quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

DIZER QUE A APRENDIZAGEM DEVERIA SER PENSADA NAO É ESTAR CONTRA OS ALUNOS, É ESTAR A SEU FAVOR

Carta do professor Daniel Arias Aranda gerou, no imediato, polémica nas redes sociais, esse não lugar de múltiplos caminhos. Para perceber a polémica, escolhi o caminho que a jornalista Andrea Parra faculta com o seu trabalho de investigação no qual mostra diversos pontos de vista.

Andrea Parra começou por entrevistar Arias Aranda, colocando o foco nas quatro medidas que este apontou para envolver os alunos no trabalho de aula. Num registo em vídeo, essas medidas são explicadas com mais pormenor (ver aqui).

Entrevistou vários professores da mesma faculdade que, apresentando posições diversas, não se pode dizer que subscrevam as palavras do colega. Uns, mais próximos delas, dizem que, nas aulas, os "alunos estão como que ausentes e isso é frustrante", que "o docente tenta fazer o que pode na aula com o fim de melhorar os resultados"; outros, mais distantes, dizem que os alunos de agora são diferentes dos de um passado ainda recente, que é preciso encontrar maneira de responder aos seus interesses, que os "tempos e o perfil do estudante mudaram, e devemos adaptar-nos",  que é preciso "promover metodologias mais activas em que o estudante seja o protagonista" (ver aqui ).

Também entrevistou o representante dos estudantes, para quem "a motivação dos universitários depende da qualidade da docência (ver aqui).

Arias Aranda parece ter trazido a lume um problema que, afinal, não o é propriamente, ou, se o for, não terá contornos tão marcados como o apresenta. Será assim? Com base no conhecimento que tenho da universidade, não me parece. Entendo que ele é bem real, ainda que de muito difícil abordagem. As razões são várias e passo aqui por cima delas, mas, penso que mais tarde ou mais cedo, teremos de o enfrentar com a seriedade que requer ou... não. Depende daquilo que, como educadores, desejarmos para as novas gerações, para a sociedade, para o futuro...

Tendo em conta o que li sobre este caso, considero, acima de tudo, que o gesto de Arias Aranda foi mal interpretado, como, de resto, aconteceu noutros casos em que professores se pronunciaram sobre o estado da aprendizagem.

Reconhecer que a aprendizagem conseguida nos diversos níveis de ensino se distancia daquela que deveria (e poderia) ser conseguida não é estar contra os alunos, mas a favor deles. É por se preocuparem com a sua formação que alguns professores se reconhecem como parte de uma engrenagem, tão difusa quanto eficaz, que lhes faz crer que chegaram onde não chegaram. Os alunos, sobretudo se estão na universidade, precisam saber isso. 

Vejo na expressão pública deste reconhecimento - que, em geral, fica reservado a desabafos de corredor - uma atitude ética, a que os professores não se deveriam eximir. 

3 comentários:

  1. A ideia de que a Universidade tem de ser para todos, incluindo atrasados mentais, leves ou profundos, conforme já vi defender em programas familiares de televisão, está a destruir a olhos vistos o ensino secundário. Certos e determinados cientistas da educação portugueses, a soldo do governo, ou de organizações internacionais, preconizam e conseguiram impor, para que todos os alunos possam entrar na Universidade, um ensino secundário facílimo e desprovido de conteúdo! Como golpe de misericórdia, obrigam os professores, a quem despojaram a autonomia técnica e pedagógica, a preencher grelhas de avaliação de alunos absurdas, porque impraticáveis com seriedade, como garantia extra de sucesso escolar, à martelada, para todos. Só que, a devastação do ensino secundário está a levar à ruína do ensino superior.
    A Universidade não pode ser para todos. O ensino secundário deve ser um ciclo autónomo, com vida própria.
    Se todos chegarmos a doutores, a própria vaidade de ser doutor perderá o sentido!

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  2. Prezado Leitor Alberto, o problema enunciado pelo professor que me levou a escrever este texto não se limita a Portugal, Espanha ou à Europa, é bem evidente nos EUA e noutros países americanos. Também não foi criado pelos "cientistas da educação", foi criado por uma sociedade que passou a desprezar a cultura e, muito especialmente a cultura académica. Allan Bloom num livro dos anos oitenta, que já é um clássico na matéria ("A Cultura Inculta": Ensaio sobre o Declínio da Cultura Geral) explica isso mesmo. De uma maneira ou de outra, somos todos responsáveis pelo estado da educação de que nos queixamos. Cumprimentos, MHD

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    1. Professora Helena Damião,

      Somos todos responsáveis pelo lamaçal a que a escola chegou, mas há uns mais responsáveis do que outros.
      A mim nunca me passou pela cabeça recomendar filosofia ubuntu aos meus alunos. Também acho que os professores devem ter autonomia técnica e pedagógica no exercício das suas funções, de acordo com a lei e com as suas licenciaturas . Sou de opinião que os professores não devem ser tratados profissionalmente como palhaços de circo.

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