domingo, 15 de março de 2020

UM ENSINO COM A ERÓTICA DO NOVO

"Existe uma erótica do novo; o velho é sempres suspeito"
Alain Barthes 

 No meu post anterior - “Um ensino desumanizado? - previ (previsão que se veio a verificar) vir ele a gerar muita controvérsia que eu tenho por bem vinda se não resvalar para areias movediças da epistemologia que foge ao âmbito de um simples post, matéria em que me declaro, como diria Eça, “um diletante de coxia”. 

Por defender um ensino não amputado de um passado, como tal, dispensado de muletas para caminhar rumo ao futuro, temo ter podido levar o leitor a pensar que defendo um mundo original de Adão e Eva e ataco ferozmente o darwuinismo. Nada disso, bem pelo contrário! 

No meu post anterior fiz a apologia da tese e da antítese para daí se partir para uma necessária e desejável síntese. Apenas não renego o passado como plataforma para conhecer um futuro para a educação dos jovens de hoje.

Um futuro que nas palavras de Charles de Gaulle “não sabemos qual vai ser” e, muito menos, passar um esponja sobre um passado recente de descarado facilitismo em que se defendiam os erros ortográficos desde que fosse possível deduzir o que os alunos queriam escrever. 

Um passado em que a formação dos professores para nada contava num igualitarismo de desiguais. Um passado que perdura de um sindicalismo que se preocupa mais com os direitos e menos com os deveres, como seja os vencimentos dos professores quer sejam bons, maus ou assim-assim. Um passado em que os princípios éticos de uma profissão que vem de tempos remotos não necessita de uma Ordem dos Professores ao arrepio de muitas outras (hoje cerca de dezena e meia) que lutaram e conseguiram uma ordem profissional que no caso da docência pusesse cobro a uma profissão de escravos da Antiga Grécia ao serviço dos filhos dos senhores de Roma. Um passado de descarado facilitismo em que se compraram licenciaturas a granel em saldos mensais de fim de estação. Um passado em que numa mesma família os pais adquiriam o diploma do 12º ano do ensino secundário em meses e os filhos eram coagidos a um estudo aturado e dedicado de 12 anos consecutivos.

Mas atenção, no meu post anterior, tive o cuidado de enaltecer o mundo das novas tecnologias nas aprendizagens escolares, nunca como desempenho herdado das antigas cábulas (eufemisticamente chamadas de auxiliares de memória). Sei, aliás, todo o mundo sabe, que sem a computação actual não seria possível o homem libertar-se da gravidade do planeta terra para viajar a mundos distantes de outros planetas ou mesmo estrelar mas sempre com o cuidado de não o fazer com as asas de cera de um Ícaro dos nossos tempos derretidas com o calor do astro-rei.

Seja como for, mesmo num mundo computacional, como escrevi no meu posta anterior, “o professor para além de transmissor de conhecimentos, deve ser um educador que se não deve demitir desse papel qual computador que se limita a debitar conhecimentos sem a presença afectiva ou a empatia entre quem ensina e quem aprende”! 

Na essência foi isto que quis transmitir, concedo, ainda com pouco engenho e escassa arte, no meu controverso post (como controverso sei, de antemão, ser este). Controvérsia de que me orgulho por poder ter sido a centelha responsável por incendiar o mundo da educação com avanços e recuos de quem procura incessantemente a bússola de um mundo utópico sobre a melhor maneira de formar jovens sem ser com a bengala de cegos que procuram deslocar-se no mundo de trevas com o menor número de quedas possíveis. 

Ou se elas inevitáveis ser capaz de levantar para prosseguir num mundo de obstáculos em que a civilização hipocinética promotora de jovens que passam horas e horas sentados ao computador fazendo deles uma geração em que a obesidade faz estragos que contabilizados agem em seu desfavor. Escreveu Eça (“Os Maias”):
“Nós não temos os jogos de destreza das outras nações – exclamou ele, esbracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os ingleses: não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido… Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra, temos só a tourada… tiram a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado”. 
Um Eça sempre actual numa altura em que se discute acaloradamente em Portugal a continuação ou proibição das touradasl Quase a terminar, salto para o lado da trincheira do autor do comentário motivador deste meu quando escreve defender que 
“o professor não vai conseguir rivalizar com as tecnologias, nomeadamente com a inteligência artificial, pelo menos no que respeita à avaliação do conhecimento dos alunos”. 
Ou seja, uma avaliação subjectiva porque presa nas garras da simpatia ou antipatia suscitada pelos alunos que caem nas boas graças ou desgraças dos professores que sendo humanos têm defeitos e virtudes que os tornam vulneráveis a condicionalismos de natureza afectiva.

Aliás, Blaise Pascal reconheceu esta limitação que se pode aplicar ao sistema avaliativo quando escreveu: “O afecto e o ódio mudam a face da justiça”!

3 comentários:

  1. Em Portugal, temos de contar com o facto de ser, ainda, um país tradicionalmente clerical e paroquial, de uma mão lava a outra, governado por provincianos que idolatram “ditadores”, no sentido de poder dos ditadores, que ditam aquilo que os outros escrevem e têm de fazer.
    Esta imagem, que é também a representação do professor, está longe de ser dissipada, apagada, e o próprio Eça, inconscientemente, é uma reprodução refinada disso mesmo.
    O nosso país, de que tanto gosto, senão do facto de ser um país de “ditadores”, que ainda não ensinaram os ignorantes, que acreditam nas vantagens de serem submissos, amáveis e simpáticos e cúmplices com o poder, subservientes, educados, prontos, que preferem que lhes digam o que têm de fazer do que lhes peçam para fazer o que lhes compete e serem responsabilizados, ou lhes perguntem o que deve ser feito, que se desfazem em amabilidades, mas são incompetentes, dizia eu, é um país de gente que ainda não se apercebeu dos direitos que tem, mas que continua a ser acusada de não conhecer deveres, que se desculpa destes pela ignorância daqueles...
    E, assim, receio, mas não me espanta, que o desejo de ser “ditador” se inscreva e se decalque do corpo como se fosse a característica da alma.

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  2. Essa submissão e punhos de renda para com os superiores está na alma lusitana inoculada por 40 anos de ditadura. Aqui estamos amplamente de acordo. Nesse tempo, pelo menos, havia um risco de "liberdade" para se saber até onde se podia ir sem se ser preso ou os textos escritos serem cortados pelo lápis azul dos coronéis gagás da censura que eram torpedeado pela revista à portuguesa. Hoje não há coronéis nem revista à portuguesa sendo substituídos por famílias de "inteligentes" que se irmanam nos tachos governamentais. Ou seja, não há governantes perfeitos há medíocres e péssimos saídos de uma escola de "boys" de orelha à escura para serem chamados para tachos onde podem roubar à-vontade passando de tesos a milionários.

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  3. Professor Rui Baptista, eu penso que o problema está em encontrar a forma de como se forma uma inteligência. E neste particular estou inclinado a aceitar muito daquilo que aqui escreve. Seria sem contestação possível, um acto de inteligência, que um jovem estudante universitário não fosse e se recusa-se a ir amontoar-se numa praia em plena pandemia vírica... foi isso a que assistimos! Não, não foi, então como podemos falar em ambientes inteligentes e seus méritos atuais. Já para não falar das bebedeiras rotineiras, da vida mundana. São isso comportamentos inteligentes?

    Também quanto a Eça, a sua obra "... é tambem particularmente significativa de como a consciência e a vontade de intervir com a própria criação artística nos grandes conflitos sociais e políticos da época constituem um estímulo a um enriquecimento estético."
    «A Arte, o Artista e a Sociedade», A. Cunhal

    Como pode uma obra de consciência e vontade de intervir na sociedade, ser ela inconsciente sem que a obra literária fracassa-se?

    A Mensagem, de Pessoa, é, "... um momento contraditório na obra de Pessoa, é uma encomenda do Secretariado Nacional de Informacão, uma obra fomentada e inspirada por António Ferro. É uma obra fraquíssima porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política e o resultado foi que a obra poética fracassou completamente".

    Bem vê o leitor, Carlos Ribeiro Soares, que nem Pessoa conseguiu... e Eça, nem consciente nem inconscientemente, foi só acutilante e humanista, ao tratar os problemas da pequena burguesia, razão por que a sua obra é de valor.

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