terça-feira, 2 de agosto de 2022

A FILOLOGIA LEVA AO CRIME

Por Eugénio Lisboa
(Texto antes publicado na Revista LER) 

Deslumbra-me quotidianamente ver o esforço desenvolvido por certos articulistas mais ou menos colados à esquerda dura ou dinossáurica, no sentido de “situarem” ou “contextualizarem” a guerra brutal e ilegal de Putine.

De um lado, temos a realidade boçal, brutal e assassina da guerra, que destrói, mata, mutila e reduz a escombros um belo país; do outro, temos um inefável tecido filológico, uma teia de palavras desinfectadas, um colar de fonemas quase inocentes, a justificarem ou a ”explicarem” um crime horroroso.

Quando lemos as “justificações” ou “contextualizações” de Manuel Loff, saímos confortavelmente da brutalidade destrutiva da guerra, para entrarmos no universo da filologia asséptica: palavras bem procuradas e lavadinhas envolvem-nos numa cumplicidade doce e afastam-nos do ruído mortífero das bombas.

A filologia lava tudo, até as mãos cheias de sangue do carrasco. “Contextualizar” o crime é o mesmo que lavá-lo ou até apagá-lo. 

Tudo isto me traz â memória uma extraordinária peça de Ionesco, que vi vezes sem conta no Théatre de la Huchette, em Paris, juntamente com a célebre Cantora Careca. Refiro-me à pecinha em um acto (curto), La Leçon (A Lição). Nela, um professor de filologia vai, numa lição que dá a uma aluna, envolvê-la, a pouco e pouco e cada vez mais, numa teia de palavras gradativamente mais apertada, que atordoam a aluna, diante das teorias desvairadas do mestre. Por fim, aterrada com aquela artilharia filológica, a pobre aluna, sem ter para onde fugir, acaba estrangulada pelo professor e pela sua aquecida e assassina filologia. A conclusão célebre é: a filologia leva ao crime. 

Temos visto que sim: a filologia levou ao crime, ou foi ajudante do crime ou “contextualizou” o crime (em massa), na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, na Rússia de Staline, na Espanha de Franco, no Cambodja de Pol Pot, para nos ficarmos por estes. Os recados “contextualizantes” que os serventuários daqueles regimes mandavam, devidamente enlatados, para serem distribuídos urbi et orbi eram o colar de palavras que os discípulos penduravam ao pescoço, para com elas “apagarem” a visão das atrocidades cometidas, ao som da música filológica. 

A filologia sempre foi amiga dos tiranos (Nero ter-se-ia servido dela para cantar o incêndio de Roma), sempre cobriu os seus açougues com o manto diáfano dos fonemas. Como dizia o ardido Rei Ferrante, da peça La Reine Morte, de Montherlant, “tantas palavras para esconderem um vício!” 

Os porta-vozes de serviço de Putine aprenderam há muito a arte de perverter o uso das palavras, para assim lavarem a sujidade e o sangue que as suas guerras deixam como rasto.

11 comentários:

  1. Tontices, guerra brutal e ilegal (!), porta-vozes de Putin…
    Valha-nos Deus!

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  2. É de facto repugnante o modo como alguns dos nossos intelectuais, ou fazedores de opinião, dão voltas e mais voltas para desculpar o que é indesculpável e tornar compreensível o que é intolerável. O que observamos todos os dias não pode ter perdão. Quem conhece minimamente a história da Rússia, desde o czarismo aos sovietes, sabe que é, e sempre foi, uma sociedade profundamente hierarquizada e violenta, e em que alguém, desde que um tudo nada acima de outro, se arrogava o direito de ser brutal para com ele. A Rússia atual quer subordinar o mundo moderno a processos que o mundo civilizado há muito ultrapassou. E, por cegueira ideológica, ainda há quem defenda tais processos. O que pensariam essas pessoas se os espanhóis, apoiando-se numa visão histórica falsa, nos invadissem com centenas de tanques e de aviões e começassem a destruir as nossas cidades e a matar portugueses a torto e a direito?

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    1. Tem razão. A guerra veio mostrar de que lado está quem. Na hora de assumir responsabilidades materiais, assistir-se-á a todo o tipo de tentativas de fugir a elas. Até o Putin já fala de outra maneira, fingindo que nada aconteceu, nem nada está a acontecer, que não é nada com ele. Há quem ande anestesiado e aposte na anestesia do mundo para branquear a imperdoável destruição e carnificina perpetrada pelas forças da Rússia, única responsável por todas as desgraças que estão a acontecer na sequência da guerra. Mas é do interesse da humanidade que os culpados paguem pelos seus crimes hediondos.

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    2. Qual mundo civilizado senhor professor João Boavida, onde foi que V. viu tal coisa?

      https://www.newsweek.com/watch-madeleine-albright-saying-iraqi-kids-deaths-worth-it-resurfaces-1691193

      Madeleine Albright dizendo que a morte de crianças iraquianas 'valeu a pena'.

      Meio milhão de crianças mortas não chegaram para envergonhar o mundo civilizado do Professor João Boavida?

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  3. Agradeço as bem informadas, sensatas e serenas palavras do Prof. João Boavida e do Dr, Carlos Ricardo Soares. Quanto às tontices proverbiais do Anónimo Ildefonso Dias (por que raio se remeteu agora ao timorato anonimato?), queria só dar-lhe um conselho, apesar de tudo, amistoso: cuidado com o uso de expressões como "Valha-nos Deus!" Olhe que o partido de que recebe encomendas não vai gostar. Esses deslizes de vocabulário são considerados muito graves pela doxa.. Convém pentear melhor as suas frases, não as deixando contaminar por poluentes metafísicos.
    Eugénio Lisboa

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  4. O Senhor conselheiro Eugénio Lisboa acusa-me, sem o provar, que sou eu o autor do comentário anónimo, o que é falso, porque não fui eu que o escrevi.

    Não, não sou o autor do comentário anónimo senhor conselheiro... alguém o escreveu e não fui eu.

    Quem actuava como o senhor Eugénio Lisboa acabou de o fazer era a PIDE senhor conselheiro.

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  5. Se o Sr. Ildefonso Dias garante que não é o anónimo que eu identifiquei como sendo ele, dou, com muito gosto, a mão à palmatória. Mas a patetice do comentário era da mesma escola de pensamento. E pergunto: quem mandou ao Sr. ID andar a encobrir-se no anonimato, algumas vezes? Sujeitou-se: aguente-se!
    Quanto àquela insinuação torpe sobre a PIDE, é preciso topete. Eu fui várias vezes perseguido e interrogado e visto a minha biblioteca e correspondência privada passadas a pente fino pela PIDE. O Sr. ID segue e promove um regime que tinha uma organização cem vezes pior e mais mortífera do que a PIDE: a KGB. Quem apoia essa organização e os métodos que seguia é o Sr. ID, que ainda não percebeu a triste figura que anda a fazer. Melhor faria em recolher-se e fazer um sincero exame de consciência, para não vir outra vez exibir uma indignação de Tartufo. O Sr. ID tem-me perseguido com uma obstinação pidesca, tem-me caluniado, na base de atoardas emitidas pelo Sr. Saramago, sem procurar contraditório, tem usado sistematicamente de argumentos de autoridade só utilizados por regimes obscurantistas e vem agora saracotear a sua burlesca indignação. Ora vá dar uma curva e desapareça de vez, por ela fora, que nenhuma falta fará. O senhor tem uma profissão extremamente honrosa - enfermeiro - que muito prezo e admiro: vá exercê-la com o empenho e zelo que ela exige e de que o país tanto precisa e deixe-se de tocar uma guitarra para que não tem unhas.
    Eugénio Lisboa

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  6. Não sou enfermeiro.

    O Sr. Eugénio Lisboa tem usado este blogue para desprestígiar o nosso único Nobel da literatura da língua portuguesa que é José Saramago...

    Também usou, para cúmulo do seja, este blogue que se deveria entender de prestígio científico para dizer que Júlio Dantas era um homem de grande cultura - ele que foi presidente da academia das ciências e que nesse cargo declarou a falência da ciência - não senhor Eugénio Lisboa Júlio Dantas era um homem ignorantissimo, e nenhum cientista teve a coragem de aqui contrariar V. Exa., calando-se consentiram a vergonhosa tentativa de Eugénio Lisboa limpar a imagem de um inimigo da ciência.

    O Senhor EL é que gozou do privilégio de ser conselheiro cultural em Londres quando pouca aptidão revelava para o cargo, não tinha unhas para a viola, conforme podemos depreender do episódio do almoçinho em que o empregado de restaurante revela mais sensibilidade para a divulgação da cultura e o dever de servir os interesses do país que V. Exa. que era conselheiro cultural.

    1 de Agosto de 1993 Cadernos de Lanzarote

    "(...) O almoço do dia seguinte foi com o pessoal da embaixada. Conversou-se, todos muito à vontade, como se nunca tivéssemos feito outra coisa na vida, e eu falei mais do que é meu costume. Estava também a Paula Rego, feliz por ter acabado de comprar um atelier, o primeiro para seu uso exclusivo, o que, sendo ela quem é, me pareceu impossível. Mas o melhor da festa foi, em certa altura, ter-se chegado ao pé de mim um empregado do restaurante, português, que me disse da pena que sentia por não ter ali nenhum dos meus livros, ele que é meu leitor e meu admirador... O pessoal da Embaixada ficou fulminado, de garfo no ar, a meio caminho entre o prato e a boca: se o restaurante tivesse sido escolhido por mim, não me livraria da suspeita de ter combinado previamente o episódio, a fim de me tornar mais importante do que sou aos olhos da pátria, dando como testemunhas dessa acrescentada grandeza, imagine-se, os nossos próprios e imparciais representantes diplomáticos..."

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  7. O incorrigível Sr. Ildefonso Dias continua a tomar os medíocres Cadernos de Lanzarote como se fossem a Bíblia. Toda aquela passagem de Saramago sobre os diplomatas que ficaram fulminados de garfo no ar é pura imaginação narcísica de Saramago. Pura e simplesmente não aconteceu. Se Saramago tivesse algum senso das realidades, não acreditaria tão facilmente que aquele empregado do restaurante tivesse lido alguns dos seus romances. Como se diz nos thrillers americanos, "You believe that, you believe anything".
    Quanto à minha pouca aptidão para o cargo de Conselheiro Cultural, o Sr. ID continua a usar os desenvoltos métodos de difamação, sempre baseado no seu adorado Saramago, que só escreve disparates megalómanos nos tais cadernos de Lanzarote. Se o Sr, ID se quisesse documentar, bastar-lhe-ia ir perguntar às várias universidades inglesas o que pensam do trabalho que fiz (uma delas até me deu um doutoramento Honoris Causa, em reconhecimento do meu trabalho). Pode também, mas não lhe digo onde (procure!) ler o depoimento que fez sobre a qualidade do meu trabalho o Director da Gulbenkian, em Londres, o Sr. L. C. Taylor. Há mesmo muita gente que ainda hoje me diz, de Inglaterra, que, depois da minha partida, nunca mais houve promoção cultural portuguesa a sério, em Inglaterra. Se o Sr. ID, em vez de seguir caninamente os estados de alma caprichosos do seu ídolo Saramago e em vez de usar os métodos grosseiros e difamatórios aprendidos no paraíso terrestre onde o Senhor e Saramago aprenderam a ideologia fria que difama, prende e assassina, em suma, se o Sr. estivesse realmente preocupado em conhecer a verdade, dar-se-ia ao trabalho de se informar, antes de agredir. O Senhor não tem feito outra coisa se não querer pôr-se em bicos de pé à minha custa, para "mostrar serviço" a quem lhe encomenda recados, em vez de lhe aconselhar que investigue a sério. Quanto a o Senhor não ser enfermeiro, aconselho-o a corrigir a informação que está na internet, para quem a quiser conhecer. E tenha vergonha, uma vez por todas, de andar a fazer a figura ridícula, de lacaio deslumbrado de um escritor que é um homem cheio de defeitos e um intelectual de comportamento mais do que vulnerável. Aliás tenho-lhe consagrado um mínimo te tempo, porque tenho muito mais e melhor a fazer, do que perder tempo com ruins defuntos.
    E, por mim, basta!
    P. S. - Para ver a exactidão dos verbetes saramaguianos, nos famigerados Cadernos, ele, num deles, informa que, depois da sessão de apoio que a embaixada organizou, para substituir a que o King's College não quis realizar, foi almoçar com umas pessoas, entre as quais, eu. Ora isso não é verdade. Eu fui realmente abordado pelo Bartolomeu Cid dos Santos para ir "com um grupo de amigos de Saramago" a esse almoço. Como conselheiro cultural, eu fizera tudo para que a recusa do King's não deixasse o Professor Sousa Rebelo e Saramago pendurados numa situação embaraçosa e até humilhante. Isso, pelo lado profissional. Já, para o "almoço de amigos", não aceitei ir, por me não considerar amigo de Saramago. Fui, sim, almoçar com minha mulher e com a Dra. Ana Madureira, leitora de Português, no Kino's College. Ela está viva e pode confirmar. Desmenti isso publicamente, numa carta aberta, mas acho que Saramago nunca se deu por achado. Fica de novo registado. Se os outros verbetes têm a veracidade deste, valham-nos os deuses todos do Olimpo.
    Eugénio Lisboa
    Eugénio Lisboa

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  8. "(...) No dia seguinte, não querendo utilizar a residência oficial, na ausência do embaixador, ofereci-lhe, bem como a Pilar del Rio, um almoço num belo restaurante da moda (propriedade de Michael Caine, que, recordo, por ali andava nesse dia), com algumas figuras da nossa comunidade intelectual em Londres, como Paula Rego, Bartolomeu Cid dos Santos, Helder Macedo, Luís de Sousa Rebelo e, da embaixada, Eugénio Lisboa e Rui Knopfli." [Francisco Seixas da Costa]

    Retirado daqui:
    https://duas-ou-tres.blogspot.com/2018/12/eugenio-lisboa-saramago-e-londres.html?m=1

    Entenda-se lá com embaixador Seixas da Costa e combinem uma definitiva.

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  9. Precisamente, eu não estive nesse almoço onde ele diz que estive. Vão-se lá fiar na veracidade dos verbetes auto-encomiásticos do homem de Lanzarote. Na carta que lhe escrevi nessa altura, caçoava com ele, comparando-o com o Macbeth que, no jantar, viu o Bânquo que lá não estava...
    Aproveito para lhe responder sobre Júlio Dantas. Era realmente um homem de enorme cultura e um verdadeiro cosmopolita, que se tratou por tu com gente ilustre daquele tempo. Os portugueses andaram décadas a abonar-se no manifesto do Almada, para cuspirem em cima do admirável cronista e autor, entre outras, da atrevidíssima peça intitulada SANTA INQUISIÇÃO, que deve ter deixado a Igreja Católica de pêlo eriçado. Quanto à irreverência do Almada, o que as histórias da Literatura não contam é que este, arrependido, foi pedir desculpa ao académico. Dantas era um homem de espírito aberto e levou para a Academia gente de esquerda, como Fernando namora, entre outros. Quanto à afirmação alvar que ele terá proferido sobre ciência, por amor dos deuses todos do Olimpo: são inúmeros os homens de letras que se gabam de detestar as ciências e as matemáticas, sobre as quais dizem os maiores dislates. Mas, já agora, o mesmo têm feito notáveis cientistas a dizerem burrices sobre o trabalho de outros cientistas. Egrégios professores de Física disseram as mais estrepitosas enormidades sobre a Teoria da Relatividade e até Einstein, o maior Físico do século XX, nunca aceitou a teoria dos quanta, alegando que Deus não joga aos dados com o universo. Se o Sr. ID se desse ao trabalho de ler um bom e suculento dicionário de asneiras proferidas por gente eminente das letras e das ciências (há muitos e bons dicionários destes, tanto na Inglaterra como na França), ficaria edificado e mostraria mais tolerância com o dislate de Dantas sobre a ciência. O que falta ao Sr. ID é muita leitura que lhe alargue os horizontes e lhe faça sair da cabeça as teias de aranha que lá tem. Quando tiver lido muito mais e também muito melhor, verá que o horizonte se lhe alarga. Dá muito trabalho, mas não há outra via.
    Eugénio Lisboa

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