quinta-feira, 3 de julho de 2014

O PROCESSO KAFKIANO NO CASO CARLOS QUEIROZ

“Quando se olha com simpatia para o rato preto até o rato preto parece branco; quando se olha com antipatia para o cisne branco até o cisne branco parece  preto” (Padre António Vieira).
Em vésperas do início do Campeonato do Mundo de Futebol, a decorrer no Brasil, a Federação  Portuguesa de Futebol resolveu (não fosse o diabo tecê-las, aliás como teceu,  face à eliminação de  Portugal na fase de grupos) renovar  o contrato,  numa espécie de cheque passado em branco,  com Paulo Bento.
Situação contrastante com o sucedido com  Carlos Queiroz, no rescaldo do Campeonato do Mundo de 2010,  aqui descrita num comentário de João Boaventura (05/09/2010) ,  distinto professor de Educação Física e querido Amigo,  falecido meses atrás, a um meu post, insito neste blogue, que pela doutrina e princípios éticos defendidos merece ser transcrito sob a forma de post. Reza esse comentário:Eliminar
“O que se passa no caso Queiroz é um processo kafkiano que consiste em substituir a presunção de inocência pela de culpa, ou seja, procurar a todo o transe a culpa com a finalidade de fechar todas as vias de reintegração e permitir a exclusão do seleccionador. Se se quiser saber, quais os passos que Queiroz está a dar, a leitura das páginas 227, 228 e 229 d’ “O Processo” de Kafka (a minha edição é da Colecção Mil Folhas, Público, 2004, Lisboa) é elucidativa:

“Diante da Lei há um porteiro. Um homem do campo chega junto deste porteiro e pede para entrar. Mas o porteiro declara que por agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem reflecte, depois pergunta se então poderá entrar mais tarde. «É possível», diz o porteiro,«Mas não agora». Como a porta da Lei estava como sempre aberta, o porteiro afasta-se e o homem debruça-se para olhar para o interior, através da porta. Ao ver isto, o porteiro começa a rir e diz: «Se te atrai assim tanto, experimenta entrar apesar da minha proibição. Mas cuidado: eu sou poderoso. E não passo do último de todos os porteiros. Porque de sala para sala, há porteiros, cada um mais poderoso que o anterior.”


Para não alongar a transcrição, apresento a parte final na p. 229:

“O porteiro é obrigado a inclinar-se para ele, porque as diferenças de altura modificaram-se muito em detrimento do velho: «Que queres tu saber ainda?», pergunta o porteiro, «tu és insaciável». «Toda a gente se esforça por alcançar a lei», diz o homem, «como é que ninguém, excepto eu, solicitou a entrada todos estes anos?». O porteiro apercebe-se que o fim do homem está próximo, e como é quase surdo, berra-lhe ao ouvido para se fazer ouvir: «Ninguém mais podia obter a autorização de entrar, porque esta entrada se destinava só a ti. Agora, vou-me embora e fecho-a».” (fim da transcrição)

Kafka, como homem do Direito, limita-se a retratar, n' “O Processo” o absurdo, pelo qual o cidadão é obrigado a submeter-se a uma regra viciada do jogo jurídico cuja dinâmica pende para o lado do mais forte.

O que se passa com o Processo Queiroz passou-se com os Processos do actual Primeiro Ministro, ao qual foi sempre negada a Lei, perdão, o ser ouvido, o que levou o actual Bastonário do Direito a declarar, para quem o quisesse ler e ouvir:

- Estamos a assistir a uma vergonhosa actuação da justiça que parece mais preocupada em culpabilizar o Primeiro Ministro, em vez de partir da presunção de inocência.


Este é o retrato do Processo Queiroz, em boa companhia do Primeiro Ministro, porque ao primeiro foi negada qualquer audição pela autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), e ao segundo, ou deixaram prescrever o prazo, ou deixaram esgotar o tempo e a paciência para o ouvir.

Para Cândida Almeida não valia a pena ouvir o Primeiro Ministro porque não vinha aduzir matéria nova; e para o Instituto do Desporto de Portugal (IDP), não valia a pena ouvir Queiroz porque a audição feita pelo Conselho Disciplinar da FPF era suficiente, e porque, ouvi-lo, também não vinha aduzir matéria nova.


O Kafkianismo do processo sinuoso reside neste facto que o tempo não apaga. A ADop foi, no dia 16.05.2010, à Covilhã fazer o controlo antidoping à selecção, que foi perturbado pelos impropérios do seleccionador, o que não impediu a recolha, e o
Governo silenciou, possivelmente para apagar o incidente se a selecção chegasse às meias finais ou às finais. Como os desejos não se concretizaram, passados dois meses e meio, é que o secretário de Estado revela que se passaram “factos muito graves”, no controlo antidoping. A paciência de Job não tem melhor representante.

Portugal não chegou aos quartos de final mas no cômputo geral ficou em 11.º lugar (Inglaterra 13.º - Dinamarca 24.º - Grécia 25.º - Itália 26.º - França 29.º). Os três primeiros são os únicos europeus (Esp., Hol, Ale.), 5 da América Latina, 1 africano (Gana) e um asiático (Japão). E a representação portuguesa foi vergonhosa ?

Isto para dizer que há muitas maneiras limpas para dispensar um seleccionador. A escolhida pelo governo não tem classificação”.

Este é o nosso mundo do futebol (e não só!) em que, como diz a vox populi, mais vale cair em graça do que ser engraçado. Aliás, este “e não só!” encontra respaldo na análise feita por José Esteves, distintíssimo professor de Educação Física,  com um escopo de estudos muito valiosos sobre o fenómeno desportivo  perspectivado nos seus aspectos sociológicos, ao escrever: “Só há uma forma de entender o fenómeno desportivo: na perspectiva das estruturas sociais. O que há de característico e fundamental no desporto é, justamente, o que define e caracteriza a sociedadede em que ele se realiza.”


Na fotografia: Franz Kafka, autor de "O Processo".

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