quarta-feira, 28 de março de 2012

O PRAGMATISMO DO MINISTRO NUNO CRATO


“Atingir o ideal écompreender o real “ (Jean Jaurès, 1859-1914).

Dobram a rebate os sinos da catedral da ignorância perante a anunciada decisão ministerial sobre a realização de exames nacionais destinados a avaliar o aproveitamento dos alunos do 1.º ciclo do ensino básico.

Aliás, em hábito que lhe corre em veias contestatárias, a voz teatral da ex-secretária de Estado da Educação do Partido Socialista, Ana Benavente, embora, como diria Eça, "a luz do gás não lhe faça reluzir o louro esplendor dos seus cabelo
s", não tardou em ecoar pelo país fora a anunciar a heresia das reformas do Ministro Nuno Crato “como um golpe de estado na educação”. Aplaudo a sua clarividência em reconhecer tratar-se de um golpe de estado contra uma ditadura igualitária, isso sim, entre estudantes aplicados e alunos cábulas, mercê de um passado de facilitismo que tanto tem contribuído para o atraso cultural e científico da juventude portuguesa tendo, inclusivamente, um antigo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do XVII Governo Constitucional, Mariano Gago, declarado que a Literatura Portuguesa representava um funil para a entrada de alunos em determinados cursos profissionais (mais adiante se fará destacada referência a esta verdadeira boutade!).

Mas aproveitando a “bucha”, como se diz em linguagem do teatro, antes, gostaria de recordar que no antigo ensino técnico, referindo-me em particular às escolas industriais, esta disciplina era ministrada com exigência assinalável. Digo-o com conhecimento de causa por ter iniciado a minha docência na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque da então Lourenço Marques. Ainda hoje recebo mails de antigos alunos que bem justificam a qualidade desse aprendizato em contraste com os nossos dias em que, por exemplo, indivíduos aspirantes ou possuidores de diplomas do ensino superior dão erros de concordância gramatical que levariam ao chumbo na antiga 4.ª classe do ensino primário. Por um certo pudor (que, todavia não me exime desta constatação) não apresento casos concretos por serem do domínio público e copiosamente denunciados.

Para não correr o risco de ser considerado como fazendo coro tardio com esta medida de Nuno Crato, já em anos anteriores apareci a gritar a nudez de um ensino que não ensina e a que é passada agora, a ainda que tardia, certidão de óbito. Competindo-me, ipso facto, o ónus da prova, colho, obedecendo a critérios de cronologia de publicação, excertos de três posts por mim publicados neste blogue e que o testemunham. Assim:

1.º excerto:Só por absurdo, pode passar pela cabeça de alguém conceber um treinador de atletismo a adestrar um atleta para uma maratona olímpica sem que o resultado dos treinos seja sujeito à avaliação de uma cronometragem rigorosa. Pois é precisamente isto que acontece no nosso sistema educativo em que o aluno, por vezes, sai mal preparado por não terem sido avaliadas, em exames nacionais, as suas performances que atestem os conhecimentos adquiridos nos diversos e sucessivos patamares até ao 9.º ano de escolaridade. Desta forma, e a partir daí, é o aluno lançado nas pistas da exigente competição do ensino secundário (antecâmara de acesso ao ensino superior) em que corre o risco de cortar a linha da meta nos últimos lugares com os bofes do desânimo a saltarem-lhe da boca para fora. Outras vezes, nem sequer termina a prova, desistindo a meio e engrossando, assim, as percentagens do insucesso escolar (" “A resistência do ‘eduquês’ aos exames nacionais”, 10/08/2007).

2.º excerto: “No início de cada ano civil, é uso as casas comerciais fazerem o balanço do respectivo stock para prover necessidades futuras. Desgraçadamente, o sistema educativo nacional tem prescindido deste útil balanço, apesar de ter sido confrontado, no derradeiro mês de 1996, com estudos internacionais denunciantes do seu descalabro. Ou melhor, da sua vergonha: ‘Portugal, o pior da Europa” (Público,21/11/96).

Mesmo sem entrar em pormenores, mais ou menos polémicos, sobre as hossanas cantadas pela 5 de Outubro sobre as melhorias no PISA/2009, estudos emanados, em 2010, do próprio do Ministério da Educação e relatados na primeira página do Jornal I (31/12/2010), dão-nos conta de que:

" a) ‘Estudantes não sabem raciocinar nem escrever’; b) ‘Relatório demolidor: Alunos do 8.º ano ao 12.º ano de 1700 escolas não conseguem estruturar um texto encadeado, explicar um raciocínio com lógica, utilizar linguagem rigorosa ou articular conceitos."

Passando ao miolo da notícia (pp. 28-29), detenho-me numa coluna intitulada ‘o melhor e o pior’, referenciando umas tantas disciplinas curriculares dos diferentes anos dos ensino básico e secundário. Assim:

‘Língua Portuguesa (9.º ano):

- Só 11% dos alunos conseguiram transformar uma frase passiva numa frase activa e apenas 26% identificaram a que classe pertencia determinada palavra.

- Leitura e escrita de textos informativos são os domínios em que os alunos tiveram melhores resultados, com uma média em relação à cotação final de 74%. A leitura de um texto poético não foi tão bem sucedida.
Matemática (8.º e 9.º anos).

' Matemática (8.º e 9.º anos):

- As grandes fragilidades são detectadas nos exercícios que implicam percorrer sucessivas etapas até à resolução final ou então nos exercícios que exigem leitura, interpretação e definição de uma estratégia.

Biologia / Geologia(10.º, 11.º anos):

- Dificuldade em construir textos com rigor científico, em usar linguagem adequada ou em articular informação fornecida nos textos com os próprios conhecimentos.

Física / Química A (1º.º e 11.º anos):

-Usar e interpretar informação contida nas provas (textos, gráficos ou tabelas); expressar por escrito os conhecimentos; usar a calculadora para resolver problemas simples foram os embaraços dos alunos.

De forma utópica, determinou, em tempos recentes, em anúncio jubiloso, urbi et orbi, o Ministério da Educação que o 12.º ano se tornasse obrigatório. Desta forma, transformou, do dia para a noite, como escreveu Francisco de Sousa Tavares, ‘Portugal não num país de analfabetos, como até aqui, mas num país de burros diplomados’.Ou seja, em genuflexão perante a diplomocracia’, assim havida, por José António Saraiva (Diáriode Notícias, 31/08/1979), ao referir-se à profusão de diplomas atribuídos a torto e adireito.

O Ministério da Educação, com pós de perlimpimpim em retortas de alquimia, não tardará muito em caminhar na vanguarda de um mundo alfabetizado com a maior percentagem de população escolar com estudos secundários completos ou equivalentes. Um ensino profissional mal clonado e as Novas Oportunidades darão uma mãozinha ‘preciosa’ para que essa percentagem nada ou pouco acrescente para a melhoria profissional de quem as frequenta, desiderato louvável se fosse essa a sua intenção. Ou seja, não contribuindo para o descrédito do esforço daqueles que muito suaram para obter, sem ser por vielas esconsas e mal iluminadas, o diploma do 12.º ano. Torna-se necessário, portanto, em prosa pessoana, ‘violentar todo o sentimento de igualdade que sob o aspecto de justiça ideal tem paralisado tantas vontades e tantos génios,e que, aparentando salvaguardar a liberdade, é a maior das injustiças e a pior das tiranias’” (‘Os Esqueletos no Armário dos Ensinos Básico e Secundário’, 02/01/2011).

3.º excerto: Perante o desastre que foram os resultados dos exames de Português, quer no 9.º ano de escolaridade, quer no 12.º ano do ensino secundário, dei comigo a folhear um conjunto de pastas onde tenho centenas de artigos de jornal meus. Em boa hora o fiz ficando de bem com a minha consciência por não estar a chorar sobre o leite derramado por vasilhas do estado caótico a que chegou o ensino nas nossas escolas não me tornando, portanto, arauto, ‘a posteriori’, de uma situação por mim nunca criticada.O meu primeiro grito de alarme soou num extenso artigo de opinião publicado no 'Jornal do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados' (Nov./Dez. 2005), na altura em que presidia à sua assembleia geral, intitulado “A Literatura Portuguesa, um funil social?”. Retiro do que aí escrevi o seguinte:

‘Em tempos de mudança de uma complexa e cuidada adaptação ao Processo de Bolonha foi publicada a recente entrevista do ministroda Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, de que destaco a criação de cursos de ensino superior curto’ (Público, 07/11/2005).

Surge, assim, num horizonte de plúmbeas nuvens de cursos superiores a granel a criação de cursos superiores de especialização tecnológica no ensino superior curto (tendo já sido aprovados 70) ‘através de formações curtas e de acesso fácil’ porque para o acesso a estes cursos será abolida a prova de Língua Portuguesa, no dizer de Mariano Gago ‘um funil social’ (sic.)! Aliás, cursos com a duração inicialmente estabelecida para o ensino politécnico (dois anos) que rapidamente se sentiram capacitados, com o apoio de ruidosas pressões sindicais de rua, para conceder mestrados e que, apesar disso, esperneiam, qual criança birrenta, por lhes não sido dado acesso à atribuição de doutoramentos!’ (A Literatura Portuguesa, um funil social? 16/07/2011).

Perante factos aqui documentados sobre o estado desastroso do nosso ensino (que me coagiram à necessária extensão deste post ), com esta corajosa medida, o Ministro Nuno Crato, de forma pragmática, passou da teorização das medidas que sempre defendeu em textos escritos (v.g., o bestseller : “O Eduquês” ) para a sua aplicação prática. Condição bastante para merecer o aplauso dos portugueses porque, citando Albert Camus, “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”. E haverá maior generosidade do que uma entrega completa à formação dos nossos jovens ao serviço de Portugal para o retirar do atoleiro de anos de criminoso facilitismo em que alunos nada sabendo e sem quase frequentarem as aulas transitavam de ano? Para mim, “that is the question”!

35 comentários:

  1. Caro Senhor Ruy Baptista:

    O seu texto abarca um tão vasto leque de aspectos que levaria a longa discussão, mas nem tenho tempo nem vontade de a alimentar.
    Como em quase todos os textos passíveis de discussão é difícil não se concordar com muito do que neles se diz e discordar de outro tanto.
    Mas subjaz a certas narrativas uma linha condutora que me leva apenas a pôr-lhe uma questão; e por aqui me ficarei, responda como quiser, não ripostarei.
    Resultando todos os males da nossa Educação APENAS de métodos, pedagogias, ambientes escolares (mais ou menos recentes), como se compreende que pessoas de alto gabarito intelectual, à frente de instituições de prestígio, doutorados tantos deles, com 50 ou mais anos, por exemplo, falem e escrevam tão mal se aprenderam tão bem?
    Donde lhes vieram as perversões no uso da Língua?

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  2. Prezada Senhora Dona Aurélia Santos: Começo por lhe agradecer a atenção do comentário, não podendo, todavia, deixar de ressalvar o facto do meu nome próprio se escrever com “i” e não com “y”.

    Posto isto, e sabendo de antemão (por declaração vossa) que não responderá a este meu comentário serei breve e consigo concordo quando escreve ( e simultaneamente me lança o repto: “Donde lhes vieram as perversões no uso da Língua?” ): “Resultando todos os males da nossa Educação APENAS de métodos, pedagogias, ambientes escolares (mais ou menos recentes), como se compreende que pessoas de alto gabarito intelectual, à frente de instituições de prestígio, doutorados tantos deles, com 50 ou mais anos, por exemplo, falem e escrevam tão mal se aprenderam tão bem?”.

    Sabendo-se, como nos avisa Goethe, que “qualquer ideia proferida, desperta outra ideia contrária”, boa pergunta de difícil resposta, a não ser, como diz o povo, que “no melhor pano cai a nódoa”! Mas de uma coisa eu tenho a certeza (por experiência vivenciada em meus tempo escolares), na época de 50, os programas de Língua Portuguesa davam relevo aos vultos ilustres da nossa Literatura, “que da lei da morte se foram libertando”, e não como hoje em que os alunos sabem de cor coisas sem qualquer valor cultural e escondem da memória aquilo que deviam perseverar como património cultural de um povo.

    De uma coisa pode estar certa, minha Senhora: muito prezaria que não se remetesse ao silêncio pois eu muito ganharia com esta civilizada troca diferentes de ver os problemas.

    Respeitosamente,

    Rui Baptista.

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    1. Caro Senhor Rui Baptista:

      Peço-lhe desculpa pelo erro na grafia do seu nome, que não teve qualquer intenção obscura, foi apenas uma gralha.

      Como tive que voltar para lhe pedir desculpa, aproveito para lhe deixar uma bela, significativa e verdadeira frase da escritora espanhola Rosa Montero:

      «A memória é uma história que contamos a nós mesmos».
      Sabe, também fui professora de Português nas antigas escolas industriais e comerciais e a história que a minha memória me conta difere bastante da sua.

      Qual delas vale: ambas, pelo menos para nós.

      P. S. A minha recusa em continuar o debate deve-se apenas à falta de tempo, apenas me chega para passar por aqui (e por alguns outros blogues que vale a pena visitar), não a outras razões. Desta vez não resisti a provocá-lo, raramente comento em qualquer blogue.

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  3. Errata: Na linha derradeira do último parágrafo do meu comentário anterior, onde escrevi "civilizada troca diferentes de ver os problemas", corrijo para: "civilizada troca de maneiras diferentes de ver os problemas".

    E se é certo que no melhor pano cai a nódoa, mais ela enodará o modesto trapo da minha prosa.

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  4. Joaquim Manuel Ildefonso Dias29 de março de 2012 às 02:09

    Professor Rui Baptista;

    Aqui estou eu uma vez mais a comentar, com fraco cabedal de conhecimentos (ando apenas a ler sobre o assunto e tiro conclusões porventura bem questionáveis), de matérias relacionadas com o sistema de ensino; mas este meu atrevimento deverá ser desculpável, sobretudo pelo silêncio daqueles que eram apelidados de “especialistas” na matéria e que tiveram grandes responsabilidades e a ele se remetem agora, incompreensivelmente.

    Sou da opinião de que estiveram à frente do sistema de ensino pessoas incapazes, verdadeiramente incapazes de fazer qualquer coisa útil; se quer que lhe diga com franqueza nem tão pouco eram capazes de exprimir as ideias se é que as tinham; e isso via-se na forma como falavam.

    E para que as minhas palavras não sejam consideradas vazias vou dar-lhes sentido com o exemplo que o Senhor refere no post; opondo-lhe para isso uma ideia do magnífico Professor Sebastião e Silva.
    Imagino eu, que talvez fosse essa a ideia que o ministro, de forma desastrosa, pretendeu transmitir quando fala em que a Literatura Portuguesa representava um funil para a entrada de alunos em determinados cursos profissionais;

    [Sebastião e Silva] “(...) Não quer com isto dizer que se deva desprezar a cultura geral. Convém estimular, em certa medida, o interesse por questões de ordem geral, e, sobretudo, favorecer hábitos de leitura. Mas não exageremos! Subsiste entre nós um culto perigoso de enciclopedismo, e da multiplicidade de aptidões – como se fossemos felizes contemporâneos de Descartes ou de Leonardo da Vinci. Será preciso lembrar que não é esse culto a maneira mais adequada de evitar o acréscimo de incompetência?”

    Faz toda a diferença Professor Rui Baptista, aquilo que o ministro disse ou possivelmente queria dizer e a forma como o faz o Professor Sebastião e Silva. Que incompetência a do ministro!

    Mas o que importa de verdade neste meu comentário é a seguinte ideia retirada do Professor Sebastião e Silva.

    “Ensino idêntico para todos, é um principio talvez muito cómodo para o professor; mas, para bem de todos, há que substituí-lo por este outro; ensino que favoreça, tanto quanto possível, as aptidões de cada um.”

    Agora a minha opinião é a de que o ministro Nuno Crato, apresenta uma solução muito diferente daquela que preconizava o Professor Sebastião e Silva e outros professores (opinião que tenho sobretudo da interpretação dos textos didáticos de Sebastião e Silva).

    É nesta base que interpreto as medidas que conheço e que considero incorretas do ministro, e refiro-me aqui em particular à da falta de parcimónia nos exames.


    Cordialmente,

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  5. Claro que tem toda a razão, Rui Baptista!
    A génese do desastre dos últimos 15 anos, ocorrido num país que já de si nunca valorizou o saber, é precisamente a ideologia "romântica e construtivista" que o livro de Nuno Crato criticou. Ideologia que se insere na corrente pós-moderna a que a antiga formação "materialista" de Crato opõe o modernismo.
    Há perto de 40 anos, Mariano Gago e Ana Benavente animavam uma "Universidade operária" na Suíça onde, no rescaldo do Maio de 68 se experimentavam as novas pedagogias libertárias e contestatárias que esse Maio promovera (embora já viessem de trás). E o problema é que é bem claro que ambos critalizaram nesse pensamento utópico e, pior, que o disseminaram e promoveram. Lurdes Rodrigues, por exemplo, foi também um "produto" político de Mariano Gago...
    Pela mesma época de há perto de 40 anos Nuno Crato era também um activo miliante contestatário a tempo inteiro, razão por que, aliás, só veio a licenciar-se aí por 1980. Mas enquanto outros conservaram anacrónicas ideologias, ele conservou, felizmente, a atitude afrontadora do erro estabelecido, o gosto pelo povo, e o verdadeiro espírito científico.

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    1. Prezado Pinto de Sá: Saúdo, e agradeço, o seu reaparecimento em comentário a um novo “post” da minha autoria. Através dele, e porque a história é uma visita ao passado para compreendermos o presente e perspectivarmos o futuro, fiquei a conhecer as “fontes” de que jorram as águas pouco cristalinas ( de “novas pedagogias libertárias e contestatárias”) que influenciaram , e continuam a influenciar, alguns dos responsáveis pelo destino, ao mais alto nível, do ensino em Portugal. Atrevo-me até a pensar que o “Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos” tenha sido influenciado pelo desejo de uma “Universidade operária”.

      Quanto ao passado político de Nuno Crato (aliás, esse sim, do meu prévio conhecimento) só o honra por ter tido a clarividência (das pessoas inteligentes) , como escreve, e eu reproduzo, de “afrontar o erro estabelecido, o gosto pelo povo, e o verdadeiro espírito científico”. Sobre democracia e povo, permito-me citar Gustave Le Bon: “O verdadeiro progressodemocrático não baixar a elite ao nível dopovo, mas elevar o povo o nível da elite”!

      Cordialmente,

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  6. Lamentavelmente discordo do muito que aqui foi deixado pelo senhor professor Rui Baptista. Muito erros se fizeram ao longos destes anos de dita Democracia no nosso país no que toca à Educação. Quem os não comete? Mais se virmos que saímos de um longuíssimo período negro em que apenas alguns (poucos) terminavam o ensino básico que era, se bem se lembra, a 3ª classe para as raparigas e a 4ª classe para os rapazes. A taxa de analfabetismo era a mais elevada da Europa conforme era desejo do senhor residente do conselho graças a Deus. Quanto maior a ignorância, a pobreza e o paroquialismo mais facilmente ele podia dominar. Depois, em 30 anos tivemos de dar passos de gigante para nos tentarmos assemelhar à Europa que levava alguns cem anos de avanço em termos educacionais. O que queria o senhor professor e o "brilhante" e pragmático Nuno Crato? Se se caiu num certo facilitismo, como é moda e dá jeito agora dizer, foi porque os senhores professores (e eu fui-o durante 40 a tal anos!) de uma forma geral se esqueceram da sua missão que é levar a cabo o ato de ensino-aprendizagem e fazer o máximo pelos alunos. Por outro lado a escola passou a ser para todos e nem todos conseguem ou têm bases sócio familiares para saberem Literatura Portuguesa. O senhor Nuno Crato tem uma visão do ensino absolutamente académica do tipo professor do secundário (eu também o fui) e isso é de facto voltar à dicotomia de anátema fascizante do ensino técnico e do ensino liceal. os outros que nem sequer à porta dessa dicotomia conseguirem chegar - e há muitos - terão muitas ruas para varrer, muitas escadas para limpar e muita roupa para lavar no rio. Este é o pragmatismo do senhor Nuno Crato. «Abençoados sejam os humilhados que será deles o reino dos céus!»

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    1. Começa o comentário desta leitora por dizer que lamentavelmente discorda daquilo que eu escrevi. Peço-lhe, encarecidamente, que não lamente essa discordância comigo. É natural num país, em que, em resquícios revolucionários, como costumo dizer, e julgo que neste blogue o escrevi já em tempos, quem diz o que pensa é reaccionário, quem diz o que lhe manda o partido é progressista. Maneiras de ver o problema, portanto!

      Bem a propósito por terminar o seu comentário evocando o reino dos céus para os humilhados, em paráfrase forçada (como sabe a bem-aventurança desse reino é concedida aos pobres de espírito), em citação de memória, do Padre António Vieira: “Quando se olha com simpatia para o rato preto até o rato preto parece branco, quando se olha com antipatia para o cisne branco até o cisne branco parece preto”. Sem sombra de dúvida que o seu comentário denuncia a sua antipatia pelo Prof. Nuno Crato. Ora, simpatias e antipatias não se discutem…

      “Last but not least”, mas já se deve discutir o facto de nem só, como escreve, as vítimas do ensino “fascista” terem muitas ruas para varrer, muitas escadas para limpar e muita roupa para lavar no rio. Quantos licenciados (antes de Bolonha) não estão no desemprego, muitas vezes até, sem terem ruas para varrer, muitas escadas para limpar e muita roupa para lavar no rio? E não se veja, com isto, que eu considere menos dignas estas actividades. Só lamento que, hoje, “a educação, objecto de tanto palavrório, passe moeda falsa: promete o mundo e não dá saber e trabalho” (Vasco Pulido Valente)!

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    2. Nas 3.ª e 4.ª linhas do 1.º § do meu comentário anterior, em resposta à leitora Graça Sampaio, onde está "discordância comigo", retiro o "comigo".

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    3. Mas na Alemanha, ainda hoje, se separam os alunos para o ensino liceal e o ensino técnico. Assumir as diferenças entre as pessoas não significa ser-se fascista nem que os menos inteligentes vão para o ensino técnico. Conheço casos de pessoas autenticamente frustradas por terem sido obrigadas a fazer um ensino que não lhes servia.

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    4. Prezado "Xixo Mar": Obrigado pelo seu esclarecedor comentário que nos dá conta que "na Alemanha, ainda hoje, se separam os alunos para o ensino liceal e ensino técnico". Mas a Alemanha é um país atrasado no campo da tecnologia!...

      Em contrapartida, anos-luz à frente desse país germânico, atribuem-se, neste “país à beira-mar plantado”, diplomas do 12-º ano a quem sai do ensino secundário "normal" sem, sequer, um simples prego saber pregar em condições. Isto para já não falar das Novas Oportunidades que tiram operários das fábricas no sonho/pesadelo de um emprego de caneta que, por vezes, os lança para as garras férreas do desemprego. Enfim, sinais do tempo...

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    5. Xico Mar e Rui Baptista:
      Os vossos comentários fizeram lembrar-me de um que deixei há dias noutro blogue.
      Estava em causa a atribuição de culpas pelo fim do ensino técnico entre nós e as nefastas consequências de tal decisão.
      Contudo, e infelizmente, o debate acerca deste assunto (como de quase tudo o resto na nossa praça) peca por estar inquinado por duas razões: 1.ª - por falta de informação por parte de alguns interventores nas discussões; 2.ª - por paixão ideológica (de um lado e do outro prevalece uma visão maniqueísta que obscurece o debate. Às tantas já se está a léguas do assunto principal apenas a lançar flechas uns contra os outros em defesa de terceiros).
      Como diz o Xico Mar, a separação por capacidades, aptidões de tipo profissionalizante ou preferências pessoais dos alunos não é fascista (termo de todo anacrónico no debate de hoje), a forma como isso é feito é que pode ser inadequada. Como o era no nosso passado não muito longínquo, em que a separação se fazia por origem social / capacidades económicas apenas, chegando-se ao cúmulo de haver barreiras a quem quisesse prosseguir estudos mesmo que revelasse capacidades para tal. Os caminhos estavam demasiado traçados e com baias demasiado intransponíveis.
      Por sua vez o Rui Baptista compara a Alemanha com Portugal neste campo, realçando com alguma ironia as nossas fragilidades. Contudo, nós não nos podemos comparar com a Alemanha em nada, muito menos no campo educativo em que o nosso passivo transporta uma «décalage» de um século.
      Deixo-vos com o essencial do comentário que referi inicialmente.

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    6. (continuação)
      «O funeral [do ensino técnico] foi, de facto, feito pelo Decreto-Lei n.º 80/78, mas o «morto» já vinha morrendo desde há muito tempo: 1967 – a criação do CPES (Ciclo Preparatório do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 47.480, de 02/01/1967) unifica o 1.º Ciclo do Ensino Liceal com o Ciclo Preparatório do Ensino Técnico; a Lei n.º 6/73 - vulgo Reforma Veiga Simão, permite, a partir de 1973, e num número significativo de escolas por todo o país, a experiência do 7.º e 8.º anos unificados, que se generaliza a partir de 1975/76. Pelo meio, e antes de 1974, regulada por Circulares, houve a criação dos novos Cursos Complementares, quer do Ensino Liceal, quer do Ensino Técnico (permitindo que estes, pela primeira vez, dessem acesso à Universidade.
      Moral da história: o ensino técnico tornara-se obsoleto a partir de meados dos anos 60, não correspondia às necessidades de um país que, a um lado se industrializava em novas áreas a que aqueles cursos não davam resposta, a outro lado a guerra e a emigração fizeram rarear a mão-de-obra que passou a ser muito melhor paga, o que cativava os filhos dos operários para o mercado de trabalho directamente sem passarem pelas escolas técnicas (a muitos servia-lhe os novos cursos dos Centros de Formação Profissional, mais curtos e mais directos para a formação profissional).
      As escolas técnicas foram perdendo cada vez mais alunos, quer por este efeito que descrevi, quer pela crescente procura dos liceus por parte dos filhos de camadas cada vez mais vastas da classe média baixa e dos novos operários especializados (Lisnave, Cuf, etc. etc.)
      Portanto, o ensino técnico não foi capaz de se modernizar e corresponder às necessidades do país a partir de meados dos anos 60, morreu de «morte natural», não foi morto pela Revolução de 1974 como hoje se diz, ou por ignorância ou por razões político-ideológicas.
      O período de perturbação social pós-revolucionário apenas serviu para aprofundar a agonia e prosseguir mais rapidamente um rumo bem determinado que vinha de longe.
      Outra coisa é considerar-se que o país se deveria ter munido de um ensino técnico-profissional adequado, mas houve tanta coisa que não fomos capazes de fazer.
      Nós sempre tivemos grande propensão para a construção retórica da Educação, o que se prova por abundantes reformas e outra produção legislativa complementar e por fracos resultados que nos colocaram 50 anos atrás dos piores países da Europa (Espanha e Itália) e 100 anos atrás dos países da Europa Central e do Norte.
      Veja só um indicador importante mas muito significativo: a República Checa instituiu a escolaridade obrigatória universal em 1776, nós apenas em 1956 para os rapazes (Decreto-Lei n.º 40.964, de 31/12/1956) e 1960 para as raparigas (Decreto-Lei n.º 42.994, de 28/05/1960).»

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  7. Prezado Joaquim Ildefonso Dias: Em vários comentários meus que fui deixando nos diversos post’s em que os seus leitores com os seus comentários me têm honrado , quer discordando deles ou com eles concordando, tenho afirmado que muito proveito deles colho.

    Mais do que isso, é minha convicção, também ela tornada pública, e que ora reforço, que esses comentário muito me ajudam a perspectivar a complexa problemática do ensino, em constante mutação, e nem sempre coadjuvado por perspectivas dos cientista que se dedicam ao seu estudo ficando à mercê de teorias pedagógicas, um tanto ou quanto, ao gosto de quem as debita. Resulta daqui que simples opiniões de quem tem ocupado os cadeirões da 5 de Outubro nos últimos anos, se tornam em linhas de actuação, ou mesmo dogmas, que em nada contribuem para o seu êxito.

    Para complicar, ainda mais, o que, já por si, é complexo, a educação tem-se tornado em arma de arremesso político. A deputada do Bloco de Esquerda, Ana Drago, por exemplo, sacudindo a água do capote das asneiras que se fizeram num passado recente e se continuam a fazer na actualidade, não hesita mesmo em declarar publicamente que o ministro Nuno Crato quer voltar a antes de 25 de Abril! Quanto a mim, o sistema educativo do passado não deve servir de desculpa para os erros da educação dos nossos dias. Aliás, como escreveu Paul Ricoer, “a história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico”.

    Gostaria, todavia, de tecer algumas considerações em assunto em discordamos: a questão dos exames. Claro que quando se fala de exames deve estabelecer-se a diferença naquilo em que eles possam ter de mau e naquilo que possam ter de bom. Com isto, e para abreviar razões que mais competem às (verdadeiras) Ciências de Educação estudar e apresentar soluções (que não sejam simples receitas a aplicar em todas as circunstâncias) que nos afastem do exigente exame da antiga 4.º classe do ensino primário mas que, por outro lado, não nos aproximem da tentação em defender um ensino que não ensina permitindo que aluno não consiga resolver certos problemas de matemática, mesmo os mais elementares, pela simples razão de não compreenderem o simples enunciado. Ou que permitam que o adolescente (ressalvando o exagero) em cada duas palavras dê um erro ortográfico pelo rebaixamento do nível do ensino do ensino básico a proporções verdadeiramente desastrosas em que o acesso ao 2.º ciclo do básico é concedido, qual maná caído do céu, a quem mal sabe ler, escrever e contar.

    A terminar, com aplauso meu, em todos os seus comentários encontro uma grande admiração pelos professores Bento de Jesus Caraça e Sebastião e Silva. E permita-me que o confesse, embora pouco conhecedor das respectivas doutrinas em defesa de um ensino digno e dignificante, sofri a influência desse salutar contágio de que me permito retranscrever esta sua citação de Sebastião e Silva: “Ensino idêntico para todos, é um principio talvez muito cómodo para o professor; mas, para bem de todos, há que substituí-lo por este outro; ensino que favoreça, tanto quanto possível, as aptidões de cada um”. Pelo que tenho lido, julgo ser este o princípio defendido por Nuno Crato em oposição a um ensino que atrasa os alunos mais capazes e nada acrescenta ao ensino dos menos capazes.

    Cordialmente,

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  8. Não me parece que tivesse sido possível massificar o acesso ao ensino evitando as doenças de crescimente que toda a massificação implica.

    Com a Justiça aconteceu o mesmo...

    Os treinadores de bancada são sempre muito bons, mas só depois do jogo acabar...

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    1. O seu comentário é uma simples opinião que está certa, só em parte, por sofrer do vício de ter sido encarado o crescimento do nível cultural e científico da população escolar sem ter em conta um nível compatível pela atribuição de diplomas em saldo e a granel.

      Por via disso, razão assiste a Medina Carreira quando se refere à "pazada de ignorantes" que, mais do que o bom senso devia consentir, saem, em catadupa, das nossas escolas e Centros de Novas Oportunidades.

      Quanto aos treinadores de bancada, por ser uma opinião do género de pontapé na bola, sem qualquer comentário!

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  9. Esperava mudanças, queria exigência, mas tudo isto me cheira a bafio!
    No meu tempo era-se reprovado e muitos ficavam pela a escola, ano após ano ... e hoje , isso poderá voltar a acontecer? Será mesmo viável? Acreditam?

    Ivone Melo

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    1. Começo por lhe agradecer o seu comentário. Todavia, "in dubio", perante o seu inicial paragráfo (citando-a: "esperava mudanças, queria exigência, mas tudo isto me cheira a bafio"), gostaria de ser informado a quem se referia: a si própria, à minha pessoa ou a terceiros?

      Resolvida esta questão, ficam por resolver as três suas perguntas sequenciais. Deduzo (bem ou mal) que se esteja a referir a tempos do Estado Novo. Como deve estar lembrada, o “tempo não volta para trás”, como prova a proibição da passagem da canção de António Mourão nas rádios portuguesas. Para além disso, a mesma água não passa duas vezes por debaixo da mesma ponte…

      O regresso ao fascismo, seja mesmo ao social-fascismo não será, felizmente, possível. Como escreveu Sophia de Mello Breyner, “acho que não se pode criar em nome do antifascismo um novo fascismo” (“correspondência”, Guerra e Paz, editores, pp. 35 e 36). Um antifascismo que continue a destruir as coisas boas do ensino de antigamente para que das suas cinzas renasçam verdadeiros disparates científicos e pedagógicos . E, muito menos, que continuem a renascer como cogumelos em terreno húmido da ignorância!

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    2. Prezado Rui Baptista: referia-me , evidentemente, às medidas do MEC. Quanto à impossibilidade de retorno ao fascismo , isso não me está a parecer improvável, e pior, estamos é a recuar ao feudalismo.

      Ivone Melo

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  10. Caro José Fontes: Grato pelo seu comentário e profusão documental que o acompanha só ao alcance de técnicos envolvido nas teias prolixas de textos legislativos.

    Posto esta introdução, tenho escrito, várias vezes, julgo sem ser de “pena ao vento”, como diria Eça, e muito menos sem me atormentar a consciência, textos a favor do antigo ensino técnico, embora possa conceder que, por vezes, com “razões do coração que a razão desconhece” (Blasé Pascal).

    Todavia, e ao contrário da impossibilidade que descreveu, já na década de 50, tempo em que leccionei numa escola industrial de Lourenço Marques, ambas de gratas e saudosas recordações, o acesso à universidade era permitido aos seus diplomados, embora agravado por mais anos de estudo, mas com a vantagem de dar acesso directo ao emprego decorridos nove anos.. Assim, enquanto que para os alunos oriundos do ensino liceal bastavam 11 anos de escolaridade (4 de primária e sete de liceu) para os alunos saídos do ensino técnico esse percurso exigia mais dois anos de estudo (4 de primária, 5 de curso geral do ensino técnico, 2 de curso complementar do mesmo ensino e 2 dos antigos Institutos Industriais, num total 13 anos).

    O mesmo sucedia, relativamente ao ensino técnico comercial que deu acesso ao actual Presidente da República Portuguesa ao antigo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade Técnica de Lisboa onde se licenciou vindo a doutorar-se, posteriormente, em Inglaterra. Repare-se, até, que diplomados pelas antigas escolas comerciais são hoje técnicos oficiais de contas em paridade profissional com licenciados universitários em Economia ou Gestão, integrados todos na actual Ordem de Técnicos Oficiais de Contas. Salvo erro ( erro por mim prontamente corrigido se não corresponder à verdade dos factos), o próprio bastonário da referida ordem jugo não possuir estudos superiores.

    Sem esses cursos técnicos industriais, que constituíam e espinha dorsal da mão de obra nacional, assiste-se, hoje, a pessoal não especializado a serem comandados por cérebros (por vezes, cérebros de galinha!) saídos de umas tantas universidades de duvidosa qualidade fazendo com que a industria nacional (pese embora o valor indiscutível de uns tantos verdadeiros autodidactas) se apresente como um corpo social e económico paraplégico. Em nome, por vezes, de uma sociedade sem classes criou-se uma sociedade ainda mais elitista, como se o antigo ensino técnico fosse para pobres ou, pior do que isso, para alunos destituídos de "massa cinzenta", lançando hoje para o desemprego muitos jovens que abandonam estudos universitários devido à actual crise económica, falta de capacidade para tanto ou desengano por um ensino cada vez mais degradado (por obedecer a um facilitismo inqualificável que leva ao acesso à universidade, em igualdade ou mesmo superioridade de condições, em obediência a medidas da respectiva sobrevivência económica, v.g., através das Provas de Acesso para maiores de 23 anos). Toda a moeda tem reverso e anverso. Como escrevia (em espanhol), tempos atrás, o professor Fernando Pádua (cito de memória) a visão dos problemas depende do cristal com que se miram.

    O cristal com que encarou alguns dos problemas do ensino liceal “versus” ensino técnico (quanto a mim com exageradas citações de âmbito legislativo que me trouxeram à memória o deputado do PS, Almeida Santos, quando anos atrás escreveu que muitas leis, depois de 25 de Abril, chumbavam no exame da antiga 4.ª classe,) no que tange ao acesso à universidade, não podem, e muito menos devem, ser desvalorizados pela minha discordância pontual com alguns dos seus pontos de vista. Seria demasiada estultícia da minha parte. Ou mesmo descarado atrevimento.

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  11. Rui Baptista:
    Num tempo em que tanto se «palpita» (se dão tantos palpites), desconhecendo-se por vezes completamente aquilo de que se fala, nunca é demais a precisão que os documentos atestam, sejam leis ou outros.
    E as minhas referências não foram citadas para o De Rerum mas para outro blogue, como referi, onde fazia todo o sentido aquela precisão. O meu contendor afirmava que o ensino técnico fora morto pela Revolução, o que é falso: já tinha morrido, não tinha era sido enterrado. A fúria revolucionária apenas bateu palmas no seu enterro e, como havia uma concepção falsamente igualitária, foi incapaz de criar outro ajustado às necessidades e não absurdamente discriminatório à partida como o anterior. O reconhecimento desta «absurdidade» confirma-o o meu caro com a exigência de mais 2 anos de estudo e confirmam-no os novos cursos complementares equivalentes aos do liceu para acesso DIRECTO ao ensino superior de quem o quisesse e tivesse capacidade. Se essa alteração se não tivesse dado a debandada ainda tinha sido pior. Não se esqueça que por um lado havia o chamamento do mercado, mesmo sem curso técnico, por outro havia o apelo ao curso superior (sempre tivemos a mania da doutorice), por fim havia ainda o estigma de um ensino de 2.ª que era sentido por muita gente.
    (continua)

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  12. (continuação)
    Quanto à validade do ensino técnico, nada a obstar da minha parte enquanto correspondeu às necessidades para que fora criado (reformulado, melhor, refundado em 1947 por Pires de Lima), o pior foi o anacronismo em que se deixou cair. Eu, nos inícios da década de 70, dei aulas a Cursos de Formação de Montadores Electricistas e a Complementares de Electrotecnia em turmas de 6 e 7 alunos numa escola onde estive alguns anos, que tinha uma forte componente têxtil, numa zona de predominância daquela actividade industrial. Ora, os cursos têxteis nem sequer tinham alunos, os mestres, por exemplo, que não podiam ser reconvertidos para leccionar outras matérias, passavam os dias na escola a limpar o pó e a olear os teares, dobadouras, cardadeiras, etc. Os industriais não queriam saber da escola nem dos poucos alunos que de lá saíram, preferiam a mão-de-obra indiferenciada ou os técnicos formados noutras instâncias, incluindo as suas próprias fábricas.
    De salientar ainda que, do ponto de vista tecnológico, toda a técnica e tecnologia das escolas estava obsoleta, o investimento na Educação (até pela força da guerra que gastava 43% do OGE) foi irrisório durante anos. O panorama era o de liceus sobrelotados, escolas técnicas com equipamentos «pré-históricos», novas escolas preparatórias em edifícios pré-fabricados de Tabopan.
    Como é evidente, o que deveria ter sido feito era uma diversificação dos cursos com uma componente de formação nuclear comum e curta e uma componente técnica diversificada, mas em completo pé de igualdade com os cursos dos liceus (tal como estes de diferenciavam através das alíneas vocacionadas para cada curso superior); mas em devido tempo e articulado com as novas necessidades da industrialização do país a partir da década de 60. Portanto, com qualidade, exigência e meios adequados. Nada disto houve, infelizmente.

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    1. Prezado José Fontes: Obrigado pelo seu esclarecedor comentário. Dele começo por realçar o facto da nossa experiência docente nas antigas (e extintas) escolas do ensino técnico ter sido bastante diferente. E, logicamente, experiências diferentes conduzem a conclusões diferentes, para mais, se vivenciadas em épocas diferentes (eu no findar dos anos 50 até inícios da década de 70, e o meu caro José Fontes na década de 70, sem precisar se antes ou depois de 25 de Abril).

      No meu tempo de docência no ensino técnico ( quando escrevo no meu tempo, lembro-me sempre da simpática velhinha que em anúncio televisivo dizia que no tempo dela um quilo de arroz custava, salvo erro, dois escudos e cinquenta centavos!) era ele realizado em escolas específicas, com um corpo docente diferenciado para matérias humanísticas ( v.g., Português, Filosofia – esta tão maltratada recentemente ) e matérias técnicas a cargo de economista e licenciados em direito, no caso do ensino comercial, e de engenheiros, arquitectos e escultores, para o ensino industrial. Era este grupo de professores coadjuvados pelos chamados mestres de oficina, recrutados de entre diplomados de escolas técnicas ( serralharia, electricidade, carpintaria, mecânica, etc., nas escolas industriais) e de caligrafia, dactilografia, estenografia (nas escolas comerciais) , com um acrescido “saber de experiência feito”. Mestres esses que em cursos de “conserto rápido” (como escreveu, num país de “doutorice”), em décadas recentes, adquiriram a equivalência a um bacharelato, por vezes, com trabalhos feitos por licenciados universitários, quando não mesmo uma licenciatura em escolas de vão de escada de ensino privado.

      Nesse meu tempo (que, no meu comentário anterior, eu tive - e continuo a ter - como saudoso) as oficinas de aulas práticas (serralharia, electricidade, mecânica, etc.) estavam devidamente equipadas. Se quisermos encontrar exemplos em Portugal de oficinas bem apetrechadas elas não faltarão em Lisboa, Porto e Coimbra ( Coimbra, na Escola Técnica Avelar Brotero, do meu conhecimento, embora nesta cidade passasse a leccionar no ensino liceal e na Universidade de Coimbra ).

      (Continua)

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    2. Hoje, tenta-se fazer renascer esse ensino prático inundando os alunos com teoria em salas de aulas em que se misturam os ensinos “liceal” e “técnico”, independentemente das respectivas aptidões e vocações ou em não seguirem cursos do ensino superior que deixaram de ser um abre-te Sésamo para o difícil mercado de trabalho. E isto em contraponto com um respeitado filósofo e pensador, Agostinho da Silva (1906-1996), quando defendeu. “A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade”. Desta forma atamancada, em combate ao “elitismo” (como se as elites fossem uma espécie de praga de gafanhotos a combater em todas e quaisquer circunstâncias ) e, muitas vezes, por conveniência em ocultar anacronismos políticos, mesmo depois de “no relógio do comunismo já terem soado as últimas badaladas” (Soljenitsin), teima-se “teimosamente” em manter a maior das ditaduras: a ditadura da incompetência. Desta forma, quis tornar-se duas coisas diferentes iguais que encontrou terreno fértil no ensino superior politécnico criado inicialmente para prover de ensino superior cidades sem ensino universitário (mas que logo se implantou em Coimbra, Lisboa e Porto!) e para ministrar, apenas, cursos de ensino superior curto para logo se partir na conquista (perante a passividade ou “nacional porreirismo” dos próprios claustros universitários) de bacharelatos ,depois de licenciaturas e mestrados com uma pressão constante sobre os poderes públicos para outorgar doutoramentos. Trata-se ele de um ensino em que se pretende o melhor do ensino universitário sem cumprir as respectivas exigências num princípio amoral que eu costumo classificar como os deveres para os outros e os direitos para mim. E com isso não se cria um “esprit de corps”“ entre os alunos do politécnico, apenas a tentativa, “à outrance”, de imitação constante, persistente e sem tréguas com o ensino universitário.

      Mas porque o sistema de ensino, por se tratar de um fenómeno social relevante, não deve ser desinserido do país em que decorre , devendo, como tal, ser estudado e perspectivado no respectivo contexto social e tempos actuais (em que às costas largas do Estado Novo e da Revolução de Abril são assacadas todas culpas do que de mau acontece ainda hoje ), trago à colação a voz autorizada e respeitado do sociólogo e académico António Barreto, quando escreveu escassos anos atrás: “Perdemos com a revolução e a contra-revolução. Perdemos também com três década de facilidade e demagogia”.

      Cordialmente,

      P.S.: Mais do que uma vez me tenho utilizado da letra de uma canção de Rui Veloso (cito de memória): é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. Faço-o novamente por me atrever a julgar que os nossos textos têm pontos de contacto só se afastando pelos caminhos por nós percorridos respeitando princípios de civilidade e em que se defrontam (e não se confrontam) maneiras de pensar pessoais.

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  13. Rui Baptista:
    De facto, não se contradizem, a sua experiência corresponde à realidade da pujança do ensino técnico na década de 50 (a importante reforma (re)fundadora de Pires de Lima havia ocorrido em 1947), o qual representava uma mais-valia técnica e tecnológica numa sociedade rural que dava os primeiros passos na industrialização, sob a influência de um homem marcante, o Eng.º Ferreira Dias, o grande impulsionador da electrificação e da industrialização do país, que foi ministro da Economia entre os anos de 1958 e 1962.
    A minha experiência decorre desde o início da década de 70 e vai até um pouco antes do «funeral» do ensino técnico, até 1977. Corresponde à realidade do declínio deste ensino, atestado hoje em variadas teses académicas e outros escritos sérios e válidos de análise.
    Pena é que não haja uma obra global, de fundo, factual (quem, onde e como) para o ensino técnico, escola a escola, como foi feito para o liceal em “Liceus de Portugal”: Histórias, Arquivos, Memórias, obra coordenada por António Nóvoa e publicada em 2003 pela ASA, que inventaria todos os liceus criados desde 1836 (o decreto fundador de Passos Manuel) até à década de 50 (os criados depois não tinham história significativa, apenas 28 anos de existência formal). Penso que conhecerá.
    A colecção das várias histórias particulares acaba por identificar o que há de geral em cada um deles e as tendências globais da evolução deste subsistema de ensino ao longo do tempo.
    Cada um e todos acabam por se rever nas histórias particulares de cada momento em cada escola e o conjunto da obra, mais os textos introdutórios iniciais, pela mão de 3 especialistas, dão-nos o retrato das evoluções período a período, as fraquezas que se replicavam nos vários liceus, os pontos fortes e o papel imprescindível que os liceus desempenharam na formação das elites do país.
    Era bom que surgisse algo parecido para o ensino técnico.

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    1. Caro José Fontes: "Histórias particulares", relacionadas com diversas escolas técnicas, seriam deveras enriquecidas com o testemunho de seus antigos alunos que, porventura, tenham lido os nossos comentários ou que deles tenham conhecimento por interpostas pessoas.

      Sem entrar pelo caminho de generalizações sempre perigosas, eu posso acrescentar o clima de respeito e provas de amizade criados, mantidos e reforçados com a passagem dos anos, entre docentes e discentes da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, de Lourenço Marque, mantido ao longo dos anos, em provas que me chegam quase diariamente por mail’s, e através de contactos pessoais em almoços de confraternização anuais que realizam e para os quais sou convidado.

      Nessas alturas, não tantas como desejaria por impedimentos pessoais meus, testemunho o orgulho que sentem pela escola que os formou e os preparou para empregos que a sua competência justifica plenamente.

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    2. Joaquim Manuel Ildefonso Dias1 de abril de 2012 às 02:12

      Ex.mo Sr. Professor José Fontes;

      É preciso não confundir cultura com civilização. Tenha isso sempre em atenção; e desculpe-me a franqueza das minhas palavras.

      Cordialmente,

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  14. Joaquim Manuel Ildefonso Dias1 de abril de 2012 às 11:23

    Ex.mo Sr. Professor José Fontes;

    O que nós necessitamos é de um ensino que eleve o nível cultural do país, e que ao mesmo tempo nos liberte da "praga de gente culta" aquela a que se referia Nietzsche.

    Não invejemos por isso o povo Americano ou outro, que do ponto de vista civilizacional é evoluído mas culturalmente ainda muito atrasado.
    E dou-lhe um exemplo: eles são de facto muito avançados em medicina, mais do que nós, mas morrem pessoas à porta dos hospitais sem qualquer tratamento, pois não têm seguro... quer melhor exemplo de incultura.

    Rejeitemos um ensino técnico, se ele não tem por objetivo o elevar o nível cultural de todos.

    Cordialmente,

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  15. Joaquim Manuel Ildefonso Dias1 de abril de 2012 às 13:46

    Ex.mo Sr. Professor José Fontes;

    Eu entendo que existem grandes inconvenientes num ensino generalizado do tipo técnico ou profissional; é um tipo de ensino demasiado estreito para a elevação do nível cultural.

    Vou citar o Professor Abel Salazar para melhor dar o meu ponto de vista;

    “A cultura é uma soma de conhecimentos; mas não é só isto. É ainda e sobretudo uma progressiva consciencialização do homem em função de um progresso mental, e da sua ética intelectual. Nada é, em suma, a cultura, quando apenas reduzida à soma de conhecimentos, e é uma praga quando esta soma se junta a verbosidade fácil, e a irreflexão inconsciente.”


    Cordialmente,

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    1. Joaquim Manuel Ildefonso Dias:
      Os problemas que põe são de outra natureza e levariam igualmente a longa discussão.
      Quanto aos textos e autores fundamentais que cita, devemos ter sempre em conta a contextualização histórica desses escritos.
      Nas questões descritivas é uma coisa, nas conceptuais é outra.

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  16. A contestação aos futuros exames nacionais para o 4ºano, é para mim incompreensível.As nossas crianças devem desde cedo, sentir-se responsáveis e ser capazes de ultrapassar as dificuldades (à sua medida). Os que o conseguirem, sentir-se-ão motivados para novos desafios e os outros consciencializar-se-ão de que terão que se esforçar mais.Vencer barreiras é estimulante.
    As crianças de agora não são menos capazes do que as da minha geração.
    Recordo-me bem, que depois der ter feito o exame da 4ª classe em Nacala (Moçambique),fiz(eu e outros)uma longa viagem de comboio a vapor,com muitas paragens para reabastecimento de lenha que estava empilhada em pontos estratégicos ao longo da linha até Nampula,onde nos dois dias seguintes fizemos exame de admissão ao liceu e escola técnica.
    Claro que sentimos pressão, foi muito exame junto para crianças tão pequenas,mas faz parte da aprendizagem.
    Passei aos dois exames e optei pela escola industrial.
    O curso industrial ,o 1º ano da secção preparatória p/o Instituto Industrial e as provas práticas, após um ano de estágio nos C.F.M. ,foram feitos na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque em Lourenço Marques.
    O professor José Fontes não conheceu o ensino técnico do meu tempo e do professor Rui Baptista e fico com a sensação de que também não conheceu os currículos de então,o que é compreensível.
    Formaram-se na EIMA muitos técnicos que foram de grande valia no desenvolvimento de Moçambique.
    Estou convicto que com currículos actualizados,os cursos técnicos serão uma mais valia para todos.

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  17. Caro Adolfo Figueiredo:
    Disse:
    «O professor José Fontes não conheceu o ensino técnico do meu tempo».
    Peço-lhe que não seja injusto. De facto, não conheci por experiência própria, estudei no liceu, mas nem sempre essa é a única maneira válida de conhecimento. Senão, como poderiam os historiadores fazer História de épocas não vividas por eles?
    Se é certo que jamais podemos menosprezar as memórias pessoais, que hoje são uma fonte histórica importantíssima, por nos darem uma dimensão vivencial de determinadas realidades históricas passadas, completamente a par das fontes escritas em valor, por exemplo, não é menos certo que para o tratamento dessas fontes orais há hoje técnicas históricas hermenêuticas bem desenvolvidas para obstar que elas «não falem completamente verdade», não por qualquer intenção menos honesta mas pelo processo natural de selecção que os humanos têm de recordar o melhor do passado, «endeusar» o passado. E ainda bem que o fazem, como forma de esquecer as coisas menos boas e valorizar as vivências positivas que os fizeram ser o que são, que ajudaram a construir a sua personalidade; a evocação permanente da colecção de vivências menos positivas (que há em todas as vidas) tornavam as nossas vidas um verdadeiro inferno.
    Há, portanto, algum risco real na evocação de memórias para compreender o passado, embora essas memórias sejam imprescindíveis.
    Mas nada disto desdiz o seu testemunho, nada disto desvaloriza o ensino técnico do seu apogeu, década de 50 e 1.ª metade da de 60.
    Eu próprio afirmei em dois momentos diferentes do profícuo diálogo com Rui Baptista:
    (continua)

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  18. (continuação)
    1.º - «Quanto à validade do ensino técnico, nada a obstar da minha parte enquanto correspondeu às necessidades para que fora criado (reformulado, melhor, refundado em 1947 por Pires de Lima), o pior foi o anacronismo em que se deixou cair.»
    2.º - «De facto, não se contradizem [os nossos depoimentos], a sua experiência corresponde à realidade da pujança do ensino técnico na década de 50 (a importante reforma (re)fundadora de Pires de Lima havia ocorrido em 1947), o qual representava uma mais-valia técnica e tecnológica numa sociedade rural que dava os primeiros passos na industrialização, sob a influência de um homem marcante, o Eng.º Ferreira Dias, o grande impulsionador da electrificação e da industrialização do país, que foi ministro da Economia entre os anos de 1958 e 1962.
    A minha experiência decorre desde o início da década de 70 e vai até um pouco antes do «funeral» do ensino técnico, até 1977. Corresponde à realidade do declínio deste ensino, atestado hoje em variadas teses académicas e outros escritos sérios e válidos de análise.»
    Como pode ver, nada disse contra o ensino técnico que nos deu o que de bom tantos reconhecem durante o período das suas boas memórias e das de Rui Baptista.
    Tal como deu noutros períodos desde a criação das suas percursoras, as Escolas Industriais e de Desenho Industrial, no longínquo ano de 1884, pela mão de António Augusto de Aguiar, Emídio Navarro e Eduardo José Coelho; isto para não recuarmos à ainda mais percursora acção do Marquês de Pombal nesta matéria, o que seria ir longe demais.
    Mas como tudo na vida, há altos e baixos, períodos muito bons e outros menos bons.
    Não reconhecer isto, que é um princípio tão presente em tudo nas nossas vidas, não me parece muito razoável.

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  19. Adolfo Figueiredo:
    Para que não pense que falo do ensino técnico com despeito, digo-lhe que me iniciei e passei os primeiros anos da profissão nesse ensino, numa escola de província de uma importante região têxtil, anos de que guardo as melhores recordações do ponto de vista pessoal e profissional.
    Os alunos eram adoráveis, nem réstia dos problemas com que as escolas e os professores se confrontam hoje. Mas as minhas memórias valem o que valem, não são toda a história.
    É inegável que as coisas estavam em decrescendo naquela época, apesar de a escola se situar numa cidade com importância e numa zona industrial têxtil as turmas tinham apenas 7, 8, 10 alunos nos cursos industriais de electricidade e de mecânica, nos têxteis pura e simplesmente não havia um único, apenas os comerciais estavam relativamente compostos (a vaga de instalação de novas empresas nos anos sessenta e o desenvolvimento do turismo, que fizeram crescer a economia a taxas de invejar hoje, requisitavam as profissões comerciais, quase exclusivamente femininas, necessidade a que a escola dava resposta); declínio este que fazia muita pena nos professores, especialmente os mais velhos, que tinham outras memórias.
    Quando referi a importância do ensino técnico na década de 50, p. ex., foi igualmente na transição da década de 40 para a de 50 e ainda um pouco pela de 60 que também neste ensino houve os grandes professores, as grandes referências de metodólogos (quando falamos desta categoria vem logo à memória Rómulo de Carvalho, nos liceus, mas houve no ensino técnico os metodólogos de Português Virgílio Couto, Virgínia Mota, Irondino Teixeira de Aguilar (entre tantos outros) que não lhe ficaram atrás, e professores famosos como Sebastião da Gama (estagiário de Virgílio Couto).
    Como vê, uma coisa bate certa com a outra, depois dessa época desapareceram estas grandes figuras, nos finais de 60 e na década de 70 já havia muito menos disto.

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