Manifesto "contra a crise" que assinei com mais de cem outros cidadãos preocupados com a evolução mais recente do país:
"Portugal atravessa uma crise extrema de todos conhecida e por muitos experimentada dramaticamente.
Portugal está em crise, mas não pode ficar num impasse.
Para além dos debates intensos que hoje se multiplicam sobre as medidas políticas e económicas em
curso e os seus resultados a prazo, entendemos, como cidadãos, tornar pública a relevância estratégica da
ciência, da cultura e das artes para o nosso futuro como comunidade política aberta e dinâmica.
Portugal dispõe hoje da geração académica e cientificamente mais qualificada de toda a sua história,
consequência do forte investimento feito na expansão da rede escolar e de ensino superior ao longo das últimas
décadas do nosso regime democrático.
É incontestável que as atuais políticas de austeridade, pelo seu excesso e, sobretudo, falta de sentido
histórico, forçaram a emigração, a fuga e o abandono do país por muitos dos nossos melhores. Ora, o combate à
crise deve fazer-se com uma aposta estratégica nessas pessoas altamente qualificadas: a riqueza humana é a
maior riqueza de que dispomos hoje como comunidade política e não podemos desperdiçá-la, sob pena de
sermos responsabilizados por isso. Os atuais movimentos de saída de portugueses qualificados do país, cerca de
20% de licenciados, especialmente jovens, penhor do nosso futuro, são desordenados e fazem-nos recordar
outras épocas históricas em que dispensámos ou expulsámos uma elite qualificada e empreendedora que fez o
Portugal universalista dos Descobrimentos. Figuras como António Vieira apontaram criticamente as políticas
antijudaicas e a ação da Inquisição, responsáveis pela perseguição e expulsão de judeus e cristãos-novos nos
séculos XVI, XVII e XVIII, o que enfraqueceu o nosso país e contribuiu para a sua decadência e submissão a
poderes estrangeiros. Homens de negócios, intelectuais, cientistas, romancistas e artistas fugiram para países
como a Holanda, contribuindo para enriquecer e engradecer novos impérios que se tornaram depois fortemente
hostis a Portugal, carcomendo o seu próprio império.
Aconteceu com a Inquisição. E contra a lógica da interdependência do mundo contemporâneo e as
lições da História, assistimos a uma situação que também desperdiça e expulsa os nossos melhores talentos, sem
retorno nem sentido, para outros países que, assim, ficam mais ricos, enquanto nós ficamos mais pobres e mais
A atual situação ainda é mais grave do que foi no passado, porque falamos, agora, de pessoas que, sendo
bem formadas moral e cientificamente, não têm sequer a possibilidade de mostrar o seu valor. São uma espécie
de falsas elites. Elites, porque são as melhores, mas falsas, porque não lhes é dada a possibilidade de provar o
seu valor na terra-mãe.
Reconhecido este diagnóstico preocupante, ou seja, a percepção do desertar crescente dos portugueses
qualificados de Portugal, lançamos o presente manifesto para um compromisso com a ciência, a cultura e as
artes. Trata-se de um compromisso dos portugueses consigo mesmos e com os seus melhores para que este
potencial seja reconhecido, aproveitado, capitalizado.
Advogamos a criação de condições para que os talentos nacionais, felizmente numerosos nas áreas das
ciências, da cultura e das artes, se fixem em Portugal ou para que deliberadamente estejam no mundo e ao
serviço do país. Não podem é estar em fuga, com tudo o que isso tem de perverso para a sua relação com
Portugal. A questão tem de ser vista globalmente e com um sentido histórico. E visa a participação de todos.
Não se trata apenas de um problema do Governo ou dos partidos políticos, mas de todos os
portugueses.
O compromisso que advogamos passa pela promoção de uma cultura de responsabilidade cívica
orientada para o apoio a projetos criadores de trabalho, nas áreas em que temos pessoas qualificadas. Hoje, falar
em cultura, ciência e artes em Portugal remete para todos os portugueses qualificados, num mundo em que os
aspetos económicos, sociais e culturais têm elevado valor e são decisivos para o futuro das nações. Já passou o
tempo em que esses temas eram considerados como sendo ‘baixa política’, por contraponto com a ‘alta política’
das decisões dos governantes. No mundo contemporâneo, a produção de riqueza está dependente da
inteligência das pessoas e, por isso, dos referidos fatores económicos, sociais e culturais. A produção de riqueza
está, igualmente, dependente de fatores imateriais e do sentido de pertença das pessoas aos seus lugares de
origem. Nesta matéria, Portugal e os portugueses têm inequívocas vantagens comparativas à escala global, assim
como amplas possibilidades de relacionamento, nomeadamente no mundo de língua portuguesa, vantagens e
possibilidades que devem ser aproveitadas e potenciadas.
As instituições (pessoas em ação) que promoverem o trabalho destes portugueses qualificados deverão
ter justas contrapartidas e formas de certificação que as prestigiem socialmente pelo importante serviço prestado
ao futuro de Portugal no mundo.
A criação de uma rede de instituições amigas do trabalho, da investigação, da criação cultural,
científica e artística deve ter como horizonte uma revolução da mentalidade dominante no que respeita à
solidariedade. E, naturalmente, deverá ter reflexos nas políticas públicas perspetivadas transversalmente.
Não temos dúvidas de que nomeadamente muitas empresas têm assumido compromissos de
responsabilidade social que passam - de forma relevante em tempo de crise - por atender à satisfação das
necessidades básicas dos seus trabalhadores. O mesmo vale para a maior parte das famílias portuguesas.
Temos tido, em Portugal, a solidariedade de manutenção, de assistência às necessidades urgentes
dos empobrecidos, às vezes em situações que atentam flagrantemente contra a sua dignidade. É uma
solidariedade pronta que sempre abundou e abunda em Portugal. E não queremos desvalorizá-la: atende a
situações humanas de emergência.
Todavia, urge promover, paralelamente e de forma decidida, uma nova forma de solidariedade: a
solidariedade para a criação e para o trabalho. Este novo género de solidariedade é aquele que, tendo por
referência o célebre ditado chinês “melhor do que dar o peixe é dar a cana e ensinar a pescar”, aposta em formas
inovadoras de produção da riqueza que só estão ao alcance de pessoas empreendedoras e criativas. Foi sempre
com pessoas qualificadas que Portugal se afirmou no mundo. E não será diferente agora.
O bem comum depende da prossecução do interesse individual, pelo que todos perdemos com a saída dos
mais capazes e criativos e todos ganhamos com a preservação de trabalho para eles.
Uma nova solidariedade ou compromisso das instituições públicas e da sociedade com a ciência, a
cultura e as artes passa por reservar uma parte dos seus meios para fomentar a valorização e a investigação do
nosso património, a criação científica, literária e artística. Estamos a falar de investimentos produtivos com
significativos efeitos sobre o todo social.
Mais do que imitar os outros, devemos procurar que os outros nos imitem. Historicamente, progredimos
sempre que fomos capazes de inovar e de fazer o que outros ainda não tinham feito. Tal exige contextos
propícios à inovação e à experimentação, sendo também uma condição para a recuperação da nossa autonomia
política e financeira, assim como da nossa autoestima. Instrumentos legais como o do mecenato cultural e
científico foram importantes no passado, mas estão esgotados.
O país precisa de consensos em matérias nevrálgicas para o seu futuro. Este MANIFESTO é um
contributo de cidadãos empenhados no futuro de Portugal que interpelam os representantes políticos dos
portugueses:
ESSE OBJETIVO É POSSÍVEL!"
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2 comentários:
OS Marajás, essa saga sem fim neste país à beira-mar plantado, já devolveram os cerca de 800.000 euros ...?
http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=631&id=96675&idSeccao=11007&Action=noticia
Vi há vários um texto de um historiador inglês que se dedicava a analisar um fenómeno português: as elites portuguesas agiam contra os interesses do povo sistematicamente. O historiador desmontava os tratados que os ingleses tinham feito com os portugueses e mostrava como, um por um, eram absolutamente atentatórios dos interesses portugueses e tinham sido conseguidos com toda a facilidade a troco de uma pequenas benesses a negociadores portugueses ansiosos por prejudicar os interesses portugueses.
Isto continua. Para as cabeças do CDS, há que reduzir o povo à sua condição de povo - por isso a proposta de redução da escolaridade obrigatória. Para o PSD, nunca deixar que os portugueses pensem que são capazes de pensar pela sua cabeça. O Crato quer que os portugueses aprendam a ser torneiros (não sabendo que hoje um torneiro trabalha com um computador..) Houve que acabar logo com o Magalhães mas as inúteis máquinas de calcular gráficas que custam 150 euros não são problema; e agora os tablets Samsung também não são, como nunca o foram os Toshiba e outros do E-escolas. O problema do Magalhães é que pode alimentar a ideia de que os portugueses são capazes de fazer coisas! E ainda, como o Inglês na primária, contribuir para a ascensão do povo, algo de todo indesejável.
Compreendamos pois que há uma questão ideológica por detrás dos cortes financeiros
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