sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SEXO E PODER


Minha crónica no "Público" de hoje:

O jornal El País de 24 de Outubro, com base no recente Relatório da Economia Mundial do FMI, divulgou a nossa posição no ranking mundial do crescimento económico (medido em percentagem de aumento do PIB) na década passada. Em 180 nações, o nosso lugar é o antepenúltimo (com 6,5 por cento), só ficando atrás de nós a Itália (2,4 por cento) e o Haiti (-2,4 por cento, o único que decresce). Um artigo intitulado "A década perdida de Itália e Portugal" informava que a dívida pública portuguesa ronda os 80 por cento do PIB ao passo que a de Itália se aproxima dos 130 por cento.

Piores que nós parecem, portanto, estar, a avaliar por esses indicadores, os italianos. Mas estarão preocupados com isso? Bem, o assunto em Itália, por estes dias, não é a economia, mas sim a vida sexual do primeiro-ministro Sílvio Berlusconi. Funciona como uma cortina para tapar a crise. Já tinha havido uma sua relação mal esclarecida com uma menor de Nápoles, que lhe custou o divórcio (a esposa censurou os “pais que oferecem as suas virgens ao imperador”). E já tinha havido uma relação bem esclarecida, esclarecida até demais, com uma prostituta de luxo de Bari, a quem Il Cavaliere não se coibiu de recomendar técnicas sexuais. Mas agora foi anunciado o caso de uma menor de origem marroquina, Karima El Mahroug, refugiada na Sicília, que, tendo rumado ao Norte em busca da fama que só a televisão e a moda podem dar, acabou por entrar na rede que alimentava as casas do chefe de governo de Itália e por participar em festas que a própria designou como bunga-bunga referindo-se a orgias rituais africanas. Pelos escritos dos autores clássicos sabemos que Nero e Calígula terão cometido os seus excessos. Pelos jornais de hoje sabemos que Berlusconi os quer ultrapassar.

O escândalo que enche as bocas do mundo mostra que a mistura de sexo e poder é, em certas proporções, explosiva. Ora vejamos.A marroquina, de nome artístico Ruby, viu-se em apuros financeiros, apesar de ter sido paga com dinheiro e jóias pelas suas visitas à casa de Berlusconi em Milão, e terá roubado uma companheira brasileira. Tudo não passava de um mero caso de polícia, que estava a ser tratado na esquadra, quando um telefonema do próprio primeiro-ministro exigiu a libertação da detida, alegando que ela era sobrinha do presidente egípcio Mubarak. A jovem, apesar de estar em situação ilegal, não tardou em ser libertada, tendo sido entregue a uma pessoa de confiança de Berlusconi. A justiça procura agora averiguar os factos. Instado pela imprensa a esclarecer, o chefe do governo italiano não esteve com papas na língua ao comentar: “É melhor gostar de mulheres bonitas do que ser gay”. E admitiu ter ajudado a garota. Não é preciso saber muito de história para reconhecer que, no que respeita aos costumes, há um recuo relativamente aos antigos imperadores, que tanto gostavam de mulheres como de rapazes bonitos. Mas ressalta a retórica política: Berlusconi já tinha dito que quem não era por ele era contra Itália, agora diz que quem não é por ele é homosexual.

Portugal tem, na economia, óbvias parecenças com Itália. Tem-nas decerto, além da estagnação do PIB e do crescimento da dívida, nas assimetrias regionais (em Portugal a diferença é entre o Litoral e o Interior e não tanto entre o Norte e o Sul, para já não falar do desmesurado centralismo da capital) e na corrupção ao mais alto nível (um deputado do PS revelou que o chefe de gabinete do secretário-geral do partido lhe ofereceu um cargo bem remunerado numa empresa pública a troco da desistência numa eleição partidária!). Mas na mistura de sexo e poder não conseguimos competir. O Presidente do Governo Regional da Madeira, talvez o político nacional mais parecido com Berlusconi, desfila mascarado no Carnaval, mas não faz, que se saiba, festas bunga-bunga. É certo que há escabrosas histórias sexuais no futebol nacional, mas o Presidente do Porto, a quem não faltam semelhanças com o Presidente do Milão (Berlusconi, para quem não saiba), não tem a mesma ambição política. A nossa situação é má, mas podia ser pior...

Na imagem: Ruby Rubacuore (Ruby Roubacorações), alias Karima El Mahroug.

23 comentários:

  1. Relativamente à hipotese de o nosso primeiro, em matéria de opção entre gostar de mulheres bonitas, ou ser gay... penso que qualquer exemplar do sexo feminino, seja bonita ou não, maior ou menor de idade, poderá dormir descançada.
    O nosso, é infinitamente mais... menos... pronto. Ñão se mete nessas embrulhadas... que se saiba.

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  2. "Mas na mistura de sexo e poder não conseguimos competir."

    Nesta frase não me parece que se tenha baseado em provas e, se formos apenas pelos indícios, poderá até estar redondamente errada.

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  3. Eis um comentário, dirigido ao acessório e deixando de lado o fundamental: o de que, como no tempo dos imperadores romanos, os actuais "imperadores" do Ocidente governarem com base no princípio de "Panem et circences"... cada vez mais "circenses" e menos "panem". É característico do povo português, desde há décadas (des)educado para pensar pouco e de forma superficial, de forma a não dar muito trabalho a quem manda (mal).

    Ah! E escreve-se "descansada"

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  4. Tem toda a razão anónimo, quanto ao descanso das raparigas... esta caixa de comentários é pouco criteriosa e não sanciona o analfabetismo.
    ;)
    Mas deixe-me retribuir-lhe com os seus "de que/governarem", não casam e ainda com o seu "panem" que penso, quereria ter escrito "panis".
    Quanto ao resto... na nossa terra, o acessório, ultrapassa infalívelmente o fundamental, à velocidade do trivial.
    ;)

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  5. Estava perplexo com o tema e o desenvolvimento, sem saber que dizer, e eis que dou de caras com as V doutas recomedações aos comentários:

    1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome. ( o autor da crónica está identificado ...e eu tb )

    2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas". ( não faço ideia de como hei-de aplicar este "principio" à profundidade e seriedade da crónica...)

    3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias ( como o autor se dispensa de especificar sequer quais são as "óbvias parecenças" entre a economia portuguesa e a italiana, tão pouco tenho por onde discordar...)

    Resumindo: gostei da ilustração !

    Cumprimentos.

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  6. Parece uma conversa de... batráquios, coaxando em redor de um lodoso pantanal! Santa miséria! JCN

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  7. Se sempre foi desta forma
    desde que o homem nasceu,
    acho que é de fariseu
    questionar esta norma!

    JCN

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  8. O poder e o amor
    andaram sempre ligados,
    seja em que contexto for
    que sejam considerados!

    JCN

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  9. Se não fosse a ligação
    de D. Pedro e D. Inês,
    acerca desta nação
    ninguém falava talvez!

    JCN

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  10. Sendo um caso verdadeiro,
    toda a gente comentava
    a paixão de Sá Carneiro
    pela linda escandinava!

    JCN

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  11. Na vida dos poderosos
    houve sempre uma mulher,
    mesmo quando tenebrosos
    se fizeram malquerer!

    JCN

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  12. Sem o amor o poder
    não passa de maldição:
    não vale a pena viver
    à margem de uma paixão!

    JCN

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  13. sempre a querer fugir para a piadola popular, e a bater na tecla que já nao dá musica do é mau mas podia ser pior...seca

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  14. Formosa não tem de ser
    a mulher da nossa vida,
    mas se for bem parecida
    com certeza que gostamos!

    JCN

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  15. Com puro sexo ou quase
    não se confunde o amor
    que tem, no fundo, outra base,
    como se deve supor!

    JCN

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  16. A maneira de se amar
    de homem para homem "vareia":
    cada qual tem sua ideia,
    sua forma de actuar!

    JCN

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  17. Deus nos deu a liberdade
    de amar à nossa maneira,
    muito embora a honestidade
    seja a fórmula primeira!

    JCN

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  18. Esta poesia por certo muito bonita, desvia concereza voluntariamnte, o foco do assunto.

    Berlusconi é o exemplo ao vivo e a cores da desgraça que são alguns dos dirigentes europeus nesta 1ª decada de 2010, e é grave!!!!

    augusto küttner de magalhaes

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  19. Dos governantes passados
    que viverm sem paixões
    ninguém recorda as acções:
    são meros nomes, coitados!

    JCN

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  20. O senhor da "piadola",
    que faz favor de me ler
    e que eu não tenho o prazer
    de seu nome conhecer,
    talvez seja, na verdade,
    a julgar pela graçola,
    uma outra modalidade
    do painel do gabarola!

    JCN

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  21. Na minha quadra das 11:09, corrijo a gralha "vivem" por "viveram". JCN

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  22. Para o senhor Kuttner de Magalhães, agradecendo o "muito bonitas":

    Olhe que qualquer assunto,
    por mais faces que apresente,
    não perde, evidentemente,
    antes ganha no conjunto!

    JCN

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  23. Obrigado pelas simpaticas linhas, Caro JCN e espero que esteja certo!

    Acho que sim.

    Um abraço


    Augusto Küttner de Magalhães

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1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.