terça-feira, 24 de janeiro de 2023

MIGUEL REAL E O PROBLEMA DE PORTUGAL



Meu artigo no último As Artes entre as Letras:


Miguel Real (MR), o nome literário de Luís Martins, cuja obra publicada começou há mais de 40 anos, é, para além de romancista, dramaturgo e crítico literário, um ensaísta cuja produção é imprescindível para quem se interesse pela cultura portuguesa. Relevo aqui Portugal. Ser e Representação (Difel, 1988), Pensamento Português Contemporâneo. O Labirinto da Razão e a Fome de Deus. 1890 – 2010 (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2011), A Vocação Histórica de Portugal (Esfera do Caos, 2012) e Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, 2017). Portugal é um problema difícil – ocorre-me um cartoon de João Abel Manta dos tempos da Revolução de 1974, intitulado «Um problema difícil», que mostra uma turma com os maiores intelectuais e estadistas a olharem para um mapa de Portugal. Pensadores como António José Saraiva, Eduardo Lourenço, José Eduardo Franco, José Gil e, precisamente, MR, tornaram o problema menos difícil. Baseados na história do país, souberam trazer ao de cima os traços fundamentais da cultura nacional.


Uma faceta recorrente da cultura nacional consiste na indagação das razões para o nosso atraso no desenvolvimento, em comparação com outros países europeus. É injusto atribuir esse desfasamento aos tempos de Salazar e Caetano, uma vez que já no século XIX e mesmo antes estávamos arredados das posições dianteiras. Mas, nos séculos XV e XVI, teve lugar a saga dos Descobrimentos, que fez o país ocupar pelo mesmo uma página nos livros de história universal. O que se passou, entretanto? A questão preocupou a geração de 1870. Antero de Quental, em Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871), disse: «A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo.»


MR parte da filosofia e da história, disciplinas que domina, cruzando-as de modo fértil com a literatura e a religião. Escreveu sobre o Marquês de Pombal, que mais de cem anos antes de Antero, atribuiu a factores de ordem religiosa – a malvadez dos jesuítas - a decadência portuguesa. E escreveu também sobre o jesuíta António Vieira e sobre o sebastianismo que Vieira, à sua maneira, personificou, o qual vê tempos de grandeza no futuro. MR não subscreve as teses pombalinos da tenebrosidade dos jesuítas. Comenta em Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa: «Se a identidade cultural fundamental de Portugal se prende com os Descobrimentos, ela não teria sido criada sem, num segundo momento, desde o século XVI, o valiosíssimo contributo dos jesuítas: a rede de colégios criados pela Companhia, formando elites nativas de mentalidade europeia; o alto nível cultural dos seus membros, difundindo as realizações científicas europeias, fundindo as línguas deste continente com as ultramarinas na formação de crioulos, estabelecendo aulas de gramática, retórica, dialéctica, mecânica, matemática por todo o mundo».


Vieira é um dos expoentes desse contributo jesuíta. Escreve MR no mesmo livro: «Por via da obra do padre António Vieira, numa dialéctica cristã entre expiação e redenção, Portugal encontra finalmente, e paradoxalmente, no século de maior decadência, a justificação ideológica que para sempre fundamentará a sua imagem providencialista de pátria gloriosa, superior às restantes pátrias europeias». É óbvio que Portugal não deve ter qualquer propósito de superioridade em relação aos outros países europeus: a mensagem vieirina soa hoje a utopia mística. Mas a questão persiste:  Por que razão, como está na capa de A Vocação Histórica de Portugal, Portugal é «um país em construção, mas parado.  Um país bloqueado» (note-se que o livro é de há dez anos, quando a troika mandava). O autor responde nesse livro, numa passagem lapidar: «Bom governo seria hoje aquele que, por múltiplos meios, apostasse em fazer de cada português, não um robot técnico de fato cinzento, camisa azul e gravata verde ou amarela (actual fato-macaco do cidadão-técnico, que é sempre um cidadão inconscientemente instrumento de cruéis estruturas económicas), mas um homem culto consciente do seu lugar na sociedade e na história. Portugal precisa menos de um choque tecnológico (experimentado pelo pombalismo, pelo fontismo e pelo cavaquismo. cujas consequências em nada mudaram o nosso ser. limitando-se a uma mera actualização de instrumentos técnicos ao serviço da sociedade civil e do aparelho de Estado) e mais de um choque cultural, elevando cada cidadão a um exigente patamar de conhecimento humanista e cívico que, por arrasto, geraria inevitavelmente o desejado choque tecnológico. Primeiro, a cultura, o espírito, o sentido de transcendência; depois, por inevitável arrasto de exigência cívica, o progresso tecnológico.»


Eu não diria melhor. MR tem uma visão cultural do país, uma visão que está infelizmente hoje como no passado ausente da governação. É nesta altura que um grupo como a Seiva Trupe do Porto é vítima de uma tentativa de extinção às mãos dos burocratas da administração cultural. E é também nesta altura que os professores são obrigados a fazer greves e a manifestar-se (lembro que MR é, de raiz, professor do ensino secundário, uma profissão entre nós tão maltratada) para verem respeitados princípios básicos da sua dignidade.


É preciso ler MR para percebermos melhor quem somos. Somos ainda, infelizmente, o que temos sido. Mas, sem sebastianismos absurdos, tenhamos esperança de que venham aí dias melhores.

1 comentário:

  1. É preciso ter paciência. Com a nova disciplina da cidadania e as novas disciplinas woke as próximas gerações irão transformar Portugal numa potência europeia lol

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