sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"A obrigação dos professores é ensinar"

A leitura do texto de Carlos Fiolhais Investigação: a construção do saber, que incide na função primordial do professor universitário, fez-me procurar, e felizmente encontrar, um artigo de Manuel F. Canaveira publicado em 1998, na revista Ler. Ainda que tenham passados doze anos, o retrato que faz do lugar e do sentido do ensino na universidade mantém sua actualidade. Ou, ter-se-á agravado?

“Os políticos não precisam de conhecer as razões por que a universidade portuguesa está caduca e necessita de urgente reforma, conforme eles próprios têm afirmado nos últimos cento e cinquenta anos. No fundo, foram eles que, com a sua proverbial demagogia, criaram o imbróglio quando convenceram a pequena burguesia oitocentista e a chamada classe média do pós-guerra de que era preciso «tirar um curso» e ser doutor para subir na vida.

Já meu pai, em meados do século dos anos sessenta, nos colocava, a mim e ao meu irmão — dois adolescentes ainda imberbes —, perante a seguinte «alternativa»: “Ou tiras o «canudo», ou serás marçano na mercearia cá do bairro”. Graças a Deus licenciei-me, até porque a dita venda faliu quando Lisboa ficou cercada de hipermercados. Hoje está tudo muito mais sofisticado: os pais, padrinhos, ou quem quer que seja, quando o jovem atinge o décimo ano (…) avisam-no logo: vê lá se consegues a média necessária para entrares no Ensino Superior; tira o curso (seja ele qual for; de preferência o mais curto e que aches mais fácil) e deixa o resto por minha conta, que eu arranjo-te emprego na minha empresa, na banca, nos seguros ou noutro sítio qualquer; onde possa mostrar, urbi et orbi, que és um doutor a sério.

Os «meninos» levam os adultos a sério e, quando transpõem o umbral da faculdade, pública, privada ou católica (tenho a impressão que eles nem se importavam que fosse protestante, budista ou xintoísta, desde que fosse universidade), dizem para com os seus botões: “Estou quase safo, e se vencer este primeiro e último obstáculo, o «fulano» de tal mete uma cunha onde quer que seja para eu ter um ordenado de largas centenas, carro topo de gama, telemóvel e tudo o mais que um jovem de sucesso deve possuir neste final de milénio. Se o «fulano» não conseguir, o «sicrano» ou o «beltrano» resolvem o problema.”

Confiantes, sentam-se nos anfiteatros, e surge um sujeito com idade do irmão mais velho (o assistente estagiário), do pai (o assistente), do avô (o doutorado) ou do falecido bisavô (o catedrático) e faz-lhes uma pergunta estranha, senão mesmo idiota: escolheram esta licenciatura porque gostam desta área do saber? Possuem qualificações científicas para frequentarem este curso, ou seja, para dar um exemplo concreto, sabem matemática para estudar engenharia? Que pergunta tão descabida.

Então por demais evidente que as faculdades são uma instituição de ensino? Nesse caso, a obrigação dos professores é ensinar, pois é para isso que a sociedade lhes paga os ordenados que eles recebem ao fim do mês. Além do mais, se já soubessem matemática não precisavam de frequentar a Faculdade de Ciências ou Técnico.

Passa-se todo o ano lectivo neste «diálogo» de surdos. Os docentes universitários lançam as mãos à cabeça e, nas «conversas de gabinete», vão dizendo que «isto» [o estado das coisas] está cada vez pior; «eles» [os alunos] não ligam nenhuma, não sabem peva. Os discentes, cientes de que a universidade é uma «passagem para a outra margem», aborrecida mas necessária, vão criticando as «abstrusas» matérias que lhes impingem e, no caso de haver manifestação contra as propinas, logo procuram os repórteres (de preferência os da SIC) para declarar solenemente que tudo o que lhes ensinam não serve para nada na vida activa. Se os estatutos da vetusta instituição universitária (por definição, antidemoráticos) lhes permitissem opinar em questões de índole científica, tudo mudava (para melhor obviamente), em vez de estudarem Filosofia Medieval, analisariam «em profundidade» o fenómeno mediático que foi a vida e morte da Princesa de Gales (vejam lá que os professores universitários até pronunciam «túnel de Alm[à]», quando as sumidades do Jornal da Noite da televisão dizem «túnel da Alma»).

Por vezes interpelam os professores e mostram-lhe um recorte de jornal onde, pela enésima vez, alguém do jet-set dos mass media, com suma sapiência — se assim não fosse não seria jornalista —, delapida a decrépita universidade portuguesa e apostrofa os lentes retrógrados e madraços que nela vegetam. Há dias mostraram-me um desses artiguinhos iluminados intitulado «Os Intelectuais Hoje» (Diário de Notícias, 22/8/98); o articulista (Emídio Rangel), aludindo a uma comunicação proferida pelo ilustre catedrático Santos Juliá no curso de Verão deste ano organizado pela Universidade Internacional Menéndez Pelayo (Santander), proclama com imenso júbilo (é sempre agradável que um ídolo do foro respalde as nossas ideias e preconceitos) que já hoje — e no futuro ainda mais — a senil intelectualidade lusitana vai ter de aceitar, a bem ou a mal, que morreu o intelectual oitocentista «detentor do saber absoluto e que o terreno dessa casta foi invadido por pessoas com as mais variadas formações, que não abdica de participar na discussão pública».

Para usufruírem deste seu direito inalienável, a novíssima intelligentsia nacional escolheu a televisão, essa margem tecnológica que, «a par de outros meios, fez acelerar a difusão da informação lato sensu e universalizou e democratizou a cultura». Impante, o empenho intelectual do segundo milénio declara: «Por muito que custe aos pseudo-intelectuais que fazem cruzadas contra a televisão em Portugal, este dado é já incontroverso.» Como é obvio, a esmagadora maioria dos universitários portugueses — esses ratos de biblioteca que persistem em preferir o livro e a imprensa séria à televisão e às revistas da moda a ela associadas — fazem parte desses pseudo-intelectuais que teimosamente «vivem numa lógica autista e agarrados a modelos e visões desadequadas e anacrónicos».

Palavras eloquentes e corajosas, sem dúvida, mas os efeitos perniciosos que têm a nível universitário são indesmentíveis.

Delas decorre que vivemos no reino das opiniões; cada um tem a sua (quem não tem nenhuma é um looser), e todas são respeitáveis. O docente universitário faz uma afirmação e sustenta-a em termos científicos mas, de súbito, o aluno retorque (fazendo uso do legítimo direito que lhe assiste de intervir nas aulas) e diz que tem opinião diversa, por acaso condicente com aquela que Margarida Marante e a Maria Elisa defenderam nos seus programas. Como é sabido, numa sociedade democrática a razão assiste sempre à maioria, logo, a opinião delas é mais importante do que a do professor — porque tem a preferência do grande público.

Perante tal cenário, o docente, sobretudo se leccionar uma disciplina das chamadas ciências humanas, começa a contemporizar e, pragmaticamente (porque sabe que os olhos de toda a turma ele não passa de um «zé-ninguém» ao pé das «estrelas» do pequeno ecrã), vai dando «uma no cravo, outra na ferradura» para não se exaltar ou sofrer um inquérito «politicamente correcto» (dado ter origem nos «clientes» do sistema de ensino, como gostam de sublinhar todos os ministros da educação cavaquistas e guterristas) às suas aptidões pedagógicas e científicas. Eis, pois, que entra em cena o «pragmatismo», esse tenebroso estado de espírito que se instala no seio das instituições e as destrói lenta, mas seguramente.

O filósofo espanhol Emilio Lledó, que é tão catedrático como Santos Juliá, teme-o afirma sem hesitações que «una universidad pragmatica es la muerte del saber, de la cultura, y es el peor servicio que se le pude hacer a nuestra sociedad» (El País, 11/7/1998) (…)

A prestação de serviços à comunidade exorta as universidades a colaborarem com as autarquias e as empresas das zonas onde estão sediadas. É um propósito edificante, sem dúvida, mas tem limites. Os laboratórios universitários existem para fazer investigação fundamental, não para solucionar problemas fabris de organização ou racionalização da produção. Os industriais não podem pretender orientar ou condicionar a investigação universitária, mesmo que utilizem poderosos argumentos e natureza economicista. As faculdades, por seu turno, têm de resistir às promessas de lucro imediato, porque essa lógica é empresarial e não científica (…).

A garantia de saídas profissionais para os cursos superiores, que nunca foi uma incumbência da instituição universitária desde os tempos medievos até à actualidade (as faculdades não são agências de emprego), tornou-se nos dias de hoje uma espécie de obrigação moral para as universidades de todo o mundo. Julgo que nenhuma faculdade do nosso país se alheou da questão e, dentro das suas possibilidades (que são escassas, porque a universidade portuguesa nunca teve poder de decisão a nível económico e nos últimos quinze anos perdeu boa parte de influência que historicamente sempre exerceu junto dos políticos), todas tentam garantir um futuro profissional digno para os seus licenciados. Mas, convenhamos, a tarefa não é fácil, pois a frágil economia portuguesa não garante a existência de um grande número de postos de trabalho destinado aos especialistas universitários, bastando duas ou três licenciaturas para esgotar as carências momentâneas existentes num determinado sector. Reaparecem, então, as notícias nos jornais sobre os «doutores no desemprego».

Nessa altura tomam-se decisões precipitadas e patéticas. Na ânsia de encontrarem colocação no mercado de trabalho para os seus diplomados, as faculdades criam novos cursos com designações apropriadas para as circunstâncias imediatas, adoptando critérios que têm muito a ver com o marketing e pouco com a ciência, a técnica ou a cultura.”
Manuel F. Canaveira
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Referência bibliográfica: Canaveira, M.F. (1998). As ficções neo-liberais. Ler, n.º43, 44-47 e 126-127.
Imagem encontrada aqui.

4 comentários:

  1. Não é o texto (excelente, como sempre) que me traz aqui. Trata-se do boneco que o ilustra. Não pertencendo o referido boneco ao autor do blog (e apesar de ser mais ou menos do domínio público) deveria haver uma referência ao site de onde foi extraído. A bem de uma certa ordem blogosférica... :)

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  2. MESTRE E AMIGO

    Ao Prof. A. Carvalho Homem que,
    não tendo sido meu aluno, teima
    em chamar-de... Professor

    Meio séulo ou mais da minha vida
    a leccionar passei, coisas diversas:
    muitíssimas lições eram conversas,
    minha docente via preferida.

    Na secretária nunca me sentei,
    andando pela sala o tempo todo,
    e foi desta maneira, deste modo,
    que a atenção dos alunos suscitei.

    Com eles convivi da melhor forma,
    dentro e fora das aulas, sem por norma
    deixar de me arvorar em seu mentor.

    De cada aluno fiz um grande amigo
    que sempre que se cruza hoje comigo
    se mostra como então, respeitador!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  3. José Batista da Ascenção30 de janeiro de 2010 às 21:08

    E sendo este o panorama na universidade, imagine-se o que vai pelo ensino básico e secundário...
    Mas, também, cá no "rectângulo", a quem pode interessar isso?

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  4. Cláudia da Silva Tomazi31 de julho de 2012 às 15:02

    Plêiade práctica.

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