quarta-feira, 1 de abril de 2020

O MECANISMO DO MEDO


Artigo do psiquiatra Nuno Pereira:

   A emoção – que significa literalmente movimento para o exterior – predispõe para a ação. Tem funções de sobrevivência, como defesa contra o perigo e procura de alimento e sexo. Como respostas adaptativas a estímulos aversivos distinguem-se o medo, a ansiedade e o stress.

   O medo constitui uma reação emocional de defesa ativa (fuga/luta/imobilidade) perante um perigo presente. É uma emoção básica, universal, de saída duma situação de ameaça certa. Funciona um sistema ativador da ação. Trata-se da resolução do problema. A ansiedade consiste numa reação emocional de defesa passiva (hesitação) perante um perigo potencial. Envolve um misto de emoções (expetativa/medo) – em que o medo desempenha o papel mais importante – de entrada numa situação de ameaça incerta. Há um conflito apetitivo/aversivo, de aproximação/afastamento. Funciona um sistema inibidor da ação. Trata-se da tentativa de resolução do problema. O stress ou tensão consta duma reação de adaptação geral a uma mudança (negativa ou positiva) do meio (interno ou externo). Os fatores de stress podem ser biogénicos (frio, calor, barulho) – com reações inatas e independentes da avaliação - ou psicossociais (acontecimentos agudos ou dificuldades crónicas) – com reações dependentes da avaliação. O stress pode gerar emoções negativas (como a ansiedade) se a avaliação for negativa.

   O medo apresenta duas faces: uma, objetiva, a resposta a um estímulo; a outra, subjetiva, o sentimento. Frente a uma situação ameaçadora (o estímulo), desenvolve-se um programa de quatro passos: avaliação (o sensor), preparação (o alarme), ação (o reator) e sentimento (a experiência do consequente estado modificado do corpo). O pânico não é mais do que a reação a um perigo iminente.

   As situações indutoras de medo, ansiedade ou stress (os estímulos) podem ser externas (de natureza física ou psicossocial) ou internas (sensações corporais, pensamentos, imagens). Dum modo geral, são insuficientes por si sós para perturbarem o indivíduo. Assumem pois importância relativa, já que dependem do significado que lhes é atribuído. Assim, a mesma situação-estímulo pode gerar reações diversas em pessoas diferentes.

   A avaliação cognitiva (o sensor) foca-se não só no significado da ocorrência (p.ex., a perceção do perigo) como nos recursos pessoais (a perceção do controlo) e sociais (o apoio dos outros). Pode ser rápida/automática (via direta) e lenta (via indireta). A avaliação cognitiva é um processo dinâmico, retroativo, com desenvolvimento de hipervigilância (atenção muito focada nas fontes externas ou internas da ameaça).

   Na preparação fisiológica (o alarme), face a um estímulo aversivo dá-se a ativação  para preparar o indivíduo para fugir ou lutar. Dilatam-se as pupilas (para ver melhor), aceleram-se os batimentos cardíacos (para bombear mais sangue), sobe a tensão arterial (para melhorar a irrigação sanguínea), aumenta o ritmo da respiração (para oxigenar mais o sangue), eleva-se a glicose no sangue (para maior fornecimento de energia), aumenta a agregação plaquetar (para facilitar a coagulação sanguínea), flui a transpiração (para resfriar o corpo), retesam-se os músculos com tremor (para preparar para a ação), há palidez e extremidades frias (por necessidade do sangue periférico para o interior do corpo e os músculos). Em caso de medo intenso, pode haver também vómitos e perda de fezes e/ou urina (esvaziamento do tubo digestivo e da bexiga que evita a rotura destes órgãos, em caso de choque) e mesmo desmaio (o que, ao passar por morto, permite escapar ao predador na natureza). Na tentativa de recuperar o equilíbrio perdido, isto é, restabelecer a homeostase, elevam-se os níveis de glicose no sangue e o seu aporte ao cérebro, fígado e coração, inibe-se o sistema imunitário e diminuem os processos de tumefação e inflamação.

   A ação (o reator) tem como objetivo o afastamento da ameaça e consequente alívio da ativação fisiológica, através de comportamentos defensivos de emergência (e hipoalgesia). De facto, face a uma ameaça, o indivíduo defende-se, imobilizando-se, fugindo ou lutando (e sentindo menos dor). Exibe também comportamentos comunicativos (expressão facial, gestual e não verbal), em que informa os outros mediante expressão de medo (ou ira), gesticulação e gritos. Pode em alternativa realizar movimentos repetitivos, consumir substâncias, isolar-se, passear, praticar exercício físico.

   O sentimento compreende a experiência subjetiva da reação emocional. O indivíduo, ante um estímulo ameaçador, recebe a informação sensorial e desencadeia uma resposta corporal. As informações do corpo (viscerais e comportamentais) vão então ser representadas em mapas cerebrais, de que o indivíduo toma consciência, formando a base do sentimento do medo.

    O medo fixa-se automaticamente com a fuga, o evitamento ou mesmo a tentativa de controlo duma situação de perigo real ou imaginário. A própria distração (como evitamento da coisa temida) acaba também por alimentar o medo, embora alivie transitoriamente, pelo que o provérbio «quem canta seu mal espanta» vale apenas de mero expediente. Ao invés, o medo extingue-se progressivamente com a exposição intencional - sem fuga, evitamento ou tentativa de controlo - de modo prolongado e reiterado, a uma situação ameaçadora, o que pode fazer baixar a guarda e significar um risco se o perigo for real. Por outro lado, a distorção cognitiva por processamento defeituoso da informação pode provocar quer medo excessivo, quer falsa segurança, conforme a avaliação exagera ou minimiza o perigo.

    Em conclusão, o medo, a ansiedade ou o stress normais são necessários para proteger do perigo, graças ao estado de alerta que permite a busca de soluções adequadas para o problema, tanto melhor quanto mais a avaliação do risco assentar numa informação esclarecida e, num nível mais exigente, com evidência científica.
                                                                      
 Nuno Pereira  (psiquiatra)

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