quinta-feira, 2 de abril de 2020

"Isto não é uma guerra"

Nestes dias trágicos que vivemos, têm-se multiplicado os comentários e análises da situação e da possível mudança que esta terrível experiência pode trazer aos nossos hábitos, a toda a sociedade. Nada voltará a ser igual... 
Para lá dos comentaristas de ocasião, importa ouvir/ler aqueles que há muito são vozes esclarecedores, na atenção que dedicam à análise deste nosso mundo e da sua evolução.
O sociólogo francês Alain Touraine, com 95 anos, pertence a uma geração que marcou o pensamento ocidental do século XX e deste século XXI, que viveu épocas conturbadas, tornou-se com os seus estudos uma referência do pensamento de esquerda, sendo bem conhecidas as suas fortes convicções contra qualquer totalitarismo.
Numa entrevista ao jornal espanhol El País (aqui), no passado dia 28 de Março de 2020, falou no “grande vazio” que se sente nesta “guerra” sem oponentes visíveis, sem combatentes. Analisa a situação que vivemos e estabelece relações com outras épocas da história, dando a sua opinião, desalentada, sobre este presente sem ideias, sem uma liderança forte, sem um rumo traçado.

Respigámos algumas das suas afirmações:
“Não há um estratega: o vírus não é um chefe de Governo. E, do lado do humano, creio que vivemos num mundo sem actores.” 
 
“Nunca tinha visto um presidente dos Estados Unidos tão raro como Donald Trump, tão pouco presidencial, uma personagem tão fora das normas e fora do seu papel. ... os Estados Unidos abandonaram o papel de líder mundial. Hoje já não há nada. E na Europa, se atentarmos nos países mais poderosos, ninguém responde.“

“Hoje não há nem actores sociais, nem políticos, nem mundiais, nem nacionais, nem de classe. Por isso o que acontece é bem o contrário de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direcção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.”

“O que me impressiona agora, enquanto sociólogo ou historiador do presente, é que há muito tempo que não sentia um tal vazio. Há uma ausência de actores, de sentido, de ideias, de interesse... Nem sequer temos vacinas... Não temos armas, vamos de mãos vazias, estamos encerrados sozinhos e isolados, abandonados."

"Isto não é guerra!”

À pergunta “Onde está a Europa?”, responde:

“Ouviu muitas mensagens europeias nestes dias? Eu não.
Esta epidemia acontece num período em que não sabemos nem como nem porquê...
Estamos no não-sentido e creio que muita gente ficará louca pela ausência de sentido."

— O vírus não irá mudar tudo?

“Não creio. Haverá outras catástrofes... As epidemias não são tudo. E creio que entramos num novo tipo de sociedade: uma sociedade de serviços entre humanos. Esta crise porá em destaque a categoria dos cuidadores.”

5 comentários:

  1. Árvore dos Sefirot3 de abril de 2020 às 10:15

    Então, o que poderá pedir o político ao humano numa situação em que a ciência tarda e tudo se desmorona? Evangelho? Porque é preciso acreditar fortemente em Algo ou em Alguma Coisa para dar o peito à morte, nesta sociedade laica, onde ri o palhaço e Deus raramente responde.

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  2. Creio que a Democracia é precisamente isto, de dispensarmos os Liders, especialmente dos que se dizem mais iluminados, porque cada um é Responsável pelas opções que faz.
    Claro que isto é uma chatice, porque ficamos sem uns liderzinhos a quem culpar ....

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  3. O que é ser Responsável? Seremos todos assim tão Responsáveis? Qual o plano e a direção? Só tentáculos...
    Pergunta a Alice ao coelho:
    - Que direção devo tomar?
    Responde o coelho:
    - Isso depende, em larga medida, para onde quiser ir. (Ou qualquer coisa parecido)
    Mas isso é no País das Maravilhas.

    Outra solução é igual a mesma: o triunfo dos porcos.

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  4. Não esquecer que o País das Maravilhas tinha a Rainha de Copas ...

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