deve fazer um esforço para as procurar e compreender criticamente. Claro que cada qual também pode simplesmente preferir ignorar a realidade, enfim!



    Mas já agora, sobre a existência e perigosidade das Alterações Climáticas, recomendo este artigo publicado em pela Academia de Ciências do Reino Unido e subscrito por vários cientistas - noto são cientistas, ainda por cima dos EUA - de instituições reputadas:

    http://journals.royalsociety.org/content/l3h462k7p4068780/fulltext.pdf

    http://futureatrisk.blogspot.com/2007/06/especialistas-avisam-que-o-perigo-de.html

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  45. Já agora, para facilitar:

    (d ) Planet Earth today: imminent peril
    págs. 25 e 26 do PDF:


    Our concern that BAU GHG scenarios would cause large sea-level rise this
    century (Hansen 2005) differs from estimates of IPCC (2001, 2007), which foresees
    little or no contribution to twenty-first century sea-level rise from Greenland and
    Antarctica. However, the IPCC analyses and projections do not well account for the
    nonlinear physics of wet ice sheet disintegration, ice streams and eroding ice shelves,
    nor are they consistent with the palaeoclimate evidence we have presented for the
    absence of discernable lag between ice sheet forcing and sea-level rise.
    The best chance for averting ice sheet disintegration seems to be intense
    simultaneous efforts to reduce both CO2 emissions and non-CO2 climate forcings.
    As mentioned above, there are multiple benefits from such actions. However,
    even with such actions, it is probable that the dangerous level of atmospheric
    GHGs will be passed, at least temporarily. We have presented evidence (Hansen
    et al. 2006b) that the dangerous level of CO2 can be no more than approximately
    450 ppm. Our present discussion, including the conclusion that slow feedbacks
    (ice, vegetation and GHG) can come into play on century time-scales or sooner,
    makes it probable that the dangerous level is even lower.
    Present knowledge does not permit accurate specification of the dangerous
    level of human-made GHGs. However, it is much lower than has commonly
    been assumed. If we have not already passed the dangerous level, the energy
    infrastructure in place ensures that we will pass it within several decades.

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  46. Quanto às soluções:

    eis uma:

    http://gregmankiw.blogspot.com/2006/09/rogoff-joins-pigou-club.html

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  47. Vejam só, até o Schwarzenegger está preocupado com as AC (afinal não é só o Al Gore):

    http://www.ecodrivingusa.com/

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  48. Pois. Dou-me ao trabalho de ir ver um desses links, para colmatar a minha ignorância e o que leio?

    Recent greenhouse gas (GHG) emissions place the Earth perilously close to dramatic climate change that could run out of our control. Carbon dioxide (CO2) is the largest human-made climate forcing... bla, bla, bla.

    Ou seja, mais do mesmo. CO2, CO2, e mais CO2 de origem antropogénica.

    Quando tiverem novidades, avisem. Até lá não dou mais para esse peditório. Bye.

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