quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O BISPO E O TERRAMOTO


Nas imagens terríveis que nos chegam pela televisão e pela Internet, o mal causado pelo terramoto do Haiti parece-nos incomensurável. Tendo lido há pouco tempo a "Ira de Deus", de Edward Paice (Casa das Letras, 2009), que relata os horrores do grande terramoto de Lisboa de 1755, parece-me ver agora uma repetição das cenas de Lisboa (uma delas, com um templo a ruir, representada na gravura).

Tal como na catástrofe setecentista também o recente terramoto no Haiti tem originado acesas discussões de natureza teológica sobre o significado do "mal". Têm, por exemplo, causado bastante polémica as declarações de D. José Ignacio Munilla (JIM), bispo de Palencia que foi recém-nomeado bispo de S. Sebastian (Donostia), à cadeia de rádio SER. Vários jornais titularam que, segundo o bispo, havia males piores do que o que foi e está a ser sofrido pela população do Haiti, designadamente a "nossa pobre situação espiritual":
"Existen males mayores que los que esos pobres de Haití están sufriendo estos días. (...) Quizá es un mal más grande el que nosotros estamos padeciendo que el que los inocentes también están sufriendo."
O prelado retorquiu, logo no dia seguinte, dizendo que as suas declarações tinham sido retiradas do respectivo contexto e profundamente distorcidas. Procurei, por isso, a transcrição integral e, para que se possa avaliar melhor o que está em causa, deixo aqui o registo ipsis verbis da pergunta e da respectiva resposta, que a rádio gravou (as duas frases de cima estão aqui destacadas em bold, mostrando que não foram inventadas):
SER- "Esta mañana en su programa de Radio María algún oyente le preguntaba sobre este tema (la tragedia de Haití), la perplejidad en la que se sumen los católicos cuando se preguntan por qué Dios permite estas calamidades".

JIM- "Así es, sí, en Radio María las llamadas entran en directo, allí no hay filtro. Es una pregunta que ha respondido a una pregunta que todos llevamos dentro de nosotros, si existe Dios porque existe también el mal. A veces parece que el mal se ceba en los más inocentes.

He querido recordar cómo Jesucristo fue el inocente, el justo de Dios y también fue injustamente perseguido e injustamente condenado a muerte. Y la respuesta que le he dado a esa oyente es que, desde luego, si el mal tuviese la última palabra, sería incompatible con la existencia de Dios, pero creemos firmemente en que el mal no tiene la última palabra, creemos firmemente en que Dios nos ofrece una felicidad eterna y creo que existen males mayores, aunque parezca fuerte lo que voy a decir, existen males mayores que los que esos pobres de Haití están sufriendo estos días.

Yo recordaba esta mañana en Radio María ese momento del Evangelio en el que Jesús, cargando con la cruz camino del calvario, se encuentra con un grupo de mujeres que lloran por Jesús al verle atormentado y Jesús les dice, no lloréis por mí, llorad por vosotras.

Nosotros nos lamentamos mucho por los pobres de Haití, pero igual también deberíamos, además de poner toda nuestra solidaridad en ayudar a los pobres, nuestros medios económicos, etc., también deberíamos llorar por nosotros, por nuestra pobre situación espiritual, por nuestra concepción materialista de vida. Quizá es un mal más grande el que nosotros estamos padeciendo que el que los inocentes también están sufriendo"
.
A mim essas declarações episcopais parecem-me, quer isoladas quer no contexto, no mínimo pouco caridosas para com os "pobres do Haiti". Podia ser pior? Podia, pois o bispo de S. Sebastian não disse, como o Padre Malagrida há cerca de 250 anos em Lisboa, que a causa do terramoto era a "ira de Deus" devida aos nossos pecados.

5 comentários:

  1. Carlos, os padres são fósseis com saudades de um mundo que já não existe e já não vai voltar.

    nada do que eles digam interessa mais, passaram à história, resta-lhes ou derramarem lágrimas de crocodilos ou mudarem de vida e deixarem de importunar..

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  2. Duas breves considerações, apenas.
    A primeira sarcástica. Pior mal do que a desgraça que se abateu sobre o já macerado povo do Haiti, é haver ainda quem transfira para a teologia e atribua ao «opus» divino e à sua ira um terramoto. Dos escombros, foi por sinal resgatado o cadáver de um bispo.Que o Bom Deus preserve a vida e a saúde de Don José. (Rilke)
    A segunda de reflexão. Será a condição de bispo necessária e suficiente para ser tida como sede do pensamento teológico?
    Tenho aqui seguido consecutivos debates sobre o ensino e a educação em Portugal. E já concluí que a condição de professor não é necessária, nem suficiente, para ter o professor como sede do pensamento pedagógico.
    O pragmatismo do exercício pastoral sempre afastou os clérigos da reflexão teológica. Aproximou-os mais da «praxis» política.
    E se porventura Saramago tivesse razão e Deus se não se manifestasse senão através da sua ira, os teólogos seriam a voz do diabo.
    Porque é que um bispo, protegido da ira dos elementos em Placência e dos males espirituais e sociais por sua condição, deve ser tido como um opinador tão relevante sobre a desgraça que atingiu o Haiti?
    Bem, eu não sou católico. Nem teólogo.
    Serão as palavras de um bispo apressado uma das expressões da ira de Deus?

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  3. Mas que raio, o bispo não disse que aquilo não era um mal. Disse que havia outros piores. E depois? Não é o que fazemos todos os dias? Não será que o bispo está a ser criticado só pelo facto de ser bispo? E Chavez que diz que os EUA é que provocaram o terramoto? E se o bispo não tem o direito de graduar aquele mal, nós temos? Se não admitimos que haja males piores que aquele, que estamos a fazer? Não o estamos a graduar e assim a ofender todos os que sofreram outros males iguais, ou piores?!

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  4. Caro Armando Quintas.

    Só agora pude ver o seu comentário, apareceu em simultâneo com o meu.
    Os padres não são fósseis. Até dão entrevistas. Não sei de caso em que um fóssil tenha dado uma entrevista.
    Em minha opinião têm muito pouca saudade, seja do que for.
    Saudade temos nós. E somos fósseis também, porventura, em sentido metafórico. Não encontro metáfora para aplicar aos padres. Nem são fósseis, nem têm saudade.

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  5. Caro Xico... não sei se será muito relevante estar aqui a graduar males. Podemos passar a graduar tontos. Ou a pô-los no mesmo pé, por sua sugestão. Os EUA de Chavez são equivalentes da ira de Deus dos bispos. Embora não tenha lido ou ouvido referência ao comentário de Chavez.
    Talvez para Chavez os EUA sejam um mal pior do que o terramoto que assolou o Haiti. Mas Chavez é um político e vê a questão dessa perspectiva. Não é ambíguo.
    O que não se percebe é de que males anda a falar o bispo... De azia?

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