quinta-feira, 23 de abril de 2020

A casa e a sabedoria do jardineiro

                                                                                              Apesar das ruínas e da morte,
                                                                                              Onde sempre acabou cada ilusão,
                                                                                              A força dos meus sonhos é tão forte,
                                                                                              Que de tudo renasce a exaltação
                                                                                               E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Ruína e morte são as imagens que nos assolam nestes dias de incerteza, mas, tal como Sophia, devemos manter "a ilusão e o sonho" para que as nossas mãos não fiquem vazias.
A nossa casa, o nosso interior são agora a nossa "morada" permanente e é nela que devemos pensar, "com a força dos sonhos" o futuro que queremos viver.
A natureza segue o seu ritmo, a Primavera, com as suas flores, chegou, mas, confinados no nosso interior, não podemos hoje apreciar o que antes não víamos pela vertigem da corrida diária.

No sua crónica de 15 de Abril (aqui), Pascale Seys lembrava a "sabedoria do jardineiro" pois:
"para ser sábio é preciso, em primeiro lugar, ser conhecedor ... e para responder à questão de saber como viver a vida, é conveniente observar os movimentos da natureza e a sua “armadura” rigorosa, que testemunham a coesão e a solidariedade entre todos os seres vivos ligados, como uma corda vibratória, por uma afeição comum ao universo inteiro;
... observar a natureza e compreender as suas leis, contemplar um pedaço de um parque ou um canto de jardim, admirar as flores que brotam na Primavera e em breve o lilás, é a vida real da sabedoria prática, é o que sabe também o jardineiro Gilles Clément. Ele sabe que o ritmo do que desponta no seio da natureza é o que escapa à vontade e à corrida dos homens."

É uma sabedoria ancestral, que vem do princípio dos tempos, aquilo a que os estóicos chamavam:
"a “palingenesia cósmica” para dizer, literalmente, o “nascimento de novo” ou ainda, segundo um outro termo culto a  “apocatástase”, a regeneração, a reconstituição, o restabelecimento e o retorno à vida depois de cada destruição."

e que levou Nietzsche a falar da "lei do “eterno retorno”.
"então é preciso poder dizer sim a todas as coisas, quer dizer que é preciso poder aceitar e mesmo desejar que o que acontece acontece exactamente como acontece. Assim, é preciso semear no mundo gestos e pensamentos o mais doce e ao mais alegres possíveis visto que se deve esperar que o fruto das sementeiras volte, depois que a terra tenha dado a sua volta."
Por isso o jardineiro Gilles Clément diz que:
"fazer jardinagem é “acompanhar o tempo” e, por consequência, neste sentido também, jardinar é desobedecer. Um ano é o tempo que é necessário à terra para completar a sua revolução.

E nós, durante esse tempo, nós corremos rápido demais, ignorando os fusos horários, confundindo o dia e a noite, nós apanhámos demasiados aviões e esgotámos a terra."

 E, entretanto, eis-nos confinados, fechados nas nossas casas, no interior de nós mesmos. Na crónica de 22 de Abril (aqui), Pascale Seys fala-nos da casa, do seu significado:

“A nossa morada segue a sua história”, escrevia o poeta René Char. .... 
A casa conta, com muita exactidão, como nós sonhamos e como experimentamos a nossa vida num espaço que nos limita e numa espécie de continuidade da nossa própria história. E tudo isto, porque as casas têm uma alma. Observar o espírito do lar ou evocar o espírito de uma casa era um pensamento comum a Gregos e Romanos que viam em Héstia ou Vesta a guardiã da vida doméstica. Os Antigos consideravam os Penates os génios dos lugares, forças protectoras da casa. No exterior o movimento, a agitação, no interior, os génios do lar permanecem na sua morada, moram em si e é esse mesmo o sentido da casa: um lugar onde se permanece, onde se reside, excepto para aquilo que o atravessa.

Em 1957, o filósofo Gaspar Bachelard desenvolveu uma imagem segundo a qual a casa é o lugar da verticalidade: a alma da casa, diz ele, eleva-se da cave ao sótão, desde as forças obscuras do inconsciente alojadas nas caves até aos medos dominados pela razão debaixo dos telhados. Entre os dois pólos, da cave ao sótão, a escadaria é o dono da circulação que liga os nossos medos à sua proprietária e à sua dominação. E depois, como nas bonecas russas, há também na casa, a casa das coisas: os cofres, as malas, as gavetas e os armários que somos incapazes de imaginar vazios e que são senhores de todos os segredos que encerram.
Como a casa, a alma é uma morada e Bachelard, por analogia, evocava também a casa das palavras. As palavras, explicava ele, são pequenas casas, com caves e sótãos. Enquanto que subir na casa das palavras consiste em praticar a abstração, descer à cave é sonhar, é procurar tesouros de sentidos, sempre entre a terra e o céu, que é o espaço do próprio ser.
...
Assim, habitamos a terra, habitamos um bairro, uma casa ou um apartamento, habitamos as palavras e a língua, e a situação é dramática para quem não habita parte nenhuma. À verticalidade de Bachelard, entre a cave e o sótão, na casa e nas palavras, pode responder a horizontalidade do exterior versus interior.
Ontem nómadas, livres de ir e vir, de transpor portas e circular por aqui e por ali, no exterior, no mundo, eis-nos no interior, nas nossas casas, alojados em nós mesmos, sem que seja preciso qualquer máscara, porque no interior, necessariamente, as máscaras caem.
Amanhã, em breve, num dia próximo retomaremos o caminho do exterior e sairemos das nossas conchas como caracóis assustados.
Entretanto, nós habitamos o mundo e as palavras de modo diferente  e abrandámos o ritmo dos nossos passos.
Nas novas fábulas que contaremos, o caracol triunfará do leão, da lebre e da raposa, porque com a sua casa às costas e a sua mestria do tempo lento, o caracol tornar-se-á, com espanto, o animal mais sábio.
Que tal seguirmos a "sabedoria do jardineiro"? Talvez ainda seja:
" verdadeiramente o tempo de cultivar o nosso jardim tendo em vista preparar e imaginar a revolução que vem"
E fica no ar a questão que Pascale sempre coloca:


Et vous, qu’ en pensez-vous?




1 comentário:

  1. Moi? Rien. Sobro de nada.

    "Perfeito o azul do mar, perfeita a morte."

    ("Barco", Coral) Sophia

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