segunda-feira, 7 de julho de 2014

AVALIADOR FAZ ACUSAÇÕES POLÍTICO-MORAIS GRAVES A UM GRUPO DE INVESTIGAÇÃO

Têm-me chegado relatórios de avaliadores a vários Centos de Investigação. A ideia com que fico depois de ler os relatórios sobre centros de Literatura é que os avaliadores nem sequer sabem ler Português, língua que faz agora 800 anos. Eles não fazem ideia, por exemplo, quem foi o Padre António Vieira, o "imperador da língua portuguesa", cujas obras completas estão finalmente a sair sob o impulso de colaboradores do CLEPUL, o Centro de Culturas e Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa, criado ao tempo da Revolução de Abril pelo Prof. Jacinto do Prado Coelho. Também esse Centro foi chumbado, apesar do seu extremo dinamismo. Não houve uma palavra de realce para a enorme relevância de grandes realizações que fizeram como a obra completa de Vieira em 30 volumes e que está a ser traduzida em 12 línguas (o ministro Nuno Crato devia conhecê-la), assim como não houve uma palavra sobre o facto de o centro dar emprego científico a mais de 30 jovens investigadores muito capazes e produtivos, entre outras omissões graves e acusações infundadas. O que mais me chocou ao ler os relatórios dos primeiros avaliadores foi esta acusação, muito grave, de neo-colonialismo:
"The most problematic group in this regard, and the one about which I am more than a little concerned is the African Studies Group. In the proposal as submitted, the language used seems, at times, colonially charged, viewing Portugal as “an intermediate agent” fulfilling “its historic role as gateway territory,” which both essentializes Portugal and implies some mediating destiny vis-à-vis other nations whose official language is Portuguese, a political assumption academics should challenge not reify. There is rather patronizing talk of “offering a basis for dialogue and developing cultures in need of affirmation (e.g. Africans)” that does not present “Africans” as intellectual partners but rather as a group in need of the Centre’s assistance in affirming their “developing cultures.” The fact that such terminology is in the proposal leads me to question the leadership structure of the Centre. Internationalization and multidisciplinarity should not be an excuse for the perpetuation of lusotropical colonial myths of Portuguese benevolence towards their former colonies."
Se esse avaliador tivesse lido alguns dos trabalhos realizados, sobre os quais ele está a emitir opinião, não teria lançado esta acusação político-moral de neo-colonialismo aos investigadores do CLEPUL. Na minha opinião trata-se de um insulto não só aos investigadores do CLEPUL mas aos investigadores em ciências humanas em Portugal. O seu autor é anónimo. Mas a FCT sabe muito bem quem é, tem os documentos todos. Porque não diz à European Science Foundation (ESF) que escolheu mal alguns dos seus avaliadores, que em vez de avaliarem as ciências humanas querem desacreditar as ciências humanas? Quanto pagou à ESF?

3 comentários:

  1. Mas que mdisse que esses avaliadores estavam lá para avaliar segundo critérios, senão os da sua própria Agenda Europeia? Muito me surpreende também que só agora tenham acordado para o facto da UE ter sido pensada para ser um regime totalitário e não outra coisa? Onde é que pensam que nos tinham metido?

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  2. A cultura e difusão de uma língua é algo de profundamente neo-colonial.
    Não percebo mesmo porque não começam a fechar com carácter de urgência as "alliances françaises", os "institutos cervantes", os "British councils" pelo planeta fora.
    Deixem de fora da lista o Goethe Institut. Afinal, vamos ter de denominar pelo menos a língua em que recebemos ordens, não?

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  3. Está tudo muito certo, mas é verdade que dizer que as culturas africanas precisam de afirmação e que uma unidade da Universidade de Lisboa vai ajudá-las é aterrador...

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