quarta-feira, 2 de julho de 2014

O FIM DO CENTRO DE NUNO CRATO

Nuno Crato é um excelente cientista, tendo ganho reputação no estudo de séries temporais (uma área da matemática, com férteis aplicações à economia). Para quem quiser ver a lista das suas publicações bastará consultar a página Web da sua unidade de investigação: o CEMAPRE - Centro de Matemática Aplicada á Previsão e Decisão Económica. É também um excelente divulgador de ciência (ensinava "Comunicação de Ciência" e é autor de livros com grande e merecidíssimo êxito como "A Matemática das Coisas") e um óptimo historiador de ciência. Não foi, decerto, por essas inegáveis qualidades que chegou a ministro. Foi antes  "levado aos ombros" pelos professores e muitos pais e cidadãos em geral interessados na melhoria da educação em Portugal em virtude das críticas ferozes que dirigiu ao Ministério da Educação, um ministério que ele, recorde-se, queria "implodir". É público e notório que acreditei na sinceridade dessa sua vontade e a partilhei. A grande diferença agora é que ele deixou de querer implodir o Ministério (talvez por estar lá dentro), enquanto eu acho que a metáfora não perdeu razão de ser.

Na Educação não há resultados visíveis, manietado como está o ministro por uma máquina monstruosa. A actual questão é que Nuno Crato, além de ministro da Educação, que ele queria ser, também é ministro da Ciência, que ele provavelmente não queria ser. Ora ninguém é aquilo que não quer. Lavou, portanto, desde o início as mãos das questões da gestão da ciência, tal como Pilatos. Ora a ciência neste momento está a ser crucificada e ele, quer queira quer não, é o responsável maior. No julgamento que cabe à história destas coisas, ele será sempre o responsável pelo trágico fim da ciência em Portugal (depois da sanha prossecutória contra os bolseiros, neste momento metade das unidades de investigação já estão pregadas na cruz enquanto as outras aguardam a sua vez). A ironia suprema é que o Centro de Crato, o CEMAPRE, também foi vítima do processo que ele autorizou. Não passa à segunda fase, a única que eventualmente poderá permitir algum financiamento. Apesar da produção bibliográfica para a qual Crato contribuiu sobremaneira (e que coloca o CEMAPRE acima da média dos centros de Matemática nacionais) e do assaz louvável papel que o seu Centro e ele próprio tiveram na promoção da ciência e da cultura científica, incluindo a História da Ciência, foram chumbados pela FCT. Não, o fim do CEMAPRE  às mãos da FCT não prova a independência do ministro. Aliás um ministro da Ciência não é nem pode ser independente da Ciência. Prova apenas que o Nuno cientista e prosélito da ciência deu lugar a um executor político, a um mau político, como aliás são a generalidade dos que assessoram Passos Coelho e Portas (o primeiro-ministro e o seu vice detestam a Ciência!). Deu lugar a um político ao serviço de interesses inconfessáveis, que estão a ser devastadores para a ciência nacional. Tenho muita pena. O Nuno cientista, divulgador e historiador da ciência também teria, tenho a certeza, se visse, de fora, o que estamos a ver.

Por que não se demite e vem defender o seu Centro? Por que não vem travar o bom combate e vem defender a Ciência em Portugal?

5 comentários:

  1. Porque há poucos portugueses corajosos e Nuno Crato não é um deles. Porque a política à portuguesa já não tem nada a ver com a definição aristotélica e é outra coisa, logo, devia ter outro nome. Porque esses senhores não são políticos, são os executores-carrascos, aqueles que levantam o machado a ordem de outrém. Porque também não existe uma maioria de portugueses que se preocupe grandemente com a ciência e a investigação, até porque, como sabe, a luta pela subsistência costuma apagar o resto. E as elites andam distraídas por hábito de distracção fora da órbita científica. Porque, enfim, temos uma dificuldade enorme em ir ao essencial e nos perdemos em tricas borucráticas por dá cá aquela palha.

    Teríamos de matar o ministro a ver se ficava o investigador. Mas é que o ministro não quer ser morto. E somos uma data de gente obediente. Portanto. Tudo na mesma. Ou seja, Portugal a esvanecer.

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  2. Centros sem uma única ERC, com praticamente 100% de portugueses apenas, a publicar maioritariamente em revistas internas/nacionais...? é bom que não sejam incentivados a continuar assim, ou então arranjem outras formas de se financiar? Mais financiamento à Ciência de topo, verdadeira, competitiva internacionalmente, internacional, e menos a mini-mini projectos disseminados por todo o país!

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  3. porquê?!
    porque ele pode ter sido um homem da ciência
    mas já não é,
    agora é um gestor que quer boas nomeações por parte de quem quem manda

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  4. Vêem como a avaliação foi transparente e isenta! Até o centro do ministro foi chumbado!

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