terça-feira, 22 de julho de 2008

Abelhas e conservação da Natureza


Os Estados Unidos, mais especificamente a Califórnia, são responsáveis por cerca de 80% da produção mundial de amêndoas. As amendoeiras são totalmente dependentes das abelhas para polinização e o sucesso da colheita do ano passado foi em grande parte assegurado por milhões de abelhas importadas. De facto, as abelhas são responsáveis por cerca de 30% dos alimentos produzidos nos Estados Unidos mas nos últimos anos os apicultores americanos têm tido dificuldade em encher de colmeias os camiões com que percorrem o país. Assim, esta e outras culturas estão em risco se não se travar o desaparecimento em massa de abelhas.

Até há uns anos, a varroose era o principal problema da apicultura ocidental, nomeadamente da norte-americana. A parasitose provocada pelo ácaro Varroa destructor, detectada em 1987 nos Estados Unidos, era só por si um problema preocupante para a sobrevivência das colmeias mas recentemente a esta adicionou-se uma doença misteriosa baptizada Colony Collapse Disorder, CCD, que tem devastado as abelhas nos Estados Unidos. Em 2007, alguns apicultores perderam 90% das colmeias embora a média nacional tivesse sido de 31%. Entre Setembro de 2007 e Março de 2008, desapareceram 36% das abelhas.

O desaparecimento das abelhas tem sido alvo de investigação intensiva por parte da comunidade científica. Em Setembro de 2007, a revista Science publicou um artigo de um consórcio de cientistas norte-americanos, com a entomóloga Diana Cox-Foster como primeira autora, que apontou como principal suspeito da CCD o IAPV (Israeli acute paralysis virus), um virus descoberto em Israel em 2004.

Os pesquisadores recorreram à sequenciação genética dos microrganismos encontrados nos intestinos de abelhas recolhidas em colmeias afectadas e colmeias «sãs» durante um período de três anos. O IAPV foi o único microrganismo presente em quase todas as amostras extraídas de colmeias afectadas.

Ian Lipkin, director do centro de infecção e imunologia da Universidade Colúmbia explicou na altura que este vírus «poderia ser a causa potencial» da mortandade mas ressalvou que poderiam existir outros factores associados e que «A nossa próxima etapa consiste em determinar se este vírus é a única causa do fenómeno de despovoamento em massa das colmeias». De facto, como revelou Jeffery Pettis, entomologista do ministério americano da Agricultura e outro dos autores do estudo na Science, «esta pesquisa revela uma boa pista , mas é pouco provável que o IAPV seja a única causa».

Uma das indicações de que outros factores estão em jogo provém das abelhas importadas da Austrália desde 2004 que mostraram terem sido infectadas pelo IAPV mas não desenvolviam o CCD. O facto de as abelhas australianas não serem infectadas pelo ácaro Varroa parece indicar que os pesticidas utilizados para controlar a varroose podem ter um efeito sinérgico não despiciendo na CCD.

Esse possível efeito sinérgico é corroborado pela investigação que se seguiu e que consistiu na introdução do IAPV em colónias saudáveis (num ambiente controlado). Ao fim de um mês, as colónias infectadas tinham declinado acentuadamente e muitas tinham perdido as rainhas. Mas a equipa de Diana Cox-Foster indica que estes resultados não apontam inequivocamente para o IAPV como único culpado já que detectaram dezenas de pesticidas, muitos deles tóxicos para as abelhas, na análise do polén, cera, abelhas adultas e larvas das colónias afectadas.


A Xerces Society tem uma lista de insectos polinizadores em risco de extinção apenas nos Estados Unidos. Como referem, «Para muitos animais, incluindo a maioria dos pássaros e mamíferos, existe e é acessível a informação básica que permite a identificação de espécies que precisam de conservação. No entanto, para os insectos que fornecem o serviço vital de polinização essa informação está muitas vezes escondida em ficheiros científicos ou não existe de todo».

Esta falta de informação não se restringe aos insectos polinizadores, na realidade não há grande informação sobre invertebrados em risco, apesar de os invertebrados corresponderem a cerca de 94% das espécies animais que partilham connosco o planeta Terra.

De facto, tal como em relação aos batráquios, pouco ou nada se fala na extinção e declínio de invertebrados ou quando se fala é apenas para referir a necessidade da erradicação de espécies nocivas ao homem. Mas a sua abundância reflecte o enorme impacto ecológico destes organismos francamente pouco atraentes e «vendáveis» para o grande público. Como refere a Xerces, é necessário educar a opinião pública para o valor extraordinário dos invertebrados embora seja pouco provável que se desenvolvam afinidades por uma minhoca semelhantes às que os pandas, por exemplo, despertam. Urge no entanto que todos percebam que os problemas de conservação da vida animal não se restringem a baleias, pandas, linces e afins.

5 comentários:

  1. Parabéns para a equipe multidisciplinar do blog De Rerum Natura. O espaço de vocês é uma verdadeira enciclopédia, aliás muito parecida com a Wikipédia nos aspectos da construção da informação e no desbravamento da natureza das coisas. Parecem-me grandes navegadores, na melhor tradição de Sagres. Nós, brasileiros, apreciamos muito esses valores de nossos irmãos da pátria-mãe.

    Dei acidentalmente com o blog e estou me deliciando com sua leitura. Como vocês se propõem a dissecar a natureza das coisas, e a gravidade participa de maneira decisiva da natureza de quase todas, desejo submeter a vocês um novo (suponho) aspecto dessa peculiaridade do Universo que condiciona nosso meio ambiente, nossa vida e é tão bem compreendida pelos beija-flores e também pelas abelhas, como a que ilustra esta matéria.

    Peço passarem os olhos, numa das “calmarias” das viagens de vocês, como aquela que precedeu a chegada de Cabral a Porto Seguro, em
    http://kosmologblog.blogspot.com/

    Abraços,

    G. G. da Silva
    kosmologblog@gmail.com

    ResponderEliminar
  2. É curiosa esta informação porquanto vi na TV2, da semana passada, um interessante documentário sobre a abelha assassina africana, e cuja designação derivava do facto de ter que enfrentar um predador que atacava as colmeias.

    Uma das característica dessas abelhas seria uma produção abundante de mel líquido, muito acima da abelha europeia.

    Segundo o mesmo documentário, teria sido um apicultor brasileiro que teria importado algumas dessas abelhas, e que, descontroladamente proliferaram e ultrapassaram as fronteiras, expandindo-se até à América.

    Apontaram casos de pessoas atacadas inesperadamente que morreram, e que o problema tomou tal acuidade que foram contratados técnicos para desalojarem abelhas em todo o tipo de buracos entre telhas ou buracos.

    Para se ver o volume de trabalho, um dos técnicos informava que começaram por ter 10 chamadas por mês, e que já estavam a atingir as mil, se a minha memória não me atraiçoa. A ideia transmitida era a de que o aumento do número de colmeias selvagens era inimaginável.

    Depois começaram a fazer cruzamentos com abelhas europeias e chegaram à conclusão que a característica "assassina" era dominante, mas as investigações prosseguiam.

    Não anotei a data da realização do documentário para averiguar da sua actualização.

    Perante o post de Palmira posso concluir que os problemas apresentados pelo documentário foram ultrapassados, e que agora os sintomas são outros.

    ResponderEliminar
  3. Exactamente! Se a espécie humana desaparecer da face da Terra, esta até agradece, mas se os insectos forem varridos há quem diga que em 5 anos toda a vida superior desaparece!

    Ainda há poucos dias eu referi como cada vez se vêem menos e menos insectos nas cidades, mesmo nos jardins é raro encontrar borboletas ou abelhas. Nem mesmo as vulgaríssimas moscas, este ano nem me lembro de ver uma só aqui em casa!!!

    Ou as mariposas nocturnas, tão comuns antigamente a esvoaçar em torno das lâmpadas. E gafanhotos ou besouros e as tão delicadas joaninhas... foi tudo um ar que lhes deu!

    Também li um artigo na "Super interessante" sobre esse misterioso desaparecimento das abelhas. E o certo é que aqui no Minho tem sido mais difícil arranjar mel caseiro, que era o meu adoçante preferido.

    Quanto a vírus e afins...hummm... E que tal investigar mais os factores de susceptibilidade a esses microrganismos?! Os insectos também têm sistema imunitário, suponho, logo estará ele enfraquecido?

    Bem, lembrei-me agora de uma outra fantasia... no mundo de Narnia só há alegria! :)

    To make a prairie it takes a clover and one bee -
    One clover, and a bee,
    And revery.
    The revery alone will do
    If bees are few.


    Emily Dickinson

    ResponderEliminar
  4. Parabéns pela matéria e pelo blog!
    Abraço!
    Flávio Vieira
    www.energiaeficiente.com.br

    ResponderEliminar
  5. Kira:
    Para o leprechaun:
    Sou de Vieira do Minho, vendo mel caseiro, sem quimicos nem aditivos, 5€ litro 912844928

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.