quarta-feira, 8 de maio de 2013

Qual é o problema!?

Presumo que, tal como quem assina este texto, muitos leitores nascidos e criados depois da Segunda Grande Guerra foram embalados no slogan optismista do "nunca mais", e, decorrentemente, tenham fixado a ideia de que, nas sociedades ocidentais, a desumanidade tinha lugar cativo no passado e apenas no passado.

"Nunca mais" o rosto da desumanidade seria visto porque se tinha a possibilidade da Educação: a Educação para todos, a Educação para tudo, a Educação ao longo da vida, a Educação renovada, a Educação cidadã, a Educação para a Democracia, etc.

Tudo isto passou a constar nas Constituições dos países e nas suas leis; foi destacado nos preâmbulos dos documentos curriculares e nas determinações que daí transpiram; entrou nos discursos de eruditos e de gente comum; a comunicação social deu-lhe a voz necessária para que se tornsse uma "verdade garantida". E depressa adoptou a forma de ideologia...

A ambição dos Modernos - a educação é o caminho da felicidade, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da bondade... em suma, da humanidade -, ainda que numa interpretação diferente, pós-moderna se quisermos, mais consonante com os tempos, voltava a fazer sentido.

Mas era um sentido acrítico, porque se afastava um dado tão evidente quanto incómodo: o povo que tinha inicado a catástrofe da guerra era, à altura, o mais escolarizado, o mais culto da Europa.

Por isso mesmo, deveria ter-se prestado atenção a uma pergunta muito simples que Hannah Arendt teve a coragem de fazer: a educação torna, de facto, as pessoas melhores? E, a partir dela, ter-se feito finca-pé noutras: o caminho educativo que percorremos é o mais certo? Estamos a falhar em alguma coisa na preparação das novas gerações? Há sinais nelas que nos devam preocupar?

Pura e simplesmente esquecemos, abafámos ou negámos essas inquietações e, alegremente, fomos seguindo em frente... na crença de que tudo estava  bem.

A esta crença  juntava-se outra da mesma natureza: uma vez estabelecidos e reconhecidos os direitos humanos e dando particular destaque aos direitos das crianças (que, sendo mais frágeis, necessitam de protecção redobrada), eles estariam garantidos. Após as Nações Unidas terem aprovado a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração dos Direitos da Criança... todos descansaram.

As crenças são poderosas, ditam o que pensamos e fazemos, tornam-nos cegos, surdos e mudos. E, por isso, se deixamos de perguntar, quando percebemos (se conseguirmos perceber) alguma coisa terrível, ela já aconteceu.

Porque a desumanidade tem mil caras e dá-se bem com o clima de relativismo, de subjectivismo, de incerteza, de tolerantismo propagados todos os dias e em todo o lado há mais de meio século. E tem os seus especialistas (já não é coisa para amadores iletrados e brutamontes! ) que sabem como a impor: não a apresentam de forma cruel ou medieva, mas de forma progressiva, cautelosa e sempre sedutora. Avançam em pequenos mas seguros passos, usam palavras que soam bem. prometem os tais minutos de fama e dinheiro, muito dinheiro...  Conseguem revestir a desumanidade de glamour!

E, quando alguém pergunta a esses especialistas, se não estarão a desviar-se da rota do que tíhamos certo, do que tínhamos por bom, algo que os poderia embaraçar, põem uma expressão insolente e respondem com uma pergunta: "Qual é o problema!?".

Essa pergunta-resposta é bastante  eficaz: subtilmente faz-nos intuir o não-limite, já que supõe que tudo se pode fazer. Tudo é válido, justificável, aceitável... enfim, normal.

Localizemos esta dissertação que já vai longa em exemplos concretos que os meios de comunicação social nos trazem. Para além dos reality shows, com adultos, produzidos e comprados gulosamente pelas múltiplas cadeias de televisão, entre as quais as nossas, são agora populares concursos de avaliação de corpos nus (num país da invejável e civilizadíssima Europa do Norte, onde se lê muito) e de beleza para crianças (num país que está no centro do mundo e que tem mais prémios Nobel do que outro qualquer).

Lembramos que isto se passa no Ocidente, onde a escolaridade chegou aos patamares elevados que conhecemos (nunca, em nenhuma outra sociedade, tantos beneficiarem de tantos anos de ensino) e está virada para a educação integral, pessoal, social, interpessoal, cívica, crítica, como forma de fazer face a todas as formas de discriminação, agressão ou ofensa.

Deixamos os leitores com duas imagens dos concursos a que aludimos, bem reveladoras de que os direitos humanos fundamentais são espezinhados de maneira absolutamente grosseira e com o consentimento, quando não gaúdio, da populaça, ou seja de todos nós.
Imagem tirada daqui.
Imagem retirada daqui.
Maria Helena Damião e Carlos de Sousa Reis

2 comentários:

  1. Julgo, e só julgo porque desconheço provas documentais, que ao longo da história o corpo teve mais do que este momento de importância relativa. Que seja provável existirem concursos desta natureza ou semelhantes em diferentes épocas. Que a deturpação e mesmo perda do valor do homem não seja apenas dos nossos tempos.
    A verdade é que estamos sempre no início de tudo e nos julgamos muito adiantados.Desde a antiguidade que se supõe que a educação dos jovens seria suficiente para. Mas também desde a antiguidade há quem o refute. O bem não decorre necessariamente do saber, nem somos mais felizes porque sabemos.
    Porém, a questão que me coloco é se haverá genuíno saber em quem promove, participa e vê tais concursos e atividades afins. E também se a vertente de informação não estará em desequilíbrio com a da formação (relatividade formativa, tolerância laxista, etc). Se não estaremos a criar coxos mentais, estropiados com falso rótulo.
    E desgosta-me este constatar.

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  2. Parece-me bem apresentado e "dissecado", o problema. Resolvê-lo é que parece longínquo...
    E pergunto: será que a raiz do mal reside na impossibilidade (ou recusa?) de o ser humano, globalmente considerado, se analisar objectivamente a si próprio, individual e colectivamente? De se olhar ao espelho? De entender a sua natureza, a sua circunstância e a sua história?
    O ser humano é intrinsecamente cheio de fé? Fé que designa de modos diversos? E que facilmente transforma em ideologia?
    Repare-se que, arrogantemente, chegámos a "prometer" o "homem novo", depois do "bom selvagem", etc. E onde chegámos? Ou onde regressámos? Ou onde estamos? Ou de onde nunca saímos?

    No estado persistente de selvajaria a espreitar em cada esquina? Connosco e com cada um e em cada um do nosso semelhante?

    Quem somos?

    E depois de tantas perguntas, mais aquelas que nem sou capaz de formular, agarro-me à minha fé ou à minha crença ou à minha convicção ou à minha necessidade:

    É preciso educar(mos) as crianças, sim, e os jovens e os adultos. O que é a porta para permanente carga de trabalhos e interrogações e inquietações. Pais, professores e crianças sofrem. Os restantes também. Assim foi e assim é.

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