segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Darwin Origem das Espécies - 1859

Comemoram-se hoje 150 anos sobre a publicação de uma das mais originais e influentes obras científicas.

Escrevi há algum tempo um texto para o catálogo da exposição do Museu da Ciência, 'Darwin 150/200', de que reproduzo aqui uma parte, como forma de comemoração da publicação da 'Origem das Espécies'. E começo com o final.


There is a grandeur in this view of life, with its several powers , having been originally breathed into a few forms or into one; and that whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.


“Há uma grandeza nesta visão da vida, com os seus vários poderes originalmente soprados em algumas formas, ou em apenas uma; e enquanto este planeta foi girando na sua órbita, obedecendo à lei fixa da gravidade, intermináveis formas, belas a admiráveis, a partir de um começo tão simples, evoluíram e continuam a evoluir.”

É com esta frase que termina a mais importante e influente obra da Darwin, a “Origem das espécies”. A frase exprime um sentido de maravilhamento pela notável obra da Natureza e pela aparente simplicidade de mecanismo que tornou tudo isso possível. Darwin sublinha que esta visão da vida é uma visão grandiosa de como formas tão simples podem ter dado origem a sistemas tão complexos como as que podemos encontrar num ecossistema de floresta tropical.

“A Origem das Espécies por meio de selecção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida” é um livro com um título demasiado longo para ser vendável. Contudo, os mil duzentos e cinquenta exemplares da primeira edição, publicada a 24 de Novembro de 1859, esgotaram no primeiro dia. E havia boas razões para isso: o livro era polémico, propunha uma revolução na perspectiva como encarávamos a natureza viva que nos rodeia, abria o caminho para uma perspectiva radicalmente nova sobre as nossas origens e evolução e revelou ser um dos mais importantes livros de sempre. Nele, Darwin sustenta que as espécies evoluíram, não foram criadas, como se pensava então, e propõe o mecanismo de selecção natural para explicar essa evolução e as adaptações dos organismos.

A revolução darwiniana é umas das mais importantes revoluções científicas, a par da revolução coperniciana. A biologia é hoje inteligível graças ao pensamento de Darwin. Como afirmou um grande evolucionista, Theodozius Dobzhansky, nada em biologia faz sentido sem ser à luz da evolução. O facto de as espécies terem evoluído a partir de um pequeno número de formas surgidas na Terra há mais de três mil milhões de anos, é actualmente incontroverso e documentado por uma imensidão de evidências. A mais forte delas é a própria informação genética, o código genético, que codifica e define cada espécie de organismos. Espécies mais próximas têm um código mais parecido. A história evolutiva pode ser contada a partir do código genético, apesar de este só ter sido compreendido há menos de 50 anos.

Um outro aspecto completamente revolucionário nas ideias de Darwin, e que deriva do primeiro, é a conclusão de que a nossa espécie resulta deste processo evolutivo, tendo evoluído de primatas que viveram no passado; nós partilhamos esses antepassados com outros primatas vivos como os chimpanzés ou os gorilas. A teoria evolutiva de Darwin forneceu a primeira explicação científica para a origem da nossa espécie. Hoje, milhares de fósseis documentam e confirmam a impressionante teorização de Darwin.

Qualquer destes princípios bastaria para colocar Darwin no centro dos maiores cientistas de sempre. Contudo, a sua actividade científica e o seu pensamento compreendem outros contributos muito importantes, como o primeiro tratado comparativo do comportamento animal e humano, como é “A expressão das emoções nos animais e no Homem”, ou ainda uma explicação para os estranhos ornamentos dos machos de muitas espécies de aves e de peixes.

A grandeza desta visão da vida

De acordo com a teoria de evolução formulada por Darwin, as espécies não são imutáveis, antes evoluem lentamente ao longo do tempo. O processo de evolução é também um processo de diversificação, pelo que as várias formas de vida na Terra - árvores, escaravelhos, ou baleias - descendem de antepassados comuns a todas. Segundo a teoria de evolução, a fina e detalhada adaptação de cada organismo a formas específicas de vida resulta de um processo adaptativo guiado pela selecção natural e não resulta de qualquer inspiração divina. Darwin não questionou a existência de uma entidade divina, mas sim a sua intervenção no processo de diversificação da vida, negando a origem separada de todas as espécies e propondo uma origem comum. A revolução molecular do final do século XX veio trazer a prova definitiva da justeza das suas ideias. Todas as espécies, das bactérias aos fungos ou aos seres humanos, possuem um mesmo mecanismo de conservação e transmissão de informação. Quanto mais próximas evolutivamente são duas espécies mais semelhante é o seu DNA, o que permite fazer uma cartografia de reconstituição da história da vida na Terra exclusivamente a partir da informação genética. O livro da vida é uma espécie de registo da evolução dos últimos três mil milhões de anos.

2 comentários:

  1. A teoria da evolução consegue explicar o tamanho das baleias e a cauda dos pavões.
    Mas conseguirá explicar a existência de tantos defensores do criacionismo numa época como a nossa?

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  2. José Batista da Ascenção24 de novembro de 2009 às 23:17

    O evolucionismo de Darwin não explica a existência dos criacionistas, mas explica-nos que, não constituindo as ideias criacionistas nenhum "handicap" na luta pela sobrevivência, quer dizer, como as hipóteses de ter uma vida longa e reproduzir-se são as mesmas sendo-se evolucionista ou criacionista, o criacionismo pode até aumentar com o passar do tempo... Como também pode diminuir. Passa-se o mesmo com a ignorância ou o saber, o talento para a música ou as artes, a vaidade ou a estupidez. Cada uma destas características aumentará nas populações se lhes conferir vantagens em termos de sobrevivência e eficácia na reprodução. E diminuirá pelos motivos opostos. Pelo que uma qualquer qualidade ou virtude, mesmo muito virtuosa..., pode derivar nas populações, aumentando ou diminuindo, dependendo de diversos factores, mas ser indiferente à influência da selecção natural. Também é válido dizer que os humanos podem vir a tornar-se (ainda mais) facínoras, se essa condição se tornar "vantajosa" em termos de sobrevivência. Há quem diga que é o caldo que estamos a cozinhar...

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