domingo, 5 de abril de 2020

A "vulnerabilidade como característica essencial da vida humana"

Pascale Seys, doutorada em Filosofia, professora na Universidade Católica de Louvaine, colabora, há mais de vinte anos, no programs Musiq3 com o apontamento La cronique de Pascale Seys.  faz reviver nomes da Filosofia, muitas vezes para dar sentido ao que se passa no mundo presente.

O apontamento de dia 1 de Abril - Sac de peau - foi sobre o vírus que nos ameaça. É como uma "picadela de aviso", disse: "aprendemos cada dia à cabeceira do mundo doente", como se tivéssemos esquecido, que "a vulnerabilidade constituiu a característica essencial da vida humana". 

Retomou o Livro IX de A República, de Platão, lembrando a questão que atormentou o filósofo e que ele formula assim:
Quem somos nós?, Quem é o homem? É um montão de carne? É um corpo dotado de alma?
Responde (as palavras são de Pascale em tradução/adaptação nossa) que àquele "Quem somos nós", Platão responde:
"somos seres complexos e em permanente conflito. E, recorrendo a uma imagem, adianta, seres semelhantes a um "saco de pele".
Nesse ensaio político, ele:
afirma esta coisa um pouco estranha, com efeito, que somos, ao mesmo tempo, ventre, coração e espírito. 
A noção grega de "epithumia" (o ventre) é a nossa parte animal, agitada pela voracidade, pela impaciência e pelas paixões monstruosamente egoístas; simbolizado pelo leão, o "thumos" é o coração, sede dos desejos movido pela ambição, pela honra e pela coragem. O "nõus" refere-se ao uso da nossa cabeça quando fazemos o esforço de compreender o mundo e de trabalhar sobre nós mesmos para sermos melhores. 
Dito de outro modo, somos ladrões de grande superfícies, por medo da privação, é verdade; somos estúpidos, predadores compulsivos de papel higiénico, é verdade, e é verdade também que rivalizamos entre nós. Mas somos igualmente pessoas sociáveis, capazes de nos ligarmos aos  outros,  de proteger e de cuidar. E perguntamos, no meio de tudo isto, para onde vai o planeta e nós com ele.

No fundo, Platão quer dizer que o ser humano não é da ordem da natureza, mas a qualidade de uma conquista: a conquista por si do animal que ruge em si. Uma conquista tornada possível por um esforço que se chama a "vida do espírito". 
 Se retomarmos, com Platão, a questão de saber o que é o homem, podemos responder com ele
"um saco de pele", ou ainda, um ser constantemente em conflito entre forças contraditórias "cosidas" juntamente. A nossa alma visa altas exigências, quer a justiça, em primeiro lugar, protecção, cuidados para cada um. Aspira a elevar-se além da loucura da besta selvagem e da ambição do leão. Quer alcançar, pelo esforço do espírito, num mundo que sabe ser movediço e caótico, o lugar onde se torna a justa medida das coisas e onde estão aqueles a quem cabe governar, com sabedoria e prevenção. E também, Platão o diz algures, a alma quer alegrar-se."
Pascale lembra que Platão tem o seus contestatários e dá como exemplo o escritor Tristan Bernard, que, pessimista, considera o nosso "saco de pele" como 
"um recém-nascido que não aprende nada com as lições da História que frequentemente se esquece dos ensinamentos que herdou do passado:"
E, contudo, acontece também isto: porque considera ter tido "uma bela vida" Suzanne, uma senhora de 90 anos, contaminada pelo "coronavírus", recusou o ventilador que teria podido salvá-la para o ceder a uma pessoa mais jovem.

Então, podemos imaginar Albert Camus, o clarividente, observando também cada dia a coragem dos filhos de Hipócrates (os médicos) e os trabalhadores que se afadigam e enfrentam riscos para assegurar a sobrevivência dos outros. Lembremos isto cada dia
"a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar ao presente" (Albert Camus, in O homem revoltado)
Maria Helena Damião e Isaltina Martins

1 comentário:

  1. O homem é o problema e não tem sido capaz de uma solução. A cada pergunta que é capaz de fazer (quando faz) pede respostas (quando pede) que não existem e que vai sendo capaz de construir (quando é) a partir daquilo que conhece (quando conhece) por experiência (quantas vezes enganosa, veja-se os movimentos da lua e do sol, tão semelhantes e tão indutores em erro), mas sempre fundamental (há realidades que não seríamos capazes de deduzir, por ex., se não conhecêssemos a água, mesmo que conhecêssemos o hidrogénio e o oxigénio, como deduzir a água?), por experimentação (experiência e experimentação são muito diferentes, há coisas que a experiência não permite conhecer mas a que se pode chegar por experimentação) e, sem dúvida, aquilo que conhecemos por exercícios de dedução e de indução, numa actividade permanente (e involuntária a maior parte do tempo) do nosso cérebro que, tal como o nosso coração e os nossos pulmões, não depende de nós, da nossa vontade...Ou seja, o "eu", que nos distingue uns dos outros, é uma espécie de "sistema de coordenadas" que, quando sente, ou quando se põe a sentir, sofre e não encontra sentido para o sofrimento...Se não exprimíssemos o pensamento, pareceríamos iguais e, se não exprimíssemos o sentimento, mais iguais ainda.
    Em qualquer caso, os problemas são nossos, criados por nós.
    Os problemas sobre a nossa identidade fazem todo o sentido, para nós, no âmbito cosmológico e metafísico.
    Os problemas sobre a nossa vulnerabilidade são mais de âmbito biológico.
    Todos partilhamos estes, mas nem todos partilham aqueles e, seguramente, poucos têm ou partilham as respostas e as soluções a uns e a outros.

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