quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Duas realidades paralelas do sistema educativo: da intenção à obrigação

Por Cátia Delgado

aqui mencionei o paradoxo em que está emaranhada a implementação das tecnologias no sistema educativo. Ora se defende o progresso e a modernização, por via da capacitação digital de escolas, professores e alunos, ora se valoriza o papel dos “recursos humanos”, com frases terminantes, como esta do Ministro da Educação português: 
“Aprendemos lições com a covid e a principal foi que nenhuma máquina substitui um professor” (João Costa, in The Transforming Education Pre‐Summit, UNESCO, 2022). 
No discurso em que a frase surge, ao qual aludi aqui, o Ministro é perentório, no que toca à digitalização em curso: 
“A covid foi um abre olhos para isto. Podemos ter a tentação de dizer que agora que temos máquinas, os professores poderão ser dispensáveis. Mas não são dispensáveis nem descartáveis. Isto leva-nos a promover uma boa diferenciação entre o que é uma ferramenta e o que é um propósito (...). O digital é uma ferramenta para melhor aprendizagem, não é um objetivo de aprendizagem.”
A inovação é uma ferramenta e não um objetivo, nem um propósito. Se estes termos não estiverem claramente separados, podemos estar a enganar-nos a nós próprios.”
Pois, no decurso explicativo do processo de desmaterialização da avaliação externa, o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa), no documento de apoio a tal investida (“O DAVE”) de forma não menos categórica, contradiz a premissa acima, referindo: 
(...) “torna-se fundamental que as escolas e os processos pedagógicos possam também evoluir e modernizar-se, usufruindo das vantagens que as omnipresentes inovações tecnológicas possibilitam, sendo protagonistas de uma verdadeira transformação digital no âmbito pedagógico e didático, mas igualmente e em particular nos processos avaliativos” (IAVE, 2022, s.p.).
Se, por um lado, o digital é apresentado como uma ferramenta para promover e facilitar o trabalho dos professores e a aprendizagem dos alunos, por outro lado, o mesmo digital torna-se um propósito da educação. Passamos a educar para e pelo digital, tornando-se o conhecimento curricular, esse sim, um meio. 

Num outro documento, da República Portuguesa, a denominada “Bazuca” (Plano de Recuperação e Resiliência: Recuperar Portugal, Construindo o Futuro – PRR), o mesmo propósito é explícito: 
“Para além do acesso às tecnologias, é necessária uma transformação no processo educativo e pedagógico. Trata-se de uma nova forma de pensar os canais de comunicação e de ensino-aprendizagem, interpretando o digital para além de um conjunto de ferramentas, mecanismos e apoios técnicos” (p.199). 
Resumindo, as tecnologias devem ser uma ferramenta, não um objetivo nem um propósito (nas palavras de João Costa), porém, os processos educativos têm que modernizar-se, transformando-se por via do digital, que deve ser encarado como mais do que uma ferramenta (na narrativa do IAVE e do PRR). Na ausência de um claro esclarecimento de tais limites, estamos, de facto, a “enganar-nos a nós próprios”, como sugerido pelo Ministro. 

No antagonismo expresso no texto anterior, suspeito que o nosso Ministro sabe o que beneficia a EDUCAÇÃO, mas não quer ou não o pode fazer valer. De facto, na conjuntura atual, que tende para um sistema educativo global, as decisões independentes que os Estados podem tomar para o plano nacional são muito mais complexas e difíceis do que uma abordagem ligeira deixa perceber.

4 comentários:

  1. O digital, nas escolas secundárias, tem de ser, sobretudo, uma ferramenta, ou um meio, de ensino/ aprendizagem das "aprendizagens essenciais", essa manta de retalhos esfarrapados que resultou da mutilação selvagem de programas de disciplinas cujos conteúdos tinham por base conhecimentos científicos e humanísticos, com o objetivo pomposo, e perfeitamente exequível, de obrigar todos os cidadãos, sem exceção, a terem um “perfil democrático à saída da escolaridade obrigatória” e um diploma que prova, principalmente, que andaram na escola.
    O digital, como objeto de estudo, poderá ser abordado, sem grande aprofundamento, dado o nível de ensino, numa disciplina específica de informática, a par das restantes disciplinas do currículo. Da fase do professor no centro do processo de ensino/ aprendizagem, passou-se ao aluno no centro; agora, é tempo de colocar o Homem no centro, com fizeram os renascentistas. Por exemplo, os alunos devem ser avaliados por professores e não por computadores “big brother” que vomitam grelhas de avaliação com critérios “científicos”, que vão desde o número de vezes por segundo, e por semana, que o aluno piscou os olhos, em contexto de sala de aula, até ao número de minutos em que a postura corporal do aluno indicia uma falta de empenho nas atividades desenvolvidas em contexto de sala de aula.

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    1. Caro Leitor Anónimo,
      é precisamente essa vertente algorítmica das tecnologias (afastadas do humanismo que devia caracterizar o ensino) e o uso acrítico do digital (pautado para formar meros utilizadores e consumidores, no futuro), que critico, bem como a sua aplicação em tarefas eminentemente humanas, por natureza e por princípio, se quisermos salvaguardar alguma dignidade educativa do nosso sistema. São ferramentas válidas, com certeza, sobretudo para alunos a partir do 3.º Ciclo, que se devem mobilizar para apoiar o processo educativo, mas apenas ferramentas auxiliares. Não devem, nunca, ser um pretexto para eliminar outros suportes de conhecimento, com muito mais potencialidade educativa, como por exemplo, os livros em suporte de papel, o lápis e o caderno. A questão principal prende-se com a sua implementação massiva, indiscriminada e acrítica a que assistimos nas nossas escolas. Cumprimentos, Cátia Delgado

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  2. O antagonismo, hoje, é usado com a consciência de ser a melhor forma de impor a agenda da OCDE e afins. Huxley, mentor de Orwell, denominou-o de "duplo pensar". E esta forma de imposição torna difícil, se não mesmo impossível, contrariar. Dizer uma coisa e o seu contrário, analisado dialeticamente, chama-se estupidez.

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    1. Caro Rui Ferreira, relativamente aos paradoxos discursivos dos organismos que influenciam as políticas educativas, nomeadamente da OCDE, muito haveria a dizer. É de facto uma estratégia poderosa que legitima, mediante públicos diversos, a sua ação e as justificações que apresentam. Pela exposição de uma tese e o seu contrário dificultam, como diz, a crítica. Além disso, conseguem ir dando resposta a uns e aos que se lhe opõem, mantendo um raio de domínio mais largo. É aqui que chegamos à “hegemonia discursiva” - ao definirem os temas em debate e incorporarem, na mesma narrativa, as premissas de vozes discordantes (Shiroma, 2005). Cumprimentos, Cátia Delgado

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